É o que se leva das nossas vidas, afinal. Mais fritos do que flores,
talvez, o que nem é mal, por via das fomes que grassam por aí.
Flores e Fritos
Os opositores oferecem por sistema flores aos seus opositores. A um
estranho essas flores parecerão crispadas. Mas não é justamente o cheiro a
fritos um sinal de chamada?
MIGUEL TAMEN
Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da
Literatura) na Universidade de Lisboa
OBSERVADOR, 22
jun. 2025, 00:151
A expressão antiquada ‘jogos florais’ parece aludir a concursos de
flores; era no entanto usada para referir outras actividades públicas de tipo
verbal, como concursos de poesia em cidades pequenas. Existem
mais palavras cuja história combina flores e actividades verbais, como ‘antologia’ e ‘florilégio:’ e são todas parentes próximas da palavra
‘elogio’. Somos irresistivelmente levados a pensar na amabilidade que
reina na vida pública. O mundo seria muito pior se as pessoas que se movem em
público através de actividades verbais fossem menos agradáveis umas com as
outras.
À primeira vista no entanto não é essa a
impressão que temos. A impressão que temos é a de que quem escreve e lê o
que os outros dizem, ou seja, escritores, gestores, políticos, técnicos,
oradores, artistas e em particular os membros anónimos do público não são muito
agradáveis entre si. São
frequentes as polémicas e os desaguisados, as alusões envenenadas, os artigos
indefinidos, os condicionais e as perífrases difusas, que espalham as suas
radiações por quem lhe acontece estar presente por acaso.
A impressão dessa primeira vista, como acontece
tantas vezes, é porém enganadora. As radiações são inócuas. Ao princípio os
visados podem sentir uma certa sensação de ardor, mas depois passa com o hábito.
É um erro confundir uma bomba de mau-cheiro com uma bomba atómica. A nuvem
parece igual, o efeito imediato faz adivinhar cataclismos, mas a deusa que se
oculta por trás é diferente. Deplora-se universalmente a crispação (para usar o
termo técnico, que evoca um cheiro delicioso a fritos estaladiços), mas por
trás da crispação existe uma paisagem amável.
A amabilidade da vida pública
consiste na maneira como pessoas diferentes dizem umas às outras as coisas que
cada um imagina que lhe possam ser ditas, e para as quais teve tempo para se
preparar. Os
opositores oferecem por sistema flores aos seus opositores; acorrem sempre às
suas chamadas; espreitam pelas janelas; e ficam à espera de os seus opositores
fazerem o mesmo, para lhes poderem voltar a fazer o mesmo. A um
estranho essas flores parecerão crispadas. Mas não é justamente o cheiro a
fritos um sinal de chamada? Na vida pública o que se diz é menos importante
do que se pensa.
A vida pública depende de uma combinação de flores e fritos;
consiste em agradar aos outros e por isso em falar dos outros: não apenas em tentar persuadir os
impersuadíveis, e em impressionar os impressionáveis, mas em adivinhar os
piores pensamentos dos outros antes de eles lhes ocorrerem; e lisonjeá-los como
um cartomante ou uma psicóloga. É universalmente reconhecido que nada
agrada mais que os fritos, isto é, que a crispação. A crispação é
assim um meio importante de adulação. E não parece haver grande alternativa. Poderíamos anunciar ao público que não
trabalhamos no ramo da distribuição de flores; mas isso iria aumentar a
crispação, e seria contraproducente.
COMENTÁRIOS:
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Assinante: Hoje o artigo do
senhor Miguel Tamen não é sobre o erro máximo? Confesso que sou apreciador.
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