Um “Tudo ao molho e fé em Deus”
de descuido alegre no valor e desempenho próprios, se aplicaria ao caso exposto
pela Professora PATRÍCIA FERNANDES, a respeito do talento específico de cada
ser humano, que favorece a evolução social, ou, na falha desses princípios que
o precedem, o desmotivam para avanços no seu zelo. Aquele é, sem dúvida, fruto
da capacidade própria, mas igualmente de um conjunto de regras que rodeiam o
indivíduo, e lhe impõem orientações, que muitas vezes descambam em autêntico
milagre criativo, que distingue o HOMEM de todos os demais seres. O certo é
que, se o Homem se desleixa ou desvia desses preceitos vindos dos tempos, como
parece o caso social presente, o mundo tenderá a ruir, como os automóveis
guiados por descuidada mão. Felizmente que há sempre flutuações, mesmo nos
desvios, graças ao mérito de quem ousa impor-se como orientador, segundo as
regras mais ou menos fixas, apesar da democracia delas libertadora. Se não houver
retorno aos conceitos que distinguem o Bem do Mal, a anarquia impor-se-á, sem
dúvida. O certo é que a relatividade dos conceitos também é mundanal, como se
vê nos seres como Putin, que os tem muito entranhados, como suprassumo ordeiro,
bem meritório entre os seus e muitos outros, prova da tal relatividade…
O ATAQUE AO MÉRITO (3)
Precisamos de uma reflexão profunda sobre o tipo de sociedade que
estamos a criar, um mundo em que o facilitismo escolar agrava as desigualdades
económicas e a desvalorização do esforço nos empobrece.
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola
de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 19 mai. 2025, 00:183
1A regra das dez mil horas
Em Outliers: a história do sucesso,
o jornalista Malcolm Gladwell coloca-nos perante um debate que continua a
ocupar muitos investigadores: o talento é inato ou adquirido? O mesmo é
perguntar: pode qualquer um de nós ambicionar, com as condições sociais certas
e os estímulos necessários, a ser referido por Martim Sousa Tavares num dos
episódios do Encontro com
a Beleza? Ou algumas pessoas nascem com talentos naturais, que, se
devidamente desenvolvidos, permitem tornar-se referências na sua área?
Como em quase tudo na vida, a
resposta certa encontra-se no meio: existem
talentos inatos, que tornam certas pessoas mais capazes de fazer bem certas
coisas, mas as condições sociais e ambientais condicionam as suas
possibilidades de florescimento.
Para complicar, não é evidente o que são
condições favoráveis: podemos achar que ter um ambiente familiar estimulante e
com recursos económicos é mais favorável ao desenvolvimento de talentos. E
depois aparece-nos Cristiano Ronaldo: ter-se-ia ele tornado o que se tornou
sem as adversidades que marcaram a sua infância? E é porque a resposta não é
incontestável que existe aquela coisa que nos encanta tanto e a que chamamos
política.
Há, contudo, um factor que merece poucas
dúvidas e discussões: para que o talento floresça, são necessárias muitas horas
de trabalho e esforço. Mais concretamente, dez mil horas. Como diz o neurologista Daniel Levitin, citado por
Gladwell:
“Estudo
atrás de estudo, sobre compositores, basquetebolistas, escritores de ficção,
patinadores do gelo, pianistas de concerto, xadrezistas, criminologistas e o
que se quiser, este número aparece reiteradamente. (…) Ninguém encontrou ainda qualquer caso em que
a verdadeira perícia de nível internacional fosse alcançada em menos tempo.
Aparentemente, o cérebro necessita deste período de tempo para assimilar tudo o
que é preciso saber para atingir a verdadeira mestria.”
O exemplo de Mozart é particularmente
esclarecedor: as suas
primeiras peças musicais não são expressão de um génio e a sua primeira
obra-prima só aparece com 21 anos – precisamente dez anos após ter começado a
compor, o que corresponde basicamente ao tempo necessário para realizar dez mil
horas de prática intensiva. Como concluiu Gladwell, “a prática não é o que se faz quando se é bom. É o que
se faz para nos tornarmos bons.” O
Cristiano Ronaldo que o diga.
2A nobre mentira
É
claro que é preciso ter sorte, é claro que a Fortuna desempenha o seu papel:
como Michael Sandel chama a atenção, Cristiano Ronaldo não teria o
sucesso que tem hoje se tivesse nascido no período do Renascimento, pois aí o
seu talento não seria valorizado. Sandel pretende chamar a atenção para o facto
de o nosso sucesso depender de muitas variantes e de, por essa razão,
constituir um erro, e um perigo, aqueles que têm sucesso considerarem que esse
sucesso resultou apenas de esforço individual.
Tal como vimos em relação a John Rawls,
também o ponto de Michael Sandel parece válido. É verdade que muito do que
conseguimos na vida depende da lotaria natural e social, como diz Rawls, e
resulta de condições sociais pelas quais não somos responsáveis, como diz
Sandel, pelo que se podem levantar dúvidas legítimas sobre a justiça das
presentes desigualdades económicas.
Ainda assim, estas posições
filosóficas devem ser manuseadas com cuidado, uma vez que esta desvalorização
do mérito tem conduzido a uma desvalorização do esforço, do sacrifício e do
trabalho – com reflexo numa cultura de intitulação de direitos, especialmente
agravada quando os desenvolvimentos tecnológicos mais recentes prometem fazer
todo o trabalho exigente por nós.
Os tempos actuais merecem, por isso,
uma reflexão mais profunda sobre o tipo de sociedade que estamos a criar: uma
sociedade em que o facilitismo escolar agrava as desigualdades económicas,
em que a desvalorização do esforço e do trabalho tende a gerar empobrecimento e em que a tecnologia
digital e a inteligência artificial
nos estão a tornar menos
inteligentes.
Essa reflexão pode levar-nos a
uma das mais importantes contribuições de Platão
na obra A República: a nobre
mentira, que Sócrates apresenta (final do Livro III), a partir da alegoria dos metais, com o objectivo de gerar harmonia social
e levar os habitantes da cidade a cumprir as suas responsabilidades sociais.
Todas as sociedades humanas têm as
suas nobres mentiras e elas cumprem um papel social fundamental: afinal, “o
mito é o nada que é tudo”, como diz Pessoa.
Ele eleva-nos, faz-nos superar a nossa natureza meramente física e
individual e liga-nos aos outros e aos sonhos partilhados.
É possível que o mérito seja entendido como uma nobre mentira: sabemos que as nossas vidas resultam
tanto de fortuna como de esforço individual, mas se acreditarmos que, com
trabalho e sacrifício individual, podemos atingir melhores resultados,
aumentamos as probabilidades de isso acontecer e, assim, beneficiar toda a
sociedade.
Na verdade, se estimularmos a que as
pessoas trabalhem mais e se esforcem mais (sejam controladores de tráfego
aéreo ou aviadores, electricistas ou médicos, professores ou picheleiros), toda a sociedade beneficiará do seu
sucesso – em particular aqueles que tiveram azar na lotaria natural e que terão
ao seu dispor serviços, conhecimento científico e capacidade de inovação que,
de outra forma, não teriam.
Por diversas razões, as sociedades ocidentais têm vindo a destruir
todos os seus mitos – mas está provavelmente na altura de repensarmos a sua
importância. (Os resultados
eleitorais de ontem parecem revelar precisamente isso, mas a sua análise ficará
para mais tarde.)
3Não se pode parar
Em
2014, quando ainda nem sonhava treinar o Manchester United, Ruben
Amorim já acumulava
horas de treino para uma carreira nos media, com um vídeo gravado para a
BenficaTV durante a viagem de regresso da equipa depois de eliminar a Juventus.
Na frente do avião, ia o Mister, já a
preparar o próximo jogo, como Amorim nota em tom de troça. As
palavras de Jorge Jesus são uma lição que supera todas as teorias filosóficas
sobre lotaria social e natural: “não se pode
parar”.
Podemos ter nascido num bairro pobre de
um país com poucas oportunidades, o que é revelado pelo uso criativo que
fazemos da língua portuguesa, mas, se
trabalharmos mais, teremos mais hipóteses de ser bem-sucedidos. Como diz JJ, não
se pode parar.
Rui Lima: O que aborda é complexo, o
sucesso como acontece? Ninguém sabe ao certo Eu ainda recentemente ouvia numa
rádio estrangeira um empresário criado em família de adopção. Até aos 12 anos
faz se à vida, quer ganhar dinheiro, aos 20 e tal já tem milhares de
trabalhadores, pensa que não consegue fazer crescer mais a sua empresa , muda
de sector, cria outro império, a força de vencer é a razão do sucesso, isso
nem se compra nem se aprende. Depois há hoje algo de mau no passado 70% das
fortunas eram construídas, hoje são herdadas na Europa, nos USA é diferente.
Rosa Lourenço: É pena estar com um atraso de
2 décadas, no mínimo.
Maria Vilhena: Muito boa reflexão!
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