sábado, 7 de junho de 2025

Previsões pessimistas

 

Sobre as reformas do novo Governo, os exemplos vindos de trás não trazendo esperança para procedimentos futuros de transformações propícias necessárias, apesar dos discursos optimistas de quem se propõe governar. Também era preciso mais colaboração de todos, mas somos, definitivamente uma nação mais apta a desvalorizar, pesem embora os eleitos para a valorização. Mas os argumentos de JOSÉ MEIRELES GRAÇA parecem ditados pelo saber.

Velho Governo

Já tinha havido ministério da Reforma Administrativa em 1978 e 1981 que deixou memória de coisa nenhuma, e houve secretarias de Estado com o mesmo propósito, esquecidas todas pela sua irrelevância.

JOSÉ MEIRELES GRAÇA Convidado da Oficina da Liberdade

OBSERVADOR, 07 jun. 2025, 00:15

Vai, como é natural, grande curiosidade sobre o novo Governo. Há alguma comoção sobre umas mudanças que não têm qualquer relevo, e uma para a qual vale a pena olhar.

As primeiras:

A Economia (o nome do ministério que se ocupa da torrefacção dos fundos europeus, em tempos fazendo parte, como devia, da pasta das Finanças) fica associado à Coesão Territorial. Esta tem um pretensioso e amplíssimo escopo – tutela a execução das políticas públicas respeitantes à gestão territorial. O que, na parte em que quer dizer alguma coisa, bem podia estar na Administração Interna.

Os fundos europeus são um veneno que enxundia a economia: financiam a concorrência desleal, potenciam a corrupção, facilitam a assunção de riscos empresariais insanos, alimentam agências caras e improdutivas, falseiam a liberdade de empreender, impedem a reforma do Estado porque o subsidiam, e instalaram a ideia que está ao alcance de políticos e funcionários decidirem que empresas e que sectores têm e não têm futuro. Gerou-se a convicção de que, sem fundos, o país não pode crescer e que, com eles, convergirá com a “Europa”, que aliás qualquer dia também precisará de fundos para convergir com os EUA e a China. Ideia daninha, que os factos não confirmam, mas perene.

Porém, é impossível acabar com a subsidiação porque demasiada gente depende dela e dos poderes que confere, a começar por políticos da nebulosa europeia, departamentos bruxelenses, agências nacionais e sobretudo políticos domésticos, que com a famosa coesão garantem o poder da munificência e um módico de crescimento com dinheiro dado.

Impossível acabar, até porque o desmame seria doloroso. Mas deveria ser possível eliminar todo o financiamento a investimentos privados, fechar todas as agências com esse propósito, suprimir qualquer apoio à actividade ou despesas correntes do Estado, e canalizar todos os recursos da variedade mão-beijada do contribuinte europeu para investimentos públicos reprodutivos. Conduzidos pelo Estado (que, neste sentido, é uma abstracção, do que estamos a falar é de pessoas que decidem o que o Estado faz) é claro que as tolices seriam legião. Menos danosa todavia que o que temos tido. O progresso das empresas faz-se com Justiça eficaz, impostagem não predatória e simples, instituto falimentar rápido, eliminação da miríade de obstáculos grandes e pequenos à actividade económica, particularmente licenciamentos, e muitas outras coisas. Com subsídios? Não.

A Cultura deixa de ser ministério e passa para o da Juventude e Desporto. É uma mudança cómica porque a própria juventude não precisava mais de uma pasta que a terceira idade. E, já agora, também a meia-idade, desde logo com os problemas da menopausa e da andropausa, deveria ser objecto de atenção – no mínimo duas direcções-gerais.

Que seja ministério ou secretaria de Estado não releva. Será sempre um organismo que cuida muito dos vivos (isto é, directores disto e daquilo, artistas, criadores) e pouco do património edificado, museus, acervos, bibliotecas, etc. – tudo coisas que não berram a reclamar apoios nem escrevem nos jornais.

De modo que até aqui é lana-caprina, isto é, mais do mesmo.

Sobra uma dúvida: Vai ser um governo reformista ou não?

Foi criado um novo ministério, o da Reforma do Estado. Bom sinal, reconhece-se que o Estado precisa de ser reformado. Já tinha havido um ministério da Reforma Administrativa, em 1978 e 1981, que deixaram memória de coisa nenhuma, e houve várias secretarias de Estado com o mesmo propósito, esquecidas todas pela sua irrelevância.

Também há, desde 2006, o Simplex, agora mais discreto, mas que nos tempos de Costa foi trombeteado como o abre-te Sésamo do Estado práfrentex, aberto, transparente e eficiente.

Sabe-se no que deu: um maná para empresas de software porque se deixou muitas vezes de ir aos balcões praticar a inutilidade que obriga as pessoas a lá irem, a qual se transplantou, via internet, para os sites dos vários serviços. Sites que, não poucas vezes, são um nó-cego desesperante, porque em vez de serem, como deviam, testados por ignorantes, são-no por informáticos ou funcionários incapazes de calçar os sapatos do cidadão que não conhece os escaninhos da casa. E que ainda trouxeram essa coisa extraordinária de serem os próprios serviços a decidirem pela internet quem e quando atendem presencialmente.

Se alguém se desse ao trabalho de coligir as provas do crescimento de exigências burocráticas, declarativas ou outras, de dificuldades de licenciamento, e de multiplicação de taxas, por exemplo, descobriria que por baixo do verniz do simplex está um Estado obeso que não para de requerer mais alimento.

Vai reformar a Justiça, é, fazendo com que seja célere? E o ministro da Justiça faz o quê? Reforma os palácios, que alguns até metem água? Mas que faz então o das Infraestruturas? E vai aligeirar as exigências para licenciamentos de obras pelas câmaras municipais? Ah bom, não sei o que pensa disso o da Coesão Territorial, que superintende a Administração Local, cujo Secretário tem um medo que se pela do poder dos municípios. E na fiscalidade, vai simplificar, acabar com os poderes e abusos demenciais da AT? Eh lá, o SEAF deve ter duas ou três coisas a dizer sobre isso. Duas: Não; era o que faltava. A terceira: Talvez, mas de momento estamos assoberbados.

E é tudo assim. A reforma do Estado é transversal: ou o Governo todo está imbuído do espírito reformista (ou seja, diminuição do peso do Estado, dinamitação de legislação intrusiva, emagrecimento violento do dirigismo económico e um longo etc.) ou não.

Reformar é ferir interesses, mesmo que se arranjem expedientes (como é devido) para recolocar funcionários sobre os quais caia o machado da extinção de “serviços”. E é claro que o clamor será imenso.

O cidadão escolhido para a função parece para ela bem-talhado, não é impossível que faça algum trabalho de préstimo. Mas no essencial?

Enganei-me no passado mais vezes do que gostaria e, é claro, como qualquer cidadão temente a Deus arrependo-me. Desta vez também apreciaria vir a arrepender-me. Não me parece.

Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não reflectem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.

OFICINA DA LIBERDADE       OPINIÃO       OBSERVADOR

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