sábado, 31 de maio de 2025

Não havia necessidade

 

De tanto desprezo enérgico pelos lusitanos, num discurso de ferocidade sagaz mas que entristece, na sua tão alterosa veemência competente. Por isso, releio a BALADA DA NEVE, a afundar-me nesse aspecto miserabilista e piedoso lusíada, de um sentimentalismo, inerte embora, de tuga compassivo e modesto:

Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.

Fui ver. a neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los,
Primeiro, bem definidos,
Depois, em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza
E cai no meu coração. AUGUSTO GIL.

Uma bolha de pelintras

As personagens da imaginária “bolha” são tão ou mais rústicas quanto o “tuga” que fingem desconhecer. Não há “bolha”: há “tugas” sem noção do ridículo nem escrúpulos.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 31 mai. 2025, 00:20

Na semana passada, os especialistas já haviam descoberto que o eleitorado do continente e ilhas é impreparado e racista. Agora os especialistas confirmaram que os portugueses que moram e votam no estrangeiro também são impreparados e racistas. Num ápice, as multidões de jovens promissores e geniais escorraçadas um dia por Pedro Passos Coelho transformaram-se em burgessos que atribuem mais dois deputados ao Chega. Um especialista, comentador da bola que em tempos o PS naturalmente resgatou para a “cultura”, traçou com densidade o perfil social, académico e profissional dos emigrantes que votam no Chega: são boçais e desqualificados. Outros especialistas não foram tão suaves e desataram mesmo a questionar a pertinência de os emigrantes, com “e”, esses “chupistas” (cito um especialista amador, cônjuge de uma especialista profissional) que não descontam cá dentro e “parasitam” Estados lá fora, poderem continuar a votar.

É interessante notar que a súbita sanha contra os emigrantes com “e” está normalmente a cargo dos maiores entusiastas ao acolhimento de imigrantes com “i”. Não é por nada, mas começo a ter a impressão de que o problema dos especialistas é com os portugueses “nativos” em geral, residam eles no Cacém ou em Carcassonne – ou pelo menos com os portugueses “nativos” que votam “mal”, em lugar de votar “bem”. Se virmos com atenção, os especialistas só têm um problema com os cidadãos que votam conforme lhes apetece e não como os especialistas recomendam. Se os resultados eleitorais coincidissem com a vontade dos especialistas, não haveria problema nenhum. A não ser, claro, o problema dos próprios especialistas.

A fim de explicar a cósmica discrepância entre os palpites dos especialistas acerca da realidade e a realidade, lançou-se para aí o conceito de “bolha”. A “bolha” pretende sugerir que os especialistas habitam um universo exíguo, resguardado das existências simplórias e partilhado por uma casta restrita de iluminados.

Não sei se o objectivo é imaginarmos os frequentadores da “bolha” a discutir Turgenev em conversas tardias e regadas a conhaque, ou a fretar jactos para tomar o pequeno-almoço em Florença (e discutir o niilismo de “Pais e Filhos” à mesa do Gilli). Sei que a “bolha” passa por sinónimo de “elite”. E esta particular “elite” aprecia a deferência, ainda que pejorativa. Aliás, esta particular “elite” não se importa que a acusem de não compreender o país e, de caminho, o mundo – desde que a acusação presuma a sua distância à gentinha que, acima de tudo, a “elite” não quer ser. Acima de tudo, e literalmente de todos, a “elite” quer ser elite. Porquê? Porque não é.

Ir a “telejornais” ou programas de “debate” repetir babugem sobre a “actualidade” não eleva uma senhora ou um cavalheiro a membro de uma hipotética “elite”. Quando muito, prova que a criatura necessita de uma modesta avença ou acha “importante” aparecer na televisão. No primeiro caso, é pelintra. No segundo, é pacóvia. Em ambos, não é elite. É, salvo raríssimas excepções, alguém que cobra pouco para fazer figuras tristes e sai do estúdio inchado de “fama”, leia-se ser reconhecido pelo funcionário do Solar dos Presuntos ou arranjar bilhete VIP para a tenda dos rissóis nos festivais de variedades. As personagens da imaginária “bolha” são tão ou mais rústicas quanto o “tuga” que fingem desconhecer. Não há “bolha”: há “tugas” sem noção do ridículo nem escrúpulos de exibir a carência perante as câmaras.

Não é por causa da distância aos comuns mortais que a imaginária “elite” da “bolha” imaginária não compreende o país e, de caminho, o mundo: é por ignorância e conformismo. Sempre que preenchem o vazio nas cabecinhas com o tipo de “argumentos” que supõem “seguros”, são atropelados pelos factos. Sempre que arriscam prever, analisar e interpretar seja o que for, são atropelados pelos factos. Sempre que abrem a boca em sorrisos e clichés, são atropelados pelos factos. E nunca admitem o atropelamento. E nunca se confessam enxovalhados. E nunca recusam o convite, que nunca cessa, para voltar a comentar o que não entendem. Para usar o jargão ridículo que os empolga, são “resilientes” – ao bom senso.

As “legislativas” e o crescimento do Chega são um mero exemplo: aquilo que os especialistas não percebem encheria volumosos compêndios. Eles falham com tamanha regularidade e tanta convicção que parecem falhar de propósito, mas isso implicaria uma argúcia perversa que não possuem. Sem legitimidade nem independência nem vergonha, os especialistas, a “elite”, os condóminos da “bolha” são apenas sujeitos e sujeitas vulgares que, de modo a garantir o emprego televisivo ou a subir no partido que não assumem servir, se aliviam de pontos de vista alucinados, por regra os pontos de vista que o “sistema” decreta numa tentativa de influenciar a opinião pública. Sucede que os especialistas não influenciam vivalma, a não ser, crescentemente, em sentido contrário ao desejado. Nem um povo de brutos está disposto a ligar a uma bolha, perdão, um bando de pelintras.

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COMENTÁRIOS

André Ondine: Uma crónica importante. E excelente. Esta bolha, ou elite, ou corja, é também responsável pelo crescimento dos populismos que eles tanto criticam. É que as pessoas estão tão saturadas e indignadas de os ver, ouvir e ler a toda a hora de cima daquele pedestal moral e ético superior em que eles julgam viver, que fazem qualquer coisa para se verem livres dele. Mas não é possível. Os directores dos Média adoram esta gente. E eles promovem-se bem e promovem-se uns aos outros, sem vergonha. E multiplicam-se. Basta ver o imberbe Jonet, réplica do guru Marques Lopes. O jovem Jonet era de direita, mas a direita não lhe deu o tacho em Cascais que ele ambicionava e ele (tal como o seu guru Lopes com Passos) vinga-se agora dizendo-se de direita mas sendo aquela direita que a esquerda adora. Um puto vingativo capturado pela bolha. O resto é a mediocridade do costume. O Lopes, excelente propagandista de si próprio e dos amigos. Só não se indignou quando o amigo Pinto da Costa estava com ele enquanto um amigo de ambos dava uns tabefes num repórter de imagem que os incomodava. O camarada Adão, político, especialista em comentário político, futebol, cultura, música e agora DJ, a Sra Anjos, frequentadora do Benformoso desde que nasceu, a Betty Davis Davim, sempre amiga bloquista, o cão raivoso Oliveira….a lista é infinita. O puto Jonet, a Sra Carmo Afonso, o guru mor Pacheco Pereira, que, este sim, adora cascar na direita…São sempre os mesmos, reunem-se no Lux (menos o Pacheco Pereira, que não o devem deixar entrar…), detestam pessoas rurais e têm múltiplos e generosos tachos. Usam cravo uma vez por ano, bebem champanhe nos outros. Frequentam salões de indignação selectiva e tendem a sofrer fascínio por políticos profissionais indigentes como Mariana Mortágua, Mariana Vieira da Silva, António Costa e outros heróis urbanos. Não são inocentes no estado a que isto chegou.

Maria Paula Silva: Muito bem, excelente crónica, excelente definição. E ainda há quem perca tempo a ouvir esta gente ignorante e inculta que nada de interessante tem para dizer. Se deixarem de lhes dar audiência, desaparecem... Anda tudo anestesiado. Entre comentadeiros, programas de culinária e outros de entretenimento de baixo nível cultural, venha o diabo e escolha. E... ainda bem que não acertam. Nunca o resultado de umas eleições me deu tanto gozo. Rejubilo. Parece que os kompensans e rennies já esgotaram. E o outro que se julga vencedor, que andava calado e cínico com ar de arrogante e agora parece um menino contente no kindergarten não se vai aguentar 4 anos.  Faz-se muito barulho neste país e trabalha-se pouco. E, caramba, não é para isto que lhes pagamos os ordenados. Trabalhem, carago!

Eduardo Cunha: Excelente crónica. Parabéns.

 

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