terça-feira, 3 de junho de 2025

O remate fatal


E a bondade da perda de consciência rodeando as existências nos seus finais, para o desfecho fatal em alegria, em ficção risonhamente trocista, parece-me, nesta marcha de todos para um infinito para sempre absurdo, nessa tal da curva… mas não só.

E vem à baila ALBERTO CAEIRO também, com a sua displicente negação realista do “mistério” das coisas, de elucubração apenas aceite no final das vidas (Texto posto no final).

LIDO COM INTERESSE – 95

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 02.06.25

Título – «A CURVA DO CÉU»

Autor – BRANQUINHO DA FONSECA

EDITORA – MOVIMENTO

EDIÇÃO – 1972, DO AUTOR (ESGOTADA)

* * *

Mini peça de teatro num só acto e numa só cena (17 pequenas páginas de mancha rala).

Personagem principal, o filho, de cama e moribundo; personagem secundária, a mãe, que disfarça as lágrimas.

O doente divaga sobre as melhoras que sente (a despedida da saúde?) e diz: «que pena não acreditar em Deus e, como ele, desfrutar da ubiquidade».

Nos momentos finais da vida aparecem os Reis Magos que lhe votam felicidade eterna; aparece o espírito do pai do rapaz propondo-lhe todas as viagens sonhadas e no momento da morte aparecem três espíritos (benignos, dá para crer) que a todos levam a sair pela porta, presumindo-se que para a eternidade – incluindo a mãe que não sabíamos doente.

CAI O PANO

* * *

E é agora, depois de caído o pano, que surge o mistério: o que poderá ter levado o Autor – que sempre se deixou apresentar como agnóstico ou mesmo ateu - tecer um texto como este de triunfo da espiritualidade? Só me ocorre que o Céu tenha feito uma curva no espírito do Autor desviando-o do materialismo agnóstico-teísta para a espiritualidade. E eu estou a admitir que possa estar a levantar a ponta do véu: levantar a ponta do véu do mistério da curva do Céu.

* * *

E aos costumes digo que o Autor era o meu tio António José e meu padrinho de baptismo. E julgava eu que o conhecia bem…!

Junho de 2025

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

4 COMENTÁRIOS

Adriano Miranda Lima 02.06.2025 20:47: Sr. Dr. Salles da Fonseca, se me permite especular, mesmo sem ter lido a peça, o ilustre autor, seu tio, pode não ter deixado de ser agnóstico ou mesmo ateu ao utilizar na sua peça adereços simbólicos que podem sugerir uma ideia de religião: "reis magos", "espírito do pai", "três espíritos". É que esses elementos podem estar ao serviço de uma mitologia poética e não da mitologia religiosa, até porque parece processar-se uma transposição sucessiva entre eles que intensifica o efeito da teatralidade. É o que acontece com especial impacto quando "saem todos pela porta, levando também a mãe que nem sequer estava doente", o que reforça a presença de uma subjectividade onírica em vez da transição para a "eternidade". Poder-se-á então dizer esta Curva do Céu não representa uma proposta de conversão ou reconversão em matéria de fé religiosa, mas tão só a conjugação sincrética de dois mundos, o da realidade e o da imaginação. Abraço Adriano Lima

Adriano Miranda Lima 03.06.2025 13:43: Embora ainda não postado o meu comentário anterior, volto à questão que me suscitou, com a devida consideração, uma interpretação algo diferente da do Dr. Salles da Fonseca sobre o texto em causa. Penso que o autor teria uma ideia distinta entre espiritualidade e fé religiosa ou transcendência. A sua possível transição - outros dirão conversão - do agnosticismo para a espiritualidade, como sugere o Dr. Salles da Fonseca, não quer dizer que ele tenha deixado de ser o que sempre foi. A espiritualidade não obriga a qualquer fé religiosa ou à crença numa divindade. Fui ao google consultar e encontrei os seguintes significados: "A espiritualidade e a fé são conceitos distintos, embora frequentemente interligados. A fé é, essencialmente, uma crença ou convicção em algo, muitas vezes em algo não demonstrável por provas materiais, como uma divindade ou princípios morais. A espiritualidade, por outro lado, refere-se à busca por sentido, propósito e conexão com algo que não restringe a condição humana às demandas do seu instinto. O caminho da espiritualidade é o caminho do equilíbrio, do amor, da paz, da compaixão, da reconexão, da essência, da felicidade, da harmonia." Assim, admito que se o céu fez "uma curva no espírito" de Branquinho da Fonseca, pode não ter sido para tentar alcançar um "ponto do infinito", na feliz metáfora que o Dr. Salles da Fonseca utilizou num dos seus textos publicados neste blogue. Prefiro pensar que na sua dramaturgia procurou cartografar a temática da essência do ser humano, no seu desamparo existencial e nas suas dúvidas perante a iminência da morte. Prefiro interpretar que ao "saírem por aquela porta" não foi para a eternidade no sentido escatológico mas para a consumação do encontro do homem com a sua realidade finita. Pelo caminho, todas as dúvidas e todos os sonhos lhe foram consentidos. Para concluir, se David Mourão Ferreira afirmou que se "devem a Branquinho da Fonseca, como poeta e como dramaturgo, algumas das mais válidas experiências do nosso vanguardismo pós-modernista”, custa aceitar que ele de repente se tenha desviado do "materialismo agnóstico-teísta para a espiritualidade". Mas aceito que possa estar errado, pois quem sou eu para entrar nestas especulações? Abraço. Adriano Lima

Anónimo 03.06.2025 18:28: Mundo real: 1- Vulnerabilidade nossa perante as doenças. 2- Envelhecimento 3- Mortalidade. Três leis divinas que ninguém poderá alterar. Essas leis são eternas, imutáveis e absolutas. Aos mortais só resta a garganta para emitir sons que julgamos inteligentes e memoráveis e um dia desaparecer para sempre deste mundo. António Távora.

Anónimo:  03.06.2025 21:14: Gostei

NOTAS:

Da INTERNET:

ALBERTO CAEIRO:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?

Sei lá o que penso do Mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o Sol

E a pensar muitas coisas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o Sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do Sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

 

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

 

«Constituição íntima das coisas»...

«Sentido íntimo do Universo»...

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em coisas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

 

Pensar no sentido íntimo das coisas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

 

O único sentido íntimo das coisas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

 

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

 

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

 

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.

 

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.


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