Que bem define um Homem nos seus valores espirituais e morais, de uma
clareza e impecabilidade que marcarão para sempre as letras pátrias.
O que é que lhes vai na cabeça?
Seria bom que os candidatos se
expressassem sobre o que lhes vai na cabeça sobre os temas fundamentais: a vida
e a morte, a família, a comunidade, a nação, as fronteiras, a política europeia
e mundial
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do
Observador
OBSERVADOR, 07 jun. 2025, 00:1835
Os poderes e competências do
Presidente da República vêm no título II, Capítulo I da Constituição de 1976,
nos artigos 120º a 132º, e Capítulo II, artigos 133º a 140º.
Além das funções de representação
nacional e de “garantir a independência nacional e o regular funcionamento das
instituições democráticas”, incluem “o comando supremo das Forças Armadas” e a
possibilidade de submeter questões de interesse nacional a referendo. Pode
também, em condições excepcionais, declarar os estados de sítio e de
emergência.
As constituições, como tudo o que tem que ver com a política e a
soberania política do Estado, são marcadas pelas circunstâncias históricas da
sua concepção. Assim, na
Constituição de 1976, depois do 25 de Abril e da experiência autoritária do
Estado Novo e com o país a sair do radicalismo do PREC esquerdista graças ao 25
de Novembro, os constitucionalistas e os constituintes quiseram evitar
estes dois extremos.
Também por isso, a Presidência da
República abandonou a bicefalia da Constituição de 1933, em que o Presidente, na visão salazarista
de representante das Forças Armada num Estado sem partidos legais organizados, tinha um poder discricionário na nomeação
do chefe do Governo, e passou-se a um compromisso em que, embora os poderes
essenciais executivos do Estado caibam ao Governo designado pelo Parlamento, o
Presidente guarda as funções de alta representação do Estado e o comando das
Forças Armadas. E tem, no artigo 133º, alínea e), a
faculdade de aprovar a dissolução da Assembleia da República. Deste e de
outros poderes e faculdades do Presidente, resulta
que alguns ainda qualifiquem a Constituição actual como
“semi-presidencialista”.
Mas com mais ou menos poderes
constitucionais, o Presidente da República, em Portugal, é importante, e a sua
escolha, por sufrágio popular e universal, não é irrisória. Não podem, por isso, a personalidade e as
ideias dos candidatos ficar entregues às banalidades retóricas, simpáticas e
correctas que, infelizmente, têm sido a imagem de marca da política doméstica.
O teste para detectar estas
“generalidades”, a palha populista – de direita, de centro ou de esquerda, de boa, média ou má qualidade –,
uma “palha” que varia com o tempo e a circunstância, mas que permanece banal e
irrelevante; para identificar aquilo que, num documento, num programa ou num
discurso está a mais, é ver se o contrário das proposições feitas é viável ou
se alguém com pretensões políticas se atreveria a propô-lo. Alguém
ousaria contraditar, por exemplo, um “Vamos cuidar dos idosos e das crianças”,
ou um “Procuraremos um desenvolvimento equilibrado da nossa economia”? Eram
possíveis um “Não queremos saber dos velhos nem das crianças” ou um “Queremos a
nossa economia tal como está: desequilibrada e subdesenvolvida”?
À cabeça do Estado
A
retórica fácil do melhor dos mundos, em que geralmente os políticos navegam –
tendencialmente mais irrealista e até mais populista do que a retórica fácil do
pior dos mundos, a que alguns também sucumbem – tem de ser escrutinada.
Alardear
a própria independência e capacidade de “criar consensos”, dizer-se acima de
todos os partidos e facções, dissociar-se dos “jogos partidários” de que “as
pessoas estão fartas”, aparecer como que lavado nas águas do Jordão para
“salvar Portugal”, parece ser a nova banalidade dita e repetida por todos os
candidatos em presença, independentemente do seu maior ou menor envolvimento na
vida partidária. Paradoxalmente, “o Presidente de todos os
portugueses” não pode começar por ser “o
candidato de todos os portugueses”, sob
pena de não ser coisa nenhuma; ou seja, o candidato a presidente de todos os
portugueses tem de ter pensamento político, ideias.
Embora
o Presidente não tenha grandes funções executivas, numa escolha que é política,
os eleitores devem querer saber quem é, politicamente, o candidato à chefia do
Estado, e se tem consciência política das grandes questões que unem e dividem,
na Europa e na América, os políticos, os partidos e os eleitores.
Que ideia tem de Portugal e para
Portugal? Onde se situa na alternativa globalismo-nacionalismo, ou, reduzindo a
discussão do globalismo à dimensão europeia, na equação Bruxelas – Lisboa?
(Dizer que hoje “nenhum país é absolutamente soberano, porque estamos na Europa
e na NATO”, é um subterfúgio lapalissiano claramente insuficiente).
O valor da vida humana, as questões relacionadas com o princípio e o
fim de vida são também fundamentais e é legítimo perguntar a um candidato como
se posiciona em relação a elas, bem como quanto ao conceito de família, de
comunidade, de coesão social.
Num
momento de grande tensão internacional, com guerras sérias e perigosas na
Europa Oriental e no Médio Oriente, é também natural que os eleitores queiram
saber o que os candidatos pensam dos riscos da escalada da guerra na Europa ou
dos bombardeamentos em Gaza e da possibilidade de um Estado palestiniano. E
com os entusiasmos bélicos da troika Londres-Paris-Berlim e os propósitos de
aumentar os orçamentos militares da NATO até aos 5% do PNB, será também bom
saber o que o futuro primeiro magistrado da Nação pensa: vai concordar, como
titular supremo das Forças Armadas, com uma política armamentista que eleve os
gastos militares para 5% do PNB para dissuadir ou resistir a uma eventual
invasão europeia pela Rússia de Putin, que chegue ao Atlântico?
E
sobre política económica, defende uma maior ou uma menor liberdade? Qual o seu parecer sobre impostos e qual
a sua percepção do que é ou deverá ser o Estado Social? Como vê o famoso “Green
Deal” europeu? O que é que está disposto, em matéria de clima, a aceitar ou a
recomendar para o país (e entre negacionistas e climáxicos, haverá, natural e
legitimamente, terceiras posições)?
Sendo
a História importante como componente da identidade nacional será também útil
saber o que os candidatos à presidência pensam da História de Portugal e das
suas grandes crises e momentos de escolha. Sobretudo da História contemporânea.
Sem entrar por grandes filosofias de
fundamentação do pensamento político, como o optimismo ou pessimismo
antropológico, seria bom que os candidatos se pronunciassem sobre o que lhes
vai na cabeça sobre os assuntos fundamentais: a vida e a morte, a
família, a comunidade, a nação, as fronteiras, a política europeia e mundial, a
justiça, o compromisso entre liberdade económica e justiça social.
Clareza ideológica na Polónia…
No
passado Domingo, 1 de Junho, na eleição presidencial polaca, não faltou clareza
ideológica. De um lado estava o candidato apoiado pelo governo,
o presidente da câmara de Varsóvia, Rafal Trzaskowsky, que a imprensa de referência claramente definiu como “europeísta”; do outro,
Karol Nawrocki, o candidato apoiado
pelo partido Lei e Justiça, que a imprensa de referência claramente definiu
como “hooligan”. De facto, o candidato nacionalista conservador,
Karol Nawrocki, um boxeur vindo da
classe operária e doutorado em História, defendeu claramente a prioridade da
nação e da soberania do Estado frente às pretensões hegemónicas de Bruxelas, a
protecção da vida na fragilidade do seu princípio e do seu fim, e a família
tradicional (um hooligan, portanto). Foi também claro em política
internacional – mantendo a natural desconfiança em relação ao vizinho russo,
não contava provocá-lo, apoiando a entrada da Ucrânia na NATO e na União
Europeia.
O
primeiro-ministro Donald Tusk empenhou-se com tal clareza ideológica contra ele
e na defesa do seu candidato, Rafal Trzaskowsky, que chegou a perder a sua
proverbial “moderação” – perante a iminente vitória do rival populista,
recorreu a ataques pessoais ao bom nome e reputação de Nawrocki, a quem chamou
“hooligan” e “proxeneta” (sem que com isso incorresse em “discurso de ódio”,
evidentemente).
De qualquer forma, na Polónia, o confronto político-ideológico foi
claro e a competição renhida. Tão renhida
que a esquerda e o centrão se entusiasmaram e tomaram os desejos por
realidades, com o seu candidato a festejar, antecipadamente, com base nos
primeiros resultados, a vitória. O prestigiado Le Monde, começou
também por dar a vitória ao “europeísta”, mas logo emendou a mão com um “L’historien nationaliste Karol Nawrocki
remporte l’election présidentielle”. Já um dos nossos jornais de
referência, que também começou por se enganar, foi mais claro ideologicamente
no título com que, no dia seguinte, emendou a mão (sem uma desculpa pelo erro
aos leitores que tinha desinformado na véspera): “Karol
Nawrocki conservador, hooligan e anti-LGBT: o novo presidente da Polónia” (Eça
continua a ter razão: ainda somos “a França traduzida em calão”).
No
entanto, com todas estas peripécias e incidentes, o vencedor polaco não deixará
de ser um árbitro já que, à sua direita, ou seja, à direita deste “conservador
hooligan anti-LGBT”, ainda estavam mais dois candidatos: um super-hooligan e um
mega-hooligan, presume-me.
Ao menos, no Domingo, 1 de Junho, os
eleitores polacos sabiam ao que iam, o que é que estava em jogo e o que é que
cada um dos candidatos defendia e propunha. Os portugueses não tanto.
…em Portugal, não tanto
Embora com menos radicalidade entre os
concorrentes – para já, os candidatos procuram todos situar-se num centro mais
ou menos moderado e virtuoso, ainda que longe dos “jogos políticos” desse mesmo
centro, dos quais “as pessoas estão fartas” –, temos direito a alguma clareza
ideológica, o direito de saber minimamente o que pensam os candidatos sobre as
coisas fundamentais. E temos o dever de o perguntar.
Até porque, com um parlamento e uma
arena política com três pólos – o centro-direita AD, o centro-esquerda
PS e a direita popular Chega –, a crise quase permanente está garantida. E se o presidente – embora não tendo o
“poder moderador” do rei na Carta Constitucional –, pela dimensão da sua
eleição e pelo seu mérito e prestígio pessoal, for visto como um árbitro
possível, vai ter muito que fazer.
Ou seja, por todas as razões, e apesar de tudo, poderá ser um
árbitro. E por isso é importante sabermos o que pensa
.A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA POLÍTICA POLÓNIA EUROPA MUNDO PRESIDENCIAIS
2026 ELEIÇÕES
PRESIDENCIAIS ELEIÇÕES
COMENTÁRIOS (de 35)
Ricardo Ribeiro: Caro Jaime Nogueira Pinto, Porque não se candidata? As pessoas de Direita
conservadora e nacionalista não sabem em quem votar nessas eleições, não se
sentem representadas com os candidatos já perfilados! Se isso acontecesse, tem
o meu voto! Jose
Marques: Ora aí
está, muito bem! E também deveriam explicar, sem sofismas e truques de
retórica, o que lhes passa pela cabeça perante os quase 18.000 abortos praticados
em 30 hospitais do SNS em 2024 - um aumento de 5,5% face ao ano anterior, com
um custo estimado para os contribuintes de 5.5 milhões de euros. Neste cenário
dantesco, em pleno inverno demográfico nacional (tal como na esmagadora maioria
dos países da Europa), é preciso pôr a nu a argumentação falaciosa daquelas
'cabecinhas' de políticos e governantes - que justificam a invasão de
imigrantes pela dramática diminuição de nascimentos de portugueses Rui Lima: Mas será que eles pensam alguma coisa? para além de
lugares comum,? Se não há uma base estável (biológica, cultural, moral), como
se constrói comunidade? A tolerância ilimitada com as minorias leva ao
desaparecimento da tolerância, será que algum terá a consciência disso? Quando
as mudanças culturais hoje parecem atacar valores fundadores de uma sociedade
(como família, linguagem, religião, diferença sexual clara, etc.), fizemos a
inclusão das minorias hoje elas querem a imposição dos seus valores a toda a
sociedade . Hoje já não se trata de exigir a plena consideração jurídica
e social dos homossexuais nos nossos países, está totalmente adquirida,
é em outras partes do mundo que mereceria e devia haver de facto uma mobilização
pelos seus direitos onde são brutalizados, mas contra esses países estão
calados. Um cartaz em Paris para um manifestação será? LGBTQI2S+ (não me peçam
para explicar cada letra) o que vi é chocante revoltante , assusta porque quer
a nossa destruição , assistimos ao totalitarismo extremo com os políticos
acobardados e paralisados . Estas minorias LTGB….estão coligadas com uma
cultura que não os tolera nem aceita , mas tem um inimigo comum o homem branco
, o inimigo do meu inimigo meu amigo ê. O cartaz inter-lgbt …. Vemos
na foto uma mulher coberta com lenço da Palestiniana, muitas etnias , mas o
que choca é um homem branco morto, linchado, tatuado com um marcador fascista
no pescoço , será uma autorização para matar os brancos? .As comunidades
humanas são muitas vezes constituídas simbolicamente contra um bode
expiatório a comunidade da inter-LTGB ….encontrou o seu homem branco ‘ Paulo J
Silva: Excelente
artigo a colocar a realidade que importa numa perspectiva clara sem
enviesamentos. Caro JNP, caso se inclinasse para uma candidatura presidencial
contaria certamente com o meu voto. Maria
Nunes: Muito bem,
JNP. Um excelente candidato seria o Senhor. José
Paulo Castro: Como
árbitro, o que se viu até agora é que todos aplicam a regra do fora de jogo ao
Chega. E dão cartão amarelo às propostas que não estejam alinhadas com a UE. Coxinho: A lucidez e o fino discernimento do costume. Temos
de agradecer o privilégio!! Glorioso
SLB > Ricardo Ribeiro: Teria milhares e milhares de votos. O meu certamente. Rosa Lourenço
> Jose Marques: A
sociedade portuguesa tem de encontrar resposta para tantas IVG e proporcionar
alternativas a estas decisões, que nos impedem de crescer demograficamente. Manuel
Rocha: Concordando
com JNP sobre a completa falta de conhecimento das ideias de alguns candidatos
e a dificuldade que isso cria aos eleitores, há outra solução legítima,
histórica, símbolo de Portugal e da sua continuidade enquanto nação secular,
que passa pelo regresso do Rei.
Maria Emília Ranhada Santos: EXCELENTE! Mas
quem lê estas coisas boas? Muitos como eu que votamos em Marcelo Rebelo de
Sousa, depressa nos arrependemos, mas já estava, já não havia nada a fazer! Há quem vote nos candidatos pelo aspecto físico, sem
sequer se preocupar com o que tem na cabeça! Esse é o grande mal! Pena que o Ventura não concorra, porque esse é bem
claro na exposição das suas ideias! João Floriano: As recentes eleições legislativas serviram para
esclarecer o que cada um dos partidos claramente pensava? Não. Quando muito os
assuntos foram tratados pela rama. Não se falou de Habitação, de Educação, de
Segurança, de Saúde de forma convincente e séria. Com as presidenciais
acontecerá precisamente o mesmo: pela rama. Os partidos estão novamente em
confronto, mas desta vez não através dos seus líderes, mas através dos
candidatos que apoiam para Belém. E os eleitores estão novamente a observar
como se de um embate desportivo se tratasse. Uma das características da maneira
como se encara a política, foi ter passado de uma quase ignorância e
indiferença, em que em todas as famílias havia sempre um chato que falava de
coisas que não interessavam a ninguém, para um interesse constante em que a
política e os seus protagonistas fazem parte do nosso dia a dia. Como em tudo
na vida há o lado bom e o lado mau. Vamos ficar sem saber o que lhes vai na
cabeça e na alma, porque teriam de ser ditas muitas coisas desagradáveis e
assustadoras e isso afasta votos. Pela rama, pela rama, iremos, votando
sobretudo no que achamos mais simpático. Jose
Marques: Ora aí está,
muito bem!
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