É claro que é falsa premissa, mas Patrícia Fernandes envolve-a nos ditames sábios das suas competências
filosóficas comprovativas de uma ideia negativista sobre os tempos de hoje, de
costumes que vão fazendo o mundo resvalar pelo desastre de uma nova Babel de
imprevista solução, caso não retomem conceitos que a tradição fundamentou
através das escritas dos grandes pensadores que sobre isso ponderaram. Mas, e
sobretudo, que já a BÍBLIA traduz nos seus EVANGELHOS.
Reponho o excelente
comentário de TIM DO A, ao texto da autora:
Tim do A: Mais um excelente artigo da autora. Pois, não
somos todos iguais na natureza. Isso é um pensamento marxista contra natura e
faz nivelar por baixo, como aconteceu nos países comunistas da cortina de ferro
que em pouco tempo ficaram muito pobres. Infelizmente a Europa adoptou o
marxismo e por essa razão tem estado estagnada economicamente, ou mesmo a
empobrecer e a perder importância no mundo para os EUA e a China. E ainda não
percebeu isso. E tenta manter desesperadamente o socialismo atacando a direita
que emerge para erradicar o marxismo, chamando-a de radical...
O ataque ao mérito (1)
Embora isso possa ferir convicções
políticas várias na verdade as pessoas nascem com competências diferentes e
acreditar que todos serão capazes de atingir os mesmos objectivos é mero
pensamento mágico
PATRÍCIA FERNANDES, PROFESSORA NA ESCOLA DE ECONOMIA E GESTÃO
DA UNIVERSIDADE DO MINHO
OBSERVADOR, 05 mai. 2025, 00:0922
1A tradição dos grandes livros
Será possível compreender os nossos
tempos sem reflectir sobre a crise de sentido que marca o mundo ocidental? John Vervaeke tem popularizado esta expressão (“meaning crisis”) e, como muitos autores, defende o regresso aos grandes pensadores do
passado e à tradição dos grandes livros para solucionar a crise: é neles que
encontramos a sabedoria necessária para reintroduzir sentido nas nossas vidas.
As grandes obras da cultura
ocidental são úteis porque nelas encontramos a maior sabedoria de todas: aquela
que nos permite compreender o homem, reconhecer a sua antropologia e a sua
natureza e reintroduzir, a partir desse conhecimento, as ferramentas que
permitem recuperar o sentido.
Vemos essa sabedoria antropológica nos textos homéricos,
naturalmente, com uma versão do mundo em que deuses, heróis e homens se debatem
pelos grandes feitos. Mas nunca é demais recordar que o grande livro
sobre a natureza humana é o Novo Testamento, capaz de
nos mostrar, como nenhum outro, as paixões humanas mais fortes, bem como as
nossas maiores fragilidades.
É o que acontece na 2.ª Carta aos Tessalonicenses, quando
Paulo se vê na necessidade de exortar contra a ociosidade:
“constou-nos que alguns vivem no meio de vós desordenadamente, não se
ocupando de nada mas vagueando preocupados. A estes tais ordenamos e exortamos
no Senhor Jesus Cristo a que ganhem o pão que comem, com um trabalho tranquilo.” (2 Ts 3,
11-12)
Tomados por uma “euforia apocalíptica”, alguns
teriam deixado de trabalhar. E há,
de facto, muito de humano nesta euforia: afinal, se o fim está próximo, para
quê trabalhar? Se os tempos se revelam perturbados e temerosos, para quê o
esforço? Mas Paulo apela a que sigam o seu exemplo:
“vós
próprios sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos desordenadamente entre
vós, nem comemos o pão de graça à custa de alguém, mas com esforço e canseira,
trabalhámos noite e dia, para não sermos um peso para nenhum de vós. (…) Se
alguém não quer trabalhar que também não coma.” (2 Ts 3, 7-10)
Com
esta valorização
do trabalho – que não
é uma visão unicamente cristã, embora seja tipicamente cristã – abre-se uma
nova tradição. Se os
grandes temas antigos louvavam os reis e os heróis, a nova aliança traz para o
centro os desfavorecidos, os pobres, os trabalhadores. E estes opõem-se ao homem livre, que, nas sociedades
esclavagistas, detinha o privilégio da cidadania, mas sobretudo do ócio. É do ócio que nasce a filosofia, mas também a
democracia participativa ateniense.
A grande inversão do cristianismo é,
então, a valorização do trabalho – primeiro, pela glória de Deus, depois pelo
bem comum. Quando
trabalhamos, quando nos esforçamos e desenvolvemos a vocação que nos foi dada
(um talento é um dom), contribuímos para o bem comum e beneficiamos toda a
comunidade, se vivermos em comunidades bem organizadas.
Com a Reforma, esta ética do trabalho vai adquirir um
pendor individualista, como Max
Weber mostrou em A
ética protestante e o espírito do capitalismo; mas na tradição católica,
particularmente evidente nos textos que dão forma à Doutrina Social da Igreja,
prevalecerá a ideia do trabalho e do sucesso ao serviço do bem comum (ao ponto
de condicionar os próprios limites da propriedade privada). Um aspecto
permanece, porém, comum nas duas tradições cristãs: a ideia de
que o sacrifício e o esforço são necessários, pelo que os sonhos utópicos que
prometem abundância sem trabalho se revelam enganadores. Ou, na versão
Provérbios 14:23: “Todo
o trabalho traz proveito, mas as muitas palavras só produzem miséria.”
2A desvalorização do trabalho
É esta sabedoria que parece
ter sido posta em causa nas últimas décadas, como o investigador Rob Henderson chama
a atenção com a sua ideia de convicções de luxo. Convicções de luxo corresponderiam
às ideias que os estudantes das universidades privilegiadas usam para
simbolizar o seu estatuto social e que reflectem, dessa forma, o duplo sentido
da expressão: são ideias que só essas pessoas se podem
dar ao luxo de defender uma vez que nunca sofrerão as suas consequências
negativas (que incidem sobre as
classes mais desfavorecidas); mas também são ideias que só os mais
ricos se podem dar ao luxo de
pagar, uma vez que são promovidas nas universidades de elite.
Já vimos como Henderson usa a
revindicação “defund the
police” ou a ideia de que “o casamento monogâmico é uma instituição obsoleta” como
exemplos de convicções de luxo; mas o autor refere uma outra convicção que
lhe é particularmente cara, tendo em conta o seu contexto social desfavorecido:
a ideia
de que as decisões individuais são muito menos relevantes do que as forças
sociais arbitrárias, incluindo a sorte ou o acaso:
“É comum ver estudantes de universidades
prestigiadas trabalharem incessantemente e depois desvalorizarem a importância
da tenacidade. Encolhem os ombros para sugerir que apenas tiveram sorte em vez
de aceitarem o crédito pelos seus esforços. Esta mensagem é prejudicial. Se as
pessoas desfavorecidas acreditarem que o acaso é o factor-chave do
sucesso, é menos provável que se esforcem.”
Como Henderson chama a
atenção, trata-se de uma ideia muito mais perniciosa para as pessoas comuns
do que para os membros das classes mais ricas: afinal, se
trabalharem menos terão sempre um contexto familiar e social que garantirá o
seu sucesso. Mas quando dizem à sociedade que é tudo uma questão de sorte e que não vale a pena trabalhar
muito, estão a diminuir a probabilidade de pessoas comuns saírem das suas
condições iniciais.
Como veremos, o acaso
desempenha, de facto, um papel importante no modo como as nossas vidas se
desenrolam, mas há algo
de profundamente perverso na desvalorização do trabalho, do esforço e do mérito
no nosso sucesso – em particular para os mais pobres, em particular no contexto
escolar.
A razão para essa desvalorização parece
residir no mito da igualdade
que tem marcado o discurso público das últimas décadas: um ensino discriminatório (no sentido de
que reconhece diferentes prestações) parece pôr em causa a ideia de que
nascemos todos com as mesmas competências e que são apenas as condições sociais que limitam o nosso sucesso. Mas, na verdade, e embora isso possa
ferir convicções políticas várias, as
pessoas nascem com competências diferentes e acreditar que todos serão capazes
de atingir os mesmos objectivos é mero pensamento mágico (de que é exemplo a ideia de que o ensino
superior deve ser universal).
A consequência tem sido um
nivelamento por baixo, mas esse nivelamento tende a prejudicar os mais
desfavorecidos (que poderiam ser estimulados a saber mais e a trabalhar melhor). Mas prejudica, sobretudo, o bem comum – como Lionel
Shriver mostra em Mania,
a grande distopia do século XXI (até agora, pelo menos). Regressaremos
a ela na próxima semana.
PS: Estão abertas as inscrições para o
curso sobre a tradição dos grandes livros (para os mais novos) e para o curso
sobre a revolução sexual do século XX (para os mais velhos): mais informações aqui.
TRABALHO ECONOMIA PESSOAS
SOCIEDADE FILOSOFIA CULTURA
COMENTÁRIOS (de22)
Tomazz Man: A Patrícia Fernandes, volta e meia, não apenas parece ler as minhas
preocupações, como as consegue articular e sustentar como eu não consigo. A crítica à "meritocracia", um alvo sempre à mão
de progressistas, tipicamente envergonhados do seu "privilégio" é um
verdadeiro cancro. Um cancro com terríveis consequências porquanto 1. Estimula
o ressentimento, 2. Limita o papel do esforço individual, 3. Culpabiliza quem,
de facto, parte de uma posição de vantagem. E tudo isto, com que efeito
positivo? Não vislumbro nenhum, a não ser um pretexto moralista de ataque a
quem tem, a quem alcança. E, pior, sem conseguir resolver um problema
simples: se a meritocracia não existe, como afirmam, qual a melhor
alternativa? O que poderá ser melhor? O que pode ajudar alguém, desde logo
um jovem, a organizar a sua vida e tornar-se um cidadão produtivo e
realizado?
Coxinho: Eis o artigo que vale como o grande farol da edição de
hoje do Observador.
Tim do A: Mais um excelente artigo da
autora. Pois, não somos todos iguais na natureza. Isso é um pensamento marxista
contra natura e faz nivelar por baixo, como aconteceu nos países comunistas da
cortina de ferro que em pouco tempo ficaram muito pobres. Infelizmente a Europa
adoptou o marxismo e por essa razão tem estado estagnada economicamente, ou
mesmo a empobrecer e a perder importância no mundo para os EUA e a China. E
ainda não percebeu isso. E tenta manter desesperadamente o socialismo atacando
a direita que emerge para erradicar o marxismo, chamando-a de radical...
Francisco Almeida: A grande lição da crónica de
hoje de Patrícia Fernandes é que o grande valor é mesmo o equilíbrio resultante
do senso comum. Patrícia Fernandes mostrou bem o errado que é desvalorizar o
trabalho mas sabemos de experiências recentes que o trabalhismo, a
sobrevalorização do trabalho (ou, se calhar, apenas o seu pretexto) produziu
resultados funestos.
Henrique Valente: Abordagem interessante ao
assunto. Mas um dos grandes argumentos dos que tendem a considerar a meritocracia
falaciosa, onde eu me incluo, é a lotaria genética. Portanto não é verdade que
a base dessa ideia seja “nascemos todos com as mesmas capacidades”. Posto isto,
é sempre um prazer ler as suas opiniões e aprendo sempre alguma coisa
Nenhum comentário:
Postar um comentário