sábado, 17 de maio de 2025

E a Rússia sai vitoriosa

 

Como se esperava, Putin não ia aparecer por dá cá aquela palha, tanto mais que a palha pode botar fogo, mas isso, ele não conta.

Entre os "sucessos" de Zelensky e os "fingimentos" de Putin, Trump está agora mais próximo da Ucrânia?

Putin sugeriu negociações, Zelensky desafiou-o para um frente a frente — e ficou sem resposta. Kiev mostrou a Trump que quer negociar, mas Presidente dos EUA ainda tem fé num encontro seu com Putin.

MADALENA MOREIRA: Texto

OBSERVADOR, 15 mai. 2025, 20:205

Índice

Do fim da guerra à implementação da paz duradoura. O ajuste de Donald Trump às condições

Os “sucessos” de Zelensky: promessas cumpridas, oportunidades aproveitadas e a recuperação da relação com Trump

Os “fingimentos” de Putin: sugerir negociações, silêncio e o desejo de Trump de um frente a frente

No dia 10 de março de 2022, aterraram na Turquia os ministros dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia e da Rússia. Com o homólogo turco como mediador, as duas partes tentaram negociar um acordo de cessar-fogo, para a guerra que Moscovo desencadeara há apenas duas semanas. Sem sucesso. Mais de três anos depois, as comitivas ucranianas e russas voltam a rumar à Turquia. O objectivo continua a ser assinar um cessar-fogo, mas as condições alteraram-se. A guerra prolongada deixou pesadas baixas nas duas partes, a cidade do encontro é outra e a mediação também: desta vez, os Estados Unidos também se sentam à mesa.

A entrada de Washington em cena marcou um ponto de viragem na guerra. Depois de meses de atrito e impasse militar no terreno, Donald Trump procura agora alcançar a paz pela via diplomática. Nesse sentido, tem levado a cabo negociações bilaterais com os dois lados e pressionado os seus homólogos, Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, para que se empenhem no processo. Porém, os últimos três meses de diálogos ainda não apresentaram resultados concretos. A frustração norte-americana cresceu e Washington deixou uma ameaça: “Se uma das duas partes se fizer de difícil, vamos seguir em frente” — ou seja, desistir da mediação.

Mas esta estratégia norte-americana poderá não ser a mais adequada para enfrentar a situação, destacam alguns especialistas. Stephen Sestanovich, analista no Council on Foreign Relations, compara esta táctica, da ameaça de abandonar um negócio, com aquela que se utiliza no ramo imobiliário que viu nascer o actual Presidente. “Mas neste caso, Putin gosta da ideia de os Estados Unidos estarem a perder interesse na guerra“, escreveu na revista Foreign Policy. “Trump só pode pressioná-lo a ‘parar a matança’ ao dizer que o interesse dos EUA está a aumentar”.

Ora, Volodymyr Zelensky tem procurado fazer precisamente isso: manter o interesse de Washington na guerra na Ucrânia. Por exemplo, através da assinatura do acordo dos minerais. Vladimir Putin também não tem ficado parado, mas tem preferido desviar as atenções de Trump para outros temas, como as relações e os negócios entre os dois países. No fundo, os dois países estão a “jogar ao jogo da corda pela posição dos EUA”, argumenta Orysia Lutsevych, directora do Fórum da Ucrânia do think tank Chatham House, ao Observador.

A discussão na Sala Oval representa a pressão de Washington sobre Kiev JIM LO SCALZO / POOL/EPA

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Com Moscovo e Kiev a aplicarem tácticas diferentes na disputa pelo favor de Donald Trump, o Presidente norte-americano assume um papel de destaque no caminho para a paz. No entanto, os especialistas admitem que o passo seguinte de Trump é imprevisível. Conseguirá ser ele a marcar o passo das negociações? Ou poderá apenas ser puxado por uma das partes? E, nesse caso, quem tem a vantagem?

Do fim da guerra à implementação da paz duradoura. O ajuste de Donald Trump às condições

A estratégia diplomática que Donald Trump prometeu durante a sua campanha eleitoral tem um objectivo concreto: implementar um cessar-fogo entre a Ucrânia e a Rússia. Contudo, tal como em 2022, as exigências das duas partes permanecem inconciliáveis. Kiev exige garantias de segurança, que podem passar pela inclusão na NATO, tropas estrangeiras no território ou rearmar o país, enquanto Moscovo continua com uma “agenda maximalista”, como define Orysia Lutsevych, que inclui a anexação de todos os territórios ocupados e a recusa das garantias de segurança propostas pela Ucrânia (por considerar que são ameaças à própria segurança russa).

Ao entrar em palco, Trump inverteu a estratégia que os aliados ocidentais tinham aplicado até aí: pressionou a Ucrânia e aproximou-se de forma quase inédita do Kremlin. A aposta não deu frutos e Donald Trump apercebeu-se disso — a prova disso é a mudança no seu discurso. Enquanto há alguns meses Trump dizia a Zelensky que “não tinha cartas” e devia aceitar os termos da ajuda norte-americana, agora pressiona ambas as partes para que “tenham uma reunião”.

A mensagem, deixada no domingo passado nas redes sociais, deixava críticas tanto a Zelensky como a Putin e incentivava a um encontro na Turquia. Mas o objectivo destas reuniões não era um acordo de tréguas completo, tal como prometia na campanha. Em vez disso, pedia que, no mínimo, determinem se este acordo é possível. A mudança de linguagem pode representar uma nova estratégia para pôr fim à guerra — menos focada no cessar-fogo imediato e mais focada na resolução das tensões entre os dois países, de forma a alcançar a “paz duradoura”, que Zelensky e os aliados ocidentais têm defendido.

Esta postura vai ao encontro da crítica que o analista Stephen Sestanovich deixou no início de maio: Donald Trump deve parar de culpar as restantes partes pelo facto de as tréguas que sugeriu não terem sido eficazes e começar a olhar para o fim da guerra de um modo mais abrangente e a longo prazo.

O encontro no Vaticano foi o segundo frente a frente e ajudou a esvair tensões PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT HANDOUT/EPA

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Os “fingimentos” de Putin: sugerir negociações, silêncio e o desejo de Trump de um frente a frente

Outros dois especialistas, Philip Gordon e Rebecca Lissner, partilham esta leitura, mas defendem passos concretos que os Estados Unidos devem dar para terminar a guerra, num outro artigo publicado também na Foreign Policytodos eles envolvem pressionar Moscovo. Isto implica novos pacotes militares de ajuda à Ucrânia e um reforço da defesa aérea, mas o passo chave é a aplicação de novas sanções e pressão económica a Moscovo, principalmente sobre a indústria petrolífera russa. Ao Observador, Orysia Lutsevych ressalva que estas sanções podem ser eficazes, desde que contemplem também as “empresas que ajudam [o Kremlin] a contornar as sanções”. Além disso, todas estas medidas teriam mais impacto se forem aplicadas em coordenação com a Europa.

Na verdade, este cenário não passa de uma hipótese — e é o melhor cenário possível para Kiev. Desde que começou a mediar as negociações, Donald Trump mudou a sua postura, mas estes passos aproximar-se-iam muito mais das tácticas da administração anterior. Ainda assim, o Presidente continua a ter o mesmo incentivo: poder reivindicar que pôs fim à guerra. Para puxar Trump para o seu campo, Kiev e Moscovo têm de mostrar que esta também é a sua prioridade e acertar o ritmo com os norte-americanos.

Os “sucessos” de Zelensky: promessas cumpridas, oportunidades aproveitadas e a recuperação da relação com Trump

Apesar da imprevisibilidade de Donald Trump, Volodymyr Zelensky parece ter encontrado o ritmo da sua relação com o norte-americano. Primeiro, trocaram críticas e discutiram na Sala Oval. Mas Kiev e Washington ultrapassaram o momento tenso e voltaram à mesa das negociações. Os dois chefes de Estado voltaram a encontrar-se em Roma, no funeral do Papa Francisco, e, dias depois, assinaram o acordo dos minerais, que acabou por beneficiar Kiev.

Isto, somado ao apoio sem precedentes que a Europa conseguiu reunir na “coligação dos disponíveis”, leva Orysia Lutsevych a classificar a estratégia de Zelensky como “um sucesso”. A sintonia entre os dois volta a ser testada com o encontro em Istambul e, também neste caso, a especialista elogia a decisão do Presidente ucraniano.

Desafiado por Donald Trump a negociar com os russos na Turquia, Zelensky aceitou e subiu a parada: prometeu estar presente e atirou a bola para o campo de Putin, para que fizesse o mesmo. Contudo, tomou uma precaução e evitou deslocar-se a Istambul sem ter a certeza de que o seu homólogo russo ia responder ao desafio. Na manhã de quinta-feira, permaneceu em Ancara, para uma reunião com o Presidente turco, enquanto aguardava a confirmação da delegação russa.

"A presença [de Zelensky na Turquia] mostra que a Ucrânia quer a paz e que a Rússia é que está a sabotar os esforços de Trump." ORYSIA LUTSEVYCH, DIRECTORA DO FÓRUM DA UCRÂNIA NO THINK TANK CHATHAM HOUSE

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Momentos antes de ter aterrado, o porta-voz do Kremlin confirmava: não só Putin não estaria em Istambul, como a delegação que enviou em seu nome era liderada por um dos seus assessores — uma figura vários níveis abaixo do ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov que, em março de 2022, estivera à frente a equipa russa na Turquia. Zelensky declarou que os representantes russos eram meros “adereços” e recusou comparecer. Permaneceu na capital turca e, no seu lugar, enviou o ministro da Defesa, Rustem Umerov.

Ainda assim, se o objectivo de Zelensky é puxar Donald Trump para o seu campo, Orysia Lutsevych argumenta que o líder ucraniano voltou a marcar pontos. “A sua presença mostra que a Ucrânia quer a paz e que a Rússia é que está a sabotar os esforços de Trump”, analisou a especialista ao Observador.

O facto de Zelensky se ter deslocado à Turquia — ao contrário do seu homólogo — pode ter ainda outra vantagem. Donald Trump já tinha antecipado a possibilidade de também aparecer em Istambul, para um encontro com Zelensky e Putin. Na manhã desta quinta-feira, de visita aos países do Golfo, não excluiu uma passagem pela Turquia na sexta-feira, se houver uma evolução nas negociações. A possibilidade de Trump ir à Turquia, ainda que mais remota sem a presença de Putin, é uma oportunidade para Zelensky encontrar o seu homólogo frente a frente, naquele que seria o terceiro encontro este ano. De recordar que, dias depois do segundo, o acordo dos minerais foi assinado. Já Putin e Trump continuam sem ter estado frente a frente desde que a Rússia invadiu a Ucrânia.

Mesmo sem o Presidente norte-americano na Turquia, a delegação norte-americana tem figuras mais relevantes que a russa. A equipa é liderada por Keith Kellog, enviado para a Ucrânia, e, mais relevante, por Steve Witkoff, enviado para o Médio Oriente que já se reuniu por duas vezes com Vladimir Putin, assumindo-se, portanto, como um dos homens de confiança do chefe de Estado norte-americano para a diplomacia com Moscovo. Na Turquia, em Antália, está ainda Marco Rubio, secretário de Estado, outra figura importante para negociações deste nível.

A disponibilidade ucraniana para o diálogo revela urgência no desejo de alcançar a paz, um sentimento partilhado com Donald Trump, que quer pôr fim à guerra o mais rapidamente possível. Contudo, Zelensky também tomou algumas precauções para evitar que a deslocação à Turquia não fosse uma negociação falhada: reuniu-se com o Presidente Erdoğan, que disse ter reconhecido a Crimeia como um território ucraniano, e cumpriu a sua palavra ao recusar comparecer em Istambul sem Vladimir Putin.

"[A estratégia de Moscovo] é uma tentativa de minar o consenso emergente de que, se não houver uma verdadeira boa vontade por parte do Kremlin, é necessário aumentar a pressão — especificamente sob a forma desanções." Marek Menkiszak e Kacper Sienicki, analistas do think tank polaco OSW

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Os “fingimentos” de Putin: sugerir negociações, silêncio e o desejo de Trump de um frente a frente

Esta quinta-feira, Volodymyr Zelensky falou na chegada a Ancara e novamente depois da reunião com Erdoğan. Donald Trump falou numa conferência de imprensa no Qatar e depois a bordo do avião presidencial. Apenas Vladimir Putin permaneceu em silêncio. Foi o seu porta-voz, Dmitry Peskov, que confirmou que o Presidente russo não iria à Turquia, no seu habitual briefing matinal. E mesmo essa informação foi dada de forma breve: um simples “não”, em resposta a uma questão dos jornalistas.

A estratégia de Moscovo continua a ser adiar conversações directas, retratando o fim da guerra como uma questão complexa que exige tempo. Isto contraria a urgência que Donald Trump tem demonstrado (e à qual Zelensky tem respondido), o que acabou por deixar o Presidente norte-americano “frustrado” e o levou a mudar de estratégia.

Depois de ter estendido a mão a Putin durante os últimos meses, Trump assume agora uma postura mais dura e ameaçou com sanções, num aviso que foi feito em coro com os seus pares europeus. O Kremlin respondeu com a proposta de uma nova ronda de diálogos na Turquia — ainda que, até agora, as negociações ainda não se tenham traduzido em tréguas cumpridas no terreno. Marek Menkiszak e Kacper Sienicki, analistas do think tank polaco OSW, consideram que este passo é “uma tentativa de minar o consenso emergente de que, se não houver uma verdadeira boa vontade por parte do Kremlin, é necessário aumentar a pressãoespecificamente sob a forma de sanções”. Ou seja, é uma tentativa russa de demonstrar “boa vontade” para evitar sanções.

No entanto, os especialistas assumem que este sinal não vai mais longe do que isso e que Vladimir Putin não tem qualquer intenção de avançar para a paz — daí que não tenha aparecido. O facto de ter sido Moscovo a pôr a bola a rolar para esta ronda de negociações na Turquia é suficiente para acalmar a frustração de Trump com a falta de resultados e não avançar com sanções económicas. Orysia Lutsevych aponta que a estratégia poderá passar por “ganhar tempo para [o Exército russo] se preparar para uma ofensiva de verão”. Mas este será já o quarto verão da guerra e nenhuma das outras ofensivas conseguiu desequilibrar as forças no terreno de forma decisiva.

Putin e Trump ainda não se encontraram desde que a guerra começou AFP via Getty Images

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Apesar de os analistas argumentarem que esta disponibilidade de Vladimir Putin é apenas “um fingimento” e que Donald Trump não deve continuar a marchar ao ritmo de Moscovo, o Presidente norte-americano pareceu disponível para continuar a aguardar. Pelo menos até conseguir encontrar-se frente a frente com o seu homólogo russo. “Nada vai acontecer até eu e Putin nos encontrarmos“, afirmou ao final da manhã de quinta-feira, a bordo do avião presidencial.

E claramente que ele não ia [à Turquia]. Ele ia, mas pensou que eu também ia. Ele não ia se eu não estivesse lá e não acredito que nada vá acontecer, gostem ou não, até nos encontrarmos, mas vamos ter de resolver isto porque há muita gente a morrer”, elaborou. As declarações de Trump colocam o frente a frente com Putin como prioridade, mas não antecipam quanto tempo está disposto a esperar por esse encontro. De qualquer forma, se adiar negociações reais é o objectivo de Putin, foi bem sucedido esta quinta-feira.

As atenções voltam a virar-se para o próximo passo de Donald Trump, mas os especialistas não arriscam previsões. Ao longo dos últimos meses, o Presidente tentou marcar o ritmo das negociações, o que na prática se concretizou numa aproximação a Moscovo. Quando a postura de Vladimir Putin deixou de lhe agradar, Trump acelerou. Zelensky soube acompanhar e encontrar pequenos sucessos na sua relação com Washington. Ainda assim, Trump ainda não desistiu da ideia de que Putin o vai acompanhar no caminho para a paz. E isso também é uma vitória para a Rússia.

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