Há razões poderosas em a proferir… para
esconjurar o enguiço, pois não há maneira de aquele tal André se olhar, até
mesmo só ao espelho… Embora se possa igualmente afirmar que não faz outra coisa,
a reforçar um retrato que ele pretende garantia de paixão venturosamente a ele
distribuída, tais as boquinhas acompanhantes da sua voz vibrante para a atenção
geral.
Alberto Gonçalves acusa os
portugueses – ou os seus representantes - de terem chegado a isto? Mas bastaria
que não menosprezasse as tentativas de orientação pátria do novo Governo, que
parece mais equilibrado no respeito pelos valores normais. É preciso acreditar nas
gentes que parecem mais sérias e responsáveis, dar-lhes ao menos a
possibilidade de o demonstrarem. Foi o que não fizeram, nem o do PS, nem o Ventura
e menos ainda os admiradores do tal da cadeira czarista distante, donde comanda
as suas invasões de logro e ambição criminosas, mas que esses tais nossos
respeitam, conquanto também na lonjura. Com o poder que tem com a sua pena, seria
preciso que Alberto
Gonçalves ajudasse a empurrar esta barcaça, no apoio a
representantes que o tentam, com mais hombridade do que os precedentes.
Uma espécie de esperança
É curioso ver as forças políticas que
se batem pela cidadania de 1,5 milhões de imigrantes não mostrarem quaisquer
escrúpulos em ignorar os direitos cívicos de quase 1,5 milhões de portugueses.
ALBERTO GONÇALVES
Colunista do Observador
OBSERVADOR, 24
mai. 2025, 00:191
As teses, a cargo de
especialistas legitimados pelas televisões, são abundantes e um tanto
contraditórias. Resumindo, para uns os eleitores do Chega são
fascistas e racistas que votavam no PS e no PCP e decerto não eram fascistas e
racistas então. Para outros,
os eleitores do Chega são fascistas e racistas que vêm do PSD, onde eram um
bocadinho fascistas e racistas e tinham vergonha de o assumir. Outros
ainda reparam no pormenor de que o Chega é pelos vistos o partido mais votado
entre os indivíduos dos 18 aos 35 anos, ou seja, que os eleitores do Chega são
em boa parte fascistas e racistas jovens sem grande currículo eleitoral
anterior, e que afinal a “geração
mais bem informada de sempre” é manipulável pelo TikTok e traquitanas afins.
Metade dos especialistas confessa-se
preocupadíssima com a situação. A metade que sobra, embora igualmente aflita,
apresenta soluções, de três tipos diferentes e consequências idênticas. A primeira solução consiste em concluir que o povo é, além de
fascista e racista, cretino, logo deve ser idealmente impedido de votar ou no
mínimo enxovalhado até desistir de o fazer. A segunda solução consiste em decretar a proibição sumária do
Chega, método que devolveria os fascistas e racistas aos partidos
democráticos (os da esquerda) e aos partidos parcialmente fascistas e racistas (os da
“direita” que é democrática quando
convém aos especialistas).
A terceira
solução
apresentada pelos especialistas é aquela que, depois de aplicada em 2024, se
prepara para ser repetida. Funciona assim: aceitam-se a custo os resultados
eleitorais e “anulam-se” os resultados do Chega, em que nenhum dos demais
partidos se pode roçar sob pena de esconjuração e, claro, acusações pertinentes
de fascismo e racismo (abre-se uma excepção para eventuais moções de censura ou
confiança, em que a esquerda é livre de se aliar aos fascistas e racistas de
modo a derrubar o governo da “direita” às vezes democrática). Para efeitos práticos, é como
se o Chega não existisse. É curioso ver as forças políticas que se batem pela plena cidadania
de um milhão e meio de imigrantes não mostrarem quaisquer escrúpulos em ignorar
os direitos cívicos de quase um milhão e meio de portugueses. Não digo que é mau: digo apenas que é curioso. O combate ao fascismo e ao racismo não se
questiona.
Tudo somado, o truque para resolver o imbróglio saído
da noite de Domingo passa por ignorar a realidade. Costuma correr bem. À semelhança de dois terços dos Três Macacos Sábios,
os especialistas e a classe dirigente “tradicional” não querem ouvir nem ver nada
que diga respeito ao Chega. Ao contrário do terceiro macaco, não param de falar
– e falam exclusivamente do Chega.
O Chega agradece. O Chega
gosta de se dizer avesso ao “sistema”, mas nem precisa: o “sistema” insiste em confirmá-lo. As “linhas vermelhas” que a esquerda
instituiu e a “direita” às vezes democrática acatou com cómico prazer procuraram em tempos garantir que o Chega se manteria fora do poder. Hoje são a
garantia de que, salvo milagres alheios ou deslizes próprios, tarde ou cedo o
Chega alcançará o poder. Hoje,
e desde o dia 18, o Chega está no lugar que lhe convém. Hoje, o “não é não” tornou-se
uma promessa de André Ventura e não do dr. Montenegro, o qual, por convicção, estratégia ou obediência ao zeitgeist, perdeu a oportunidade de
comprometer e domesticar e conter a famosa “extrema-direita” (o jargão dos especialistas é “normalizar”). Esse
comboio, poupado às greves, já saiu da estação.
Por alturas
deste parágrafo, suponho que as “caixas” de comentários comecem a acumular
insinuações de que me sinto felicíssimo com o sucesso do Chega e de que as
minhas previsões padecem de wishful thinking. Tentarei acalmar as ânsias
e, com paciência, responder que não me alegro especialmente com acontecimentos
políticos (no limite, divirto-me), que não votei Chega (não votei em ninguém),
e que antecipo os desenvolvimentos que julgo plausíveis (e posso falhar). E se? E se eu estivesse radiante com os 58 ou
60 deputados do Chega? E se tivesse votado no Chega? E se desejasse com ardor
que o Chega venha a liderar um governo? Seria um crime? Aparentemente, sim, pelo menos na legislação imaginária adoptada pelos
donos do regime e os seus inúmeros serviçais.
O que os donos
do regime e os seus serviçais não enfiam nas ilustres cabeças é que é essa
exacta arrogância a explicar em larga medida a ascensão, por enquanto
imparável, do Chega. O que acontece em Portugal, na Europa e na América não é o
avanço do “radicalismo”: é o cansaço
de imensa gente perante a “moderação”, eufemismo para os arranjos que alimentam
“elites” duvidosas à custa de populações humilhadas.
Por cá, a verdade é que uma quantidade crescente de pessoas está farta
“disto”, leia-se de uma casta em reprodução perpétua que subjuga o país a uma
perpétua penúria e, não satisfeita, goza e discrimina as suas vítimas. As
vítimas não são fascistas. Não são racistas. Não são sequer necessariamente
possuidores de queixas comuns ou desejos partilhados. São cidadãos que, mesmo
que nem sempre saibam com precisão o que querem, sabem o que não querem – não
querem “isto”. E
o Chega é, ou esforça-se por parecer, a alternativa a “isto”. Falta ao Chega coerência, “quadros”, modos? Sem
dúvida. O problema é que a coerência (?), os “quadros” (?) e os modos (?) dos
partidos “institucionais” deixaram-nos aqui.
A receita
“correcta” falhou. A “incorrecta” talvez falhe – e nessa diferença há uma
espécie de esperança. Escassa e se calhar equívoca, de momento é a esperança a
que muitos se agarram. Não se queixem deles: queixem-se de vocês.
COMUNICAÇÃO SOCIAL MEDIA SOCIEDADE
PARTIDO CHEGA POLÍTICA
COMENTÁRIOS
Observador censurado: O artigo está muito bem escrito e creio que o Alberto
terá esquecido apenas um pormaior. Em alguns casos, o voto no Chega é um voto
não de protesto mas um voto consciente para aumentar a concorrência e estimular
o Partido Socialista Dois a melhorar a sua performance.
Liberales
Semper Erexitque: Não existe nenhum
"imbróglio" político em Portugal. Na verdade, as coisas agora estão
globalmente melhores para o país. E até os chagados estão felizes por terem
arrebanhado mais dez bonecos articulados em S. Bento a fazer birras e barulho.
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