Que se pretende rigorosa, e me parece
preconceituosa – na análise da meritocracia, neste mundo de relatividades e
astúcias, numa sociedade regida pelo sacrossanto poder material. E pela cunha, também afim.
O ataque ao mérito (2)
O talento, o mérito e o esforço
tornam as sociedades mais abertas e mais igualitárias: não menos. E, nessa medida, o ataque ao mérito é mais prejudicial
para aqueles que tiveram azar na lotaria social.
PATRÍCIA FERNANDES
Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 12 mai. 2025, 00:20
1O filho mais velho
No
seu manual de introdução à filosofia política, Justiça: fazemos o que devemos?, Michael
Sandel conta-nos sobre o inquérito não-científico que
costuma realizar todos os anos em Harvard, quando diz aos seus alunos:
“os psicólogos afirmam que a ordem de
nascimento tem influência no esforço e no empenho – tal como o esforço que os
alunos associam à entrada em Harvard. O primeiro filho tem,
alegadamente, uma ética de trabalho mais forte, ganha mais dinheiro e obtém
mais sucesso em termos convencionais que os irmãos mais novos. Estes estudos
são controversos e não sei se as suas conclusões são verdadeiras. Mas, por
brincadeira, pergunto aos meus alunos quantos deles nasceram primeiro. Entre 75
e 80 por cento levantam a mão. O resultado foi o mesmo sempre que fiz o
inquérito.”
Fazendo jus à sua inclinação
republicana, os dilemas com que Michael Sandel enriquece os seus
livros permitem muitas aulas de discussão de ideias e este caso cumpre
especialmente bem esse propósito.
Por um lado, é um tipo de experimentação que se está a tornar
obsoleto: com a epidemia de filhos únicos, o filho mais velho será certamente aquele
que terá mais sucesso – afinal, é o único filho. Mas será
verdade que os filhos mais velhos são mais trabalhadores? E se isso parecer verdade à nossa volta,
será porque o nascimento do filho seguinte condena o filho mais velho à
angústia permanente de reconquistar a atenção dos pais? Ou serão mais esforçados porque foram
mais estimulados e receberam mais atenção parental durante o tempo em que eram
o único filho? Serão os filhos seguintes, nessa medida, mais
“desenrascados”?
Por outro lado, temos na cultura norte-americana uma
associação muito forte entre esforço e sucesso profissional: trabalhar
mais significa, por regra, ser mais bem-sucedido em termos profissionais e
obter, com isso, um maior rendimento. Mas, em países como o nosso,
será possível associar “trabalhar mais” a “salário maior”? (MAX WEBER pode ser útil aqui.) E quem escolhe “trabalhar muito” na área da filosofia ou da ciência
política, poderá ter a expectativa de ser “bem-sucedido” em termos materiais?
Ou será igualmente sinal de inteligência saber escolher a área a que nos
dedicamos?
2Uma questão de lotaria
Na verdade, o que Michael
Sandel pretende com esta experiência é clarificar o argumento do filósofo político norte-americano John Rawls, que, na sua Teoria da
Justiça, defende uma
justiça redistributiva de base não-meritocrática, uma vez que os factores que determinam o
nosso sucesso (material) são uma questão de lotaria, social e natural.
O que quer dizer Rawls com esta ideia de lotaria? O filósofo norte-americano pretende
chamar a atenção para o facto de as circunstâncias que rodeiam o nosso
nascimento não serem responsabilidade nossa, mas serem resultado de mera sorte:
não escolhemos nascer numa família com recursos materiais ou com pais
capazes de estimular intelectualmente os seus filhos, tal como não escolhemos
nascer saudáveis, inteligentes ou como filhos mais velhos. É uma questão de
lotaria social e natural, o que significa que as vantagens que retiramos dessas condições de sorte não podem ser
vistas como resultado de um esforço da nossa parte – isto é, não são resultado
do nosso mérito.
Ora, não
sendo as vantagens (materiais) responsabilidade nossa, então não nos deveríamos
agarrar à ideia de que merecemos essas vantagens e de que as políticas
redistributivas seriam, assim, injustas. A tributação que visa a redistribuição pelos mais desfavorecidos não
deveria ser vista como um roubo, mas como uma forma de os sortudos reconhecerem
a sua obrigação de devolver à comunidade, nomeadamente àqueles que tiveram azar
social ou natural.
No seu livro de 2006, o psicólogo Jonathan Haidt acrescenta
uma outra dimensão a esta conversa, recordando a polémica em torno do uso do Prozac (ou
de outros medicamentos da mesma classe), por se tratar de um químico que
permite “atalhar” para obter resultados mais rápidos do que, por exemplo, a
meditação ou a terapia cognitiva:
“Não
há trabalhos de casa, nem novas aptidões difíceis de adquirir, nem uma consulta
semanal. Se acredita na ética protestante e está convencido de que o ganho vem
do trabalho, é possível que se sinta perturbado pelo Prozac.”
Mas, acrescenta Haidt:
“É
fácil para aqueles que tiveram
sorte na lotaria cortical pregarem acerca da importância do trabalho árduo e do
caráter antinatural dos atalhos químicos. Contudo,
para aqueles que, sem qualquer culpa sua, acabaram na metade negativa do
espectro de estilos afectivos, o Prozac é uma maneira de compensar a injustiça
da lotaria cortical.”
Sem surpresa, os meus alunos costumam
ser particularmente sensíveis ao argumento de Haidt: afinal, tiveram o azar de
nascer num tempo que, por diversas e disputáveis razões, lhes deu um campo
bastante desnivelado na distribuição da sorte cortical.
3O mérito democrático
As últimas décadas do século XX foram muito marcadas por este
pensamento rawlsiano, favorável a políticas sociais que compensem as diferentes
sortes da lotaria do nascimento. Partindo de
uma constatação natural e observável – as pessoas não escolhem as suas
condições sociais e naturais e têm, muitas vezes, azar nessa lotaria –, foi com alguma facilidade que se criaram consensos políticos relativamente amplos, pelo menos na Europa, em torno dessas políticas sociais – ajudadas,como fizemos notar, pelo crescimento económico que marcou a segunda metade do século XX.
O problema é que a perspectiva de John
Rawls quanto ao mérito conduziu a um crescente
enfraquecimento de uma ideia que é, no seu âmago, profundamente democrática: a valorização do mérito, permitindo o
reconhecimento dos talentos naturais (mesmo que resultado de sorte), permite
questionar e fragilizar os privilégios familiares ou sociais pré-estabelecidos.
É
precisamente isso que Tucídides coloca na boca de Péricles,
na sua oração fúnebre após o primeiro ano da Guerra do Peloponeso. O
orgulhoso ateniense faz o elogio da sua cidade e do seu regime democrático
nestes termos:
“De acordo com as nossas leis, somos
todos iguais no que se refere aos negócios privados. Quanto à participação na sua vida
pública, porém, cada qual
obtém a consideração de acordo com os seus méritos e mais importante é o valor
pessoal que a classe a que se pertence;
isto quer dizer que ninguém sente o obstáculo da sua pobreza ou da condição
social inferior, quando o seu valor o capacite a prestar serviços à cidade.”
O talento, o mérito e o esforço tornam
as sociedades mais abertas e, nessa medida, mais igualitárias –não menos. E, nessa medida, o ataque
ao mérito revela-se mais prejudicial para aqueles que tiveram azar na lotaria
social, pois a única forma que têm de superar as suas circunstâncias é
suprimida, e essa supressão torna os países mais corrompidos: se não escolhemos
os melhores, prevalecerão aqueles que se fazem escolher.
Mas o
ataque ao mérito também não resolve o problema da lotaria natural, como
veremos na próxima semana.
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