Do excerto emotivo do nosso PADRE VIEIRA
sobre a GUERRA, extraído de um dos
seus sermões, em absoluto condenatório, no seu discurso amplificante de metaforismo
hiperbólico, ao contrário do texto do P. JOÃO BASTO, rigoroso e plácido, na
constatação da imposição da guerra, nas relações entre os homens, seres cujos
estados de alma são muita vez causa de efeito atacante, como dá bem a entender o
nosso CESÁRIO VERDE, nas suas CONTRARIEDADES:
«…Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.»
As dores de cabeça, se
estão bem armadas de argumentos de poder condenatório – ofensivo ou defensivo,
pois – poderão ser causa muitas vezes dessas excursões belicistas, embora o não
confessem os pretensiosos do poder, que arrastam com isso para a morte inúmeros
seres, por imposição ou suborno. Mas o HOMEM, como ser racional, irritável e
arguto, está em todas, e daí que também aqui, na guerra. Sem medos.
O texto de VIEIRA:
“É a guerra aquele
monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e, quanto mais come
e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que
leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um
momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade
composta de todas as calamidades em que não há mal nenhum que ou se não padeça,
ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro: - o pai não tem seguro o
filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o
nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o
religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários,
não está seguro.” P. António Vieira (1668)
O texto do P. JOÃO BASTO:
Haverá uma guerra justa?
Se nenhuma guerra é boa, fingir que
todas são iguais, ou que nenhuma é legítima, é o caminho mais rápido para o
triunfo do injusto.
P. JOÃO BASTO Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário
Diocesano de Viana do Castelo
OBSERVADOR, 30
mai. 2025, 00:186
Sei que é desconfortável dizê-lo, mas
sim: pode haver uma guerra justa. E dizer o contrário, por mais pacifista
que soe, é moralmente irresponsável. Se nenhuma guerra é
justa, então nenhuma resistência é legítima. Nem contra tiranias. Nem contra
genocídios. Nem contra invasões. É nesse ponto que pacifismo radical e
belicismo indiscriminado se encontram: a promoção da guerra e o abandono da “protecção dos justos”, como
referiu S. Agostinho. O primeiro troca a dignidade humana por um ideal, em
defesa do qual tudo se prescinde. O segundo substitui o bem comum pela vingança
e pelo ódio puro. São duas faces da mesma moeda.
Mesmo quando o Papa diz “a Paz esteja convosco”, expressão que
Cristo profere nos Evangelhos, está a reutilizar uma frase hebraica, que
traduz o estabelecimento da justiça
nas relações com Deus, com os
outros, consigo mesmo e com o Mundo. E não meramente um convite
ao sossego e à inação.
Considerar
que a guerra é sempre uma derrota da humanidade e defender que a paz é o primeiro
objectivo a alcançar e a promover, não
só não está em oposição à ideia de guerra justa, como a exige necessariamente. Antes de
mais, porque o conceito de guerra justa não é um mecanismo belicista, mas um
instrumento que visa proteger os inocentes, limitar os danos e julgar com rigor
moral quem toma decisões em tempos de conflito. E negar essa possibilidade é abdicar de pensar eticamente a
violência real que ocorre no mundo.
Para entender isto bastaria pensar que, se
a ideia de justiça pressupõe a ideia
de equilíbrio, seria mais equilibrada uma guerra que respeite
o direito internacional e que não prescinde da via diplomática, do que uma guerra onde só um lado ataca e
o outro, em nome da paz, se recusa a defender, ao mesmo tempo que o agressor
nega a possibilidade de qualquer negociação. Na verdade, só uma
reflexão sobre a ideia de uma guerra justa é capaz de impedir uma banalização
dos conflitos que resulte na banalização das atrocidades.
Sobre isso, Tomás de Aquino — tão
idolatrado quanto esquecido, e que em 2025 faria 800 anos — foi
bastante claro: só é possível falar de guerra justa se houver
três critérios. Primeiro: autoridade legítima (e não
ditadores que distorcem a lei para justificar a agressão). Segundo: causa justa
(não a expansão de fronteiras ou a humilhação de civis). Terceiro: intenção
reta e meios proporcionais (não bombardeamentos de hospitais, fome como arma de
guerra, ou castigos coletivos). Por isso, uma guerra nunca será justa se,
através do objetivo de defesa nacional, promover uma limpeza étnica. Como nunca
será justa enquanto houver um bloqueio à ajuda humanitária ou uma recusa das
conversações diplomáticas. Ou mesmo enquanto a guerra for levada a cabo por um
poder individual e autorreferencial.
A tradição cristã não canoniza a
guerra. Pelo
contrário: obriga a julgá-la com rigor moral. Por isso, Francisco de Vitória e Francisco Suárez
questionaram a legitimidade da força contra os povos indígenas, e hoje podemos
equacionar que a proposta de rearmamento da Europa está incompleta se não for
antecedida de uma reflexão sobre o que significa ser europeu. Mas
isso parte de um ponto anterior: nenhum fundamentalismo é bíblico ou
religioso. Bastaria
olhar, por exemplo, para o Antigo Testamento, para entender até como a
associação entre povo eleito e terra prometida em sentido geográfico, nem
sempre é clara e acontece entre avanços e recuos, sem uma síntese final.
Ora, se queremos paz, temos de ser capazes de dizer — com coragem e
clareza — quando ela for violada, que não deixaremos campo livre aos
agressores, nem condenaremos os fracos ao silêncio. Porque se nenhuma guerra é boa, fingir que todas são iguais, ou que
nenhuma é legítima, é o caminho mais rápido para o triunfo do injusto. E esse
não é o lado certo da história.
GUERRA CONFLITOS MUNDO IGREJA
CATÓLICA RELIGIÃO SOCIEDADE
COMENTÁRIOS
Francisco Almeida: Um artigo que seria excelente se tivesse havido equilíbrio entre
as referências claras à actuação de Israel e as referências que faltaram sobre
a natureza e e actuação do Hamas. Mesmo admitindo que Israel exorbite na recusa
da assistência humanitária, o facto do Hamas usar a população como escudo e
como suporte, de se dissimular dentro dessa população, sem identificação
militar, de fazer de escolas centros de comando e de hospitais paióis, torna
toda a população um alvo militar. Suponho que o Pe. João Basto até aceite que
não é possível combater terroristas com as regras de Genebra para a guerra
convencional. E talvez deva meditar sobre o que se passa na Faixa de Gaza e que
não tem antecedente histórico nem foi objecto de julgamentos morais anteriores. António Alberto Barbosa Pinho: Muito bem, Sr. Padre.
S N: Texto
correcto e equilibrado, que poderia ter sido escrito por muitos, como aliás foi
abundantemente, desde há vários séculos atrás até escassas horas ou dias. Mas,
como bem sabemos, não por todos.
Américo Silva: Na
tradição judaica guerra justa é a que deus quer, seja abominável, ardilosa e
genocida. António Dias: Para tomar partido com alguma lucidez é bom ouvir a argumentação
de ambas as partes. Quando estamos num lado ouvindo só pornografia (levar o
outro ao sabor de instintos primários) temos de pensar que um esconde a verdade
do outro lado por ser demasiado poderosa e assim a proíbe de se dar a conhecer.
A guerra só é aceitável se estiver em causa escravatura, todas as outras causas
são manipulação. Os israelitas não enviaram para Gaza alimentos necessários?
Está isentamente informado? Acha possível uma comunidade que nasceu no seio da
Europa fazer tamanha barbaridade? Será isso possível? Porque não podem os
camiões serem entregues à única força com o mínimo de ética? Escandaliza-os o
reconhecimento facial nessa entrega de alimentos porquê? Querem realmente
acabar com a guerra ou gerir essa guerra. Descarreguem as razões que quiserem
em cima destes comentários pois não os vou ler, usem-no para criar amizades
enquanto alimentam essa alienação, talvez se dêem conta ( psicodrama Moreno). Alexandre Barreira: Pois. Caro P. João, Tem toda a razão.
E até já a "outra" dizia: Minhas meninas tenham calma.
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