Convergências
nos desígnios. O Estado é soberano, a Nação exige respeito.
Liberais
e nacional-populistas: uma aliança frágil
Assistimos a uma perversão do conceito de liberalismo, capturado por
agendas progressistas com aspirações hegemónicas que rejeitam e minam as bases
liberal-clássicas e liberal-conservadoras.
GONÇALO NABEIRO e ANDRÉ AZEVEDO ALVES ,CONVIDADOS
DA OFICINA DA LIBERDADE
OBSERVADOR, 13 jun. 2025, 00:1712
Os desenvolvimentos recentes na
administração norte-americana que conduziram à ruidosa cisão Trump-Musk,
colocam um facto em evidência: as alianças entre liberais/libertários e
nacional-populistas são inerentemente frágeis. O principal elo entre as duas correntes é
de natureza negativa: uma aliança forjada pela rejeição comum do status
quo. Mas esse elo não será por si só
suficientemente forte para que, no médio-longo prazo, essa aliança possa
resistir às diversas incompatibilidades ideológicas.
Primeiro, importa tentar compreender os
motivos que levam ao crescimento da direita nacional-populista ou pós-liberal. O que não é, de todo, um exercício simples. Cada país
e cada movimento tem as suas particularidades que merecem uma abordagem
pormenorizada. Mas há uma questão transversal a todos eles: a crise do
liberalismo. Tanto na
Europa quanto nos Estados Unidos assistimos, ao longo dos últimos anos,
a uma perversão do próprio conceito de
liberalismo, que tem sido gradualmente capturado por agendas progressistas
com aspirações hegemónicas que rejeitam e minam as bases liberal-clássicas e
liberal-conservadoras. O
liberalismo, entenda-se, sempre teve dimensões e variantes mais progressistas,
mas o processo através do qual o progressismo se tornou a interpretação liberal
hegemónica teve gravíssimas consequências para o próprio liberalismo. A
acomodação, o oportunismo ou simplesmente erros do ponto de vista
intelectual e ideológico foram os
propulsores da falência liberal que, naturalmente, abriram caminho para uma reacção
nacional-populista a um Leviatã Global.
Leviatã
este que se tornou cada vez mais forte muito por culpa de liberais e de membros
do centro-direita (muito para além, portanto, dos partidos que se
afirmam nominalmente “liberais”, ainda que estes sejam regra geral também parte
do problema), que lograram descredibilizar a globalização, um
conceito crucial para o desenvolvimento e para a prosperidade mundial,
fazendo-a equivaler a um sinónimo de globalismo. Por isso, não deixa de ser
importante sublinhar que globalização
e globalismo não são, de
todo, conceitos que devam ser utilizados indistintamente. Uma ordem internacional norteada pelos
princípios do liberalismo clássico e do liberalismo-conservador rejeita e
transcende a dicotomia globalismo/nacionalismo. Uma dicotomia que é falsa, uma vez que é possível,
como a história já demonstrou, um mundo com uma pluralidade de entidades
políticas soberanas e independentes que se relacionam voluntariamente entre si
através do mecanismo do livre comércio, rejeitando um conceito de
supranacionalidade hipertrofiada. Assim, aprofunda-se a interdependência
económica e criam-se condições para o
desenvolvimento e a prosperidade global, uma contenção mais eficaz a possíveis
conflitos armados e a movimentos migratórios descontrolados do que quaisquer
organizações burocráticas supranacionais – a solução favorita dos globalistas.
O que suscita uma outra questão
inevitável: a imigração. Mais uma vez, o liberalismo-conservador rejeita a dicotomia
nacionalismo/globalismo. A imigração é genericamente benéfica e
estimula o desenvolvimento e a inovação, é um facto, mas com a condição
imperativa de ser controlada e regulada em função das condições sociais e
culturais do país de acolhimento. Caso
contrário, a coesão social fica em xeque e surgem tensões múltiplas (culturais,
securitárias, fiscais, nos serviços públicos) em Estados que já submetem os
cidadãos a um sistema de impostos asfixiante. Foi também pelo fracasso de não reconhecer este problema evidente
que a porta
ficou escancarada aos nacionalismos, que souberam cavalgar a onda de
insatisfação popular.
A
resistência protagonizada pelos nacional-populistas a um sistema dominado pela agenda woke, mesmo que não
necessariamente coerente ou bem orientada, é saudável e desejável. E é
precisamente essa resistência que conduz os liberais (ou pelo menos os liberais não capturados pelo wokismo) e os nacional-populistas
a uma aliança. A natureza liberal é contrária a esta omnipresença
doutrinária nos sectores fundamentais da sociedade que, no seu estágio
final, conduz à censura nas universidades e nas redes sociais, ao controlo dos
órgãos de comunicação social e leva grandes empresas a adoptar agendas LGBT,
DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) e ESG de forma acrítica, temendo alguma
forma de punição directa ou indirecta em caso de incumprimento. Como bem
realçou Dalmacio
Negro Pavón na sua obra La
Tradición de la Libertad, “a reacção
liberal hoje deve ser, antes de mais, contra o pseudo-liberalismo estatista, cujo
método é o da mentira e da propaganda” e contra
a “neutralidade” que nada mais é que “uma obnubilação da consciência para a
qual «vale tudo» porque tudo se equivale”. Ora é precisamente por
via deste sentido de necessidade e urgência de oferecer uma resposta unida e
firme a esta deriva censitária que os liberal-conservadores e os nacional-populistas
estão do mesmo lado nesta guerra cultural.
No entanto, sendo certo que esta
necessidade os une, é também verdade que outras abordagens e visões criam
incompatibilidades que, mais cedo ou mais tarde, tenderão a levá-los à ruptura.
Os pontos de tensão são vários, mas pode encontrar-se um denominador comum a
todos eles: o Estado. Mais precisamente, o papel que este deve desempenhar na ordem política. Enquanto para os nacional-populistas o Estado
representa um veículo essencial para levar a cabo um programa político focado
no interesse nacional, sendo, por isso, necessário fortalecê-lo para intervir
em vários sectores considerados fundamentais, para os liberais o Estado é um
mecanismo que deve existir fundamentalmente para garantir que a liberdade
individual não seja conculcada. O que não significa que os liberais
não valorizem a ordem e a segurança. Pelo contrário. Sem estes dois princípios,
uma ordem política liberal não pode existir. A diferença fundamental reside no facto de que, para os liberais,
ordem e segurança são meios para atingir um fim político fundamental, i.e., a
liberdade, enquanto para os nacionalistas podem ser um fim em si mesmo, ao qual
a liberdade deve estar subordinada. Esta incompatibilidade foi
explicada de forma resumida, mas irrepreensível, por Juan
Ramón Rallo: “Para o
liberalismo, o sujeito de soberania é o indivíduo, de modo que são os
indivíduos que têm direitos inalienáveis perante qualquer colectivo que
pretenda conculcá-los, e são os indivíduos que, além disso, constituem as
comunidades políticas por meio da sua associação voluntária; para o
nacionalismo, por sua vez, o sujeito de soberania é a nação, por isso, são as
nações que têm direitos perante qualquer outra entidade que pretenda
conculcá-los – incluindo os indivíduos”.
Um dos vectores onde esta tensão se
revela particularmente nítida é na economia. Por
exemplo, J. D. Vance, o
vice-presidente dos EUA e um dos rostos principais do pós-liberalismo,
vem demonstrando repetidamente que é adepto do intervencionismo estatal: do aumento do salário mínimo ao proteccionismo,
a agenda económica de Vance encontra-se alinhada de perto com a de muitos
socialistas (ainda que nem Vance nem os socialistas o desejem reconhecer).
Estamos perante um nacionalismo
económico, doutrina com a qual, naturalmente, nenhum liberal
clássico/conservador pode simpatizar. Neste aspecto, a presunção ou
arrogância fatal (para invocar Hayek)
dos socialistas progressistas não é fundamentalmente diferente da dos
nacional-populistas, ainda que os seus objectivos possam ser nominalmente
distintos. As manipulações impostas pelo Estado sobre a economia
minam um dos princípios fundamentais do liberalismo, a ordem espontânea, que se tem revelado sistematicamente superior
a uma ordem planificada do topo para a base.
A questão do proteccionismo merece
especial destaque. Primeiro, porque trata de uma abordagem ao livre comércio diametralmente oposta à defendida pelos
liberais. Depois,
porque foi a partir do “Dia da Libertação” – no qual Donald Trump lançou um
extenso pacote de barreiras comerciais – que o distanciamento entre Musk e o
Presidente começou a ganhar forma. Enquanto
Trump proclamava que o país se tornaria de novo independente e que a
prosperidade para o povo americano estava agora mais perto, Musk partilhava, no
seu X, um vídeo icónico de Milton Friedman, onde explica que a mão invisível e o livre mercado são fundamentais até para a produção de um simples
lápis.
Face à pujança dos movimentos
nacional-populistas e à crescente popularidade das ideias pós-liberais, a sua
adequada compreensão – sem demonizações simplistas, mas também sem adesões
ingénuas – é fundamental. E, neste contexto, os liberais dos dias de hoje
enfrentam um duplo desafio: reconhecer
e enfrentar de frente a crise do liberalismo que se deixou capturar e
instrumentalizar por correntes estatistas, progressistas e woke ao mesmo tempo
que conseguem construir e articular uma crítica construtiva aos aspectos mais
perigosos do pós-liberalismo, impedindo assim que este triunfe entre as ruínas
liberais. É esta a grande missão liberal dos nossos tempos.
Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores
dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela
totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não reflectem necessariamente uma
posição da Oficina da
Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum
de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os
membros da Oficina da Liberdade e os seus autores
convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.
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