sábado, 21 de junho de 2025

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Mundo varium sed “mutabile” - na esperança de quem valentemente condena tal status.

Texto do meu g mail, enviado pela PAULA.

Por: ALBERTO CARVALHO

6 de junho às 21:56

Assim fosse!” – “mutável”, naturalmente.

Mas o “tenha paciência!” é mais explorado, de há muito a esta parte, pelo tal

 

LIBERDADE FALSA

A AMADORA É O PAÍS QUE NÃO CABE NOS DEBATES TELEVISIVOS

Era uma manhã como outra qualquer na Amadora.

Os prédios levantavam-se como caixas empilhadas à pressa, feridas de humidade e grafite.

Uma rapariga de mochila aos ombros descia a correr a escadaria do bairro da Cova da Moura para apanhar o autocarro das 7:12.

Queria chegar a tempo à faculdade, lá para os lados da Cidade Universitária, e ainda precisava de trocar duas vezes de linha.

Não pedia muito: um curso, um trabalho decente, talvez um quarto que não lhe levasse metade do ordenado mínimo.

Era filha de Angola e neta de Portugal - e, como tantos outros, vivia entre duas pátrias e nenhuma casa.

Tinha nome, sonhos e dívidas.

Entretanto, numa sala climatizada da capital, um deputado da Iniciativa Liberal citava Hayek e falava em "meritocracia".

Defendia que o Estado não devia meter-se na vida das pessoas - deviam ser livres.

Livres para escolher escolas privadas, médicos privados, e bancos privados.

Livres para trabalhar mais, pagar menos impostos e sair da frente.

Ninguém lhe perguntou se alguma vez esperou quase uma hora por um comboio na Reboleira.

Ou se sabia o preço de um passe Navegante Jovem.

Ou se alguma vez fora confundido com delinquente só por ser pobre.

Na Amadora, a liberdade era outra coisa.

Era ter luz até ao fim do mês.

Era não ter de faltar ao trabalho para levar a avó ao centro de saúde.

Era poder estudar sem fome.

Era conseguir dormir sem ouvir tiros ao fundo da rua.

Era, no fundo, tudo aquilo que os teóricos da liberdade abstracta preferem não ver.

A Amadora é o coração precário de um país periférico.

Habitada por quase 180 mil pessoas, é um dos concelhos com maior densidade populacional da Europa.

E é, também, um espelho: concentra pobreza, imigração, juventude e invisibilidade.

É Portugal visto do lado de fora.

Em 2023, mais de 15% da população local vivia abaixo do limiar da pobreza, e um em cada quatro habitantes era estrangeiro - a maior parte com profissões invisíveis e salários mínimos.

Aqui, a “liberdade” prometida pelos liberais não chega em pacote algum.

Não há seguro de saúde privado que cubra o coração de um país abandonado.

Os liberais falam em empreendedorismo, mas esquecem que a grande maioria das “empresas” abertas nestes bairros são micro-negócios de sobrevivência: barbearias, quiosques, restauração informal.

Falam em “liberdade de escolha”, mas ignoram que a única escolha real para muitos é entre pagar a renda ou a escola de condução.

Falam em “mobilidade social”, mas em bairros como a Brandoa ou Alfragide Sul, a mobilidade que existe é a dos transportes públicos que não passam a horas.

A liberdade liberal é selectiva.

Exige dinheiro para ser usufruída.

E quando não há dinheiro, não há escolha - apenas resignação.

É a liberdade de deixar o Estado e cair, sozinho, no mercado.

É o direito sagrado a não ter nada, a não pedir nada, a não incomodar.

Mas a Amadora resiste.

Porque mesmo ferida, sabe mais de dignidade do que muitos dos seus juízes.

Nos centros comunitários, nos agrupamentos escolares, nas cozinhas de restauração, nos campos de futebol, nos grupos de teatro, nos projectos de bairro - há Portugal.

Um Portugal que não cabe nos debates televisivos nem nas colunas de opinião do Observador.

Um país feito de luta anónima, que recusa ser apenas estatística.

E é por isso que incomoda.

Porque revela a falência da promessa liberal - a ideia de que basta desregular, privatizar, cortar impostos e deixar o mercado funcionar.

Aqui, onde o mercado nunca quis entrar, essa teoria soa a insulto.

Não, senhores liberais: não é por haver “demasiado Estado” que há pobreza na Amadora.

É por haver Estado a menos.

A menos na habitação pública.

A menos nos transportes, nas escolas, nos centros de saúde.

A menos no apoio à infância, no apoio à cultura, no urbanismo social.

A menos na justiça fiscal.

A menos na presença simbólica e política.

E no entanto, de cada vez que se propõe reforçar esse Estado, os senhores gritam: liberdade!

A pergunta, então, não é “liberdade para quê?”, como diria Camus.

É: liberdade para quem?

A resposta ouve-se nos comboios da Linha de Sintra, nas filas do Centro de Saúde da Damaia, nas salas de aula onde faltam professores.

E grita, todos os dias, nas ruas da Amadora.

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