domingo, 1 de junho de 2025

GIGANTISMO

 

Esse de JAIME NOGUEIRA PINTO, segundo definição do seu comentador Luís Valentim – um termo exacto subentendendo os adjectivos “brilhante, culto e lúcido” da sua definição, aliás corroborada pelos demais comentadores. Com efeito, só uma cabeça recheada de saber e ponderação criaria uma tal síntese historiográfica abrangente e certeira, vinda de um passado de dois séculos e revoluteando de acontecimentos paralelos, na sua semelhança socio temporal, exceptuados os efeitos naturais dos avanços aliados às histórias e ideologias evolutivas dos povos e dos estudos em torno. Um texto, pois, para ler e reler e confrontar, se decidirmos prolongar o seu efeito esclarecedor, com leituras paralelas confirmativas dos dados da síntese do nosso prazer. Por isso, também eu agradeço a este verdadeiro “senhor”, pelo seu saber, jamais obnubilado pelo espírito de um partidarismo opressor, e cuja inteligência crítica o torna suficientemente esclarecedor e isento de um qualquer artificioso parti pris, descontados os efeitos de um humor irresistivelmente ironizante, requerido pela sua seriedade intelectual em face dos malabarismos toscos de certos grupelhos atrevidamente desfazedores da verdade histórica.

O certo é que a semelhança histórica fora definitivamente estatuída por Eça de Queirós, que em OS MAIAS e outros mais livros registaria essas facetas evolutivas de um povo instável, de entusiasmos e derrotismos, que os seus heróis protagonizaram e que as realidades vividas a cada passo identificam, no seu paralelismo temporal. Caberia aos governantes ajudarem a modificar o status, mas tudo por cá acaba em palavreado inconsistente, muitas vezes por jogos de oposição, pedante e perversa.

Portugal – modernidade, esquerda, direita

É difícil encontrar na nossa História uma classe política e político-intelectual mais ressentida do que a que veio da oposição ao salazarismo. Uma classe que se especializou em “lendas e narrativas".

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 31 mai. 2025, 00:183

A história política de Portugal nos últimos 200 anos, isto é, a partir da revolução liberal, é muito semelhante à dos países do sul católico europeu. O liberalismo chegou com as influências conflituantes de franceses e ingleses, nas guerras napoleónicas, cada uma também com as suas “Lojas” próprias. Assim como aconteceu na Espanha com os Carlistas, em Nápoles com os camponeses da Santa Fede do cardeal Ruffo, em França com outros camponeses da Normandia e Vendeia, tivemos, com o miguelismo, uma resistência nacional e popular às ideias da revolução. E como ficou bem claro, não só na História revista e historiada, mas também na ficção – de Teixeira de Vasconcelos a Arnaldo Gama e de Silva Gaio a Camiloo miguelismo persistiu na sociedade portuguesa. Só que, por uma questão de princípio, os seus próceres não quiseram formar um partido e acabaram por não ter presença no espaço político-parlamentar.

Ficou uma tradição que Oliveira Martins registou no Portugal Contemporâneo, um livro incómodo para as elites liberais; e a linha política contra-revolucionária acabou por reviver com a Action Française e os movimentos que inspirou na Europa do Sul, chegando aos nossos Integralistas. É certo, também, que a queda em 1910 do ramo liberal dos Bragança, triunfante em 1834, e a sua extinção sem descendência legítima depois da morte de D. Manuel II e do pacto de Paris, trouxe para a primeira linha o ramo tradicionalista, esse ramo que a narrativa martiniana imortalizara na fórmula do “populismo” de D. Miguel, “o rei que o povo adorava”.

Esquerda e Direita

Patrícia Fernandes, num breve ensaio aqui publicado no Observador a 23 de Maio – Ainda faz sentido falar em esquerda e direita? –, chamava a atenção para a comunicabilidade e interdependência dos campos políticos direita e esquerda, que se iam alimentando e influenciando, também e sobretudo na contradição.

Ora o liberalismo, a partir da Regeneração e muito por acção política de Fontes Pereira de Melo, criou a estabilidade ao centro dentro de uma sociedade oligárquica, como todas as do tempo na Europa das monarquias constitucionais. Dois partidoso Regenerador e o Progressistasucediam-se, sem conflito, no governo, sob uma doutrina de melhoramentos materiais, obras públicas, endividamento externo.

Mas o rotativismo acabou depois da morte de D. Luís, com a fragmentação partidária. Eça de Queirós, ao escrever sobre a subida dos republicanos depois do Ultimato, defendia que o que impulsionava, em Portugal, novas forças políticas ou mudanças cíclicas de regime – por ruptura, ou dentro do regime – era o cansaço, o estar farto, o não querer mais o que estava. Por isso, quem vinha não precisava de grandes programas ou demonstrações de capacidade.

Depois, as grandes mudanças políticas no Portugal contemporâneo, no Portugal dos últimos 120 anos, vieram pela força: a República ganhou graças ao regicídio, que eliminou um monarca lúcido e capaz, D, Carlos, que apoiava um líder conservador, também lúcido e capaz – João Franco. Este tinha percebido que era preciso mudar “a direita”, renová-la, e trazer a comunidade e as novas classes para esse movimento.

A República jacobina foi copiada da França anticatólica de Émile Combes, com uma ideologia de modelo oitocentista. Afonso Costa era um caudilho dessa ideologia, um artista político que achava que a Igreja Católica e os padres, juntamente com a monarquia, eram os culpados do atraso nacional. “O jesuíta, eis o inimigo”, de Michelet, era o último grito, a novidade da esquerda do tempo, que, como sempre, se achava moderníssima.

O regime que instalaram foi o de um Centro-Esquerda puro e duro, convencido da sua legitimidade histórica, e que por isso reprimiu à direita e à esquerda, católicos e sindicalistas, e prendeu, por listas de suspeitos, aristocratas e grevistas.

Com a entrada na guerra em 1916, tornou-se muito impopular. Ao tempo, a tropa intervinha ainda na Europa, na política. Aqui, na República, os pronunciamentos foram contínuos. Sidónio Pais foi diferente: era mais do que um caudilho, era carismático e tinha uma ideia do país e para o país – levava os soldados, as mulheres e o povo atrás dele. Mataram-no, como tinham matado D. Carlos. A Esquerda sempre foi esclarecida e iluminada no reconhecimento dos seus inimigos – e expedita a passar a formas superiores de luta, quando não havia outra solução.

A Primeira República, com os seus 46 governos em 16 anos, pôs Portugal no mapa como o mais instável dos países europeus. Daí a conspiração e revolução militar de 1926, uma revolução de tenentes e capitães que foram buscar um general, para os respeitabilizar (um general impõe respeito ao povo e a burguesia fica mais sossegada). Assim, o general Gomes da Costa foi levado para Braga, para a proclamação da revolta. Não durou mais de um mês e uma semana, depois da vitória.

O poder militar ficou então como que um soviete de oficiais das tropas acampadas entre Sacavém e a Amadora. Aceitaram Carmona, que vinha de duas gerações de generais, era bem-educado e diplomata no trato; e em 1928, Carmona acabou por ser eleito popularmente – como tinha sido Sidónio – numa eleição a que concorreu sozinho.

Fernando Pessoa classificou o interregno entre o 28 de Maio de 1926 e a vinda de Salazar para poder, a 27 de Abril de 1928, como umdos períodos mais perigosos para a Nação que ela tem tido em sua longa vida”.

Salazar e os militares

Sempre segundo Pessoa, Salazar era “um homem de ciência, de trabalho e de poucas palavras”, com as virtudes opostas ao comum dos portugueses: “um espírito excepcionalmente claro” e “de uma vontade omnimodamente forte”. Fora trazido pelos militares e negociaria com eles um pacto de regime. Um regime marcado por aquilo a que reagia: a ordem da ditadura militar e da autoridade, contra a desordem da rua e do parlamento; as contas certas, contra uma dívida externa que trazia a dependência; o realismo do interesse nacional, contra as proclamações humanitárias e a demagogia do “Saúde e Fraternidade!”.

Na época havia várias direitas que se acharam vitoriosas na grande derrota da esquerda de 1926-1927: os integralistas, que queriam a restauração de uma monarquia com tintas medievalistas e regionalistas; os fascistizantes, que olhavam para a Itália da revolução mussoliniana como modelo; os católicos, que queriam de volta a aliança do Estado com a Igreja. Para não falar dos republicanos “conservadores” de Mendes Cabeçadas, que queriam a República sem os abusos dos democráticos de Afonso Costa e António Maria da Silva.

Salazar, com o apoio dos militares, impôs a sua forma e a sua fórmula: um Estado nacionalista na política, autoritário na prática e conservador nos costumes. Mas manteve as instituições da República e não restaurou a monarquia, nem acabou com a separação da Igreja e do Estado. E pela sua experiência da República, não sendo um teórico, à Maurras, da inviabilidade geral da democracia partidária, não a achava viável ou desejável em Portugal. Da Itália fascista copiou, nos anos trinta, o folclore das fardas e dos braços ao alto. Mas com discrição.

Nos anos que se seguiram, a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial serviram para justificar, em nome da Realpolitik e do interesse nacional, a não-restauração do sistema partidário. A Guerra Fria chegou depois oportunamente para que, graças ao anticomunismo, à NATO e a uma oposição doméstica ressentida e marginal onde os comunistas eram dominantes, os aliados anglo-americanos mantivessem o apoio ao autoritarismo do regime; ou melhor, ao regime, apesar do autoritarismo.

A vaga descolonizadora dos anos 1950/1960 marcou a direita portuguesa, como tinha marcado a francesa. Em 1958, o fenómeno Delgado mostrara que a burguesia das cidades e parte das classes médias – as novas gerações, que não tinham vivido a “balbúrdia sanguinolenta” da República, que liam Sartre e o L’Express e eram liberais – estavam a abandonar o regime. Mas em 1961, a guerra do Ultramar (que havia de ser o rastilho da queda do Regime anos mais tarde), prolongou a vida ao Estado Novo, por um reflexo de patriotismo de velha nação imperial – a República tivera muito apoio por causa do Ultimato e do Ultramar.

O regime estava desenhado e talhado à mão por e para Salazar e era difícil um sucessor mais diferente dele, em forma mentis e sobretudo em realismo e decisão, do que Marcelo Caetano.

Os militares tinham feito o regime, os militares o desfizeram. Foi uma conspiração desencadeada por razões corporativas, que se politizou através de alguns dos conspiradores. E a partir do 25 de Abril de 1974, como a partir do 28 de Maio de 1926, os militares ficaram à espera de um guia político. Há cem anos, chegara Salazar; há cinquenta foram as várias oposições de um anti-salazarismo crónico de décadas que procuraram preencher os espaços vazios nos cérebros dos membros da Junta, do MFA, do COPCON, da 5ª Divisão. Do que havia.

De tudo isso, depois de dois anos de caos e perigo em que as esquerdas se desforraram do jejum anterior, veio o centrão – socialistas e PSD. Que durou até hoje: a filosofia dominante continuou a da esquerda festiva, contente, com os partidos da “direita consentida” (com raras e breves excepções) a aceitar culturalmente os valores e a linguagem que a Esquerda lhe ia impondo. Na Constituição, nos media, nas universidades.

A nova vaga

Há cinco anos, a vaga de nacional-populismo que já chegara à Europa e à América, começou a chegar aqui. Vemos repetir-se o sentimento de cansaço e revolta que já liquidou outros regimes – a monarquia liberal, a república jacobina, o Estado Novo autoritário. Vemo-lo, não pela força dos carbonários, dos tenentes nacionalistas do 28 de Maio ou dos capitães de Abril. Vemo-lo pelo voto, o voto do povo.

Será um voto à direita? Terão estes eleitores alguma coisa que ver com a nostalgia institucional dos integralistas ou com o maurrasismo salazarista?

Para os inamovíveis juízes que desde o marcelismo estão presentes como formadores da opinião respeitável, têm que ver com tudo isso e muito mais. Têm que ver com tudo o que é mau, logo, com tudo o que é de direita ou, mais precisamente, de “extrema-direita”. São gentalha comprovadamente ignorante e ressentida capaz de transitar do “social-fascismo” para o “fascismo”; deploráveis que não sabem agradecer as condições de vida que lhes trouxe Abril nem apreciar a classe política que os governa; xenófobos incapazes de acolher com generosidade e sofisticação cultural as vagas de imigração vindas expressamente do Bangladesh, ou de onde seja, pela mão de mafias, para que o país funcione; proto-fascistas que desprezam a informação de referência e se deixam manipular pelas “redes sociais”, esses canais de fake-news dominados pela América de Trump, pela Rússia de Putin, pela França de Le Pen, pela Hungria de Orbán, pela Itália de Meloni.

Haverá, entre estes votantes, pessoas que sofram na pele o estado a que as coisas chegaram ou pessoas esclarecidas que olhem para os seus compatriotas que estão mal e pioram e achem que quem nos governa há cinquenta anos possa ter alguma coisa a ver isso? Parece que não. São só pessoas incompreensivelmente zangadas com a classe política, com a classe político-jornalística, com aquilo a que chamam a “ditadura intelectual das esquerdas” ou com o que dizem ser a inacção da “direita tolerada”. Pessoas do contra, sem programa e sem quererem saber de programas, gente que não vale o esforço de compreensão. Quando muito são uma nova vaga a combater, para que fique tudo bem, tudo na mesma.

Será difícil encontrar na História de Portugal uma classe política e político-intelectual mais ressentida do que a que veio da oposição ao salazarismo. Uma classe que há meio século se especializou em “lendas e narrativas” sobre o país e que, depois de cinquenta anos no poder, continua com uma inamovível “consciência de classe”. Dominante e dirigente.

A SEXTA COLUNA        HISTÓRIA        CULTURA

COMENTÁRIOS (de 24)

Luís Valentim: Este senhor é brilhante, culto e lúcido. Um gigante ao pé dos indigentes intelectuais que abundam por aí.                Paulo J Silva: Excelente uma vez mais. Estamos no fim de um ciclo e no início de outro. É um facto que muitos ainda se recusam a ver. Nada dura para sempre e o modelo que nos trouxe até aqui desde a revolução dos cravos está gasto e ultrapassado. Após meio século de Estado Novo e outro meio século de socialismo estamos a entrar numa outra fase onde, para já, por cá e em tantos outros países, crescem os movimentos nacionalistas conservadores.         Maria Nunes: Obrigada JNP por este brilhante artigo. A ler e reler.                 Coxinho: Simplesmente o habitual de JNP: nada de comum nem remotamente parecido com a escumalha pretensamente intelectual que vai sobrevivendo por aí e nada produz com utilidade para o país que a sustenta.                      Antonio Rodrigues: Artigo notável, a contrastar com a mediocridade reinante.                    Frederico Teixeira de Abreu: Muito obrigado pelo excelente artigo. Nunca é demais rever a nossa história política, porque nela se encontram muitos paralelos com os dias de hoje. Continue por favor!           Luis Mira Coroa: Espectacular artigo!                           Vítor Araújo > Luís Valentim: A síntese perfeita.          Antonio Almeida: O maior cego é aquele que não quer ver!!! A esquerda europeia tratou de “arrumar” os militares mas a actual conjuntura vai obrigar à sua reabilitação e todos sabemos que eles convivem mal com a indisciplina vigente.                       Manuel Magalhaes: Que boa leitura que nos esclarece e ao mesmo tempo nos interroga, bravo, Jaime e um abraço !!!         Rolando Lima: Brilhante análise.                Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!        Alexandre Barreira: Pois. Caro Jaime, Bela "resenha histórica". E tem toda a razão. Mudam os tempos...mudam as vontades. E tudo o resto é mera...."lenga-lenga".....!                     Vasco Silveira: Caro Sr. É sempre um gosto "falar" consigo, os seus ensaios, sobre o país e a sua história. Os seus leitores ser-lhe-ão sempre devedores de cultas e sensatas ideias. Mais uma muito obrigado; e cumprimentos.                   Paulo Cardoso > Luís Valentim: Nem mais.

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