domingo, 25 de maio de 2025

Não escalemos a torre

Que pode ruir, como a outra, pese embora a diferença nas motivações. Sejamos apenas uma costa dos murmúrios timorata ou comodista. Para mais, há sempre quem se amanhe, em escaladas pessoais e indiferentes ao status, mas talvez não sejam estes os mais responsáveis pela incúria geral. Somo-lo todos, os que por excesso de trabalho, por excesso de comodismo, ou mesmo só por ignorância, geralmente também de excesso, nos adaptamos e aceitamos, mesmo que murmuremos, ou eventualmente nos indignemos, apesar do maior acesso à visibilidade nestes tempos de óculos, binóculos e mesmo telescópios, de diferente alcance visual. Fiquemo-nos pelas análises historiográficas e as advertências de JAIME NOGUEIRA PINTO, e regozijemo-nos, por termos escritores e estudiosos do seu gabarito moral e intelectual, e acesso comodista a ele, para nos iluminar as mentes, embora não saibamos por quanto tempo será ainda, com os putins e os trumps da malvadez presunçosa a sentirem-se os brilhantes orientadores poderosos deste nosso século a ruir.

A força das coisas

A alternativa para os “partidos do sistema”, seria procurar perceber se nas razões do sucesso dos "populistas" não pesarão as palavras, actos e omissões de quem está há meio século no poder.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 24 mai. 2025, 00:1831

As elites ameaçadas são quase sempre as últimas a saber. Independentemente da sua inteligência e lucidez. Embora sintam o perigo para a sua hegemonia e para os seus privilégios – pequenos, médios ou grandes – há uma cegueira endémica que as impede de ver o óbvio.

No Domingo, tornou-se particularmente evidente que há uma vaga de fundo, uma revolução ou uma contra-revolução generalizada, uma mudança político-social que, como todas as grandes mudanças, parece surgir do nada, como se da “força das coisas” se tratasse.

Porque, curiosamente, a mudança não vem de um qualquer 28 de Maio ou 25 de Abril, de um movimento, de um golpe militar, de uma alteração brusca da ordem político-socialvem de eleições, de consultas populares. No entanto, os oráculos da notícia e do comentário daquilo a que se convencionou chamar “o sistemanão querem saber de mudanças ou das suas causas – permitem-se ficar só surpreendidos, ou só chocados, ou só perturbados com a radicalidade dos factos, por ter o povo, soberano quando “vota bem”, mudado inexplicavelmente de lado, de cor, sem razão aparente que não a eventual “manipulação” por forças “populistas”.

O projecto globalista

Foi a partir do fim da Guerra Fria, numa conjuntura que resultou do triunfo da democracia liberal sobre o comunismo soviético, com o desaparecimento repentino ou gradual dos partidos comunistas que oprimiam a Europa Oriental e eram importantes na Europa Ocidental, que se instalou na Europa e no mundo euro-americanoo sistema”.

Os governos e as forças que levaram à convergência que liquidou a URSS – o reaganismo americano, o conservadorismo tatcheriano, São João Paulo II e a sua Polónia, juntamente com um punhado de regimes de todas as coreseram então apoiados por um anticomunismo popular e patriótico em política e conservador nos costumes. E a defesa da liberdade económica, que permitiu que os ricos americanos ganhassem muito dinheiro no tempo de Reagan, vinha com um conservadorismo patriótico que tinha grande apoio nas classes médias e trabalhadoras.

O que aconteceu depois do fim do comunismo e da libertação da Europa Oriental, a partir da administração Clinton e George W. Bush, foi outra coisa e muito diferente. O projecto de impor uma forma de mundialismo político-económico de hegemonia americana, a que os neoconservadores quiseram dar a respeitabilidade de cruzada ideológica, democrática e humanitária, esse projecto de fazer do mundo um grande mercado unificado em que a economia e a pretensa racionalidade da economia dominassem e comandassem o político, o ético e o social, encontrou aliados nos partidos do centrão europeu.

O macroterrorismo jihadista e as medidas de excepção que legitimou para o combater ajudaram a justificar as guerras que, dos Balcãs ao Médio Oriente, à custa de centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados, quiseram impor o “modelo americano”, sem olhar ao absurdo que, pelo desafio à História e aos costumes, representava a sua implantação artificial em muitas latitudes.

O movimento que, na Europa, acompanhou este movimento mundial foi a tentativa de transformar a união económica e financeira numa unidade política única, à custa da soberania dos Estados. Depois da rejeição popular da Constituição Europeia nos referendos de 2005, em França e nos Países Baixos, os federalistas passaram a ser mais cautelosos, recorrendo à estratégia indirecta de criar factos consumados através da legislação e de multiplicar lobbies e lobystas por interesse ou convicção. O resultado, ou o método, foi uma aliança entre o que restava de uma radicalidade cultural de esquerda abandonada pelas massas trabalhadoras e os interesses dos gestores dos grandes fundos e bancos de investimento, do grande capitalismo financeiro e das altas e médias tecnoburocracias dos aparelhos públicos e privados.

Com o desaparecimento dos partidos comunistas, os socialistas chegaram-se para o centro-esquerda e os democratas-cristãos e conservadores para o centro-direita, acomodando-se em “centrões”, onde se foram esquecendo de eleitores e programas de origem. Entretanto, a desindustrialização e a deslocalização das indústrias para “paraísos laborais” foram despovoando as zonas industriais da Europa que, progressivamente, deixou de produzir coisas e de aplicar recursos para passar a oferecer serviços, muitas vezes serviços precários. O mesmo aconteceu no rust-belt americano.

Chegados aqui, é-nos dado assistir experimentalmente à proletarização das classes médias, numa reedição da “teoria apocalíptica” de Marx (que Leão XIII subscrevia no preâmbulo da Rerum Novarum), rumo a um Brave New World em que as classes dirigentes, transformadas em castas hereditárias, vão vivendo numa bolha, enquanto aumenta o número dos super-ricos e dos super-pobres.

Em Portugal

Em Portugal – em modo modesto, reconheça-se – caminhamos para este admirável mundo de hoje desde o Thermidor do 25 de Novembro que veio pôr termo ao “terror gonçalvista”, com o Centrão a alternar no poder – mais à direita com o PSD, mais à esquerda com o PS mas a perpetuar-se, em bloco, no “aparelho”, progressivamente insensibilizado e dissociado do “povo”. Nisto seguimos o resto do mundo euroamericano. Como, pelos vistos, também começamos a segui-lo na reacção ao que se foi transformando numa bolha.

Não há acrobacia interpretativa dos catedráticos do comentário que consiga iludir o facto de que em Portugal, no Domingo, se fez história: os eleitores dos partidos da Esquerda, moderada ou radical, não chegaram a um terço dos votantes – do PS ao PAN, passando pelo Livre, o novo berloque da Esquerda que, com uma subida de 4 para 6 deputados, mantém viva a fé progressista não se sabe bem em quê. Mais significativa ainda foi a “geografia do voto”, com a direita nacional popular ou populista a tomar de assalto os antigos bastiões comunistas e socialistas, centros nevrálgicos onde costumava estar o povo, o bom povo, e onde agora estão… “os fascistas”.

A própria “direita moderada” (que há bem pouco tempo era a “a direita fascista”) conseguiu mais votos que toda a esquerda junta, e o velho Centrão, a soma AD-PS, que quase sempre ultrapassou os 70%, ficou agora pouco acima dos 50%.

Apesar da campanha dos media, que ganha foros de uma guerra de classe contra os “bárbaros” travada com galhardia pelos “civilizados” – quase todos repetidores da cartilha dos liberais do marcelismo, dominantes na opinião publicada em Portugal, não há 50 mas há quase 60 anos –, a direita radical cresce. E cresce, apesar da convergência hostil da “opinião de referência” e das próprias debilidades.

Que fazer?

Este fenómeno reactivo responde a uma crise geral do sistema de valores e de instituições do chamado Ocidente, onde se tem vindo a salgar com sementes de desconstrução social um já indigesto globalismo político-económico, agravando o fosso entre uma elite de “iluminados” e um povo de “bárbaros”.

Sentindo o perigo para a sua hegemonia e para os seus privilégios – pequenos, médios ou grandes – as oligarquias democráticas, na América e na Europa, tendem a não querer sair da cegueira que as impede de ver o óbvio para agir em conformidade. Que fazer, então?

Perante o “perigo fascista” passa-se a “métodos fascistas”: o povo está a votar mal, está enganado ou a deixar-se enganar, quer voltar à Idade Média ou mesmo às cavernas e chamar-lhe modernidade?Então, anulem-se eleições, como na Roménia; proíbam-se políticos de concorrer, como Marine Le Pen ou, idealmente, Trump; ilegalizem-se partidos, alegando, por exemplo, “fascismo”, mesmo que neles tenha votado um quarto dos eleitores.

A alternativa para os “partidos do sistema”, seria, reconhecendo democraticamente o sucesso dos “populistas” – um sucesso capaz de sobreviver a todas as debilidades, vulnerabilidades e pecados que lhes apontam –, procurar perceber se nas razões desse sucesso não pesarão as palavras, actos e omissões de quem está há meio século no poder.

Um pequeno exercício de auto-crítica nunca fez mal a ninguém.

A SEXTA COLUNA     HISTÓRIA      CULTURA      LEGISLATIVAS 2025      ELEIÇÕES LEGISLATIVAS      POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 40)

António Costa e Silva: O instinto de sobrevivência do povo mostra os primeiros sinais de reacção à grande invasão, a que a máquina de propaganda do sistema chama imigração.              Rui Lima > António Costa e Silva: Tem razão António , 95% do voto nos partidos ditos populistas do Ocidente tem essa origem ,ainda há 7 anos o Chega tinha 1 deputado .Depois mentem e ninguém faz contra-ponto. A Coreia do Sul com fronteiras fechadas é uma potência industrial, o Japão bate recordes no turismo com fronteiras fechadas , a produtividade não cresce na Europa há vários anos como consequência das fronteiras abertas que traz gente não qualificada.             Coxinho: Que seria do Observador sem a colaboração de autores como JNP e AG...?                Ana Luís da Silva: Excelente memória histórica e análise crítica de Jaime Nogueira Pinto. Claramente a classe média está a ser o bode expiatório e a besta de carga que tem sustentado o “humanismo universalista” das elites, ao mesmo tempo que se cria a ilusão de que o elevador social está a funcionar para os assalariados mínimos. Chegou-se a este ponto de cozedura lenta do cidadão comum através - da burocratização massiva dos serviços públicos (afastando cada vez mais o cidadão da tomada de decisões e do exercício dos seus direitos), - da perda de direitos de autonomia pessoal e familiar (por exemplo, quanto à educação e aos conteúdos lecionados nas escolas) e de liberdade de expressão (por causa do garrote ideológico-progressista na CS e na cultura em todas as suas expressões), - do verdadeiro confisco através de impostos sobre a propriedade e a mobilidade ou de taxas sobre qualquer mínimo serviço prestado pelo Estado (como se não pagássemos já tanto em impostos!). Estão de “parabéns” as elites, sobretudo aquelas que longe dos holofotes influenciam/financiam a desconstrução da sociedade ocidental… nem aparecem na fotografia, deixam esse “trabalho” aos políticos mais ou menos manhosos (como António Costa)! Conseguiram convencer-nos que zelam pela nossa felicidade e prosperidade e que seremos fascistas se de algum modo pusermos em causa o sagrado status quo.

Tim do A: Frases geniais: Elites ameaçadas são sempre as últimas a saber. A força das coisas. Bárbaros e Iluminados. Alusão ao importante livro de Jaime Nogueira Pinto com esse título. Perante o perigoso fascista passa-se a métodos fascistas. Um pequeno exercício de autocrítica nunca fez mal a ninguém. Acrescento que já não vai a tempo face à impaciência do eleitorado farto de mais do mesmo, como diz Miguel Pinheiro. E ainda bem.                   Tim do A > Filipe Paes de Vasconcellos: O PSD reformista?!? Com Montenegro??? Só se for o PSD socialista maçónico globalista!!!              Maria Nunes: Excelente.                     Liberales Semper Erexitque: A prioridade que passou a ser dada pela AD às políticas relativas aos imigrantes em Portugal mostra que existe auto-crítica e mudança. Já pedir à AD que em alguns meses de governo ultra-minoritário faça milagres e resolva problemas às vezes com séculos de existência não é sério, é apenas uma temática chagada.            Maria Madeira: Excelente análise.               Rui Lima: A esquerda fechada no seu castelo não entende o povo nem gosta do povo e quando ele não vota segundo os seus desejos insulta o povo no mínimo são ignorantes (ver o jornal o Público de hoje )  Ainda não perceberem que Trump é consequência e não a causa tal como A. Ventura estes só têm de tomar as medidas que o povo deseja. Muitos estão chocados com a interferência de Trump nas Universidades a população aplaude porque professores e alunos ricos na sua deriva woke nada sabem da vida. “..Har­vard é um ambi­ente mono­cul­tu­ral onde menos de 1% dos pro­fes­so­res e ape­nas 7 ou 8% dos estu­dan­tes se iden­ti­fi­cam como con­ser­va­do­res, lamenta Johnny Burtka…”                José Paulo Castro > Liberales Semper Erexitque: Nem é isso. Falta que a AD identifique o problema a resolver. Ainda nem isso conseguiram. Não se trata apenas de legalizar migrantes e impedir portas abertas, enquanto continua com via verde para migrantes legais. Trata-se de impedir a substituição populacional que tal representa, que vai a caminho dos 20%. Trata-se de assumir um modelo que impede isso, sejam quais forem as consequências económicas internas.                Maria Correia: Muito bom! Obrigada

 

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