Este texto de JOSÉ DIOGO QUINTELA, se não fosse a sua
condição de fazer ir antes às lágrimas reais, dados os pormenores implicativos do nosso burlesco de sempre
… Finório? Chocante, de certeza.
O lago dos patos
É curioso que um país que dobrou o
Cabo Bojador, o Cabo das Agulhas ou o Cabo da Boa Esperança, veja os seus
navios parados pelo cabo de alimentação.
JOSÉ DIOGO QUINTELA Colunista do Observador
OBSERVADOR, 03 jun.
2025, 00:1632
Com
a comoção eleitoral que se viveu em Maio, entre o resultado histórico do Chega
e o resultado histórico do PS, passou despercebido um novo capítulo da gloriosa
epopeia fluvial portuguesa. Ao contrário da epopeia marítima, a epopeia fluvial não se cobre de glória.
Merecia, provavelmente, um cronista que redigisse a História
Cómico-Fluvial. Desta feita, revelou-se que os célebres barcos eléctricos encomendados para fazer a travessia do
Tejo, afinal são mais apropriados para navegar em lagos. As condições do estuário, com marés e
ondulação, não são propícias para estes cacilheiros de água doce. Isto
que a Transtejo fez é como se a TAP comprasse aviões que não podem atravessar
nuvens.
É estranho. Há 500 anos, tínhamos
naus que faziam 11 mil km até ao Japão. Agora, é com muita dificuldade que
fazemos 11 km até ao Barreiro. As
diferenças de perspectiva são um fenómenos fascinante: tanto fazemos do
Atlântico um charco, como tornamos o Mar da Palha um oceano.
Repetindo o que já fiz quando aqui relatei
o caso dos navios pela segunda, terceira e quarta vez, julgo que é importante
recordarmos alguns dos acontecimentos mais marcantes desta gesta.
Em Outubro de 2020, o então Ministro do Ambiente, Matos Fernandes, anunciou que Portugal ia estar na linha da
frente da transição energética com a encomenda de barcos eléctricos para
fazerem a travessia do Tejo. Em
Março de 2023, o Tribunal de Contas considerou o negócio irracional, porque os barcos tinham sido adquiridos
sem as baterias e obrigou a Transtejo a fazer novo concurso para as
comprar, o que acabou por encarecer o
negócio. No mesmo
mês, soube-se que o primeiro navio a chegar vinha com estragos.
Já em 2024, a notícia era a
dificuldade em licenciar as estações de carregamento e ligá-las à rede
eléctrica, o que fez com que as baterias fossem carregadas
com geradores a gasóleo. É
curioso que um país que dobrou o Cabo Bojador, o Cabo das Agulhas ou o Cabo da
Boa Esperança, veja os seus navios parados pelo cabo de alimentação.
Agora percebe-se que, para além disto
tudo, os barcos não foram feitos para
estas águas. Ou seja, mesmo quando houver baterias, cais de carregamento
licenciados e ligação à rede eléctrica, os barcos não vão ter grande serventia.
É uma pena, porque são embarcações
muito bonitas e amigas do ambiente. Basta consultar a página da
Transtejo, que não consegue esconder o entusiasmo com o que significa esta
mudança. Segundo a empresa, “o plano de renovação da frota Transtejo é uma
decisão de um alcance estratégico
inquestionável para toda a Área Metropolitana de Lisboa”. E o termo
é mesmo esse: “inquestionável”, porque
vê-se que, antes de avançar, ninguém
fez a pergunta básica: “Estes barcos dão para aqui?”
No entanto, até ao dia de hoje, o
sucesso da passagem da frota para 100% eléctrica ainda não é total. De acordo
com Transtejo, nem todos os principais objectivos foram cumpridos ainda:
1) Eliminar
a emissão de C02 no Transporte Público – até agora não foi conseguido: com a
supressão de viagens, os passageiros ficam no cais a bufar, um tipo de
respiração que emite muito mais dióxido de carbono;
2) Incrementar
significativamente a qualidade do serviço prestado nas ligações fluviais de
Cacilhas, Montijo e Seixal – aqui julgo que há um erro ortográfico: escreveram
“incrementar” em vez de “excrementar”;
3) Melhorar a experiência da viagem
fluvial – este objectivo foi alcançado com mestria: como é que se melhora o que não existe? Continuando a não existir,
mas pagando mais caro;
4) Elevar
os actuais padrões de comodidade, conforto e segurança – objectivo cumprido a
50%: estar horas em pé à espera do cacilheiro não é confortável, mas é muito
mais seguro. Impossível
naufragar;
5) Reduzir
os actuais custos de manutenção – este objectivo foi ultrapassado. Se os barcos não navegam, não se gastam. Logo não
necessitam de manutenção.
Onde a Transtejo marca pontos é na comunicação e imagem. Para
mostrar a sustentabilidade da nova frota e a sua ligação à natureza, cada barco foi crismado com nomes de aves
autóctones. Temos a cegonha, a garça, o flamingo e o íbis, entre outras. Porém,
conspícua pela sua ausência, está a ave que, nestes casos de prodigalidade com
dinheiros públicos, assume sempre o maior destaque: o pato. O que não se entende, pois é
quase símbolo nacional. Pelos últimos censos, há cerca de 10 milhões no país.
Há uma segunda ave que também merecia honras de baptismo, devido à motivação de todos os que, pela
sua vontade de parecer bem, contribuíram para esta medida: o pavão. Ou, em alternativa, por agora estarem à
assobiar para o ar como se não fosse nada com eles, o canário.
Este
caso tem o potencial de ser o maior escândalo financeiro em Portugal com barcos
eléctricos. Ou, quando o primeiro navio naufragar por causa de uma ondinha mais
forte, o segundo maior escândalo financeiro em Portugal com submarinos.
TRANSTEJO TRANSPORTES
PÚBLICOS TRANSPORTES ECONOMIA
COMENTÁRIOS (de 32)
D S: Um dos problemas de Portugal é
que há muitas transtejos. Sorvedouros de dinheiros públicos geridos por
incompetentes e filiados nos partidos, que depois usam o argumento do serviço
público para tentar justificar a permanência destas empresas que de nada servem
aos portugueses. De facto é uma vergonha. Rui Pedro
Matos: Bota-que-tem! É a anormalidade de quem gere para os outros pagarem. Para
cúmulo, recebem um ordenado chorudo! Uma
das razões para a Queda das Nações....incompetência e displicência! Antonio
Rodrigues: Muito bom. Já alguém pensou uma lei que responsabilizasse pessoalmente e
financeiramente quem tomasse estas decisões? Rosa Lourenço:
Alguém será
responsabilizado pela decisão tomada? Terá sido, certamente, o operário de
saneamento (haverá esta designação?). Lápis
Afiado: Esse matos
desfernandes devia ser obrigado a atravessar todos os dias o Tejo ...num barco
a remos... …A
Sameiro > Ruço Cascais: Estou de acordo!! Ou fazer um
barco novo de raiz!!!! Luis Silva "as baterias fossem
carregadas com geradores a gasóleo" 100%
amigo do ambiente. Maria Tejo
> Rosa Lourenço: Hum….parece-me que a
responsabilidade só pode ser do… Tejo. É um rio e deveria ser um lago!
S Belo: Excelente! Manuel
Magalhaes: Divertido e trágico retrato da imbecilidade Xuxa!!! Francisco
Ramos: Negócios "à
socialista". Como é que ainda há mais de 20% a acreditar nesta
gente é que me surpreende. Metade eu ainda
compreendo, São os que estão envolvidos
nestas negociatas. Os outros 10% é que só
por ingenuidade se pode compreender. Alexandre Barreira: Pois.
Caro Quintela, Não está mal. Mas título deveria ser O LAGO DOS PATEGOS....!
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