É do que se precisa nesta Terra massacrada,
e, sobretudo, essa onde Ele nasceu e onde pregou e ressuscitou. Viesse Ele cá
pôr ordem. Ao menos lá…
A Teofania do Ressuscitado
“Não é
precisamente este o estilo divino? Não se impor pela força exterior, mas dar liberdade,
conceder e suscitar amor.”
P. GONÇALO
PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista
OBSERVADOR, 31 mai. 2025, 00:1510
Na
antepenúltima crónica, referiu-se a aparente incoerência dos relatos
evangélicos sobre a ressurreição de Jesus de Nazaré. Com
efeito, embora essa verdade seja insistentemente afirmada, os testemunhos em
que se apoia uma tal proclamação parecem carecer de valor, na medida em que, os
mesmos que dão fé da ressurreição de Cristo são também os que não
reconheceram imediatamente o ressuscitado. Assim sendo, poderiam levar a
crer que a ressurreição não foi uma constatação empírica, mas uma elaboração
intelectual, que teria valor doutrinal, mas não factual, nem científico.
Ora, se assim fosse, a fé cristã ruiria pela sua base pois, como disse São
Paulo aos coríntios,“se Cristo não
ressuscitou, é vã a vossa fé e permaneceis ainda nos vossos pecados”, porque se“temos
esperança em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os
homens” (1Cr 15, 17.19).
Da dificuldade dos discípulos em
identificar Cristo ressuscitado deu também conta o Papa Bento XVI, aliás Joseph
Ratzinger, no seu magistral Jesus de Nazaré:“Antes de mais impressiona o facto de
os discípulos, num primeiro momento, não O reconhecerem. Acontece isto não
só aos discípulos de Emaús, mas
também a Maria de Magdala e depois
uma vez mais junto do mar de Tiberíades:
‘Ao romper do dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não sabiam que era ele’ (Jo 21, 4).” É
verdade que, graças à abundantíssima e
inexplicável pesca, aqueles discípulos chegam à conclusão de que o seu
interlocutor é Jesus, mas não por aquilo que vêem ou ouvem. Com efeito, não o reconheceram quando O
viram na margem, nem quando O ouviram dizer para lançarem a rede para o lado
direito da barca. Por isso, o seu conhecimento de que era Jesus não procedia
dos seus sentidos, nem da sua razão humana, mas de uma graça interior que lhes
tinha sido concedida e, em virtude da qual, podiam constatar o que, de outra
forma, não poderiam saber. Como escreveu Bento XVI, “sabiam-no a partir
de dentro, não devido ao seu aspecto, nem graças ao olhar perscrutador
deles.”
São, aliás, recorrentes os paradoxos associados às várias aparições do
ressuscitado porque, se por um lado parecem impor a evidência da sua
realidade corpórea, por outro, sugerem um tipo de presença imaterial, ou
gloriosa, oposta à típica opacidade da matéria. “A esta dialéctica do reconhecer e do não reconhecer corresponde a
modalidade da aparição. Jesus entra com as portas fechadas, apresenta-se subitamente no meio deles. E
do mesmo modo desaparece repentinamente,
como no fim do encontro de Emaús. É plenamente corpóreo; e todavia não está
ligado às leis da corporeidade, às leis do espaço e do tempo. Nesta
dialéctica surpreendente entre identidade e alteridade, entre verdadeira
corporeidade e liberdade em relação aos vínculos do corpo, manifesta-se a
essência peculiar, misteriosa da nova existência do Ressuscitado. Com efeito, são válidas as duas coisas: Ele
é o mesmo, ou seja, Homem em carne e osso, e ele é também o Novo, Aquele que
entrou num género diverso de existência.”
A não unanimidade quanto à evidência
da sua ressurreição, devido às dúvidas recorrentes das testemunhas oculares,
bem como a aparente imaterialidade da condição do ressuscitado – que entra em casa sem necessidade de
abrir as portas, aparece e desaparece misteriosamente, etc. – poderiam
levar à dupla conclusão de que esses relatos não seriam históricos e,
portanto, que o que se pretendia apresentar como um facto mais não seria do que
uma conjectura dos apóstolos,
necessária para a fundamentação da doutrina que deveriam pregar no mundo
inteiro.
Curiosamente, a partir deste paradoxo, Bento XVI chega
à conclusão contrária, ou seja, a de que se prova assim a veracidade dos
relatos bíblicos e, portanto, a consistência empírica, ou factual, do que nos
revelam. É, no seu sugestivo modo de dizer, uma
narração desajeitada que, precisamente por isso, faz emergir a
verdade dos factos que revela: “Esta
dialéctica, que faz parte da existência do Ressuscitado, é apresentada nas
narrações de modo verdadeiramente desajeitado, mas é precisamente assim que
emerge a sua veracidade. Se a ressurreição tivesse sido inventada, toda a
insistência se concentraria na plena corporeidade, no reconhecimento imediato
e, além disso, ter-se-ia idealizado talvez um poder particular como sinal
distintivo do Ressuscitado. Mas, na contradição do experimentado que
caracteriza todos os textos, no conjunto misterioso de alteridade e identidade,
reflecte-se um modo novo de encontro que apologeticamente aparece como
desconcertante, mas por isso mesmo se revela ainda mais como descrição
autêntica da experiência feita.”
Daqui emerge a dupla realidade que a
fé cristã confessa: a humanidade de Jesus e a sua divindade. Ambas
foram, por certo, testemunhadas pelo
incrédulo Tomé, quando o ressuscitado o convidou a tocar com as suas mãos as
chagas que comprovavam que ele é o mesmo que foi crucificado. Esta afirmação
não é o fruto de uma complexa teoria, de que decerto os apóstolos, dada a sua
condição de “homens
iletrados e plebeus” (At
4,13), não seriam capazes de elaborar, mas a conclusão que decorre de
uma constatação empírica que é, na realidade, uma evidência: “o
que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos
com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente
ao Verbo da Vida […], o que nós vimos e ouvimos isso vos anunciamos”(1Jo 1,
1.3).
Como escreveu Bento XVI, “a novidade da ‘teofania’ do Ressuscitado
consiste no facto de que Jesus é verdadeiramente Homem: como Homem, ele sofreu
e morreu; agora vive de modo novo na dimensão do Deus vivo; aparece como
verdadeiro Homem, mas a partir de Deus; e ele mesmo é Deus.”
Mas, porque não quis Deus que a
ressurreição fosse mais evidente, não apenas para o reduzido grupo dos seus
fiéis, que dificilmente seriam tidos por testemunhas objectivas e imparciais,
mas também para todo o mundo?!
A pergunta pode parecer pretensiosa, mas
não tanto que não tenha merecido resposta, na sempre erudita e inspiradora
palavra de Bento XVI, sublinhando o respeito divino pela liberdade
humana. “É próprio do mistério de Deus agir deste modo suave. (…) Padece e
morre e, como Ressuscitado, quer chegar à humanidade apenas através da fé dos
seus, aos quais Se manifesta. Sem cessar,
ele bate suavemente às portas dos nossos corações e, se Lhas abrirmos,
lentamente vai-nos tornando capazes de ‘ver’.
“E, contudo, não é precisamente este o estilo divino? Não se impor pela força
exterior, mas dar liberdade, conceder e suscitar amor. E, pensando bem,
o aparentemente mais pequenino não é o realmente grande? Porventura não
irradia de Jesus um raio de luz que cresce ao longo dos séculos, um raio que
não podia provir de nenhum simples ser humano, um raio mediante o qual entra
verdadeiramente no mundo o esplendor da luz de Deus? Teria o anúncio dos
apóstolos podido encontrar fé e edificar uma comunidade universal se não
operasse neles a força da verdade?
“Se
ouvirmos as testemunhas com coração atento e nos abrirmos aos sinais com que o
Senhor não cessa de autenticar as suas testemunhas e de se atestar a Si mesmo,
então saberemos que ele verdadeiramente ressuscitou; Ele é o Vivente. A Ele nos
entregamos e sabemos que assim caminhamos pela estrada justa. Com Tomé, metamos
a nossa mão no lado trespassado de Jesus e professemos: ‘Meu Senhor e meu Deus!’(Jo
20, 28)”.
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COMENTÁRIOS (de 10)
Rui Fernandes: É preciso dizer hoje, a plenos pulmões, como notícia
actual: Cristo ressuscitou! Podemos
experimentar essa mesma presença que os primeiros cristãos vivenciaram, porque
Ele é o mesmo, sempre. Nós é que somos diferentes dos primeiros cristãos: menos
convictos, generosos, entusiastas, mais cheios de nós. Francisco
Almeida: Falando
apenas por mim, pecador praticante, o Corpo Místico de Cristo Ressuscitado, foi
talvez a parte da doutrina da Fé que mais desafios me levantou. O racionalismo
Kantiano, que desde sempre rejeitei mas nem sempre consegui evitar, foi um
forte obstáculo. Mas agradeço ao Pe.
Gonçalo, mais uma confirmação de que há excelentes razões para considerar Bento
XVI o "meu" Papa.
Alexandre Barreira: Pois. Caro P. Gonçalo, Com o devido respeito, JC pediu
ao Pai para voltar à terra. E ajudar os martirizados Palestinos. Deus
respondeu: Não....não e não.....da primeira vez que Te mandei para a terra. Levaste
pancada...a "dar-com-um-pau"...e foste crucificado. Portante se
queres ir novamente. Só se fores de.....férias. para Portugal. E
aproveita....vai visitar a tua.....Mãe.....!!!. Rui Li: Meu Senhor e meu Deus 🙏🏻 Dizia-me um bom amigo meu que se diz agnóstico, um dia
destes:" O que eu não suporto é isso do mistério!". Dizia-o com toda
a sinceridade. Eu, claro, não lhe expliquei nada : melhor era reduzir-me à
minha insignificância, evitando assim complicar mais ainda a sua visão. Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre! S N: Excelente e muito inspiradora crónica Coronavirus corona: Muito bonito e intelectualmente elegante João Reis: O texto "A Teofania do Ressuscitado" é uma
**meditação teológica profunda e pastoralmente rica**. Ele responde a uma objecção
intelectual com uma reflexão que toca o coração da fé, revelando a natureza do
Cristo Ressuscitado e o amoroso "estilo divino" que respeita a
liberdade humana e convida ao amor. Para o cristão, é um **fortalecimento da fé
na historicidade da Ressurreição**, uma **profunda lição sobre a natureza da fé
como resposta livre ao amor de Deus**, e um **convite a um encontro pessoal
renovado com o Cristo vivo**, que continua a bater suavemente à porta de cada
coração. É um lembrete de que a verdadeira grandeza de Deus se manifesta na
humildade, no respeito e no poder transformador do amor que convida, nunca que
obriga.
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