quinta-feira, 8 de maio de 2025

Custa a crer


Uma tal tese – mais uma - destruidora de um sentido que vem dos primórdios e que tem a ver com “universo”, implicando um saber de universalidade, julgo. Reduzi-la tão drasticamente a um conceito politiqueiro parece absurdo e condenável. Só num povo imaturo é que tal conceito redutor seria possível. Não creio isso plausível, pelo menos da parte dos professores que leccionam, lembrando os professores que tive, que, se faziam política, seria nos locais próprios. Lembro o Professor Ramalho dos meus tempos de Coimbra, que ia muitas vezes a Lisboa, em manobras politiqueiras, mas impecavelmente ensinava o seu latim na sua Faculdade de Letras. O mesmo se dizia do Professor Herculano de Carvalho, que tanto recordo na sua mestria vária. No meu tempo de estudante julgo que era na “Casa dos Estudantes” que se discutia política. Não, não creio que os professores universitários vão hoje para as suas aulas vender outro tipo de peixe que não seja o seu próprio, sobre a disciplina do seu estudo. Não pode ser assim! Não seria honesto. As consequências sociais seriam caóticas, reduzido o mundo a triste selva! Os governos não podem deixar que isso aconteça!

Sei que uso apenas de subjectividade, resultante de experiência própria, no estudo e no meu contributo parcial para a evolução, que o estudo universitário me possibilitou. O texto seguinte, do Professor TELMO G. SANTOS parece uma excelente análise do fenómeno actual. Mas deprimente, sim. Não, não estarei cá então, para ver isso. Mas tenho pena que tal transformação venha a dar-se. Parece-me monstruoso, em termos de desresponsabilização e desorientação caóticas, numa sociedade de brinquedo. Ou de arrogância e toleima, que por cá se vê também, putins ou trumps que somos, afinal, todos em potência… Não, não há pachorra!

(1) A Universidade ainda faz sentido?

Erguer uma universidade já foi considerado o mais nobre dos empreendimentos humanos, mas hoje há dúvidas sobre a sua missão e utilidade.

TELMO G. SANTOS Professor no Departamento de Engenharia Mecânica e Industrial da NOVA FCT, Investigador da UNIDEMI

OBSERVADOR, 07 mai. 2025, 00:167

1O que se passa com a Universidade?

A Universidade foi uma criação extraordinária da Idade Média (1088-Bolonha, 1096-Oxford, 1170-Paris), motivada pela sede de conhecimento e com vocação teologal: Conhecimento, Verdade, Espírito, Deus. Ao longo de 900 anos, reinventou-se e atravessou, com êxito surpreendente, diferentes contextos sociais, económicos e políticos.

Hoje existem cerca de 25.000 universidades por todo o mundo, mas vários autores afirmam que a Universidade está em crise, ou em ruínas, ou que é um “zombie”, no sentido em que perdeu a sua missão original, mas continua a existir Erguer uma universidade foi considerado o mais nobre dos empreendimentos humanos, mas hoje há dúvidas sobre a sua missão e utilidade para o século XXI, o que parece contraditório no contexto da chamada “sociedade do conhecimento”.

Afinal, o que pode a Universidade oferecer aos estudantes e à sociedade actual? Qual deve ser a sua missão essencial hoje? Quais são os grandes desafios e ameaças que enfrenta? E que novos modelos de Universidade estão a ser propostos para responder a esses desafios e para cumprir a sua missão no futuro?

Cada universidade tem as suas especificidades, mas há desafios e ameaças comuns, nomeadamente, a perda do monopólio do conhecimento e do ensino, e a concorrência de alternativas à universidade tradicional. Diz-se que os métodos de ensino estão obsoletos; que os encargos económicos com alguns cursos não são rentabilizados; que aprender ao longo da vida faz mais sentido do que um curso de 5 anos (!!!!!); soma-se a acusação de que a Universidade está refém de ideologias ou interesses económicos.

A pandemia Covid-19 agudizou um mal-estar latente nos estudantes, e a desconcertante passividade estudantil, que dura desde maio de 1968, dá lugar a uma revolta silenciosa – basta pensar no fenómeno dropping out of university / college.

Em Portugal, após a desarticulação dos mestrados integrados (5 anos), vários estudantes optaram por entrar no mercado de trabalho apenas com a licenciatura (3 anos), sem prosseguir para o mestrado (+2 anos). Será um epifenómeno ou uma tendência crescente? Depois da pandemia, os avanços na Inteligência Artificial (IA) (ChatGPT, DeepSeek, Gemini) aumentaram a comoção com que se debate o futuro da Universidade.

São imensos os críticos da Universidade, mas muitos falham o alvo, ou não têm alternativa, ou reciclam ideias antigas com nova roupagem. Também é frequente confundir duas coisas bem distintas:

O essencial da Universidade, ou seja, a sua missão histórica, a vocação específica e o que se espera dela;

Os aspectos secundários, contingentes ou instrumentais, como o tipo de aulas, as opções pedagógicas, o uso de “tecnologias digitais”, a disposição dos assentos na sala de aulas ou os novos epítetos para os professores.

Neste artigo, e nos dois seguintes, pretende-se identificar problemas e fazer perguntas, pois não faz sentido procurar respostas para perguntas que não se colocaram. Posteriormente, poder-se-á sugerir propostas para o futuro da Universidade.

2Velhas e novas questões

No cenário actual, ressurgem questões que, não sendo novas, voltam a ganhar relevância: a Universidade deve ser um espaço de ensino ou de investigação? Tem como finalidade preparar profissionais ou cidadãos? O conhecimento é um fim em si mesmo ou deve sujeitar-se a critérios de utilidade? A Universidade deve ter financiamento, avaliação e tutela governamental ou mais autonomia e “concorrência de mercado”? Ou é possível conciliar tudo na mesma instituição?

Mas no contexto atual, para além destas recorrentes dicotomias, emergem perguntas novas e mais fundamentais: O que é verdadeiramente exclusivo da Universidade? O que só ela pode oferecer? Porque é mais atrativo frequentar um curso universitário e não outro curso qualquer? E outras perguntas, como por exemplo:

i) Deve a Universidade reproduzir conteúdos ou guiar na descoberta de uma vocação?

Num tempo em que os conteúdos curriculares de muitos cursos estão integralmente online, qual deve ser o foco da Universidade? O ensino é um eixo essencial da Universidade, mas não haverá mais para acrescentar à reprodução e transmissão de conteúdos? Se o ensino for meramente “livresco” qual a sua mais-valia face ao ChatGPT?

Não fará sentido a Universidade contribuir activamente para a descoberta da vocação dos seus estudantes? Por exemplo, oferecer um período propedêutico, imersivo e activo, que ajudasse a revelar o potencial humano e profissional dos estudantes? Muitos descobrem, a meio do curso, que afinal não fizeram a escolha certa, porque nunca experimentaram outras áreas do conhecimento. Em alguns casos, apesar das consultas de orientação vocacional, ignoram áreas para as quais, afinal, têm muita vocação. A descoberta de uma vocação é decisiva para a vida: ninguém deve esperar o comboio na paragem do autocarro! É no impacto com a realidade concreta que emerge com maior clareza uma vocação. O que faz a universidade para evitar estas dissonâncias? Os dias abertos!?

ii) Deve o estudante escolher um curso ou capacitar-se para uma missão?

Continua a fazer sentido, do ponto de vista do estudante, escolher a sua formação pessoal a partir de um catálogo de cursos rigidamente pré-desenhados, que cerceia todos por igual? Ou, em alguns casos, fará sentido o estudante definir, conscientemente a sua “missão profissional”, e em função disso, escolher com a ajuda da Universidade, as competências que deve adquirir e os respetivos conteúdos curriculares necessários? Não se trata de um curso à la carte, numa lógica consumista, nem se aplica a algumas profissões ordenadas, como algumas Engenharias ou a Medicina. Contudo, o conceito de “investigação por missão” já não é novo e muitas universidades preconizam este paradigma para dar resposta aos problemas complexos atuais. Nesse contexto, faz sentido manter a formação dos futuros adultos no paradigma da universidade napoleónica?

iii) Deve a Universidade treinar para a eficácia ou para a reflexão?

A IA resolve muitos exames típicos do ensino superior e manipula informação com elevada eficácia. Faz sentido formar estudantes com competências idênticas? Se a Universidade formar os estudantes para esse tipo de eficácia técnica e operacional, estará a colocá-los em competição directa com aquilo que a IA faz melhor. Não é possível “aprender a aprender” sem aprender coisa alguma – por isso, é fundamental memorizar, conhecer, manipular e sintetizar informação, executar tarefas repetitivas, resolver problemas com base em padrões, etc. Mas deve isso ser um fim em si mesmo ou estar ao serviço da reflexão, da criatividade e da capacidade de contemplação? A IA pode dar boas respostas, mas quem faz as boas perguntas? Da Universidade deveriam sair contemplativos, para fazer as perguntas que importam.

iv) Deve a Universidade ser geradora ou replicadora?

Deve a Universidade ser geradora de novidade ou apenas um instrumento de “promoção de agendas”, fazendo mero eco de outras vozes? Deve ser verdadeiramente radical, no sentido em que radica na realidade, fazendo dela objecto de estudo, ou deve replicar discursos pré-concebidos por outras organizações? Deve a universidade focar-se em investigar e revelar o desconhecido, estabelecendo novas coordenadas para a existência humana, ou resignar-se a um seguidismo ideológico conjuntural, alheio ao conhecimento científico que deveria produzir e ensinar? Não deveria a Universidade, acima de tudo, gerar nos estudantes o entusiasmo pela realidade e pela vida, através do conhecimento que produz, com o estudo dessa mesma realidade?

Questões como estas podem parecer platónicas ou supérfluas, mas devemos perguntar-nos: algumas das críticas dirigidas à universidade não terão um fundo de verdade? E será que adaptações cosméticas e casuísticas são suficientes para readaptar a Universidade ao século XXI?

3Há mais para debater

Infelizmente, com algumas excepções, como o projecto Stanford2025 (que já discute a questão da vocação e da missão dos estudantes), parece que o debate sobre o futuro da universidade gira em torno de meia dúzia de clichés da moda, exaustivamente repetidos, como retórica e substituto da reflexão. Alguns exemplos: excelência, cidadania global, inclusão, transformação digital, interdisciplinaridade, sustentabilidade, diversidade, resiliência, ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), transformação global.

Não será a Universidade algo muito maior na História Humana? Já existem muitas instituições dedicadas a emitir opiniões, prestar serviços e a transformar produtos; mas a Universidade transforma pessoas! Não será a Universidade mais necessária do que nunca, num tempo marcado por fenómenos como a Grande Demissão (Big Quit), a Desistência Silenciosa (quiet quitting) e os “Enferrujados” (Rust Out)? De que vale a Universidade adoptar essa retórica se os profissionais que forma acabam “enferrujados”, desinteressados, apáticos, alienados e entediados – não só no trabalho, mas também na vida? Será isto “sustentável”, “excelente” ou “inclusivo”?

De acordo com um estudo da Gallup, em 2023 as empresas nos EUA perderam cerca de 1,9 biliões de dólares (1,9×1012 USD) em produtividade devido à “ferrugem” dos funcionários – cerca de metade assumiu fazer um esforço mínimo no trabalho. E o que significa o consumo de psicotrópicos, álcool e o abuso de medicamentos por parte dos estudantes universitários, em alguns casos superior ao dos jovens que não frequentam a universidade? Não deveria a aventura do conhecimento e a busca da verdade ser a principal “adição” dos universitários?

Alguns defendem a reintrodução do serviço militar obrigatório para “incutir valores” nos jovens e “formar cidadãospara “melhor convivência social”. Mas não deveria a Universidade cumprir esse papel, sendo a instituição mais vocacionada para a formação de cidadãos ilustrados? Não deveria a Universidade ser o espaço privilegiado para um encontro com a realidade, despertando entusiasmo e idealismo, preparando o jovem para a vida e o trabalho – com verdadeira eficácia, até segundo critérios económicos?

É certo que, como defendeu Henry Newman em  (1852), o objectivo da Universidade é intelectual, não moral – por isso a Universidade não pode doutrinar os seus estudantes. No entanto, Newman também defendia que a difusão do conhecimento deveria promover uma educação humanista e integral, para formar não apenas profissionais, mas pessoas. No entanto, mesmo nas universidades de topo, como Cambridge, parece que não está a acontecer nem uma coisa nem outra. Pelo contrário, regride o nível cultural nos campi, onde graça a infantilização e a desresponsabilização dos estudantes, a par com o facilitismo, que aumenta na proporção das suas declarações de “ansiedade”, “incapacidade” e “dificuldades de aprendizagem”.

Esta redução progressiva de exigência, sobretudo nas universidades ocidentais, contrasta com o aumento de rigor e da qualidade dos cursos das universidades asiáticas. Não será esse também um fator de declínio tecnológico da Europa face às economias asiáticas? Que espécie de liderança tecnológica será possível, num cenário cada vez mais plausível, em que a maioria dos estudantes europeus sai da universidade apenas com 3 anos de uma “licenciatura pós-Bolonha”?

4 Quem faz acontecer? A instituição ou os alumni?

A Universidade contemporânea, através das suas esquemáticas burocráticas e institucionais, esforça-se tremendamente para “criar” e (sobretudo) “medir” o seu impacto na sociedade, como se isso fosse a derradeira legitimação da sua existência…

Para tal, muitos concebem a Universidade actual como um misto de agência de serviços sociais, instituição de caridade, luminária de sensibilização para variadas causas, start-up tecnologia, entre outras. No meio de tantas funções, a investigação relevante e o ensino de qualidade parecem ficar abafados… Sem dúvida que a Universidade deve ter, cada vez mais, impacto social. A questão é saber se o deve fazer directamente, enquanto organização – através da acção directa dos seus professores, direcções e equipas reitorais, ou através dos seus estudantes, com um enorme efeito escala.

Talvez a Universidade do futuro devesse procurar o seu verdadeiro “impacto”, não através das suas múltiplas acções directas enquanto organização, mas sim através da acção futura dos seus estudantes, enviados com entusiasmo para o mundo inteiro – para que a vitória dos estudantes seja a Glória da Universidade!

Num próximo artigo, serão abordados 10 desafios que a Universidade enfrenta actualmente. Posteriormente, abordar-se-á a evolução e os principais modelos de Universidade, desde a sua origem, no contexto em que se inseriram. Isso ajudará, então, a avaliar as propostas actuais para o futuro da Universidade e a propor outras.

As opiniões aqui expressas vinculam apenas o autor e não as instituições a que está filiado.

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COMENTÁRIOS (de 7)

Pedra Nussapato: Relacionado com o ponto i), é preciso notar que muitos anos antes da entrada na universidade, os estudantes já são obrigados a fazer uma escolha no fim do 9° ano, a meu ver erradamente, a qual para a vastíssima maioria deles vai condicionar fortemente, e de forma irreversível, o que depois vai ser o seu percurso académico e profissional.

Luís Rodrigues > Tim do A: “ e os interesses das grandes multinacionais” - mais ainda: e os interesses de grupos de pressão ideológica e política, cuja acção muitos governos apreciam e incentivam.

Tim do A: Interessante reflexão. A universidade hoje têm servido demasiado as ideologias da moda e os interesses das grandes multinacionais e menos o conhecimento. A universidade do Minho é das poucas excepções no nosso país.

S Belo > Luís Rodrigues: “os interesses de grupos de pressão ideológica e política” estão presentes, mais ou menos despudoradamente, em todo o percurso escolar.

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