sábado, 10 de maio de 2025

É claro

 

Que está brincando

Mas,

inteligente que é,

não deixará

de ir votar,

coisa

que nem todos farão,

preferindo, altaneiramente,

desprezar o momento,

a pretexto de enfado,

que, afinal,

todos sentem,

- ainda que

enfaticamente -

mas cumprirão

 o dever maior,

de irem votar

para tentarem,

encolhidamente

mas conscientemente

“barões” que somos,

o bem da Nação

mesmo na rejeição…

O meu voto na CDU

A verdade, dolorosa e cruel e extremada pelo facto de não seguir o campeonato da bola, é que não tenho alternativa a falar das “legislativas”. Vamos lá ao suplício.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 10 mai. 2025, 00:20

Não consigo continuar a fugir. Fugi enquanto pude. O prof. Marcelo dissolveu a Assembleia da República e convocou eleições há quase dois meses. Desde então, escrevi nesta coluna sobre as ameaças que pairam em cima da Europa (e as que já desceram ao chão) e sobre Trump. Pelo meio, ainda consegui amanhar um texto sobre o almirante Gouveia e Melo, matéria que me interessa tanto quanto as técnicas para combater o míldio. E depois entrei de férias. Regressado das férias, aproveitei para fazer uma espécie de diário de viagem que me permitiu adiar o inevitável por mais duas semanas. Mas o inevitável, por definição, não se evita: hoje não me livro de discorrer acerca das eleições. Foi por um triz, caramba. Daqui a oito dias, por graça do período de “reflexão”, volto a safar-me. Hoje não me safo.

Cheguei a pensar em safar-me. Cheguei a pensar recorrer ao tema do momento e debitar 5 mil caracteres acerca do sucessor de Pedro. Infelizmente, pertenço ao restrito grupo de turistas que foram a Roma e não só não viram o Papa como nem sequer visitaram o Vaticano. Porquê? Sei lá. Porque sou ateu, porque a fila para a Capela Sistina era longa, porque preferi conhecer o Panteão ou determinado restaurante. Definitivamente, não sou um vaticanista, o que me impediria de encher um texto em volta da nomeação do sr. Prevost, de quem, aliás, conforme 428 dos nossos comentadores televisivos demonstraram, basta saber um pormenor biográfico: recentemente, ele publicou dois “tweets” a discordar do presidente e do vice-presidente americanos. Logo, podemos e devemos elogiar o homem à vontade (um progressista! Um segundo Francisco! Uma luz e uma esperança renovadas contra a “intolerância” e tal!) e, esgotados os elogios, mudar de assunto. Ai. Esse, o “assunto”, é que é o problema.

No limite do desespero, ponderei adoptar um tom “intimista” (desculpem) e elaborar um longo e sincero agradecimento a Paulo Raimundo, que em entrevista sem ironia confessou gostar de me ouvir na Rádio Observador por causa, cito, do meu sentido de humor. Porém, nem um dicionário de sinónimos me ajudaria a agradecer tão longamente, além de que dedicar uma crónica inteira à inusitada simpatia do secretário-geral do PCP seria um bocadinho – meço a palavra – palerma.A verdade, dolorosa e cruel e extremada pelo facto de não seguir (e portanto não ser capaz de dissecar os “onzes”) o campeonato da bola, de que vai haver ou houve um jogo decisivo, é que não tenho alternativa a falar das “legislativas”. Vamos lá ao suplício.

Não tenho acompanhado com minúcia a campanha eleitoral. Do que, sem querer, vi ou li, a dita pareceu-me empenhar-se no enxovalho dos eleitores, que talvez o mereçam. Vi ou li banalidades insultuosas, acusações pessoais, cantorias medonhas, berreiro, bailaricos embaraçosos, acusações pessoais, propostas alucinadas, berreiro, oferta de puros subornos, acusações pessoais, carícias a velhinhos, berreiro, “arruadas” que deviam ser proibidas, acusações pessoais, propaganda dirigida a menores de 12 anos mentais e um vídeo do Bloco de Esquerda em que o dr. Fernando Rosas surge a cometer uma espécie de “rap” cuja letra se resume a “50 fascistas no parlamento? Não pode ser. Vamos à luta outra vez”. De tudo isto, gostei do “rap” do dr. Rosas, na categoria Anomalias Grotescas.

O solitário momento de sensatez da campanha aconteceu fora da campanha, quando, no aniversário do PSD, apontaram os microfones a Pedro Passos Coelho e este lembrou duas ou três coisas: que a estabilidade serve de pouco sem reformas, que o país precisa de reformas fundamentais e urgentes, e que se nos mantivermos assim vulneráveis estaremos à deriva num mundo turbulento na segurança, na defesa, na economia e na política.

Sem surpresas, Pedro Passos Coelho tocou no ponto, ou pontos. Também sem surpresas, foi o único a fazê-lo. Na prodigiosa irresponsabilidade dos seus protagonistas, a campanha tem sido bastante eficaz a obstruir a entrada nos debates dessas exactas irrelevâncias: reformas e mundo. Descontados os avisos do Chega (que é estatista na economia) no que toca à imigração e a aversão (intermitente: Milei não é consensual) da IL ao sufoco fiscal, os partidos concorrem a gerir a inércia. Para a generalidade do espectro relativamente democrático, leia-se à direita do dr. Rosas, Portugal encontra-se estruturalmente impecável, e carece apenas de ajustes circunstanciais. As divergências resumem-se a ajustes decimais nos salários, nos horários, nos escalões, nas isenções, nas benesses, nas reformas (mas dos pensionistas) e enfim naquilo em que se pode mexer sem mexer em nada que importe. E o resto do planeta nem existe.

A resignação à imobilidade é tamanha que, por ironia, o provável é chegarmos a 19 de Maio com um quadro parlamentar similar ao anterior, com os espectaculares resultados que conhecemos, ou, se apesar das sondagens o PS ganhar, um quadro parlamentar pior que o anterior, com espectaculares resultados fáceis de antecipar. Mais um deputado para ali, menos um deputado para aqui, está garantido que não saímos disto e não prometemos vir a sair. O que eles prometem é “futuro”, “esperança”, “confiança” e outras maravilhas susceptíveis de levar o raro eleitor adulto a mandá-los passear. Ou a ir, ele próprio, passear em vez de perder um pedaço do Domingo a cumprir um “dever cívico” que lhe confere o questionável direito a participar numa paródia. Paródia por paródia, com jeito voto na CDU – estou a brincar, e agora sei que Paulo Raimundo acha piada.

ELEIÇÕES LEGISLATIVAS      POLÍTICA

COMENTÁRIOS:
F. Mendes: Artigo muito longo, e sem grande interesse. Abusa de um humor algo estafado, e ao nosso jeito, porque gostamos de rir com os queixos. AG já escreveu, num passado um pouco distante, artigos muito melhores. Infelizmente, o mesmo se aplica aos poucos colunistas que nos tínhamos habituado a ler com agrado (Rui Ramos à cabeça). Este niilismo é algo lamentável. Quanto à referência ao PPC, por favor deixem o Homem em paz. Ele já deu para estes peditórios.. 

Rosa Lourenço: Interessante texto. Com humor e uma certa ironia foca a inutilidade de promessas da maioria dos partidos políticos demonstrando o vazio de inovação e de ideias para modificar o que já não serve os interesses nacionais.

José Paulo Castro: Pois eu faço disto um jogo ou concurso: o desvio médio das percentagens eleitorais - face a 2024 e em valor absoluto - para os oito partidos parlamentares vai ser de 1,3%. (Nestas contas ainda não entra o JPP que, tudo indica, vai eleger um deputado, mas entra o PAN que pode não eleger) Sugiro que proponham outros valores. O que se aproximar mais ganha o direito a opinar primeiro sobre a CPI que irá sempre ser feita sobre a Spinumviva.

 

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