segunda-feira, 30 de junho de 2025

Na sombra

 

Trabalha-se com mais eficácia, por via da frescura.

O truque que o PCP usa há 75 anos já não resulta

A CGTP organizou uma manifestação a pedir o fim da NATO. Fica a dúvida: o que é que uma central sindical tem a ver com a NATO? Vocês respondem: nada. Eu respondo: tudo.

MIGUEL PINHEIRO Director executivo do OBSERVADOR

OBSERVADOR,28 jun. 2025, 00:2180

Esta semana, ficámos a saber que a CGTP quer “a Paz”. Atenção: não quer “a paz”, em minúscula, porque isso seria uma demonstração de fraqueza reivindicativa — quer “a Paz”, em maiúscula, porque na vida todos temos de ser ambiciosos. Foi, então, com maiúscula que “a Paz” apareceu num dos cartazes empunhados por um jovem na manifestação organizada há dias, de forma conjunta, pela CGTP e por uma entidade denominada Conselho Português para a Paz e Cooperação, sob o original lema “Paz Sim! NATO Não!”.

Na convocatória emitida pela CGTP, explica-se que “a guerra é cada vez mais intensa em diversos pontos do mundo”, revela-se que “a União Europeia aposta na continuação dos conflitos”, gesticula-se contra o “discurso belicista” e vocifera-se contra a “escalada militarista”. O “Grande Satã” desta manifestação foi, como já se percebeu, a NATO. Dinis Lourenço, orgulhoso membro do conselho nacional da CGTP, denunciou que esta aparentemente odiosa organização tem sido “um factor de desestabilização e de ingerência por todo o mundo”.

Algumas almas mais delicadas poderão olhar para tudo isto com perplexidade. Por um lado, a NATO não interfere nas relações laborais, não dita o valor do salário mínimo, nem se senta no Conselho Económico e Social. Por outro lado, os patrões portugueses não têm a capacidade de influenciar o “militarismo” da NATO, ou a falta dele. Sendo assim, sobra a pergunta palpitante: o que é que uma central sindical tem a ver com a NATO? Vocês respondem: nada. Eu respondo: tudo.

Esta história é muito velha — é a história de um truque que o PCP aplica com diligência e disciplina há 75 anos. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética começou a preparar o seu confronto particular com o Ocidente. Para enfraquecer a unidade das opiniões públicas na Europa e nos Estados Unidos, Moscovo ordenou aos partidos comunistas locais que criassem e dinamizassem movimentos “pela Paz”. Era uma “causa” que podia juntar toda a gente: novos e velhos, gordos e magros, cabeludos e carecas — e, mais importante do que isso, comunistas e não comunistas. Afinal, quem, no seu perfeito juízo, poderia ser contra “a Paz”? Quem, excepto um incorrigível fascista, poderia ser contra as flores e as pombinhas? Ninguém, claro — e esse era o ponto. Os cartazes exigiam “a Paz”, mas, na verdade, o que esses movimentos pretendiam era pressionar pela desmilitarização dos países ocidentais para que eles ficassem incapacitados de resistir à expansão da União Soviética.

A táctica foi a mesma em todo o lado — incluindo em Portugal. Para tentar juntar o máximo de pessoas possível à volta desta “causa”, incluindo os muito apropriadamente chamados “idiotas úteis”, foram criadas organizações de fachada que eram, na realidade, comandadas de forma ventríloqua pelo PCP. Em agosto de 1950, os comunistas portugueses ergueram a primeira Comissão Central da Comissão Nacional para a Defesa da Paz. Depois do 25 de Abril, surgiu, funcionando da mesma forma telecomandada, o Conselho Português para a Paz e Cooperação. O truque era sempre o mesmo: o PCP mandava, mas não aparecia.

Apesar de tudo, as pistas estão lá. Se perdermos um minuto a olhar para os órgãos sociais do Conselho Português para a Paz e Cooperação, percebemos que a presidente da direcção nacional é Ilda Figueiredofoi candidata autárquica pelo PCP às câmaras do Porto, Gaia e Viana do Castelo; foi eurodeputada; e pertenceu ao comité central do partido. Percebemos que uma das vice-presidentes é Deolinda Machadofoi candidata pelo PCP a autarquias e ao Parlamento. Percebemos que uma das vogais é Ana Sofia Calado — foi candidata à Assembleia da República pelo Partido Ecologista Os Verdes, outra organização benemérita que não sobreviveria sem o oxigénio comunista. E percebemos que na direcção nacional se encontra Isabel Camarinha — ex-secretária-geral da CGTP.

E assim se completa o círculo: Isabel Camarinha é militante do PCP; depois ocupa a liderança da CGTP; a seguir, aparece na direcção do Conselho Português para a Paz e Cooperação; e agora organiza a manifestação desta semana, que juntou, de forma harmoniosa, precisamente a CGTP e o Conselho Português para a Paz e Cooperação. Um espírito incauto que tenha lido as notícias sobre este protesto viu as referências à CGTP e ao Conselho Português para a Paz e Cooperação, mas não encontrou nunca qualquer vaga indicação relativa ao PCP, que é o principal interessado numa manifestação que serve inteiramente os seus propósitos políticos.

É tudo uma grande ilusão, especialmente útil quando, como agora, os comunistas perdem força eleitoral. Parece que são muitos, mas na verdade são sempre os mesmos. Só espanta que o PCP ache que, ao fim de 75 anos, continuamos a cair em histórias da carochinha.

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COMENTÁRIOS (de 80)

 Carlos Ferreira: Pois... cada vez são menos mas ainda há quem acredite. Mas o problema maior não é esse, mas sim o controle dos sindicatos dos funcionários públicos e das empresas estatais e o impacto desmesurado que isso tem na vida quotidiana, principalmente dos mais frágeis, que o PCP se vangloria de proteger.                Jorge Barbosa: A CGTP tem tudo a ver com a NATO tão só porque a CGTP não é um sindicato mas sim, é o "braço armado" do PCP. Daí que antes de "pensar" nos trabalhadores para depois os servir, "pense" isso sim no PCP, para depois saber como usar os trabalhadores para servir o comité do partido comunista                Df: Mete dó. E desprezo. Dantes ainda diziam que estavam a defender o comunismo e a URSS. Diziam que serviam um ideal comunista qualquer. Afinal era mentira, como se vê hoje, quando passaram a defender os interesses de um império colonial estrangeiro. PCP e CGTP são agora serviçais do império nacionalista fascizante de Putin. Não havendo ideal comunista envolvido, a única explicação é que lhes pagam. Daí o desprezo que merecem.                Ruço Cascais: Muito bem Sr. Miguel Pinheiro. Depois desta sessão de strip aos comunistas, estes, só mesmo com as mãozinhas conseguem esconder as miudezas, já que ficaram mais nus que o Tarzan. No outro dia dei com a explicação comunista para o fim das eleições democráticas mal se apanhem no poder. Defendem que depois do povo conquistar o poder não podem existir actos eleitorais que coloquem em causa o poder do povo. Ou seja, uma vitória comunista num regime democrático representa o fim desse regime. Mas os comunistas em Portugal além de promoverem a Paz no mundo com letra grande com a submissão total dos ucranianos às mãos dos russos e o fim da NATO, promovem também o porreirismo. Raimundo é um gajo porreiro e António Costa viu no Jeropiga um tipo porreiro. Na última campanha eleitoral foi unânime pela CS a classificação de gajo porreiro ao Raimundo. Curiosamente este porreirismo não se aplica aos neo-comunas do BE. Nem a Paz. Os bloquistas querem porrada e amargura. A grande diferença entre comunas e neo-comunas; uns são porreiros e querem paz, os outros querem azedura e porrada.           Mario Figueiredo > Manuel Gonçalves: E porque é que a Europa há-de querer ter boas relações com a Rússia se o custo para isso é desmantelar a única organização de defesa a que pertence? Não haveria a Rússia, historicamente imperialista, de querer ter boas relações com a Europa sem impor sobre nós condições para a nossa política de defesa? Estou um bocado confuso com a sua lógica suicida...                  Ricardo Ribeiro: Pois, eu sou a favor da "guerra" contra esta ideologia retrógrada e maliciosa...isto inclui todos os seus tentáculos desde CGTP's a essas comissões e associações encapuzadas e envernizadas pelo comunismo...A luta continua Pcp no olho da rua (já faltou mais...)!                    Manuel Martins: Concordo com a análise, e poucos já engolem as patranhas da cassete do PCP ou da cgtp. A questão é que ambos vendem um produto muito apreciado por muitos reformados e funcionários públicos: para os reformados, convívios com bandeiras,  cantigas, bifanas e cerveja nas ruas, ao sábados (as manifestações), e dias de folga às 6as feiras (as greves), para os segundos...                  Francisco Ramos: Como é que ainda há neste país, alguém a prestar atenção ao que diz o PCP? Deixem-no morrer por asfixia.                       Álvaro Venâncio: Exactamente verdade, é mesmo assim: os estalinistas-fascizantes do PCP continuam na sua constante e acérrima luta pela destruição da LIBERDADE, do OCIDENTE, da NATO, da EU, das DEMOCRACIAS LIBERAIS. Comunismo nunca mais! Viva o 25 de Abril! Viva o Ocidente! VIVA A NATO! Obrigado MIGUEL PINHEIRO!                    Balmat: Caro MP ao longo dos anos quantos jornalistas na CS têm tido a isenção de confrontar o PCP. É ler o artigo da HM sobre a cobertura do Jornal Público on line sobre a morte do ex membro das FP 25 Abril.                Filipe Costa: Pois, mas eu não percebo porque há otários a descontar quotas para a CGTP, alguma vez a CGTP os defendeu? A CGTP usa os trabalhadores a seu belo prazer e ainda cobra quotas aos palermas. Fernando ce: Muito bem. Os comunistas chegaram ao ponto de, na entrada dos limites das autarquias que dirigiam, escrevem em placas algo como “concelho livre de armas nucleares” …com uma pomba e um ramo de oliveira…      Carlos Real: Falar dos comunistas ou mesmo da CGTP é cada vez mais revisitar os dinossauros no campo jurássico da Lourinhã. Mesmo a presença lusa na Nato é irrelevante, porque nunca será posta em causa. O que conta é saber o papel dos EUA, e se estarão disponíveis a defender o mundo ocidental. A Europa militar perdeu o comboio, e muito dificilmente o apanhará face ao desenvolvimento da China e dos EUA. Quanto ao esforço dos 5% os europeus fingem que estão muito preocupados. Só posso tristemente rir, quando vejo uma ilha chamada Japão gastar 7% do PIB na defesa. Até fico com os olhos em bico.                  Hugo Silva > Mario Figueiredo: Lógica comunista...                  José B Dias: Faço sempre o mesmo exercício para melhor conhecer os interesses por trás das mais diversas entidades que por aqui e ali surgem, sempre com nomes sonantes em estrangeiro, a defender estudos e a publicitar relatórios ou a fazer acusações. Por norma confirmam-se as suspeitas iniciais de falta de independência e isenção...          Paul C. Rosado: Disse quase tudo. Faltou falar da presença da CGTP nas manifestações de apoio aos árabes ocupantes da Palestina. Toda a gente sabe que na cultura islâmica os trabalhadores estão cheios de direitos e vivem muito bem! Lá, na China, na Rússia, Cuba e Coreia do Norte. Tudo paraísos para os trabalhadores.     maria santos: É com esta gente que o PS conta para estar no poder governativo. Como nos governos de António Costa. Não esquecer.                   pedro dragone: Os comunas sempre foram uns especialistas na arte do disfarce. Técnicas do KGB ensinadas aos partidas-irmãos, por todo o mundo. Depois do susto do 25 de Novembro em que foram poupados às balas das G3, decidiram entrar numa espécie de "clandestinidade simbólica" em que a velha simbologia comunista, a foice e o martelo e a cor vermelha são substituídas por novos símbolos e cores para poderem entrar no jogo da "democracia burguesa" (a expressão é deles) sem afastarem eleitores, com o receio dos comunistas, e captarem novos militantes e simpatizantes. Assim, inventaram o partido os Verdes (que melhor cor para contrabalançar o vermelho?) e formaram a CDU (coligação PCP-Verdes) para concorrerem a eleições. Com bandeira azulinha, pois então, e umas setas a imitarem os partidos "burgueses" como o CDS, etc. E assim ficaram até hoje, disfarçados de democratas, a concorrerem a eleições da "democracia burguesa", sempre na esperança de que, um dia, chegariam ao poder e, como lhes ensinou o camarada Lenine, tomá-lo por dento e implantar a "democracia popular", onde não existe essa coisa burguesa do voto, pois o povo, representado pelas elites comunistas esclarecidas já estaria no poder.                     C Costa: A comunicação social em Portugal usa o acrónimo NATO quando, pela ordem das palavras em português, devia ser OTAN, como, aliás, se lê nos jornais espanhóis e franceses. Não se prestigia assim a língua portuguesa.         Glorioso SLB: E os movimentos pró-palestina, anti-troika, pró-homossexualismo, tb ñ são os mesmos?              Maria Alva: A excelente autobiografia da Zita Seabra explica e exemplifica isso muito bem.              Joaquim Rodrigues: Diz Miguel Pinheiro: "Um espírito incauto que tenha lido as notícias sobre este protesto viu as referências à CGTP e ao Conselho Português para a Paz e Cooperação, mas não encontrou nunca qualquer vaga indicação relativa ao PCP, que é o principal interessado numa manifestação que serve inteiramente os seus propósitos políticos." É verdade o que diz o Miguel Pinheiro se acrescentarmos que os "propósitos políticos" do PCP são, unicamente, os de defesa e apoio ao Putin, contra os Ucranianos, que estão a dar o peito às balas, em nossa defesa e em defesa do mundo ocidental.               Luis Santos: Só faltou falar no controlo e influência que o PCP tem na comunicação social.                  Jose Bastos: Absolutamente correcto toda a minha concordância Mas nós mais velhos vivemos o PREC vergonhoso criminoso com os comunistas sempre por trás Apenas chamar OTAN E não NATO               Manuel Ferreira21: Não podemos desmobilizar. Aproveitam-se da ingenuidade das pessoas e vendem ilusões, sempre ao serviço do comunismo.                    Manuel Lisboa: Correctíssimo. De facto espanta e nada alcança o partido comunista português, hoje em dia, com esse mal disfarçado e estafado frentismo. Os comunistas portugueses vão de eleição em eleição até à derrota final. Fica-lhes os edifícios e um passado interessante, mal conhecido e, até ao momento, mal contado. Todavia e debaixo do aparente manto diáfano do pacifismo, continua a ser estranhamente curiosa essa teimosia aberrante do partido comunista em defender regimes torcionários como o russo, o norte-coreano ou o venezuelano, para citar algumas das ditaduras mais gritantes e sanguinárias já, de forma expressa, apoiadas por essa vetusta agremiação política. Portanto, se os comunistas pretendem efectivamente a paz, terão que passar a defender a NATO, organização que desde a sua existência mais contribuiu para a ausência de guerras na Europa ocidental. Permitiu o desenvolvimento de democracias liberais, onde se toleram mesmo ideologias profundamente reaccionárias e contrárias às suas existências, como é comunismo.           António Louro: Felizmente estão em decadência total.                Mario Figueiredo > Hugo Silva: Iria mais longe... Lógica de comuna.                     Manuel Magalhaes: O PCP é pura arqueologia…           GateKeeper: Top 30..                       Lourenço Sousa Machado de Almeida: Mas é que continuamos mesmo a cair na história da carochinha, porque são estas mesmas organizações e este mesmo "truque" que aplicam nas manifestações pró-Palestina, que é uma forma de dizer, "contra Israel" que é o mesmo que dizer contra a civilização...ocidental, se fizerem questão!             José Paulo Castro: O truque resulta. Basta ver outros que ainda o fazem por aí. Quantos jornalistas são do BE e do Livre e dão ênfase a supostas comissões e colectivos? O PCP é que já não resulta.        Antonio Sobral Almeida > Ruço Cascais: Os neo-comunas querem azedume e porrada? Muito bem, vamos aproveitar agora que são poucos (ou "poucochinhos") e vamos lá dar porrada neles...           Maria Augusta Martins: Será que a CGTP ainda se encontra livre de armas nucleares? Bons tempos em que o Alentejo estava cheio de placas a anunciar essa condição. Isso era no tempo do general "Rolhas" presidente dessas organizações comunistas.

 

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