terça-feira, 6 de maio de 2025

Isso de igualdade…

 

É claro que é falsa premissa, mas Patrícia Fernandes envolve-a nos ditames sábios das suas competências filosóficas comprovativas de uma ideia negativista sobre os tempos de hoje, de costumes que vão fazendo o mundo resvalar pelo desastre de uma nova Babel de imprevista solução, caso não retomem conceitos que a tradição fundamentou através das escritas dos grandes pensadores que sobre isso ponderaram. Mas, e sobretudo, que já a BÍBLIA traduz nos seus EVANGELHOS.

Reponho o excelente comentário de TIM DO A, ao texto da autora:

Tim do A: Mais um excelente artigo da autora. Pois, não somos todos iguais na natureza. Isso é um pensamento marxista contra natura e faz nivelar por baixo, como aconteceu nos países comunistas da cortina de ferro que em pouco tempo ficaram muito pobres. Infelizmente a Europa adoptou o marxismo e por essa razão tem estado estagnada economicamente, ou mesmo a empobrecer e a perder importância no mundo para os EUA e a China. E ainda não percebeu isso. E tenta manter desesperadamente o socialismo atacando a direita que emerge para erradicar o marxismo, chamando-a de radical...

 

O ataque ao mérito (1)

Embora isso possa ferir convicções políticas várias na verdade as pessoas nascem com competências diferentes e acreditar que todos serão capazes de atingir os mesmos objectivos é mero pensamento mágico

PATRÍCIA FERNANDES, PROFESSORA NA ESCOLA DE ECONOMIA E GESTÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

OBSERVADOR, 05 mai. 2025, 00:0922

1A tradição dos grandes livros

Será possível compreender os nossos tempos sem reflectir sobre a crise de sentido que marca o mundo ocidental? John Vervaeke tem popularizado esta expressão (“meaning crisis”) e, como muitos autores, defende o regresso aos grandes pensadores do passado e à tradição dos grandes livros para solucionar a crise: é neles que encontramos a sabedoria necessária para reintroduzir sentido nas nossas vidas.

As grandes obras da cultura ocidental são úteis porque nelas encontramos a maior sabedoria de todas: aquela que nos permite compreender o homem, reconhecer a sua antropologia e a sua natureza e reintroduzir, a partir desse conhecimento, as ferramentas que permitem recuperar o sentido.

Vemos essa sabedoria antropológica nos textos homéricos, naturalmente, com uma versão do mundo em que deuses, heróis e homens se debatem pelos grandes feitos. Mas nunca é demais recordar que o grande livro sobre a natureza humana é o Novo Testamento, capaz de nos mostrar, como nenhum outro, as paixões humanas mais fortes, bem como as nossas maiores fragilidades.

É o que acontece na 2.ª Carta aos Tessalonicenses, quando Paulo se vê na necessidade de exortar contra a ociosidade:

constou-nos que alguns vivem no meio de vós desordenadamente, não se ocupando de nada mas vagueando preocupados. A estes tais ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo a que ganhem o pão que comem, com um trabalho tranquilo.” (2 Ts 3, 11-12)

Tomados por uma “euforia apocalíptica, alguns teriam deixado de trabalhar. E há, de facto, muito de humano nesta euforia: afinal, se o fim está próximo, para quê trabalhar? Se os tempos se revelam perturbados e temerosos, para quê o esforço? Mas Paulo apela a que sigam o seu exemplo:

“vós próprios sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos desordenadamente entre vós, nem comemos o pão de graça à custa de alguém, mas com esforço e canseira, trabalhámos noite e dia, para não sermos um peso para nenhum de vós. (…) Se alguém não quer trabalhar que também não coma.” (2 Ts 3, 7-10)

Com esta valorização do trabalho – que não é uma visão unicamente cristã, embora seja tipicamente cristã – abre-se uma nova tradição. Se os grandes temas antigos louvavam os reis e os heróis, a nova aliança traz para o centro os desfavorecidos, os pobres, os trabalhadores. E estes opõem-se ao homem livre, que, nas sociedades esclavagistas, detinha o privilégio da cidadania, mas sobretudo do ócio. É do ócio que nasce a filosofia, mas também a democracia participativa ateniense.

A grande inversão do cristianismo é, então, a valorização do trabalho – primeiro, pela glória de Deus, depois pelo bem comum. Quando trabalhamos, quando nos esforçamos e desenvolvemos a vocação que nos foi dada (um talento é um dom), contribuímos para o bem comum e beneficiamos toda a comunidade, se vivermos em comunidades bem organizadas.

Com a Reforma, esta ética do trabalho vai adquirir um pendor individualista, como Max Weber mostrou em A ética protestante e o espírito do capitalismo; mas na tradição católica, particularmente evidente nos textos que dão forma à Doutrina Social da Igreja, prevalecerá a ideia do trabalho e do sucesso ao serviço do bem comum (ao ponto de condicionar os próprios limites da propriedade privada). Um aspecto permanece, porém, comum nas duas tradições cristãs: a ideia de que o sacrifício e o esforço são necessários, pelo que os sonhos utópicos que prometem abundância sem trabalho se revelam enganadores. Ou, na versão Provérbios 14:23: Todo o trabalho traz proveito, mas as muitas palavras só produzem miséria.”

2A desvalorização do trabalho

É esta sabedoria que parece ter sido posta em causa nas últimas décadas, como o investigador Rob Henderson chama a atenção com a sua ideia de convicções de luxo. Convicções de luxo corresponderiam às ideias que os estudantes das universidades privilegiadas usam para simbolizar o seu estatuto social e que reflectem, dessa forma, o duplo sentido da expressão: são ideias que só essas pessoas se podem dar ao luxo de defender uma vez que nunca sofrerão as suas consequências negativas (que incidem sobre as classes mais desfavorecidas); mas também são ideias que só os mais ricos se podem dar ao luxo de pagar, uma vez que são promovidas nas universidades de elite.

Já vimos como Henderson usa a revindicação “defund the police” ou a ideia de que “o casamento monogâmico é uma instituição obsoletacomo exemplos de convicções de luxo; mas o autor refere uma outra convicção que lhe é particularmente cara, tendo em conta o seu contexto social desfavorecido: a ideia de que as decisões individuais são muito menos relevantes do que as forças sociais arbitrárias, incluindo a sorte ou o acaso:

 “É comum ver estudantes de universidades prestigiadas trabalharem incessantemente e depois desvalorizarem a importância da tenacidade. Encolhem os ombros para sugerir que apenas tiveram sorte em vez de aceitarem o crédito pelos seus esforços. Esta mensagem é prejudicial. Se as pessoas desfavorecidas acreditarem que o acaso é o factor-chave do sucesso, é menos provável que se esforcem.”

Como Henderson chama a atenção, trata-se de uma ideia muito mais perniciosa para as pessoas comuns do que para os membros das classes mais ricas: afinal, se trabalharem menos terão sempre um contexto familiar e social que garantirá o seu sucesso. Mas quando dizem à sociedade que é tudo uma questão de sorte e que não vale a pena trabalhar muito, estão a diminuir a probabilidade de pessoas comuns saírem das suas condições iniciais.

Como veremos, o acaso desempenha, de facto, um papel importante no modo como as nossas vidas se desenrolam, mas há algo de profundamente perverso na desvalorização do trabalho, do esforço e do mérito no nosso sucesso – em particular para os mais pobres, em particular no contexto escolar.

A razão para essa desvalorização parece residir no mito da igualdade que tem marcado o discurso público das últimas décadas: um ensino discriminatório (no sentido de que reconhece diferentes prestações) parece pôr em causa a ideia de que nascemos todos com as mesmas competências e que são apenas as condições sociais que limitam o nosso sucesso. Mas, na verdade, e embora isso possa ferir convicções políticas várias, as pessoas nascem com competências diferentes e acreditar que todos serão capazes de atingir os mesmos objectivos é mero pensamento mágico (de que é exemplo a ideia de que o ensino superior deve ser universal).

A consequência tem sido um nivelamento por baixo, mas esse nivelamento tende a prejudicar os mais desfavorecidos (que poderiam ser estimulados a saber mais e a trabalhar melhor). Mas prejudica, sobretudo, o bem comum – como Lionel Shriver mostra em Mania, a grande distopia do século XXI (até agora, pelo menos). Regressaremos a ela na próxima semana.

PS: Estão abertas as inscrições para o curso sobre a tradição dos grandes livros (para os mais novos) e para o curso sobre a revolução sexual do século XX (para os mais velhos): mais informações aqui.

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COMENTÁRIOS (de22)

Tomazz Man: A Patrícia Fernandes, volta e meia, não apenas parece ler as minhas preocupações, como as consegue articular e sustentar como eu não consigo. A crítica à "meritocracia", um alvo sempre à mão de progressistas, tipicamente envergonhados do seu "privilégio" é um verdadeiro cancro. Um cancro com terríveis consequências porquanto 1. Estimula o ressentimento, 2. Limita o papel do esforço individual, 3. Culpabiliza quem, de facto, parte de uma posição de vantagem. E tudo isto, com que efeito positivo? Não vislumbro nenhum, a não ser um pretexto moralista de ataque a quem tem, a quem alcança. E, pior, sem conseguir resolver um problema simples: se a meritocracia não existe, como afirmam, qual a melhor alternativa? O que poderá ser melhor? O que pode ajudar alguém, desde logo um jovem, a organizar a sua vida e tornar-se um cidadão produtivo e realizado? 

Coxinho: Eis o artigo que vale como o grande farol da edição de hoje do Observador.

Tim do A: Mais um excelente artigo da autora. Pois, não somos todos iguais na natureza. Isso é um pensamento marxista contra natura e faz nivelar por baixo, como aconteceu nos países comunistas da cortina de ferro que em pouco tempo ficaram muito pobres. Infelizmente a Europa adoptou o marxismo e por essa razão tem estado estagnada economicamente, ou mesmo a empobrecer e a perder importância no mundo para os EUA e a China. E ainda não percebeu isso. E tenta manter desesperadamente o socialismo atacando a direita que emerge para erradicar o marxismo, chamando-a de radical...

Francisco Almeida: A grande lição da crónica de hoje de Patrícia Fernandes é que o grande valor é mesmo o equilíbrio resultante do senso comum. Patrícia Fernandes mostrou bem o errado que é desvalorizar o trabalho mas sabemos de experiências recentes que o trabalhismo, a sobrevalorização do trabalho (ou, se calhar, apenas o seu pretexto) produziu resultados funestos.

Henrique Valente: Abordagem interessante ao assunto. Mas um dos grandes argumentos dos que tendem a considerar a meritocracia falaciosa, onde eu me incluo, é a lotaria genética. Portanto não é verdade que a base dessa ideia seja “nascemos todos com as mesmas capacidades”. Posto isto, é sempre um prazer ler as suas opiniões e aprendo sempre alguma coisa

 

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