terça-feira, 20 de maio de 2025

Nunca

 

Um “Tudo ao molho e fé em Deus” de descuido alegre no valor e desempenho próprios, se aplicaria ao caso exposto pela Professora PATRÍCIA FERNANDES, a respeito do talento específico de cada ser humano, que favorece a evolução social, ou, na falha desses princípios que o precedem, o desmotivam para avanços no seu zelo. Aquele é, sem dúvida, fruto da capacidade própria, mas igualmente de um conjunto de regras que rodeiam o indivíduo, e lhe impõem orientações, que muitas vezes descambam em autêntico milagre criativo, que distingue o HOMEM de todos os demais seres. O certo é que, se o Homem se desleixa ou desvia desses preceitos vindos dos tempos, como parece o caso social presente, o mundo tenderá a ruir, como os automóveis guiados por descuidada mão. Felizmente que há sempre flutuações, mesmo nos desvios, graças ao mérito de quem ousa impor-se como orientador, segundo as regras mais ou menos fixas, apesar da democracia delas libertadora. Se não houver retorno aos conceitos que distinguem o Bem do Mal, a anarquia impor-se-á, sem dúvida. O certo é que a relatividade dos conceitos também é mundanal, como se vê nos seres como Putin, que os tem muito entranhados, como suprassumo ordeiro, bem meritório entre os seus e muitos outros, prova da tal relatividade…

O ATAQUE AO MÉRITO (3)

Precisamos de uma reflexão profunda sobre o tipo de sociedade que estamos a criar, um mundo em que o facilitismo escolar agrava as desigualdades económicas e a desvalorização do esforço nos empobrece.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 19 mai. 2025, 00:183

1A regra das dez mil horas

Em Outliers: a história do sucesso, o jornalista Malcolm Gladwell coloca-nos perante um debate que continua a ocupar muitos investigadores: o talento é inato ou adquirido? O mesmo é perguntar: pode qualquer um de nós ambicionar, com as condições sociais certas e os estímulos necessários, a ser referido por Martim Sousa Tavares num dos episódios do Encontro com a Beleza? Ou algumas pessoas nascem com talentos naturais, que, se devidamente desenvolvidos, permitem tornar-se referências na sua área?

Como em quase tudo na vida, a resposta certa encontra-se no meio: existem talentos inatos, que tornam certas pessoas mais capazes de fazer bem certas coisas, mas as condições sociais e ambientais condicionam as suas possibilidades de florescimento.

Para complicar, não é evidente o que são condições favoráveis: podemos achar que ter um ambiente familiar estimulante e com recursos económicos é mais favorável ao desenvolvimento de talentos. E depois aparece-nos Cristiano Ronaldo: ter-se-ia ele tornado o que se tornou sem as adversidades que marcaram a sua infância? E é porque a resposta não é incontestável que existe aquela coisa que nos encanta tanto e a que chamamos política.

Há, contudo, um factor que merece poucas dúvidas e discussões: para que o talento floresça, são necessárias muitas horas de trabalho e esforço. Mais concretamente, dez mil horas. Como diz o neurologista Daniel Levitin, citado por Gladwell:

“Estudo atrás de estudo, sobre compositores, basquetebolistas, escritores de ficção, patinadores do gelo, pianistas de concerto, xadrezistas, criminologistas e o que se quiser, este número aparece reiteradamente. (…) Ninguém encontrou ainda qualquer caso em que a verdadeira perícia de nível internacional fosse alcançada em menos tempo. Aparentemente, o cérebro necessita deste período de tempo para assimilar tudo o que é preciso saber para atingir a verdadeira mestria.”

O exemplo de Mozart é particularmente esclarecedor: as suas primeiras peças musicais não são expressão de um génio e a sua primeira obra-prima só aparece com 21 anos – precisamente dez anos após ter começado a compor, o que corresponde basicamente ao tempo necessário para realizar dez mil horas de prática intensiva. Como concluiu Gladwell, “a prática não é o que se faz quando se é bom. É o que se faz para nos tornarmos bons.” O Cristiano Ronaldo que o diga.

2A nobre mentira

É claro que é preciso ter sorte, é claro que a Fortuna desempenha o seu papel: como Michael Sandel chama a atenção, Cristiano Ronaldo não teria o sucesso que tem hoje se tivesse nascido no período do Renascimento, pois aí o seu talento não seria valorizado. Sandel pretende chamar a atenção para o facto de o nosso sucesso depender de muitas variantes e de, por essa razão, constituir um erro, e um perigo, aqueles que têm sucesso considerarem que esse sucesso resultou apenas de esforço individual.

Tal como vimos em relação a John Rawls, também o ponto de Michael Sandel parece válido. É verdade que muito do que conseguimos na vida depende da lotaria natural e social, como diz Rawls, e resulta de condições sociais pelas quais não somos responsáveis, como diz Sandel, pelo que se podem levantar dúvidas legítimas sobre a justiça das presentes desigualdades económicas.

Ainda assim, estas posições filosóficas devem ser manuseadas com cuidado, uma vez que esta desvalorização do mérito tem conduzido a uma desvalorização do esforço, do sacrifício e do trabalho – com reflexo numa cultura de intitulação de direitos, especialmente agravada quando os desenvolvimentos tecnológicos mais recentes prometem fazer todo o trabalho exigente por nós.

Os tempos actuais merecem, por isso, uma reflexão mais profunda sobre o tipo de sociedade que estamos a criar: uma sociedade em que o facilitismo escolar agrava as desigualdades económicas, em que a desvalorização do esforço e do trabalho tende a gerar empobrecimento e em que a tecnologia digital e a inteligência artificial nos estão a tornar menos inteligentes.

Essa reflexão pode levar-nos a uma das mais importantes contribuições de Platão na obra A República: a nobre mentira, que Sócrates apresenta (final do Livro III), a partir da alegoria dos metais, com o objectivo de gerar harmonia social e levar os habitantes da cidade a cumprir as suas responsabilidades sociais. Todas as sociedades humanas têm as suas nobres mentiras e elas cumprem um papel social fundamental: afinal, “o mito é o nada que é tudo”, como diz Pessoa. Ele eleva-nos, faz-nos superar a nossa natureza meramente física e individual e liga-nos aos outros e aos sonhos partilhados.

É possível que o mérito seja entendido como uma nobre mentira: sabemos que as nossas vidas resultam tanto de fortuna como de esforço individual, mas se acreditarmos que, com trabalho e sacrifício individual, podemos atingir melhores resultados, aumentamos as probabilidades de isso acontecer e, assim, beneficiar toda a sociedade.

Na verdade, se estimularmos a que as pessoas trabalhem mais e se esforcem mais (sejam controladores de tráfego aéreo ou aviadores, electricistas ou médicos, professores ou picheleiros), toda a sociedade beneficiará do seu sucesso – em particular aqueles que tiveram azar na lotaria natural e que terão ao seu dispor serviços, conhecimento científico e capacidade de inovação que, de outra forma, não teriam.

Por diversas razões, as sociedades ocidentais têm vindo a destruir todos os seus mitos – mas está provavelmente na altura de repensarmos a sua importância. (Os resultados eleitorais de ontem parecem revelar precisamente isso, mas a sua análise ficará para mais tarde.)

3Não se pode parar

Em 2014, quando ainda nem sonhava treinar o Manchester United, Ruben Amorim já acumulava horas de treino para uma carreira nos media, com um vídeo gravado para a BenficaTV durante a viagem de regresso da equipa depois de eliminar a Juventus. Na frente do avião, ia o Mister, já a preparar o próximo jogo, como Amorim nota em tom de troça. As palavras de Jorge Jesus são uma lição que supera todas as teorias filosóficas sobre lotaria social e natural: “não se pode parar”.

Podemos ter nascido num bairro pobre de um país com poucas oportunidades, o que é revelado pelo uso criativo que fazemos da língua portuguesa, mas, se trabalharmos mais, teremos mais hipóteses de ser bem-sucedidos. Como diz JJ, não se pode parar.

TRABALHO      ECONOMIA      SOCIEDADE

Rui Lima: O que aborda é complexo, o sucesso como acontece? Ninguém sabe ao certo Eu ainda recentemente ouvia numa rádio estrangeira um empresário criado em família de adopção. Até aos 12 anos faz se à vida, quer ganhar dinheiro, aos 20 e tal já tem milhares de trabalhadores, pensa que não consegue fazer crescer mais a sua empresa , muda de sector, cria outro império, a força de vencer é a razão do sucesso, isso nem se compra nem se aprende. Depois há hoje algo de mau no passado 70% das fortunas eram construídas, hoje são herdadas na Europa, nos USA é diferente.

Rosa Lourenço: É pena estar com um atraso de 2 décadas, no mínimo.

Maria Vilhena: Muito boa reflexão!

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