Pertinente
e justa nos seus protestos e definições, a denunciar princípios morais e uma
formação literária que ajuda ao seu discurso amplo de rigor crítico e elegância
formal, eis a bela síntese de MARIA JOÃO AVILLEZ sobre o que se passou no
apagão de cá e no de lá, no mundo...
Crónica
em três tons
Ventura sabe que um dia vai ter que
dar alguma coisinha aos seus 49 oficiantes ateus “desta” democracia, mas não
sabe como. Mesmo que vá subindo a escada dos votos.
MARIA JOÃO AVILLEZ
Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR30 abr. 2025,
00:2032
Real
1Não saber? Mas como não saber
se sabemos sempre tudo? Todos ao mesmo tempo, globalmente e ao segundo?
Não
saber, não comunicar, não ser comunicado? Verbos
arrumados na história, coisas do outro mundo. Do de antes. A estranheza era tão
imensa como um oceano. Não cabia num dia. E foi a rádio, a “velhinha” rádio,
formidável companheira e igual a nenhuma outra, que nos amparou aquela
estranheza, sem referências, nem identificação.
E a luz veio ao pôr do sol.
Acertadamente.
Dizem que Luís Montenegro tem sorte. Talvez. Mas o que por estes dias
se viu foi acerto no ofício.
Irreal.
2Pior é difícil? A pergunta ouve-se em
vários círculos alusiva ao que aí ficou: o “apagão” e a pré-campanha legislativa.
Nada têm obviamente a ver uma com a
outra, o “espírito” foi parecido.
A partir de anteontem à noite mas
sobretudo no dia de ontem, o que se ouviu – oposições e parte da media – foi
de estarrecer. Da asneira à
solta à obsessão com a afanosa procura de “culpados”, os empurrões para que
fossem “do” Governo, senão do próprio governo inteiro: com o maestro da
orquestra governamental a reger a grande “Sinfonia do Apagão”, da sua autoria.
A asneira à solta, sim.
Quando se substitui a pergunta pela acusação;
e quando o argumento principal é a suspeita, o insulto ou a irracionalidade, o
jogo democrático está subvertido.
A minha grande perplexidade é porém outra: será que o eleitor comum
se revê, ou coincide com a conclusão do líder da oposição e candidato a
Primeiro Ministro sobre o “apagão” ibérico? Esta conclusão, por exemplo: “Faltou uma voz de comando e de serenidade”? (Onde, em quê? Que prejudicou ou agravou?)
Outra:
“ o Governo falhou e devia ter usado rádio, de hora a hora, para
tranquilizar populações”. E numa adenda à sua própria conclusão política, Pedro Nuno Santos conclui
sem sombra de dúvida, como se tivesse passado pelo mesmo: o “mais grave foi que também tivemos apagão no
governo central”.
O mais grave?
Pode
ser que eu me engane mas a pergunta não me surge como despicienda: o
eleitorado revê-se nisto? E adere às amostras de ignorância ou de má-fé –
abundantes, ambas – distribuídas ontem pelo ar do tempo oposicionista?
3Pré campanha mortiça; promessas económicas de amanhãs que cantam; muito
acinte, pouca substância; temas pescados na espuma dos dias e não no perigo dos
dias; flagrante desfocagem – continuará ? – entre a comezinha visão doméstica
com que nos entretiveram e a inquietante realidade do mundo como ele está. Cansaço?
Também. Um cansaço triste. Fosse nos desinspirados debates televisivos, fosse
na comemoração parlamentar do cinquentenário da Constituição: pouca convicção,
modesto brio, fartas as culpabilizações recíprocas (e por parte de mais do que
de menos, um indecoroso uso e abuso da
figura do Papa Francisco – foi preciso ouvir para acreditar). Excepção
para o Presidente da República. Se as palavras surpreenderam pela
escolha do conteúdo – onde estava o jovem deputado Marcelo que em 1975 se
sentou naquele mesmo parlamento inaugurando uma nova história política no país?
– o seu discurso brilhou na
construção da forma e da substância: na fluência e ritmo do verbo e na
inteligência da sua devoção ao Papa Francisco.
4Os debates? Por partes:
Resistirá “este”(?) Pedro
Nuno Santos (o dos debates) à sua própria natureza? Que caminho quis sinalizar com o uso da
“moderação”? Para que escolhas aponta um repentino “centrismo”? Se
no PS “funcionarem” os votos úteis, que fará o seu líder com eles? Ao menos a
imprevisibilidade está intacta: afinal já não há CPI (mas ontem havia, com as consequências que se
sabe).
André Ventura, dividido entre o seu asco ao vasto
perímetro pluripartidário e liberal que é o nosso, e o terror de não saber o
que fazer de si mesmo e de 49 deputados, se lá não entrar, Ventura
agitou-se. Fê-lo deploravelmente, entre o caos e a
histeria (o que foi particularmente visível no seu debate com Luís Montenegro, et pour cause). Agarrado à emigração como a uma bóia e ao
retórico assassinato de meio século português (onde teve protagonismo, se encostou a quem podia e cultivou ambições). Ventura
sabe que um dia vai ter que dar alguma coisinha aos 49 oficiantes ateus “desta”
democracia, mas não sabe como, nem quando. Sim, mesmo que vá subindo a escada
dos votos.
Luís Montenegro talvez não pudesse estar no seu melhor
após a exaustiva e causticante saga “Spinumviva”,
que logo de início tratou com menos apuro discernimento e cuidado do que ela
mereceria (acho eu). Um erro aliás logo ferozmente devorado pelo gáudio e
apetite das oposições. Isto
dito, a diferença entre Montenegro e o resto dos
líderes-debatentes-televisivos, não me parece uma fantasia: na
serenidade, no comedimento, na razoabilidade, no saber do que fala. Na
racionalidade política com que usa e pratica a própria política. Falta o grande
debate.
Ouço
dizer que Luís Montenegro leva vantagem. Não sei. Mas há algo que o país sabe: Montenegro governa há ano e meio, Pedro
Nuno Santos esteve
lá durante muito tempo, com altas responsabilidades – que hoje acusa não
existirem nos seus sucessores – e o seu
partido morou oito anos no governo. A diferença assustaria qualquer líder, mas
o líder do PS não se assusta: é ele quem assusta.
Mas veremos.
Transcendente
Como um luto pode ser luminoso e como numa desolada despedida esteve
o dom da alegria… Passou-se
diante dos olhos do mundo no último sábado, na Praça de S. Pedro onde, encenado
pela milenar sabedoria da Igreja, tudo esteve certo no derradeiro adeus ao Papa
Francisco: a profundidade do verbo, o recolhimento, a dignidade. A solenidade.
Os substantivos talvez não casem com este latino vivaço, olhar brilhante,
sorriso aberto, sempre próximo do “outro”, que fez do Evangelho um mapa e da
Igreja um “hospital de campanha”. Mas tudo assim se passou: soleníssimo – não poderia ser de outra
maneira –; e sentidíssimo: o mundo
quis estar presente.
Crentes e não crentes unidos numa união planetária, em nome de
um pastor que interpelou uns e outros através do seu legado: foi mais longe do
que os autores do permanentemente aberto caderno reivindicativo insistem em não
reconhecer; levou a Igreja para fora das
suas portas, atemorizando
“instalados” que foram preferindo etiquetá-lo a segui-lo.
Entre
duas “alas” porventura excessivas e nada generosas entre si – e nunca
esquecendo os do “meio da ponte” – esteve Francisco: presente,
atento, e andarilho das sete partidas; interveniente pela palavra em todos os
cenários de guerra, activo no diálogo inter-religioso, autor de Encíclicas
vitais como mandamentos. Fiel à doutrina, servindo o Evangelho, sabendo lidar
com o mundo que levava ás costas, foi o inspiradíssimo militante da Igreja “em
saída.”
Após esta jornada memorável na
Praça de S. Pedro – e da mais disruptiva fotografia que me lembro dos últimos
anos
– é com esse Pastor que fico. E com a
universalidade da sua misericórdia que levou a todos, todos, todos.
POLÍTICA ELECTRICIDADE ENERGIA ECONOMIA
COMENTÁRIOS (de 32)
Tim do A: A senhora preocupe-se mas é com o que leva 1,2 milhões
de portugueses a votar no Chega. O mal de muitos políticos e comentadores
elitistas é que, à sua distância da população, vivem num mundo à parte
desconhecendo a realidade e os problemas das pessoas e, mais grave, não querem
tomar conhecimento, num autismo egoísta e egocêntrico de desprezo pelo povo. O
apagão que têm no cérebro deriva do seu elitismo e desprezo pelos problemas das
pessoas. O pior da natureza humana. Albino Mendes: O André Ventura é um perdedor. Os 49 deputados, os
votos, os debates, os apoiantes, os meliantes, as propostas, os discursos,
etc., etc., enfim o crescimento do partido Chega, são sensações 😉. Para terminar com essas sensações, os votos no Chega
deviam ser considerados nulos ou inválidos, porque os eleitores desse partido
não sabem votar👈 De derrota em derrota, até à vitória. Ricardo Ribeiro: Propaganda básica diária neste meio de CS que se diz
isento...e na sua ânsia propagandística até trocou imigração por emigração. Como
diz um sábio aqui do comentariado, lixo! João Floriano > Ricardo Ribeiro: Bom dia Ricardo. Tem razão: o discurso de André
Ventura no 25 de abril foi magistral, uma verdadeira lição a quem repete ano
após ano as mesmas patacoadas vazias sobre a data. José Cortes > Albino Mendes: O que AV não ganharia se de facto mudasse para um
registo mais responsável e coerente. Menos ar de "bocas" e mais ar de pronto
para governar, de estadista. Está na altura. Se o tivesse feito para estas
eleições, o resultado poderia ser imprevisível. Assim, é só mais arroz. Ricardo Ribeiro > José Cortes: Tendo a concordar. No entanto
por mim entendo a retórica no combate ao sistema instalado e por vezes sai
maravilhosa como no brilhante discurso do 25 de Abril. Tenho dito.
Joaquim Zacarias: Esta senhora trocou o cartão
do sindicato dos jornalistas pelo do PSD
e virou comentadora, com a missão de criticar o Ventura. Triste figura. Americo
Magalhaes: Escreve sobre várias figuras e
assuntos, mas resolve colocar em titulo chamativo "Ventura " ..... É mesmo obsessão doentia e ódio.......quiçá medo da
auto intitulada " elite de Lisboa-Cascais" perder as mordomias à
custa dum povo iletrado e anestesiado por uma CS especializada na Censura e na
Inquisição. Tive grande admiração e
respeito pela Sra. pelo trabalho jornalístico do passado , mas deveria chegar a
casa e colocar-se em frente ao espelho e meditar sobre o ridículo em que se
está a colocar. Saber retirar-se no momento
próprio também é sinal de inteligência e sobretudo clarividência. João Floriano: A crónica de Maria João
Avillez não traz nada de novo. A prezada cronista volta a dar testemunho da sua
admiração a Marcelo Rebelo de Sousa, em quem certamente vê qualidades que
muitos portugueses não conseguem ver, presta homenagem a Franciscus, escreve sobre
vários aspectos e nuances à volta do apagão, analisa brevemente as campanhas paupérrimas
dos três principais líderes políticos, portanto nada que fuja ao tradicional em
Maria João Avillez. Então o que há de notável nesta crónica? A introdução.
resumida em três linhas incompletas e onde a distinta cronista lança o isco
para captar leitores para o seu texto. E não se veja aqui qualquer crítica ou
censura. Constato apenas que em tantos temas abordados pela senhora jornalista,
vai escolher precisamente como ideia forte, a que irá captar e prender o leitor
até ao fim ou pelo menos até ao momento em que perceba que foi «fisgado» e
desista da leitura, as dúvidas e ansiedades que julga adivinhar em Ventura.
Para a introdução todos os cronistas escolhem uma frase, um trecho com impacto,
que de certo modo resuma a ideia principal. O mesmo se aplica a qualquer obra
literária mais extensa. Para Maria João Avillez a ideia principal é André
Ventura. GateKeeper: Lixo. Ódiozinho doentio no horizonte. Quase Famoso: Obrigado Maria Avillez, por estar constantemente a
lembrar-me porque voto no CH. Hugo Silva: MJA fazia-lhe bem ouvir o que disse o Mira Amaral....
Mas com a idade, a audição e a coerência, vão -se perdendo... Marcelo é o
verdadeiro exemplo. Zé
Pagador: Mais do mesmo
para enganar os mais incautos. O observador está subliminarmente a apoiar o ps2
sendo que esta tia o mais que consegue fazer é destilar fel contra quem pensa
diferente. Ao menos sejam verdadeiros e declarem apoio ao ps2 assim já nós
saberíamos que este texto seria de propaganda, era mais honesto. Ontem, no
contracorrente foram buscar alguém que lucrou com o desmantelamento da nossa
indústria energética e deram se ao luxo de gozar e criticar quem ajudou a criou
a nossa independência energética já, não há vergonha. Se o governo estivesse ao
comando, a população não se tinha portado da maneira como se portou, como se já
não existisse governo, pois perante a falta de informação e informações falsa
dadas pelos membros do governo…. não vá o diabo tecê-las… Esta dita democracia
foi criada e mantida por pessoas como esta senhora. Os 49 deputados do CH é a
garantia que o ps não põe lá os coutos, um pouco humildade ao ps2 também ficava
bem. Os ateus são a consequência de quem olha para a igreja e não vê lá ninguém
que inspire confiança ou soluções para isso basta ler e ouvir esta triste
personagem, o Ventura agrade-se… Maria Tubucci: Hoje a crónica é sobre o real, o irreal e o
transcendente. Ok, vamos nessa! 😁 O real é que
a Sra. escreve como ninguém, também gostava, mas as letras não gostam de mim. O
irreal é que a Sra. com a idade que tem não deveria ser tão sectária, já deveria
ter enxergado que zurzir no AV é contraproducente, só induz as pessoas a
votarem no CH. Agora transcendente é mesmo a sua devoção pelo PS2. Em
particular o seu santo milagreiro LM, objecto das a suas “orações” e preces,
ora desancando ora rebaixando a oposição. Será que o faz pela razão ou pelo o
interesse? Não sei, mas não lhe fica bem… 🤓 joão Melo: Começa o artigo falando das críticas que foram feitas
ao governo pela forma como foi tratada a questão do apagão. Os argumentos de
que fala não foram apenas usados por gente "fora" do partido. Não foi
apenas André Ventura e Pedro Nuno Santos que disseram o que referiu. Houve
gente do PSD que disse exactamente o mesmo, como Miguel Morgado, que criticou
severamente este governo por não ter sabido comunicar com a população durante
os momentos de crise que se viveram no dia 28. Uma pergunta que gostava de ver confirmada: alguém
sabe se é verdade que durante todo o dia 28 de abril, as portagens das
autoestradas de Portugal, estiveram a funcionar sem qualquer constrangimento? E
o mesmo se pode dizer de todos os sistema de radar para a caça à multa? Se a
resposta for afirmativa mostra bem o que é prioritário para este governo. Afonso
Soares: Estes
políticos que temos desde a extrema esquerda à direita radical irresponsável
deveriam ter ido para electricistas já que sabem tanto de tudo. Tanta asneira
cansa. O PNS vestiu a pele de cordeiro para ver quantos mais engana. Todos
resolvem tudo quando estão na oposição. Nos debates não estão interessados em
apresentar soluções. Estão a passar-nos um atestado de menoridade julgando que
acreditamos em tudo o que prometem. Quanto ao funeral do Papa Francisco foi o
aproveitamento mais escandaloso que vi em toda a minha. Fico tão estarrecido
com o cinismo dos políticos que me dá vómitos e náuseas
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