sábado, 7 de junho de 2025

«Zangam-se as comadres…


Descobrem-se as verdades.» Entre as palhaçadas provocatórias de Trump e as crueldades pedantes de Putin só talvez o Juiz Hélder Fráguas do programa A SENTENÇA” da TVI estará em condições de ditar o réu que ele absolveria nestas histórias de sordidez a que se alia um tal Musk igualmente ditador perverso num mundo de loucura – ou palhaçada – grandiosas… Ou talvez não. Parece-nos, isso sim, regressar aos desafios da infância, com as suas histórias de bruxedos e madrastas más não tão irreais assim, pois até metem os mesmos fogos que foram perseguindo os povos, e permanecem mais assanhados do que nunca, por lá, por cá…


Elon Musk e Donald Trump na Sala Oval da Casa Branca em fevereiro, quando ainda eram aliados próximos

Musk vs Trump, o minuto a minuto de um divórcio em directo

Texto

Musk segue o modus operandi habitual e utiliza (sempre) a rede social X. Trump contra-ataca com declarações à imprensa e partilhas na Truth Social. A linha do tempo da zanga entre os outrora aliados.

06 jun. 2025, 20:10

O desgaste era notório há semanas, mas nas últimas horas a relação parece ter acabado de vez. Donald Trump e Elon Musk passaram de aliados próximos a protagonistas de um bate-boca público, marcado por críticas mútuas e acusações de mentiras. Na base do atrito, que se faz entre a rede social X, a Truth Social e declarações aos jornalistas a partir da Casa Branca, está um projecto de lei — conhecido como “One Big Beautiful Bill” — que prevê cortes orçamentais e isenções fiscais.

O documento, que foi aprovado na Câmara dos Representantes mas ainda tem de passar pelo Senado, conta com o apoio do Presidente norte-americano. Já o multimilionário considera que contribui para o aumento do défice do país e prejudica o trabalho efetuado pelo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), que liderou até ao final de maio.

E é precisamente no final de maio que surgem as primeiras críticas públicas de Musk. Numa entrevista à CBS News, o empresário mostrou-se “decepcionado” com o projecto de lei, que descreveu como “dispendioso”. À medida que as suas palavras contra o documento continuaram a surgir (e subiram de tom), Donald Trump manteve-se num silêncio atípico, que só foi quebrado esta quinta-feira.

Na “guerra”, Elon Musk segue o modus operandi habitual e recorre à rede social X, que detém, para publicar todas as mensagens. Donald Trump contra-ataca com declarações aos jornalistas a partir da Casa Branca e em partilhas também feitas numa plataforma que detém, a Truth Social. Eis uma cronologia com os principais posts que marcam a zanga.

Terça-feira, 3 de junho. 18h31

“Sinto muito, mas não aguento mais”. Musk parece fazer um desabafo e descreve o projeto de lei apoiado por Trump como “ultrajante” e uma “abominação repugnante”. “Os que votaram a favor deviam ter vergonha: vocês sabem que erraram. Vocês sabem disso”, acusa.

Quarta-feira, 4 de junho. 18h57

Pouco mais de 24 horas depois, uma nova tirada. O empresário pede que seja elaborado um novo projeto de lei que “não aumente massivamente o défice e não aumente o limite da dívida em cinco BILIÕES DE DÓLARES”.

Quarta-feira, 4 de junho. 19h07

Foram precisos apenas dez minutos para que Musk voltasse a falar sobre o assunto. Em resposta a uma publicação que sugere que o empresário está contra o projeto de lei por ter “anulado” o seu trabalho no DOGE, sem que existam necessariamente outros motivos (como uma possível “retaliação”), o multimilionário parece concordar. “[O projeto] é mais do que suficiente para anular todas as reduções de custos realizadas pela equipa do DOGE, alcançadas com grande custo pessoal e risco”, afirma.

Quarta-feira, 4 de junho. 19h50

Segue-se um apelo ao boicote da votação no Senado, com Musk a pedir aos cidadãos para contactarem os congressistas com o objetivo de “MATAR a LEI”.

Quinta-feira, 5 de junho. 15h52

É o dia em que o bate-boca público entre Musk e Trump começa. A primeira publicação do empresário sobre o tema é feita ao início da tarde (hora portuguesa) para concordar com um utilizador do X que alega que a “maioria” dos eleitores republicanos defende uma redução do projeto de lei. “Sim”, escreve simplesmente Musk na resposta.

Quinta-feira, 5 de junho. 16h20

Cerca de meia hora depois, o empresário faz uma viagem no tempo e começa a responder a publicações antigas de Trump. Partilha um post do agora líder norte-americano, que data de 2013, a criticar os republicanos por estarem a “alargar o limite máximo da dívida” (dizendo-se “envergonhado”), e classifica as palavras, com mais de uma década, como “sábias”.

Quinta-feira, 5 de junho. 16h46

Musk vai ainda mais atrás, até 2012, e diz que não “podia concordar mais” com palavras de Trump, quando o atual Presidente norte-americano escreveu que “nenhum membro do Congresso deve ser elegível para uma reeleição” se o orçamento dos EUA não estiver equilibrado.

Quinta-feira, 5 de junho. 17h

Trump responde pela primeira vez, a partir da Casa Branca, às mensagens deixadas por Musk. “O Elon e eu tínhamos uma grande relação. Não sei se vamos continuar a ter”, afirma, declarando estar “muito desiludido”. O Presidente dos EUA diz também que o seu outrora aliado está contra o projeto de lei por prever cortes nos subsídios aos veículos elétricos e atribui ainda a zanga a uma outra decisão: a retirada do nome de Jared Isaacman (aliado de Musk) de administrador da NASA.

Quinta-feira, 5 de junho. 17h19

Musk reage às declarações de Trump: “Tanto faz. Mantenham os cortes aos incentivos a veículos elétricos/solares no projeto, apesar de os subsídios ao petróleo e ao gás nem terem sido tocados (muito injusto!!), mas livrem-se da MONTANHA de CARNE NOJENTA”. Segundo a BBC, “pork” (uma das palavras que faz parte da expressão) costuma ser utilizada no cenário político norte-americano para descrever gastos governamentais que podem ser considerados como supérfluos, que só agradam a determinados grupos e/ou regiões.

Quinta-feira, 5 de junho. 17h25 (aproximadamente)

Enquanto Elon Musk escreve no X, Trump fala com os jornalistas e diz que o empresário “conhecia este projeto”. “Conhecia-o melhor do que ninguém e nunca teve problemas até depois de sair [do DOGE].”

Quinta-feira, 5 de junho. 17h25

O multimilionário desmente o Presidente norte-americano. “Falso, este projeto de lei não me foi mostrado uma única vez e foi aprovado [na Câmara dos Representantes] pela calada da noite tão rápido que quase ninguém no Congresso o pôde ler”, acusa.

Quinta-feira, 5 de junho. 17h44

“Onde é que está este tipo hoje??”. É a questão que Musk deixa ao responder a uma publicação que recupera posts antigos de Trump — feitos entre 2011 e 2015 — em que este defende, por exemplo, que “o Congresso não tem disciplina fiscal”, que Barack Obama estava a levar os EUA “à falência” ou que “os políticos não têm vontade de cortar nas despesas”.

Quinta-feira, 5 de junho. 17h46

Donald Trump diz que teria vencido na Pensilvânia, o maior dos estados imprevisíveis (os designados swing states), nas presidenciais norte-americanas de novembro independentemente do apoio de Elon Musk. O empresário responde: “Sem mim, Trump teria perdido as eleições, os democratas controlariam a Câmara dos Representantes e os republicanos teriam [uma maioria] de 51-49 no Senado.”

Quinta-feira, 5 de junho. 18h38

Musk partilha uma publicação com um vídeo antigo de Trump a promover a Tesla (e os carros que fabrica) na Casa Branca e em que se ouve o líder norte-americano a dizer que o empresário “nunca” lhe pediu nada. “Lembras-te disto, Donald Trump?”, questiona o dono da fabricante de veículos elétricos.

Quinta-feira, 5 de junho. 18h44

Em vez de “One Big Beautiful Bill”, Musk designa o projeto de lei como “The Big Ugly Bill” (qualquer coisa como “uma lei grande e feia” em português) e considera que “vai AUMENTAR o défice para 2,5 biliões de dólares!”.

Quinta-feira, 5 de junho. 18h49

Musk volta a partilhar publicações antigas de Trump no X, nas quais o actual Presidente norte-americano dizia que o défice não deveria ser “permitido”, para questionar: “Onde está o homem que escreveu estas palavras? Foi substituído por um duplo?”.

Quinta-feira, 5 de junho. 18h57

Nem cinco minutos depois, o empresário publica uma sondagem para questionar os seguidores se deveria criar um novo partido político nos EUA que represente aqueles que estão no “meio” (os centristas). Até ao momento da publicação deste artigo, conta com mais de cinco milhões de votos e a opção “sim” está a vencer, com mais de 80%.

Quinta-feira, 5 de junho. 19h23

Musk volta a alegar que os membros do Congresso, que tiveram de votar o projecto de lei, não tiveram “tempo” para lê-lo.

Quinta-feira, 5 de junho. 19h37

Depois de muitas reacções de Elon Musk, Donald Trump volta a pronunciar-se. Desta vez, através da Truth Social. Numa publicação, diz que o empresário está “louco” e volta a defender que o motivo da zanga está relacionado com a decisão de recuar em políticas que beneficiavam a venda de carros eléctricos.

Num outro post, partilhado exactamente no mesmo minuto do anterior, o Presidente norte-americano escreve que a “maneira mais fácil de poupar dinheiro” do orçamento, “milhares e milhares de milhões de dólares”, é “acabar com os subsídios e contratos governamentais de Elon [Musk]”. “Sempre me surpreendeu o facto de Biden não o ter feito”, escreve, após ameaçar cancelar os contratos estatais com as empresas de Musk.

Quinta-feira, 5 de junho. 19h45

Musk volta a recuperar declarações antigas do outrora aliado, desta vez sobre Jared Isaacman (uma figura que também será um dos motivos para o escalar da zanga). Na publicação, de dezembro de 2024, Trump nomeia Isaacman como administrador da NASA e descreve que será responsável por liderar a missão da agência, “abrindo caminho para conquistas inovadoras na ciência, tecnologia e exploração espacial”.

Foi isto que ele disse sobre o Jared”, lembra Musk, fazendo indirectamente menção ao facto de o líder norte-americano ter retirado a nomeação em questão.

Quinta-feira, 5 de junho. 19h48

Três minutos depois, uma resposta directa às declarações de Trump de que não concordaria com o projecto de lei por causa das medidas previstas para o sector dos veículos eléctricos: “Uma mentira tão óbvia. Muito triste.”

Quinta-feira, 5 de junho. 20h10

Vinte minutos depois, a revelação de uma “grande bomba” (ainda que sem apresentar provas que atestem o que alega). Musk diz que “Donald Trump está nos ficheiros Epstein” e que “esta é a real razão pela qual nunca foram tornados públicos”.

O multimilionário referia-se às acusações de tráfico sexual e abuso de menores contra Jeffrey Epstein, um empresário norte-americano que tinha ligações a figuras influentes da política norte-americana e que morreu em agosto de 2019, mais de um mês após ter sido detido.

Dez minutos depois, Musk deixa um comentário na própria publicação para dizer que “a verdade há-de vir ao de cima”.

Quinta-feira, 5 de junho. 21h06

Na Truth Social, uma vez mais, Trump diz não se importar que Musk se vire contra ele, mas considera que isso já deveria ter acontecido “há meses”. E volta a defender o projecto de lei que prevê cortes orçamentais e isenções fiscais: “É um corte recorde nas despesas, 1,6 biliões de dólares, e o maior corte de impostos alguma vez feito. Se este projecto de lei não for aprovado, haverá um aumento de impostos de 68% e coisas muito piores. Não fui eu que criei esta confusão, só estou aqui para consertá-la.”

Quinta-feira, 5 de junho. 21h09

Perante a ameaça de Trump quanto aos contratos entre as suas empresas e o estado norte-americano, Musk anuncia que “vai começar imediatamente a desactivar a nave espacial Dragon”, da SpaceX, utilizada, em parceria com a NASA, para colocar astronautas norte-americanos na Estação Espacial Internacional. Acabaria por apagar essa mensagem do X na tarde desta sexta-feira.

Quinta-feira, 5 de junho. 21h26

Minutos depois, um novo alvo: as tarifas. Em resposta a Shibetoshi Nakamoto (pseudónimo utilizado por Billy Markus, um dos criadores da criptomoeda dogecoin) que classifica as tarifas como “estúpidas”, o multimilionário afirma que estas “vão causar uma recessão no segundo semestre do ano”. Recorde-se que, desde que chegou ao poder, para assumir um segundo mandato enquanto Presidente norte-americano, Trump tem vindo a adoptar tarifas contra vários parceiros comerciais dos EUA, como a China.

Quinta-feira, 5 de junho. 21h43

Depois de ligar Trump aos “ficheiros Epstein”, Musk partilha um vídeo que mostra o líder norte-americano junto a esse empresário numa festa em 1992. Junto às imagens, coloca um emoji a levantar a sobrancelha.

Quinta-feira, 5 de junho. 23h48

A resposta às alegações de Musk que envolvem Epstein chega pela voz de Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca. “Este é um episódio infeliz de Elon, que está descontente com o One Big Beautiful Bill porque não inclui as políticas que ele queria. O Presidente está concentrado em aprovar este projecto de lei histórico”, afirma, num comunicado enviado à CNN.

Sexta-feira, 6 de junho. 2h20

Depois de uma tarde e noite marcadas por trocas de acusações, Musk continua a publicar no X durante a madrugada. Passava pouco das 2h (em Lisboa) quando voltou atrás na decisão de desactivar a nave espacial Dragon, da SpaceX. Foi após um “bom conselho” de um utilizador, que descrevia o bate-boca como uma “vergonha” e que pedia tanto ao empresário como a Trump para se “acalmarem” e afastarem durante uns dias, que a decisão foi tomada.

Sexta-feira, 6 de junho. 2h21

Um minuto depois, Musk deixa o último aviso da noite relacionado com os gastos dos EUA: “Se a América falir, nada mais interessa.”

Sexta-feira, 6 de junho. 13h21

Após uma pausa durante a madrugada, Donald Trump volta a falar de Musk. Em declarações à CNN, o Presidente norte-americano diz que não está a “pensar” no multimilionário e que não vai falar com o outrora aliado no futuro próximo. “Ele tem um problema. O pobre coitado tem um problema”, afirma, num dia em que surgem rumores de que estará a considerar vender ou doar o Tesla vermelho que comprou em março (naquela que foi uma demonstração de apoio à empresa do multimilionário).

Sexta-feira, 6 de junho. 17h37

A ‘palavra final’ está, para já, do lado de Elon Musk. Na tarde desta sexta-feira, o empresário reagiu com “exactamente” a uma publicação em que um utilizador que escreveu: “Elon criticou o Congresso, não Trump. Depois, Trump atacou Elon pessoalmente.”

 

Nenhum comentário: