Que está brincando
Mas,
inteligente que é,
não deixará
de ir votar,
coisa
que nem todos farão,
preferindo, altaneiramente,
desprezar o momento,
a pretexto de enfado,
que, afinal,
todos sentem,
- ainda que
enfaticamente -
mas cumprirão
o dever maior,
de irem votar
para tentarem,
encolhidamente
mas conscientemente
“barões” que somos,
o bem da Nação
mesmo na rejeição…
O meu voto na CDU
A verdade, dolorosa e cruel e
extremada pelo facto de não seguir o campeonato da bola, é que não tenho alternativa
a falar das “legislativas”. Vamos lá ao suplício.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 10 mai. 2025, 00:20
Não consigo continuar a fugir. Fugi
enquanto pude. O prof. Marcelo dissolveu a Assembleia da República e convocou
eleições há quase dois meses. Desde então, escrevi nesta coluna sobre as
ameaças que pairam em cima da Europa (e as que já desceram ao chão) e sobre
Trump. Pelo meio, ainda consegui amanhar um texto sobre o almirante Gouveia e
Melo, matéria que me interessa tanto quanto as técnicas para combater o míldio.
E depois entrei de férias. Regressado das férias, aproveitei para fazer uma
espécie de diário de viagem que me permitiu adiar o inevitável por mais duas
semanas. Mas o inevitável, por definição, não se evita: hoje não me livro de
discorrer acerca das eleições. Foi por um triz, caramba. Daqui a oito dias, por
graça do período de “reflexão”, volto a safar-me. Hoje não me safo.
Cheguei a pensar em safar-me. Cheguei a
pensar recorrer ao tema do momento e debitar 5 mil caracteres acerca do
sucessor de Pedro. Infelizmente, pertenço ao restrito grupo de turistas que
foram a Roma e não só não viram o Papa como nem sequer visitaram o Vaticano.
Porquê? Sei lá. Porque sou ateu, porque a fila para a Capela Sistina era longa,
porque preferi conhecer o Panteão ou determinado restaurante. Definitivamente,
não sou um vaticanista, o que me impediria de encher um texto em volta da
nomeação do sr. Prevost, de quem, aliás, conforme 428 dos nossos comentadores
televisivos demonstraram, basta saber um pormenor biográfico: recentemente, ele
publicou dois “tweets” a discordar do presidente e do vice-presidente
americanos. Logo, podemos e devemos elogiar o homem à vontade (um progressista!
Um segundo Francisco! Uma luz e uma esperança renovadas contra a “intolerância”
e tal!) e, esgotados os elogios, mudar de assunto. Ai. Esse, o “assunto”, é que
é o problema.
No limite do desespero, ponderei adoptar
um tom “intimista” (desculpem) e elaborar um longo e sincero agradecimento a
Paulo Raimundo, que em entrevista sem ironia confessou gostar de me ouvir na
Rádio Observador por causa, cito, do meu sentido de humor. Porém, nem um
dicionário de sinónimos me ajudaria a agradecer tão longamente, além de que
dedicar uma crónica inteira à inusitada simpatia do secretário-geral do PCP
seria um bocadinho – meço a palavra – palerma.A verdade, dolorosa e cruel e
extremada pelo facto de não seguir (e portanto não ser capaz de dissecar os
“onzes”) o campeonato da bola, de que vai haver ou houve um jogo decisivo, é
que não tenho alternativa a falar das “legislativas”. Vamos lá ao suplício.
Não tenho acompanhado com minúcia a
campanha eleitoral. Do que, sem querer, vi ou li, a dita pareceu-me empenhar-se
no enxovalho dos eleitores, que talvez o mereçam. Vi ou li banalidades
insultuosas, acusações pessoais, cantorias medonhas, berreiro, bailaricos
embaraçosos, acusações pessoais, propostas alucinadas, berreiro, oferta de
puros subornos, acusações pessoais, carícias a velhinhos, berreiro, “arruadas”
que deviam ser proibidas, acusações pessoais, propaganda dirigida a menores de
12 anos mentais e um vídeo do Bloco de Esquerda em que o dr. Fernando Rosas
surge a cometer uma espécie de “rap” cuja letra se resume a “50 fascistas no
parlamento? Não pode ser. Vamos à luta outra vez”. De tudo isto, gostei do
“rap” do dr. Rosas, na categoria Anomalias Grotescas.
O solitário momento de sensatez da
campanha aconteceu fora da campanha, quando, no aniversário do PSD, apontaram
os microfones a Pedro Passos Coelho e este lembrou duas ou três coisas: que a
estabilidade serve de pouco sem reformas, que o país precisa de reformas
fundamentais e urgentes, e que se nos mantivermos assim vulneráveis estaremos à
deriva num mundo turbulento na segurança, na defesa, na economia e na política.
Sem surpresas, Pedro Passos Coelho tocou
no ponto, ou pontos. Também sem surpresas, foi o único a fazê-lo. Na prodigiosa
irresponsabilidade dos seus protagonistas, a campanha tem sido bastante eficaz
a obstruir a entrada nos debates dessas exactas irrelevâncias: reformas e
mundo. Descontados os avisos do Chega (que é estatista na economia) no que toca
à imigração e a aversão (intermitente: Milei não é consensual) da IL ao sufoco
fiscal, os partidos concorrem a gerir a inércia. Para a generalidade do
espectro relativamente democrático, leia-se à direita do dr. Rosas, Portugal
encontra-se estruturalmente impecável, e carece apenas de ajustes
circunstanciais. As divergências resumem-se a ajustes decimais nos salários,
nos horários, nos escalões, nas isenções, nas benesses, nas reformas (mas dos
pensionistas) e enfim naquilo em que se pode mexer sem mexer em nada que
importe. E o resto do planeta nem existe.
A resignação à imobilidade é tamanha
que, por ironia, o provável é chegarmos a 19 de Maio com um quadro parlamentar
similar ao anterior, com os espectaculares resultados que conhecemos, ou, se
apesar das sondagens o PS ganhar, um quadro parlamentar pior que o anterior,
com espectaculares resultados fáceis de antecipar. Mais um deputado para ali,
menos um deputado para aqui, está garantido que não saímos disto e não
prometemos vir a sair. O que eles prometem é “futuro”, “esperança”, “confiança”
e outras maravilhas susceptíveis de levar o raro eleitor adulto a mandá-los
passear. Ou a ir, ele próprio, passear em vez de perder um pedaço do Domingo a
cumprir um “dever cívico” que lhe confere o questionável direito a participar
numa paródia. Paródia por paródia, com jeito voto na CDU – estou a brincar, e agora
sei que Paulo Raimundo acha piada.
ELEIÇÕES LEGISLATIVAS POLÍTICA
COMENTÁRIOS:
F. Mendes: Artigo muito longo, e sem grande interesse. Abusa de um humor algo
estafado, e ao nosso jeito, porque gostamos de rir com os queixos. AG já
escreveu, num passado um pouco distante, artigos muito melhores. Infelizmente,
o mesmo se aplica aos poucos colunistas que nos tínhamos habituado a ler com
agrado (Rui Ramos à cabeça). Este niilismo é algo lamentável. Quanto à
referência ao PPC, por favor deixem o Homem em paz. Ele já deu para estes
peditórios..
Rosa Lourenço: Interessante texto. Com humor e
uma certa ironia foca a inutilidade de promessas da maioria dos partidos
políticos demonstrando o vazio de inovação e de ideias para modificar o que já
não serve os interesses nacionais.
José Paulo Castro: Pois eu faço disto um jogo ou concurso: o desvio médio das percentagens
eleitorais - face a 2024 e em valor absoluto - para os oito partidos
parlamentares vai ser de 1,3%. (Nestas contas ainda não entra o JPP que, tudo
indica, vai eleger um deputado, mas entra o PAN que pode não eleger) Sugiro que
proponham outros valores. O que se aproximar mais ganha o direito a opinar
primeiro sobre a CPI que irá sempre ser feita sobre a Spinumviva.
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