E a bondade da perda de consciência rodeando as existências nos seus
finais, para o desfecho fatal em alegria, em ficção risonhamente trocista,
parece-me, nesta marcha de todos para um infinito para sempre absurdo, nessa tal
da curva… mas não só.
E vem à baila ALBERTO CAEIRO também, com a sua displicente negação realista
do “mistério” das coisas, de elucubração apenas aceite no final das vidas (Texto posto no final).
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO, 02.06.25
Título – «A
CURVA DO CÉU»
Autor – BRANQUINHO DA FONSECA
EDITORA – MOVIMENTO
EDIÇÃO – 1972, DO AUTOR (ESGOTADA)
* * *
Mini peça de teatro num só acto e numa
só cena (17 pequenas páginas de mancha
rala).
Personagem
principal, o filho, de cama e moribundo; personagem secundária, a mãe, que
disfarça as lágrimas.
O doente divaga sobre as melhoras que
sente (a despedida da saúde?) e diz: «que
pena não acreditar em Deus e, como ele, desfrutar da ubiquidade».
Nos
momentos finais da vida aparecem os Reis Magos que lhe votam felicidade eterna; aparece o espírito do pai do rapaz
propondo-lhe todas as viagens sonhadas e no momento da morte aparecem três
espíritos (benignos, dá para crer) que a todos levam a sair pela porta,
presumindo-se que para a eternidade – incluindo a mãe que não sabíamos doente.
CAI O PANO
* * *
E é agora, depois de caído o pano,
que surge o mistério: o que poderá
ter levado o Autor – que sempre se deixou apresentar como agnóstico ou mesmo
ateu - tecer um texto como este de triunfo da espiritualidade? Só me ocorre que o Céu tenha feito uma
curva no espírito do Autor desviando-o do materialismo agnóstico-teísta para a
espiritualidade. E eu estou a admitir que possa estar a levantar a
ponta do véu: levantar a ponta do véu do
mistério da curva do Céu.
* * *
E aos costumes digo que o Autor era o
meu tio António José e meu padrinho de baptismo. E julgava eu que o conhecia
bem…!
Junho de 2025
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
4 COMENTÁRIOS
Adriano Miranda Lima 02.06.2025 20:47: Sr. Dr. Salles da Fonseca, se me permite
especular, mesmo sem ter lido a peça, o ilustre autor, seu tio, pode não ter
deixado de ser agnóstico ou mesmo ateu ao utilizar na sua peça adereços
simbólicos que podem sugerir uma ideia de religião: "reis magos",
"espírito do pai", "três espíritos". É que esses elementos
podem estar ao serviço de uma mitologia poética e não da mitologia religiosa,
até porque parece processar-se uma transposição sucessiva entre eles que intensifica
o efeito da teatralidade. É o que acontece com especial impacto quando
"saem todos pela porta, levando também a mãe que nem sequer estava
doente", o que reforça a presença de uma subjectividade onírica em vez da
transição para a "eternidade". Poder-se-á então dizer esta Curva
do Céu não representa uma proposta de conversão ou reconversão em matéria de fé
religiosa, mas tão só a conjugação sincrética de dois mundos, o da realidade e
o da imaginação. Abraço Adriano
Lima
Adriano Miranda Lima 03.06.2025 13:43: Embora ainda não postado o meu comentário anterior,
volto à questão que me suscitou, com a devida consideração, uma interpretação
algo diferente da do Dr. Salles da Fonseca sobre o texto em causa. Penso que o
autor teria uma ideia distinta entre espiritualidade e fé religiosa ou
transcendência. A sua possível transição - outros dirão conversão - do agnosticismo
para a espiritualidade, como sugere o Dr. Salles da Fonseca, não quer dizer que
ele tenha deixado de ser o que sempre foi. A espiritualidade não obriga a
qualquer fé religiosa ou à crença numa divindade. Fui ao google consultar e
encontrei os seguintes significados: "A espiritualidade e a fé são
conceitos distintos, embora frequentemente interligados. A fé é,
essencialmente, uma crença ou convicção em algo, muitas vezes em algo não
demonstrável por provas materiais, como uma divindade ou princípios morais. A
espiritualidade, por outro lado, refere-se à busca por sentido, propósito e
conexão com algo que não restringe a condição humana às demandas do seu
instinto. O caminho da espiritualidade é o caminho do equilíbrio, do
amor, da paz, da compaixão, da reconexão, da essência, da felicidade, da
harmonia." Assim, admito que se o céu fez "uma curva no
espírito" de Branquinho da Fonseca, pode não ter sido para tentar alcançar
um "ponto do infinito", na feliz metáfora que o Dr. Salles da Fonseca
utilizou num dos seus textos publicados neste blogue. Prefiro pensar que na sua
dramaturgia procurou cartografar a temática da essência do ser humano, no seu
desamparo existencial e nas suas dúvidas perante a iminência da morte.
Prefiro interpretar que ao "saírem por aquela porta" não foi para a
eternidade no sentido escatológico mas para a consumação do encontro do homem
com a sua realidade finita. Pelo caminho, todas as dúvidas e todos os sonhos
lhe foram consentidos. Para concluir, se David Mourão Ferreira afirmou que se
"devem a Branquinho da Fonseca, como poeta e como dramaturgo, algumas das
mais válidas experiências do nosso vanguardismo pós-modernista”, custa aceitar
que ele de repente se tenha desviado do "materialismo agnóstico-teísta
para a espiritualidade". Mas aceito que possa estar errado, pois quem sou
eu para entrar nestas especulações? Abraço. Adriano
Lima
Anónimo 03.06.2025 18:28: Mundo real: 1- Vulnerabilidade nossa perante
as doenças. 2- Envelhecimento 3- Mortalidade. Três leis divinas que ninguém
poderá alterar. Essas leis são eternas, imutáveis e absolutas. Aos mortais só
resta a garganta para emitir sons que julgamos inteligentes e memoráveis e um
dia desaparecer para sempre deste mundo. António
Távora.
Anónimo: 03.06.2025
21:14: Gostei
NOTAS:
Da INTERNET:
ALBERTO
CAEIRO:
Há metafísica bastante em não
pensar em nada.
O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os
olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no
mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os
pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz
pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer
nada.
É incrível que se possa pensar em coisas
dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos
lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as
coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas
ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e
luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si
próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e
montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
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