Sempre a vergonha a impor-se, nos
quadros pinturescos alardeados diariamente nas televisões, por “actores” de
gabarito vário, onde não faltam os comerciantes da nossa realidade simplória ou
astuta.
Fazer o quê de Portugal?
Não continuarem a cansar-nos com necessidade de “estabilidade e a
governabilidade” se elas não servirem para nada. Há quase uma década que não
servem. Caramba.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 21 mai. 2025, 00:2232
1Tanta coisa e tanto eco e afinal
coisa tão previsível. Sim, sim, sim, não há outro ponto de partida: todos os
sinais estavam “lá”, nesse indefinido e indefinível “lá” que é o ar do tempo
que vivemos.
Revendo a espantosa matéria: primeiro, o Chega foi desde o seu
infausto parto adubado pela intencionalíssima vontade socialista de o fazer
crescer para roer o PSD. Com
artesãos estrategicamente colocados na presidência da Assembleia da República,
segunda maior instituição do Estado português, Ferro
Rodrigues e Augusto Santos Silva fizeram ambos o que puderam, e puderam muito, enquanto o PS lhes seguia
a passada. E, depois, foi amparado por considerável
parte da media que lhe gastava o nome num misto de vertiginoso deleite e atracção
fatal. Com dois “elevadores” desta potência, o astuto Ventura
não precisou de muito mais: bastou-lhe ir dizendo com veemência e virulência o
que aqueles de quem ninguém tinha feito caso queriam ouvir.
Esses “aqueles” há muito entregues apenas a eles próprios. Isto é, o solo do
descontentamento já estava dramaticamente pronto para receber adubo: ninguém no centro-direita/centro-esquerda – à
excepção talvez de Pedro Passos Coelho – vira os sinais acesos ou ouvira as
campainhas de alarme, tocadas pelos “aqueles” que tinham ficado para trás.
Já eram muitos, cresceram e multiplicaram-se, hoje contam-se pela nossa – minha, pelo menos –
vergonha.
E agora? Agora que sabe Ventura? Que
o habilita para escolher – e acertar na escolha – gente para servir em cargos
de alta sageza e delicadeza nacional? Que o recomenda para partilhar segredos
de Estado? Para discutir e reflectir sobre alta política? Numa palavra, em que
se poderá transformar o líder do Chega para se tornar apto a concretizar as
tarefas que o esperam, agora que os tremendos “dois terços de votos” rumaram do
centro para a direita mais à direita?
Quem é André Ventura?
Agora? Agora é tudo pior, “em política há sempre pior” como me dizia
alguém. Pior, mais complexo, muito mais ruim.
E ruim talvez seja o mais
adequado adjectivo, detestável adjectivo.
2No PS também só não viu quem
não quis. Foram
largos e cheios os meses em que Pedro
Nuno Santos
dirigiu a “casa” sem engenho e arte para ela. Era preciso não ser tão impetuoso, instável, imponderado, imprevisível
e por vezes irascível. E outras, zangado com o mundo; não ter valsado durante
meses, entre um “sim” ou um “ não” ao Orçamento de Estado da AD; não ter mimado
uma Comissão de Inquérito ao primeiro-ministro para depois se arrepender e
desistir dela; e a seguir voltar a insistir no tema; ter com ímpeto votado a
queda do governo contra a opinião ponderada de pares próximos; ter fechado o
partido à sua volta, fazendo subir a divisão e a tensão internas, menorizando o
peso do silencioso mas poderoso exército “costista”.
O seu “treino” de liderança política
não augurava nada de sólido e ainda menos de futuro. Basta pensar no contraste entre um líder
socialista sóbrio e compenetrado, vestido ficticiamente de “primeiro-ministro”
nos debates televisivos, e o verdadeiro Pedro Nuno das arruadas, entregue à sua
verdadeira natureza – particularmente ressentida no modo como nesta campanha preferia substituir o argumento pela
acusação, valorizando o insulto como instrumento eleitoral.
Só não viu quem não quis. A
derrota era certa, só a sua amplitude pode surpreender.
E agora? Um retiro, uma longa
pausa, uma travessia. O que for preciso. Mas por favor senhoras e senhores
socialistas, cuidado com a indispensabilidade do PS. O que aí está já é
suficiente “desconhecido” para que tudo não seja feito, a começar pelo
impossível
3Todo o espaço à direita do PS subiu
nestas eleições: IL, PSD-CDS, Chega.
O
espaço à esquerda levou um rombo assassino. Não sei o que Luís Montenegro vai
fazer com isto, nem para onde se irá virar. À
hora a que escrevo julgo até que nem ele ainda sabe. Escolha uns ou outros, ou
escolha concertar-se e negociar com ambos à vez, uma coisa
é certa: e o país? Valeria
a pena pensar em Portugal. Parece
uma ironia e nem sequer subtil. Não é. Há quanto tempo ninguém escolhe Portugal
como prioridade absoluta com tudo o que isso implica de começar a fazer já o
que António Costa não fez em oito anos e três governos, três? É que havia mais vida além da preocupação
com as “contas certas” (herança de Passos Coelho até aí vista – entre o riso e
o desprezo – como despaciência, pois lembramo-nos de Pedro Nuno Santos a querer
partir as pernas aos banqueiros já não me recordo de que nacionalidade, talvez
de todas).
4Ou olhamos para estas coisas a sério
ou não sairemos de uma cepa torta mediana, modesta, pequenina, irrelevante,
onde estamos há quase dez anos.
Onde esteve o carburante para o motor do nosso progresso? E a visão, o
anúncio de reformas, a vontade da criação de riqueza, o fôlego do
desenvolvimento, o cuidado com o nosso lugar na UE (e pensar que integramos o
núcleo dos doze primeiros Estados membros)?
5A seguir Luís Montenegro remediou mas
não mais que isso. Impôs um outro modo de estar na política –
mais avesso ao comentário a toda hora e momento, mais praticante da reserva do que da praça pública. Fez
o que podia? Talvez, falta o essencial. E agora, podendo ou não, terá de meter
uma quinta para chegar lá. Mas não por
causa do Chega ou do medo de não ganhar as próximas eleições. Por causa de Portugal.
6Era preciso não continuarem a
cansar-nos com a premente necessidade de “estabilidade e a governabilidade” se
elas não servirem para nada. Há quase uma década que não servem. Caramba.
LEGISLATIVAS 2025 ELEIÇÕES
LEGISLATIVAS POLÍTICA
GOVERNO
COMENTÁRIOS (de 40)
Albino Mendes: Consegue-se enganar muita gente durante pouco tempo, não se consegue
enganar muita gente durante muito tempo. A comunicação social, a esquerda PSD
incluído, os jornalistas de forma individual andaram a enganar o povo, e isso
tem um preço.
Rui Lima: Será que António Costa ao abrir fronteiras a tudo e todos e destruir o SEF
tinha por intenção dar votos ao Chega? Ou alterar
o corpo eleitoral, como já acontece em França, os novos “nacionais” votam a 90%
à esquerda ? Mas os socialistas das fronteiras abertas na Europa estão a cavar
a sua sepultura, porque passaram a ser os maiores inimigos dos trabalhadores ao
imporem despesa social e mão-obra barata
que agrada aos patrões (hoje são de esquerda e os trabalhadores de direita) A
curto, médio prazo, a imigração será um encargo brutal, vejam estudos em França,
só qualificada não o é, a nossa é uma desgraça, entram quase 2 milhões e ”Empresas
enfrentam dificuldades em contratar trabalhadores, especialmente em áreas como
construção civil”. Já era assim na Europa ,
o Chega aparece com imigração que nada tem a ver com a nossa cultura .
JOHN MARTINS: E perante tudo isto e talvez com algum exagero, onde esteve o sábio
comentariado das televisões que intoxicaram de manhã á noite e em todos os
canais, que para além de DAREM NOTAS aos intervenientes e actores políticos,
durante tantos anos? Pouco mais fizeram. O governo socialista dos últimos 9
anos, foi amorfo sem visão e sem talentos, onde se destacou Pedro Nuno, por isso
o POVO SEM MEDO lhe deu NOTA NEGATIVA e cartão vermelho. O PSD, que
aprenda com este desaire socialista...
Carlos Chaves. “Mas por favor senhoras e
senhores socialistas, cuidado com a indispensabilidade do PS.” Só se for para continuar a
destruir o país, espero pelo dia que aconteça ao PS Português, o que aconteceu
ao PS Francês e ao PS Grego... Isso sim será um avanço civilizacional! Ainda ontem assistimos ao vivo
e a cores, a mais um episódio deplorável da senhora Mariana Vieira da Silva a
sacudir a água do capote, a culpar o PSD pelo crescimento do CHEGA. Nada de
novo, a falta de vergonha continua intacta no PS, que a Maria João Avillez
tanto elogia!
afonso moreira: E o que têm feito os
jornalistas de "renome" ao longo dos últimos longos anos senão proteger
o regime que os mantém? Desenharam, usando todo o poder mediático que tinham
para educarem o pobre povo fazendo-lhe ver que os problemas que sentem não
passam de percepções, pois os estudos confirmam que esse povo vive no paraíso,
só que como são pouco doutos não percebem. Ainda ontem na RTP1 lá estavam,
todos eles, na nobre função de educar. Afinal, eles é que ainda não perceberam.
Tim do A: Pois. A estabilidade não é um
fim. É um meio para atingir a prosperidade. De que serve a estabilidade na
pobreza eterna? Esse é o erro do inútil do Marcelo.
Isabel Gomes: Nāo percebo. Isto é um artigo?
Não, é um compêndio das demagogias e usurpações da verdade política. Uma
vergonha.
Ana Luís da Silva: “Quem é André Ventura?” ?! A pergunta deveria ser quem é Montenegro?, visto
que foi quem ganhou eleições e que é da sua decisão de manter ou apagar as
linhas vermelhas que depende o futuro de Portugal. Tem Montenegro caráter de estadista ou vai manter a
arrogância dos medíocres e os interesses partidários à frente dos
prementes apelos do povo português expressos através do voto ?
José B Dias > Isabel
Gomes: Não, minha
cara, isto não é um "artigo". Isto, como lhe chama, é uma crónica de
opinião ... e a opinião nela exposta é a da cronista que a escreveu e que tem
total direito de a ter e publicamente a expressar ... Tal como a minha cara tem todo o direito de ter
opinião distinta... sem que tal tenha de ser apelidado de "uma
vergonha" por quem com esta não concorde e a possa até classificar como
demagógica e usurpadora da verdade política, seja lá isso o que for.
Licínio Bingre do Amaral: Uma
excelente análise. É
fundamental ter como objectivo Portugal e ninguém teve isso em mente desde
Pedro Passos Coelho, que teve sempre o interesse nacional em mente. Montenegro tem uma tarefa difícil pela frente, espero
sinceramente que a consiga levar a cabo, pois custa-me imenso ver o nosso país
cair e perder cada vez mais jovens para o estrangeiro.
Ricardo Ribeiro: Então a vitória nas eleições, não alegrou a
"tia"? Porque será?
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