quinta-feira, 1 de maio de 2025

Como sempre

 

Pertinente e justa nos seus protestos e definições, a denunciar princípios morais e uma formação literária que ajuda ao seu discurso amplo de rigor crítico e elegância formal, eis a bela síntese de MARIA JOÃO AVILLEZ sobre o que se passou no apagão de cá e no de lá, no mundo...

Crónica em três tons

Ventura sabe que um dia vai ter que dar alguma coisinha aos seus 49 oficiantes ateus “desta” democracia, mas não sabe como. Mesmo que vá subindo a escada dos votos.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR30 abr. 2025, 00:2032

Real

1Não saber? Mas como não saber se sabemos sempre tudo? Todos ao mesmo tempo, globalmente e ao segundo?

Não saber, não comunicar, não ser comunicado? Verbos arrumados na história, coisas do outro mundo. Do de antes. A estranheza era tão imensa como um oceano. Não cabia num dia. E foi a rádio, a “velhinha” rádio, formidável companheira e igual a nenhuma outra, que nos amparou aquela estranheza, sem referências, nem identificação.

E a luz veio ao pôr do sol. Acertadamente.

Dizem que Luís Montenegro tem sorte. Talvez. Mas o que por estes dias se viu foi acerto no ofício.

Irreal.

2Pior é difícil? A pergunta ouve-se em vários círculos alusiva ao que aí ficou: o “apagão” e a pré-campanha legislativa. Nada têm obviamente a ver uma com a outra, o “espírito” foi parecido.

A partir de anteontem à noite mas sobretudo no dia de ontem, o que se ouviu – oposições e parte da media – foi de estarrecer. Da asneira à solta à obsessão com a afanosa procura de “culpados”, os empurrões para que fossem “do” Governo, senão do próprio governo inteiro: com o maestro da orquestra governamental a reger a grande “Sinfonia do Apagão”, da sua autoria.

A asneira à solta, sim.

Quando se substitui a pergunta pela acusação; e quando o argumento principal é a suspeita, o insulto ou a irracionalidade, o jogo democrático está subvertido.

A minha grande perplexidade é porém outra: será que o eleitor comum se revê, ou coincide com a conclusão do líder da oposição e candidato a Primeiro Ministro sobre o “apagão” ibérico? Esta conclusão, por exemplo: “Faltou uma voz de comando e de serenidade”? (Onde, em quê? Que prejudicou ou agravou?)

Outra: “ o Governo falhou e devia ter usado rádio, de hora a hora, para tranquilizar populações”. E numa adenda à sua própria conclusão política, Pedro Nuno Santos conclui sem sombra de dúvida, como se tivesse passado pelo mesmo: o “mais grave foi que também tivemos apagão no governo central”.

O mais grave?

Pode ser que eu me engane mas a pergunta não me surge como despicienda: o eleitorado revê-se nisto? E adere às amostras de ignorância ou de má-fé – abundantes, ambas – distribuídas ontem pelo ar do tempo oposicionista?

3Pré campanha mortiça; promessas económicas de amanhãs que cantam; muito acinte, pouca substância; temas pescados na espuma dos dias e não no perigo dos dias; flagrante desfocagem – continuará ? – entre a comezinha visão doméstica com que nos entretiveram e a inquietante realidade do mundo como ele está. Cansaço? Também. Um cansaço triste. Fosse nos desinspirados debates televisivos, fosse na comemoração parlamentar do cinquentenário da Constituição: pouca convicção, modesto brio, fartas as culpabilizações recíprocas (e por parte de mais do que de menos, um indecoroso uso e abuso da figura do Papa Francisco – foi preciso ouvir para acreditar). Excepção para o Presidente da República. Se as palavras surpreenderam pela escolha do conteúdo – onde estava o jovem deputado Marcelo que em 1975 se sentou naquele mesmo parlamento inaugurando uma nova história política no país? – o seu discurso brilhou na construção da forma e da substância: na fluência e ritmo do verbo e na inteligência da sua devoção ao Papa Francisco.

4Os debates? Por partes:

Resistirá “este”(?) Pedro Nuno Santos (o dos debates) à sua própria natureza? Que caminho quis sinalizar com o uso da “moderação”? Para que escolhas aponta um repentino “centrismo”? Se no PS “funcionarem” os votos úteis, que fará o seu líder com eles? Ao menos a imprevisibilidade está intacta: afinal já não há CPI (mas ontem havia, com as consequências que se sabe).

André Ventura, dividido entre o seu asco ao vasto perímetro pluripartidário e liberal que é o nosso, e o terror de não saber o que fazer de si mesmo e de 49 deputados, se lá não entrar, Ventura agitou-se. Fê-lo deploravelmente, entre o caos e a histeria (o que foi particularmente visível no seu debate com Luís Montenegro, et pour cause). Agarrado à emigração como a uma bóia e ao retórico assassinato de meio século português (onde teve protagonismo, se encostou a quem podia e cultivou ambições). Ventura sabe que um dia vai ter que dar alguma coisinha aos 49 oficiantes ateus “desta” democracia, mas não sabe como, nem quando. Sim, mesmo que vá subindo a escada dos votos.

Luís Montenegro talvez não pudesse estar no seu melhor após a exaustiva e causticante saga “Spinumviva”, que logo de início tratou com menos apuro discernimento e cuidado do que ela mereceria (acho eu). Um erro aliás logo ferozmente devorado pelo gáudio e apetite das oposições. Isto dito, a diferença entre Montenegro e o resto dos líderes-debatentes-televisivos, não me parece uma fantasia: na serenidade, no comedimento, na razoabilidade, no saber do que fala. Na racionalidade política com que usa e pratica a própria política. Falta o grande debate.

Ouço dizer que Luís Montenegro leva vantagem. Não sei. Mas há algo que o país sabe: Montenegro governa há ano e meio, Pedro Nuno Santos esteve lá durante muito tempo, com altas responsabilidades – que hoje acusa não existirem nos seus sucessores – e o seu partido morou oito anos no governo. A diferença assustaria qualquer líder, mas o líder do PS não se assusta: é ele quem assusta.

Mas veremos.

Transcendente

Como um luto pode ser luminoso e como numa desolada despedida esteve o dom da alegriaPassou-se diante dos olhos do mundo no último sábado, na Praça de S. Pedro onde, encenado pela milenar sabedoria da Igreja, tudo esteve certo no derradeiro adeus ao Papa Francisco: a profundidade do verbo, o recolhimento, a dignidade. A solenidade. Os substantivos talvez não casem com este latino vivaço, olhar brilhante, sorriso aberto, sempre próximo do “outro”, que fez do Evangelho um mapa e da Igreja um “hospital de campanha”. Mas tudo assim se passou: soleníssimo – não poderia ser de outra maneira –; e sentidíssimo: o mundo quis estar presente.

Crentes e não crentes unidos numa união planetária, em nome de um pastor que interpelou uns e outros através do seu legado: foi mais longe do que os autores do permanentemente aberto caderno reivindicativo insistem em não reconhecer; levou a Igreja para fora das suas portas, atemorizando “instalados” que foram preferindo etiquetá-lo a segui-lo.

Entre duas “alas” porventura excessivas e nada generosas entre si – e nunca esquecendo os do “meio da ponte” – esteve Francisco: presente, atento, e andarilho das sete partidas; interveniente pela palavra em todos os cenários de guerra, activo no diálogo inter-religioso, autor de Encíclicas vitais como mandamentos. Fiel à doutrina, servindo o Evangelho, sabendo lidar com o mundo que levava ás costas, foi o inspiradíssimo militante da Igreja “em saída.”

Após esta jornada memorável na Praça de S. Pedro – e da mais disruptiva fotografia que me lembro dos últimos anosé com esse Pastor que fico. E com a universalidade da sua misericórdia que levou a todos, todos, todos.

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COMENTÁRIOS (de 32)

Tim do A: A senhora preocupe-se mas é com o que leva 1,2 milhões de portugueses a votar no Chega. O mal de muitos políticos e comentadores elitistas é que, à sua distância da população, vivem num mundo à parte desconhecendo a realidade e os problemas das pessoas e, mais grave, não querem tomar conhecimento, num autismo egoísta e egocêntrico de desprezo pelo povo. O apagão que têm no cérebro deriva do seu elitismo e desprezo pelos problemas das pessoas. O pior da natureza humana.               Albino Mendes: O André Ventura é um perdedor. Os 49 deputados, os votos, os debates, os apoiantes, os meliantes, as propostas, os discursos, etc., etc., enfim o crescimento do partido Chega, são sensações 😉. Para terminar com essas sensações, os votos no Chega deviam ser considerados nulos ou inválidos, porque os eleitores desse partido não sabem votar👈 De derrota em derrota, até à vitória.               Ricardo Ribeiro: Propaganda básica diária neste meio de CS que se diz isento...e na sua ânsia propagandística até trocou imigração por emigração. Como diz um sábio aqui do comentariado, lixo!                  João Floriano > Ricardo Ribeiro: Bom dia Ricardo. Tem razão: o discurso de André Ventura no 25 de abril foi magistral, uma verdadeira lição a quem repete ano após ano as mesmas patacoadas vazias sobre a data.                José Cortes > Albino Mendes: O que AV não ganharia se de facto mudasse para um registo mais responsável e coerente. Menos ar de "bocas" e mais ar de pronto para governar, de estadista. Está na altura. Se o tivesse feito para estas eleições, o resultado poderia ser imprevisível. Assim, é só mais arroz.             Ricardo Ribeiro > José Cortes: Tendo a concordar. No entanto por mim entendo a retórica no combate ao sistema instalado e por vezes sai maravilhosa como no brilhante discurso do 25 de Abril. Tenho dito.

Joaquim Zacarias: Esta senhora trocou o cartão do sindicato dos jornalistas  pelo do PSD e virou comentadora, com a missão de criticar o Ventura. Triste figura.              Americo Magalhaes: Escreve sobre várias figuras e assuntos, mas resolve colocar em titulo chamativo "Ventura " ..... É mesmo obsessão doentia e ódio.......quiçá medo da auto intitulada " elite de Lisboa-Cascais" perder as mordomias à custa dum povo iletrado e anestesiado por uma CS especializada na Censura e na Inquisição. Tive grande admiração e respeito pela Sra. pelo trabalho jornalístico do passado , mas deveria chegar a casa e colocar-se em frente ao espelho e meditar sobre o ridículo em que se está a colocar. Saber retirar-se no momento próprio também é sinal de inteligência e sobretudo clarividência.                    João Floriano: A crónica de Maria João Avillez não traz nada de novo. A prezada cronista volta a dar testemunho da sua admiração a Marcelo Rebelo de Sousa, em quem certamente vê qualidades que muitos portugueses não conseguem ver, presta homenagem a Franciscus, escreve sobre vários aspectos e nuances à volta do apagão, analisa brevemente as campanhas paupérrimas dos três principais líderes políticos, portanto nada que fuja ao tradicional em Maria João Avillez. Então o que há de notável nesta crónica? A introdução. resumida em três linhas incompletas e onde a distinta cronista lança o isco para captar leitores para o seu texto. E não se veja aqui qualquer crítica ou censura. Constato apenas que em tantos temas abordados pela senhora jornalista, vai escolher precisamente como ideia forte, a que irá captar e prender o leitor até ao fim ou pelo menos até ao momento em que perceba que foi «fisgado» e desista da leitura, as dúvidas e ansiedades que julga adivinhar em Ventura. Para a introdução todos os cronistas escolhem uma frase, um trecho com impacto, que de certo modo resuma a ideia principal. O mesmo se aplica a qualquer obra literária mais extensa. Para Maria João Avillez a ideia principal é André Ventura.            GateKeeper: Lixo. Ódiozinho doentio no horizonte.            Quase Famoso: Obrigado Maria Avillez, por estar constantemente a lembrar-me porque voto no CH.                Hugo Silva: MJA fazia-lhe bem ouvir o que disse o Mira Amaral.... Mas com a idade, a audição e a coerência, vão -se perdendo... Marcelo é o verdadeiro exemplo.              Zé Pagador: Mais do mesmo para enganar os mais incautos. O observador está subliminarmente a apoiar o ps2 sendo que esta tia o mais que consegue fazer é destilar fel contra quem pensa diferente. Ao menos sejam verdadeiros e declarem apoio ao ps2 assim já nós saberíamos que este texto seria de propaganda, era mais honesto. Ontem, no contracorrente foram buscar alguém que lucrou com o desmantelamento da nossa indústria energética e deram se ao luxo de gozar e criticar quem ajudou a criou a nossa independência energética já, não há vergonha. Se o governo estivesse ao comando, a população não se tinha portado da maneira como se portou, como se já não existisse governo, pois perante a falta de informação e informações falsa dadas pelos membros do governo…. não vá o diabo tecê-las… Esta dita democracia foi criada e mantida por pessoas como esta senhora. Os 49 deputados do CH é a garantia que o ps não põe lá os coutos, um pouco humildade ao ps2 também ficava bem. Os ateus são a consequência de quem olha para a igreja e não vê lá ninguém que inspire confiança ou soluções para isso basta ler e ouvir esta triste personagem, o Ventura agrade-se…              Maria Tubucci: Hoje a crónica é sobre o real, o irreal e o transcendente. Ok, vamos nessa! 😁 O real é que a Sra. escreve como ninguém, também gostava, mas as letras não gostam de mim. O irreal é que a Sra. com a idade que tem não deveria ser tão sectária, já deveria ter enxergado que zurzir no AV é contraproducente, só induz as pessoas a votarem no CH. Agora transcendente é mesmo a sua devoção pelo PS2. Em particular o seu santo milagreiro LM, objecto das a suas “orações” e preces, ora desancando ora rebaixando a oposição. Será que o faz pela razão ou pelo o interesse? Não sei, mas não lhe fica bem… 🤓        joão Melo: Começa o artigo falando das críticas que foram feitas ao governo pela forma como foi tratada a questão do apagão. Os argumentos de que fala não foram apenas usados por gente "fora" do partido. Não foi apenas André Ventura e Pedro Nuno Santos que disseram o que referiu. Houve gente do PSD que disse exactamente o mesmo, como Miguel Morgado, que criticou severamente este governo por não ter sabido comunicar com a população durante os momentos de crise que se viveram no dia 28. Uma pergunta que gostava de ver confirmada: alguém sabe se é verdade que durante todo o dia 28 de abril, as portagens das autoestradas de Portugal, estiveram a funcionar sem qualquer constrangimento? E o mesmo se pode dizer de todos os sistema de radar para a caça à multa? Se a resposta for afirmativa mostra bem o que é prioritário para este governo.       Afonso Soares: Estes políticos que temos desde a extrema esquerda à direita radical irresponsável deveriam ter ido para electricistas já que sabem tanto de tudo. Tanta asneira cansa. O PNS vestiu a pele de cordeiro para ver quantos mais engana. Todos resolvem tudo quando estão na oposição. Nos debates não estão interessados em apresentar soluções. Estão a passar-nos um atestado de menoridade julgando que acreditamos em tudo o que prometem. Quanto ao funeral do Papa Francisco foi o aproveitamento mais escandaloso que vi em toda a minha. Fico tão estarrecido com o cinismo dos políticos que me dá vómitos e náuseas 

 

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