Como se esperava, Putin não ia aparecer
por dá cá aquela palha, tanto mais que a palha pode botar fogo, mas isso, ele
não conta.
Entre os "sucessos" de Zelensky
e os "fingimentos" de Putin, Trump está agora mais próximo da Ucrânia?
Putin sugeriu negociações, Zelensky desafiou-o para um frente a
frente — e ficou sem resposta. Kiev mostrou a Trump que quer negociar, mas
Presidente dos EUA ainda tem fé num encontro seu com Putin.
OBSERVADOR, 15 mai. 2025, 20:205
Índice
Do fim da guerra à implementação da paz duradoura. O
ajuste de Donald Trump às condições
Os “fingimentos” de Putin: sugerir negociações,
silêncio e o desejo de Trump de um frente a frente
No dia 10 de março de 2022, aterraram
na Turquia os ministros dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia e da Rússia. Com o homólogo turco como mediador, as duas
partes tentaram negociar um acordo de cessar-fogo, para a guerra que Moscovo
desencadeara há apenas duas semanas. Sem sucesso. Mais de três
anos depois, as comitivas ucranianas e russas voltam a rumar à Turquia. O objectivo continua a ser assinar um
cessar-fogo, mas as condições alteraram-se. A guerra prolongada deixou pesadas
baixas nas duas partes, a cidade do encontro é outra e a mediação também: desta
vez, os Estados Unidos também se sentam à mesa.
A
entrada de Washington em cena marcou um ponto de viragem na guerra. Depois de
meses de atrito e impasse militar no terreno, Donald Trump procura
agora alcançar a paz pela via diplomática. Nesse sentido, tem levado a cabo
negociações bilaterais com os dois lados e pressionado os seus homólogos, Vladimir
Putin e Volodymyr Zelensky, para que se empenhem no processo. Porém, os últimos três meses de diálogos ainda
não apresentaram resultados concretos. A frustração norte-americana cresceu
e Washington deixou uma ameaça: “Se uma das
duas partes se fizer de difícil, vamos seguir em frente” — ou seja, desistir da
mediação.
Mas esta estratégia norte-americana
poderá não ser a mais adequada para enfrentar a situação, destacam alguns
especialistas. Stephen Sestanovich, analista
no Council on Foreign Relations, compara esta táctica, da
ameaça de abandonar um negócio, com aquela que se utiliza no ramo imobiliário
que viu nascer o actual Presidente. “Mas
neste caso, Putin gosta da ideia de os Estados Unidos estarem a perder
interesse na guerra“, escreveu na revista Foreign Policy. “Trump só pode pressioná-lo a ‘parar a matança’ ao dizer que o
interesse dos EUA está a aumentar”.
Ora, Volodymyr Zelensky tem procurado
fazer precisamente isso: manter o interesse de Washington na guerra na Ucrânia. Por
exemplo, através da assinatura do acordo dos minerais. Vladimir Putin também não tem ficado
parado, mas tem preferido desviar as atenções de Trump para outros temas, como
as relações e os negócios entre os dois países. No fundo, os dois países estão a “jogar ao jogo da corda pela posição dos
EUA”, argumenta Orysia
Lutsevych, directora do Fórum da Ucrânia do think tank Chatham House, ao
Observador.
▲A discussão
na Sala Oval representa a pressão de Washington sobre Kiev JIM LO SCALZO /
POOL/EPA
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Com Moscovo e Kiev a aplicarem tácticas
diferentes na disputa pelo favor de Donald Trump, o Presidente norte-americano
assume um papel de destaque no caminho para a paz. No entanto, os
especialistas admitem que o passo seguinte de Trump é imprevisível. Conseguirá
ser ele a marcar o passo das negociações? Ou poderá apenas ser puxado por uma
das partes? E, nesse caso, quem tem a vantagem?
Do fim da guerra à implementação da paz
duradoura. O ajuste de Donald Trump às condições
A estratégia diplomática que Donald
Trump prometeu durante a sua campanha eleitoral tem um objectivo concreto: implementar um cessar-fogo
entre a Ucrânia e a Rússia. Contudo, tal como em 2022, as
exigências das duas partes permanecem inconciliáveis. Kiev exige garantias de segurança, que
podem passar pela inclusão na NATO, tropas estrangeiras no território ou
rearmar o país, enquanto Moscovo continua com uma “agenda maximalista”, como
define Orysia Lutsevych, que inclui a anexação de todos os territórios ocupados
e a recusa das garantias de segurança propostas pela Ucrânia (por considerar
que são ameaças à própria segurança russa).
Ao entrar em palco, Trump inverteu a estratégia que os aliados ocidentais
tinham aplicado até aí: pressionou a
Ucrânia e aproximou-se de forma quase inédita do Kremlin. A aposta
não deu frutos e Donald
Trump apercebeu-se disso — a prova disso é a mudança no seu discurso. Enquanto
há alguns meses Trump dizia a Zelensky que “não tinha cartas” e
devia aceitar os termos da ajuda norte-americana, agora pressiona ambas as
partes para que “tenham uma reunião”.
A
mensagem, deixada no domingo passado nas redes sociais, deixava críticas tanto
a Zelensky como a Putin e
incentivava a um encontro na Turquia. Mas o objectivo destas reuniões
não era um acordo de tréguas completo, tal como prometia na campanha. Em vez
disso, pedia que, no mínimo, determinem se este acordo é possível. A mudança de
linguagem pode representar uma nova estratégia para pôr fim à guerra — menos
focada no cessar-fogo imediato e mais focada na resolução das tensões
entre os dois países, de forma a alcançar a “paz duradoura”, que Zelensky e os
aliados ocidentais têm defendido.
Esta postura vai ao encontro da crítica
que o analista Stephen Sestanovich deixou no início de maio: Donald Trump deve
parar de culpar as restantes partes pelo facto de as tréguas que sugeriu não
terem sido eficazes e começar a olhar para o fim da guerra de um modo mais
abrangente e a longo prazo.
▲O
encontro no Vaticano foi o segundo frente a frente e ajudou a esvair tensões
PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT HANDOUT/EPA
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Os “fingimentos” de Putin: sugerir negociações,
silêncio e o desejo de Trump de um frente a frente
Outros dois especialistas, Philip Gordon
e Rebecca Lissner, partilham esta leitura, mas defendem passos
concretos que os Estados Unidos devem dar para terminar a guerra, num outro artigo publicado
também na Foreign Policy— todos eles envolvem pressionar
Moscovo. Isto implica novos pacotes militares de ajuda à Ucrânia e
um reforço da defesa aérea, mas o passo chave é a aplicação de novas
sanções e pressão económica a Moscovo, principalmente sobre a indústria
petrolífera russa. Ao
Observador, Orysia Lutsevych ressalva que estas sanções podem ser eficazes,
desde que contemplem também as “empresas que ajudam [o Kremlin] a contornar as
sanções”. Além disso, todas estas medidas teriam mais impacto se forem
aplicadas em coordenação com a Europa.
Na verdade, este cenário não passa de
uma hipótese — e é o melhor cenário possível para Kiev. Desde que começou a mediar as negociações,
Donald Trump mudou a sua postura, mas estes passos aproximar-se-iam muito mais
das tácticas da administração anterior. Ainda assim, o Presidente continua
a ter o mesmo incentivo: poder reivindicar que pôs fim à guerra. Para puxar Trump para o seu campo, Kiev e
Moscovo têm de mostrar que esta também é a sua prioridade e acertar o ritmo com
os norte-americanos.
Os “sucessos” de Zelensky: promessas
cumpridas, oportunidades aproveitadas e a recuperação da relação com Trump
Apesar da imprevisibilidade de Donald
Trump, Volodymyr Zelensky parece ter
encontrado o ritmo da sua relação com o norte-americano. Primeiro,
trocaram críticas e discutiram na Sala Oval. Mas Kiev e Washington
ultrapassaram o momento tenso e voltaram à mesa das negociações. Os
dois chefes de Estado voltaram a encontrar-se em Roma, no funeral do Papa
Francisco, e, dias depois, assinaram o acordo
dos minerais, que acabou por beneficiar Kiev.
Isto, somado ao apoio sem precedentes que a Europa conseguiu reunir
na “coligação dos disponíveis”, leva Orysia Lutsevych a classificar a estratégia
de Zelensky como “um sucesso”. A sintonia
entre os dois volta a ser testada com o encontro em Istambul e, também neste
caso, a especialista elogia a decisão do Presidente ucraniano.
Desafiado por Donald Trump a negociar
com os russos na Turquia, Zelensky aceitou e subiu a parada: prometeu estar
presente e atirou a bola para o campo de Putin, para que fizesse o mesmo. Contudo, tomou uma precaução e evitou
deslocar-se a Istambul sem ter a certeza de que o seu homólogo russo ia
responder ao desafio. Na manhã de quinta-feira, permaneceu em
Ancara, para uma reunião com o Presidente turco, enquanto aguardava a
confirmação da delegação russa.
"A presença [de
Zelensky na Turquia] mostra que a Ucrânia quer a paz e que a Rússia é que está
a sabotar os esforços de Trump." ORYSIA LUTSEVYCH, DIRECTORA DO FÓRUM DA
UCRÂNIA NO THINK TANK CHATHAM HOUSE
Índice
Momentos antes de ter aterrado, o
porta-voz do Kremlin confirmava: não só Putin não estaria em
Istambul, como a delegação que enviou em seu nome era liderada por um dos seus
assessores — uma figura vários níveis abaixo do ministro dos Negócios
Estrangeiros, Sergey Lavrov que, em março de 2022, estivera à frente a equipa
russa na Turquia. Zelensky
declarou que os representantes russos eram meros “adereços” e recusou
comparecer. Permaneceu na capital turca e, no seu lugar, enviou o
ministro da Defesa, Rustem Umerov.
Ainda assim, se o objectivo de
Zelensky é puxar Donald Trump para o seu campo, Orysia Lutsevych argumenta que
o líder ucraniano voltou a marcar pontos. “A sua presença mostra que a Ucrânia
quer a paz e que a Rússia é que está a sabotar os esforços de Trump”, analisou
a especialista ao Observador.
O facto de Zelensky se ter deslocado à Turquia — ao contrário do seu
homólogo — pode ter ainda outra vantagem. Donald Trump já tinha antecipado a
possibilidade de também aparecer em Istambul, para um encontro com Zelensky e
Putin. Na manhã desta quinta-feira,
de visita aos países do Golfo, não excluiu uma passagem pela Turquia na
sexta-feira, se houver uma evolução nas negociações. A
possibilidade de Trump ir à Turquia, ainda que mais remota sem a presença de
Putin, é uma oportunidade para Zelensky encontrar o seu homólogo frente a
frente, naquele que seria o terceiro encontro este ano. De recordar que, dias
depois do segundo, o acordo dos minerais foi assinado. Já Putin e Trump
continuam sem ter estado frente a frente desde que a Rússia invadiu a Ucrânia.
Mesmo sem o Presidente
norte-americano na Turquia, a delegação norte-americana tem figuras mais
relevantes que a russa. A equipa é liderada por Keith Kellog, enviado para a
Ucrânia, e, mais relevante, por Steve Witkoff, enviado para o Médio Oriente que
já se reuniu por duas vezes com Vladimir Putin, assumindo-se, portanto, como um
dos homens de confiança do chefe de Estado norte-americano para a diplomacia
com Moscovo. Na Turquia, em
Antália, está ainda Marco Rubio, secretário de Estado, outra figura importante para
negociações deste nível.
A disponibilidade ucraniana para o
diálogo revela urgência no desejo de alcançar a paz, um sentimento partilhado
com Donald Trump, que quer pôr fim à guerra o mais rapidamente possível. Contudo, Zelensky também tomou algumas
precauções para evitar que a deslocação à Turquia não fosse uma negociação
falhada: reuniu-se com o Presidente Erdoğan, que disse ter reconhecido a
Crimeia como um território ucraniano, e cumpriu a sua palavra ao recusar
comparecer em Istambul sem Vladimir Putin.
"[A
estratégia de Moscovo] é uma tentativa de minar o consenso emergente de que, se
não houver uma verdadeira boa vontade por parte do Kremlin, é necessário
aumentar a pressão — especificamente sob a forma desanções." Marek
Menkiszak e Kacper Sienicki, analistas do think tank polaco OSW
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Os “fingimentos” de Putin: sugerir negociações,
silêncio e o desejo de Trump de um frente a frente
Esta quinta-feira, Volodymyr Zelensky falou na chegada a Ancara e
novamente depois da reunião com Erdoğan. Donald Trump falou numa conferência de
imprensa no Qatar e depois a bordo do avião presidencial. Apenas Vladimir Putin
permaneceu em silêncio. Foi o
seu porta-voz, Dmitry Peskov, que confirmou que o Presidente russo não iria à
Turquia, no seu habitual briefing matinal. E mesmo essa informação
foi dada de forma breve: um simples “não”, em resposta a uma questão dos
jornalistas.
A estratégia de Moscovo continua a ser adiar conversações directas,
retratando o fim da guerra como uma questão complexa que exige tempo. Isto contraria a urgência que Donald
Trump tem demonstrado (e à qual Zelensky tem respondido), o que acabou por
deixar o Presidente norte-americano “frustrado” e o levou a mudar de estratégia.
Depois de ter estendido a mão a Putin durante os últimos meses,
Trump assume agora uma postura mais dura e ameaçou com sanções, num aviso que
foi feito em coro com os seus pares europeus. O
Kremlin respondeu com a proposta de uma nova ronda de diálogos na Turquia —
ainda que, até agora, as negociações ainda não se tenham traduzido em tréguas
cumpridas no terreno. Marek Menkiszak e Kacper Sienicki, analistas do think
tank polaco OSW, consideram que este
passo é “uma tentativa de minar o consenso emergente de que, se não houver uma
verdadeira boa vontade por parte do Kremlin, é necessário aumentar a pressão
— especificamente sob a forma de
sanções”. Ou seja, é uma tentativa russa de demonstrar “boa
vontade” para evitar sanções.
No entanto, os especialistas assumem que este sinal não vai mais
longe do que isso e que Vladimir Putin não tem qualquer intenção de avançar
para a paz — daí que não tenha aparecido. O facto de ter sido Moscovo a pôr a
bola a rolar para esta ronda de negociações na Turquia é suficiente para
acalmar a frustração de Trump com a falta de resultados e não avançar com sanções
económicas. Orysia Lutsevych aponta
que a estratégia poderá passar por “ganhar tempo para [o Exército russo] se
preparar para uma ofensiva de verão”. Mas este será já o quarto verão
da guerra e nenhuma das outras
ofensivas conseguiu desequilibrar as forças no terreno de forma decisiva.
▲Putin e
Trump ainda não se encontraram desde que a guerra começou AFP via Getty Images
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Apesar
de os analistas argumentarem que esta disponibilidade de Vladimir Putin é
apenas “um fingimento” e que Donald Trump não deve continuar a marchar ao ritmo
de Moscovo, o Presidente norte-americano pareceu disponível para continuar a
aguardar. Pelo menos até conseguir encontrar-se frente a
frente com o seu homólogo russo. “Nada
vai acontecer até eu e Putin nos encontrarmos“, afirmou ao final da
manhã de quinta-feira, a bordo do avião presidencial.
“E
claramente que ele não ia [à Turquia]. Ele ia, mas pensou que eu também ia. Ele
não ia se eu não estivesse lá e não acredito que nada vá acontecer, gostem ou
não, até nos encontrarmos, mas vamos ter de resolver isto porque há muita gente
a morrer”, elaborou. As
declarações de Trump colocam o frente a frente com Putin como prioridade, mas
não antecipam quanto tempo está disposto a esperar por esse encontro. De
qualquer forma, se adiar negociações reais é o objectivo de Putin, foi bem
sucedido esta quinta-feira.
As atenções voltam a virar-se para o
próximo passo de Donald Trump, mas os especialistas não arriscam previsões. Ao longo
dos últimos meses, o Presidente tentou marcar o ritmo das negociações, o que na
prática se concretizou numa aproximação a Moscovo. Quando a postura de Vladimir Putin deixou de lhe agradar, Trump
acelerou. Zelensky soube
acompanhar e encontrar pequenos sucessos na sua relação com Washington. Ainda
assim, Trump ainda não desistiu da ideia de que Putin o vai acompanhar no
caminho para a paz. E isso também é uma vitória para a Rússia.
UCRÂNIA EUROPA MUNDO DONALD TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA VOLODYMYR
ZELENSKY VLADIMIR
PUTIN RÚSSIA
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