Uma tal tese – mais uma - destruidora
de um sentido que vem dos primórdios e que tem a ver com “universo”, implicando
um saber de universalidade, julgo. Reduzi-la tão drasticamente a um conceito
politiqueiro parece absurdo e condenável. Só num povo imaturo é que tal
conceito redutor seria possível. Não creio isso plausível, pelo menos da parte
dos professores que leccionam, lembrando os professores que tive, que, se
faziam política, seria nos locais próprios. Lembro o Professor Ramalho dos meus
tempos de Coimbra, que ia muitas vezes a Lisboa, em manobras politiqueiras, mas
impecavelmente ensinava o seu latim na sua Faculdade de Letras. O mesmo se
dizia do Professor Herculano de Carvalho, que tanto recordo na sua mestria
vária. No meu tempo de estudante julgo que era na “Casa dos Estudantes” que se
discutia política. Não, não creio que os professores universitários vão hoje para
as suas aulas vender outro tipo de peixe que não seja o seu próprio, sobre a
disciplina do seu estudo. Não pode ser assim! Não seria honesto. As
consequências sociais seriam caóticas, reduzido o mundo a triste selva! Os
governos não podem deixar que isso aconteça!
Sei que uso apenas de subjectividade, resultante de experiência própria,
no estudo e no meu contributo parcial para a evolução, que o estudo
universitário me possibilitou. O texto seguinte, do Professor TELMO G. SANTOS parece
uma excelente análise do fenómeno actual. Mas deprimente, sim. Não, não estarei
cá então, para ver isso. Mas tenho pena que tal transformação venha a dar-se.
Parece-me monstruoso, em termos de desresponsabilização e desorientação caóticas,
numa sociedade de brinquedo. Ou de arrogância e toleima, que por cá se vê
também, putins ou trumps que somos, afinal, todos em potência… Não, não há
pachorra!
(1) A Universidade ainda faz sentido?
Erguer uma universidade já foi
considerado o mais nobre dos empreendimentos humanos, mas hoje há dúvidas sobre
a sua missão e utilidade.
TELMO G. SANTOS Professor no Departamento de Engenharia Mecânica e
Industrial da NOVA FCT, Investigador da UNIDEMI
OBSERVADOR, 07
mai. 2025, 00:167
1O que se passa com a Universidade?
A
Universidade foi uma criação extraordinária da Idade Média (1088-Bolonha,
1096-Oxford, 1170-Paris), motivada pela
sede de conhecimento e com vocação
teologal: Conhecimento, Verdade, Espírito, Deus. Ao longo de 900
anos, reinventou-se e atravessou, com êxito surpreendente, diferentes contextos
sociais, económicos e políticos.
Hoje existem cerca de 25.000
universidades por todo o mundo, mas vários autores afirmam que a
Universidade está em crise, ou em
ruínas, ou que é
um “zombie”, no sentido em que perdeu a sua missão original, mas continua a
existir… Erguer uma universidade foi considerado o mais nobre
dos empreendimentos humanos, mas hoje há dúvidas sobre a sua missão e utilidade
para o século XXI, o que parece contraditório no contexto da chamada “sociedade do conhecimento”.
Afinal, o que pode a Universidade oferecer aos estudantes e à
sociedade actual? Qual deve ser a sua missão essencial hoje?
Quais são os grandes desafios e ameaças que enfrenta? E que novos modelos de
Universidade estão a ser propostos para responder a esses desafios e para
cumprir a sua missão no futuro?
Cada
universidade tem as suas especificidades, mas há desafios e ameaças comuns,
nomeadamente, a perda do monopólio do conhecimento e do ensino, e a
concorrência de alternativas à universidade tradicional. Diz-se que
os métodos de ensino estão obsoletos; que os encargos económicos com alguns
cursos não são rentabilizados; que aprender ao longo da vida faz mais
sentido do que um curso de 5 anos (!!!!!); soma-se a
acusação de que a Universidade está
refém de ideologias ou interesses económicos.
A pandemia Covid-19 agudizou um
mal-estar latente nos estudantes, e a desconcertante
passividade estudantil, que dura desde maio de 1968, dá lugar a uma revolta
silenciosa – basta pensar no fenómeno dropping out of university / college.
Em Portugal, após a desarticulação dos
mestrados integrados (5 anos), vários
estudantes optaram por entrar no mercado de trabalho apenas com a licenciatura
(3 anos), sem prosseguir para o mestrado (+2 anos). Será um epifenómeno ou uma tendência
crescente? Depois da pandemia, os avanços na Inteligência Artificial (IA)
(ChatGPT, DeepSeek, Gemini) aumentaram a comoção com que se debate o futuro da
Universidade.
São imensos os críticos da Universidade,
mas muitos falham o alvo, ou não têm alternativa, ou reciclam ideias antigas
com nova roupagem. Também é frequente confundir duas coisas bem distintas:
O essencial da Universidade, ou seja, a
sua missão histórica, a vocação específica e o que se espera dela;
Os
aspectos secundários, contingentes ou instrumentais, como o tipo de aulas, as
opções pedagógicas, o uso de “tecnologias digitais”, a disposição dos assentos
na sala de aulas ou os novos epítetos para os
professores.
Neste artigo, e nos dois seguintes, pretende-se
identificar problemas e fazer perguntas, pois não faz sentido procurar
respostas para perguntas que não se colocaram. Posteriormente, poder-se-á
sugerir propostas para o futuro da Universidade.
2Velhas e novas questões
No cenário actual, ressurgem questões
que, não sendo novas, voltam a ganhar relevância: a Universidade deve ser um espaço de ensino ou de
investigação? Tem como finalidade preparar profissionais ou cidadãos? O
conhecimento é um fim em si mesmo ou deve sujeitar-se a critérios de utilidade?
A Universidade deve ter financiamento, avaliação e tutela governamental ou mais
autonomia e “concorrência de mercado”? Ou é possível conciliar tudo na mesma
instituição?
Mas no contexto atual, para além destas
recorrentes dicotomias, emergem perguntas novas e mais fundamentais: O que é
verdadeiramente exclusivo da Universidade? O que só ela pode oferecer? Porque é
mais atrativo frequentar um curso universitário e não outro curso qualquer? E
outras perguntas, como por exemplo:
i) Deve a Universidade reproduzir
conteúdos ou guiar na descoberta de uma vocação?
Num tempo em que os conteúdos
curriculares de muitos cursos estão integralmente online, qual deve ser o foco
da Universidade? O ensino é um eixo essencial da Universidade, mas não haverá
mais para acrescentar à reprodução e transmissão de conteúdos? Se o ensino for
meramente “livresco” qual a sua mais-valia face ao ChatGPT?
Não fará sentido a Universidade
contribuir activamente para a descoberta da vocação dos seus estudantes? Por exemplo, oferecer um período
propedêutico, imersivo e activo, que ajudasse a revelar o potencial humano e
profissional dos estudantes? Muitos descobrem, a meio do curso, que afinal não
fizeram a escolha certa, porque nunca experimentaram outras áreas do
conhecimento. Em alguns casos, apesar das consultas de orientação vocacional,
ignoram áreas para as quais, afinal, têm muita vocação. A descoberta de uma
vocação é decisiva para a vida: ninguém deve esperar o comboio na paragem do
autocarro! É no impacto com a realidade concreta que emerge com maior clareza
uma vocação. O que faz a universidade para evitar estas dissonâncias? Os dias
abertos!?
ii) Deve o estudante escolher um curso
ou capacitar-se para uma missão?
Continua a fazer sentido, do ponto de
vista do estudante, escolher a sua formação pessoal a partir de um catálogo de
cursos rigidamente pré-desenhados, que cerceia todos por igual? Ou, em alguns
casos, fará sentido o estudante definir, conscientemente a sua “missão
profissional”, e em função disso, escolher
com a ajuda da Universidade, as competências que deve adquirir e os respetivos
conteúdos curriculares necessários? Não se trata de um curso à la
carte, numa lógica consumista, nem se aplica a algumas profissões ordenadas,
como algumas Engenharias ou a Medicina. Contudo, o conceito de “investigação
por missão” já não é novo e muitas universidades preconizam este paradigma para
dar resposta aos problemas complexos atuais. Nesse contexto, faz sentido
manter a formação dos futuros adultos no paradigma da universidade napoleónica?
iii) Deve a Universidade treinar para a
eficácia ou para a reflexão?
A IA resolve muitos exames típicos do
ensino superior e manipula informação com elevada eficácia. Faz sentido
formar estudantes com competências idênticas? Se a Universidade formar os
estudantes para esse tipo de eficácia técnica e operacional, estará a
colocá-los em competição directa com
aquilo que a IA faz melhor. Não é possível “aprender a aprender” sem aprender
coisa alguma – por isso, é fundamental memorizar, conhecer, manipular e
sintetizar informação, executar tarefas repetitivas, resolver problemas com
base em padrões, etc. Mas deve
isso ser um fim em si mesmo ou estar ao serviço da reflexão, da criatividade e
da capacidade de contemplação? A IA pode dar boas respostas, mas
quem faz as boas perguntas? Da Universidade deveriam sair contemplativos,
para fazer as perguntas que importam.
iv) Deve a Universidade ser geradora ou replicadora?
Deve a Universidade ser geradora de novidade ou apenas um
instrumento de “promoção de agendas”, fazendo mero eco de outras vozes? Deve ser
verdadeiramente radical, no sentido em que radica na realidade, fazendo dela
objecto de estudo, ou deve replicar discursos pré-concebidos por outras
organizações? Deve a universidade
focar-se em investigar e revelar o desconhecido, estabelecendo novas
coordenadas para a existência humana, ou resignar-se a um seguidismo ideológico
conjuntural, alheio ao conhecimento científico que deveria produzir e ensinar?
Não deveria a Universidade, acima de
tudo, gerar nos estudantes o entusiasmo pela realidade e pela vida, através do
conhecimento que produz, com o estudo dessa mesma realidade?
Questões como estas podem parecer
platónicas ou supérfluas, mas devemos perguntar-nos: algumas das críticas
dirigidas à universidade não terão um fundo de verdade? E será que adaptações
cosméticas e casuísticas são suficientes para readaptar a Universidade ao
século XXI?
3Há mais para debater
Infelizmente, com algumas excepções,
como o projecto Stanford2025 (que já discute a questão da vocação e da
missão dos estudantes), parece que o debate sobre o futuro da
universidade gira em torno de meia dúzia de clichés da moda, exaustivamente
repetidos, como retórica e substituto da reflexão. Alguns exemplos: excelência, cidadania global, inclusão,
transformação digital, interdisciplinaridade, sustentabilidade, diversidade,
resiliência, ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), transformação
global.
Não será a Universidade algo muito
maior na História Humana? Já existem muitas instituições dedicadas a emitir
opiniões, prestar serviços e a transformar produtos; mas a Universidade transforma pessoas! Não será a Universidade mais necessária do
que nunca, num tempo marcado por fenómenos como a Grande
Demissão (Big Quit), a Desistência Silenciosa (quiet quitting) e os “Enferrujados”
(Rust Out)? De que vale
a Universidade adoptar essa retórica se os profissionais que forma acabam
“enferrujados”, desinteressados, apáticos, alienados e entediados – não só no
trabalho, mas também na vida? Será isto “sustentável”, “excelente” ou “inclusivo”?
De acordo com um estudo da
Gallup, em 2023 as empresas nos EUA perderam cerca de 1,9
biliões de dólares (1,9×1012 USD) em produtividade devido à “ferrugem” dos
funcionários – cerca de metade
assumiu fazer um esforço mínimo no trabalho. E
o que significa o consumo de
psicotrópicos, álcool e o abuso
de medicamentos por parte
dos estudantes universitários, em alguns casos superior ao dos jovens que não
frequentam a universidade? Não deveria a aventura do
conhecimento e a busca da verdade ser a principal “adição” dos universitários?
Alguns defendem a reintrodução do
serviço militar obrigatório para “incutir valores” nos jovens e “formar
cidadãos” para “melhor convivência social”. Mas não deveria a
Universidade cumprir esse papel, sendo
a instituição mais vocacionada para a formação de cidadãos ilustrados? Não
deveria a Universidade ser o espaço privilegiado para um encontro com a
realidade, despertando entusiasmo e idealismo, preparando o jovem para a vida e
o trabalho – com verdadeira eficácia, até segundo critérios económicos?
É certo que, como defendeu Henry Newman
em (1852), o objectivo da Universidade é
intelectual, não moral – por isso a Universidade não pode doutrinar os seus
estudantes. No entanto, Newman também defendia que a difusão do conhecimento
deveria promover uma educação humanista e integral, para formar não apenas
profissionais, mas pessoas. No entanto,
mesmo nas universidades de topo, como Cambridge, parece que não está a
acontecer nem uma coisa nem outra. Pelo contrário, regride o nível cultural nos
campi, onde graça a infantilização e a desresponsabilização dos estudantes, a par com o
facilitismo, que aumenta na proporção das suas declarações de “ansiedade”,
“incapacidade” e “dificuldades de aprendizagem”.
Esta redução progressiva de exigência,
sobretudo nas universidades ocidentais, contrasta com o aumento de rigor e da
qualidade dos cursos das universidades asiáticas. Não será esse também um fator
de declínio tecnológico da Europa face às economias asiáticas? Que espécie de
liderança tecnológica será possível, num cenário cada vez mais plausível, em
que a maioria dos estudantes europeus sai da universidade apenas com 3 anos de
uma “licenciatura pós-Bolonha”?
4 Quem faz acontecer? A instituição ou os alumni?
A Universidade contemporânea, através
das suas esquemáticas burocráticas e institucionais, esforça-se tremendamente
para “criar” e (sobretudo) “medir” o seu impacto na sociedade, como se isso
fosse a derradeira legitimação da sua existência…
Para tal, muitos concebem a Universidade actual como um misto de
agência de serviços sociais, instituição de caridade, luminária de
sensibilização para variadas causas, start-up tecnologia, entre outras. No meio de tantas funções, a investigação
relevante e o ensino de qualidade parecem ficar abafados… Sem dúvida
que a Universidade deve ter, cada vez mais, impacto social. A questão é saber
se o deve fazer directamente, enquanto organização – através da acção directa
dos seus professores, direcções e equipas reitorais, ou através dos seus
estudantes, com um enorme efeito escala.
Talvez
a Universidade do futuro devesse procurar o seu verdadeiro “impacto”, não
através das suas múltiplas acções directas enquanto organização, mas sim
através da acção futura dos seus estudantes, enviados com entusiasmo para o
mundo inteiro – para que a
vitória dos estudantes seja a Glória da Universidade!
Num próximo artigo, serão abordados 10 desafios que a Universidade enfrenta actualmente.
Posteriormente, abordar-se-á a evolução e os principais modelos de
Universidade, desde a sua origem, no contexto em que se inseriram. Isso
ajudará, então, a avaliar as propostas actuais para o futuro da Universidade e
a propor outras.
As
opiniões aqui expressas vinculam apenas o autor e não as instituições a que
está filiado.
COMENTÁRIOS (de 7)
Pedra
Nussapato: Relacionado com o ponto i), é preciso notar que muitos
anos antes da entrada na universidade, os estudantes já são obrigados a fazer
uma escolha no fim do 9° ano, a meu ver erradamente, a qual para a vastíssima
maioria deles vai condicionar fortemente, e de forma irreversível, o que depois
vai ser o seu percurso académico e profissional.
Luís Rodrigues > Tim
do A: “ e os
interesses das grandes multinacionais” - mais ainda: e os interesses de grupos
de pressão ideológica e política, cuja acção muitos governos apreciam e
incentivam.
Tim do A: Interessante reflexão. A universidade
hoje têm servido demasiado as ideologias da moda e os interesses das grandes
multinacionais e menos o conhecimento. A universidade do Minho é das poucas
excepções no nosso país.
S Belo > Luís
Rodrigues: “os
interesses de grupos de pressão ideológica e política” estão presentes, mais ou
menos despudoradamente, em todo o percurso escolar.
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