Galhos do mesmo cepo. Ou, mais refrescantemente, fruta
da mesma árvore.
O regresso da “maioria de Esquerda” à Direita
Como fica então o país depois das
eleições de 18 de maio? Exactamente como antes: um Governo minoritário que
gerirá diariamente a realidade, desafiando quotidianamente a Oposição a
derrubá-lo.
JOÃO CÉSAR DAS
NEVES Professor da Católica Lisbon School of Business & Economics
OBSERVADOR, 23
mai. 2025, 00:186
Certas tolices nunca morrem. Quando, na
noite das eleições de 18 de maio, André Ventura afirmou que “o Governo de
Portugal depende do Chega e só do Chega”, cometeu o mesmo erro lógico de Álvaro
Cunhal a 25 de abril de 1975, falando de “maioria de Esquerda” após as primeiras
eleições constitucionais. Passados 50 anos, o paralogismo continua evidente: um
partido antissistema não pode querer fazer parte do sistema. Os eleitores do Chega, como então os do
PCP, são contra o Governo, qualquer que ele seja. Nunca aceitarão ver o seu
partido apoiar uma solução alheia de poder.
O puro “voto de protesto”, de quem não gosta do que está e não se
interessa em propor alternativas, sobe naturalmente em períodos de crise e
transformação, como o actual. Esta atitude eminentemente negativa, por
muito irresponsável que seja (afinal
todos temos de continuar a viver no tal regime odiado), nunca deve ser
interpretada como positiva. Quem vota
nos partidos antissistema não os quer ver a tratar dos problemas, porque tal os
tornaria tão abomináveis quanto o abominado Governo.
Prova evidente disto é o desastre
sofrido pelos comunistas quando, 40 anos depois das primeiras eleições, e 10
depois da morte de Cunhal, finalmente se realizou a tal “maioria de Esquerda”, no governo da chamada “geringonça”. Então,
não só as políticas marxistas nunca foram realmente aplicadas, mas a
Extrema-Esquerda (PCP e BE) arruinou a sua influência, descendo dos 34
deputados de 2015 para os quatro que tem hoje. Próximos do poder, deixaram de ser partidos de queixa, e entregaram
o facho da contestação a outras forças.
O
que isto significa é que, para a governação concreta do país, os deputados
do Chega, tal como os da Extrema-Esquerda, são realmente irrelevantes. É muito desagradável que mais de 30% do
parlamento apenas manifeste contestação; mas, por isso mesmo, irão ocupar a
legislaturas com protestos retóricos e números mediáticos, para fingir a
relevância que realmente nunca terão. Porque no dia em que a tiverem, perdem a
única razão dos votos que receberam.
Como fica então o país depois das
eleições de 18 de maio? Exactamente como antes: um Governo minoritário que
gerirá diariamente a realidade, desafiando quotidianamente a Oposição a
derrubá-lo; a qual, se cair na armadilha de o fazer, sofrerá os respectivos
custos, como o PS desta vez. Foi assim em metade dos nossos governos
constitucionais, vigorando em 40% do tempo desta democracia.
Claro
que isso impedirá as famosas “reformas estruturais”; mas essas não existem há
décadas, e também estiveram ausentes durante vários dos governos maioritários. Seria
importante realizá-las, mas os bloqueios que as impedem são muito mais
profundos que a composição parlamentar. Os
poderes sectoriais e os grupos de pressão, que realmente controlam a opinião
pública e os partidos, sabem bem como impedir as mudanças que os afectariam.
São eles que há muito tempo mantêm o país como está. Isso viu-se bem nas
últimas campanhas eleitorais, onde ninguém falou das tais reformas, mas
ocuparam-se exclusivamente a prometer benefícios míticos para as tais forças
instaladas.
Boa parte do descontentamento visível
nas eleições de 2025 veio do esfumar da última grande fantasia política. Talvez já
não se lembre, mas o país devia estar agora a viver os últimos maravilhosos
anos da “última oportunidade” dos fundos europeus, com o prodigioso Plano de
Recuperação e Resiliência (PRR). Políticos
de todas as cores prometeram que todos iríamos receber muitos milhões da
“bazuca europeia”, criando melhorias espantosas, múltiplos empregos e um
crescimento económico espectacular. Será que se viu alguma dessas coisas? Desde
que o dinheiro começou a entrar já caíram dois governos e a economia não
acelerou.
Terminado este interlúdio eleitoral,
podemos voltar à rotina anterior. Vale a pena lembrar que, apesar de
todos os problemas, e são muitos e graves, somos um país rico, com uma economia
a crescer e uma dívida pública em redução. Afinal, felizmente, a maior parte
daquilo que realmente interessa depende, não do Governo e do Parlamento, que se
perdem em embates, insultos, sonhos e ilusões, mas da sociedade e da economia,
que todos os dias lidam com a realidade.
COMENTÁRIOS (de 6):
Ana Luís da Silva: “Quem vota nos partidos
antissistema não os quer ver tratar dos problemas”?!! Então quer o quê? O
CHEGA não é o PCP. O PCP tem e tinha uma agenda desconstrutiva da sociedade e
da economia, já agora, para tentar implementar uma outra, distópica,
totalitária, subverter o Estado de Direito. O CHEGA tem uma visão pró-cristã,
nacional e conservadora dos valores civilizacionais que fizeram da Europa o que
até há alguns anos foi. Defende o trabalho humano pago com justiça contra a
subsidiodependência; a redução do Estado no seu peso burocrático e
institucional, os espaços de liberdade da família nos seus direitos, a
dignidade dos idosos. E quer combater a corrupção, o nepotismo e o despesismo
do Estado. Crónica enviesada. Espremida, não produz uma gota de bom senso. Nem
de esperança. Nem sequer de realidade (somos “um país rico”?!!). Só vinagre… para além do
elogio da sacrossanta economia, que é a que resolve sempre tudo. Sinceramente! Haja
paciência!
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