Que pode ruir, como a outra, pese embora a diferença nas motivações. Sejamos apenas uma costa dos murmúrios timorata ou comodista. Para mais, há sempre quem se amanhe, em escaladas pessoais e indiferentes ao status, mas talvez não sejam estes os mais responsáveis pela incúria geral. Somo-lo todos, os que por excesso de trabalho, por excesso de comodismo, ou mesmo só por ignorância, geralmente também de excesso, nos adaptamos e aceitamos, mesmo que murmuremos, ou eventualmente nos indignemos, apesar do maior acesso à visibilidade nestes tempos de óculos, binóculos e mesmo telescópios, de diferente alcance visual. Fiquemo-nos pelas análises historiográficas e as advertências de JAIME NOGUEIRA PINTO, e regozijemo-nos, por termos escritores e estudiosos do seu gabarito moral e intelectual, e acesso comodista a ele, para nos iluminar as mentes, embora não saibamos por quanto tempo será ainda, com os putins e os trumps da malvadez presunçosa a sentirem-se os brilhantes orientadores poderosos deste nosso século a ruir.
A força das coisas
A alternativa para os “partidos do
sistema”, seria procurar perceber se nas razões do sucesso dos
"populistas" não pesarão as palavras, actos e omissões de quem está
há meio século no poder.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 24 mai. 2025, 00:1831
As elites ameaçadas são quase sempre
as últimas a saber. Independentemente
da sua inteligência e lucidez. Embora sintam o perigo para a sua hegemonia e
para os seus privilégios – pequenos, médios ou grandes – há uma cegueira
endémica que as impede de ver o óbvio.
No Domingo, tornou-se particularmente evidente que há uma vaga de fundo,
uma revolução ou uma contra-revolução generalizada, uma mudança político-social
que, como todas as grandes mudanças, parece surgir do nada, como se da “força
das coisas” se tratasse.
Porque, curiosamente, a mudança não
vem de um qualquer 28 de Maio ou 25 de Abril, de um movimento, de um golpe
militar, de uma alteração brusca da ordem político-social – vem de eleições, de consultas populares. No
entanto, os oráculos da notícia e do comentário daquilo a que
se convencionou chamar “o sistema” não querem saber de mudanças ou das suas causas – permitem-se ficar
só surpreendidos, ou só chocados, ou só perturbados com a radicalidade dos
factos, por ter o povo, soberano quando “vota bem”, mudado inexplicavelmente de
lado, de cor, sem razão aparente que não a eventual “manipulação” por forças
“populistas”.
O projecto globalista
Foi a partir do fim da Guerra
Fria,
numa conjuntura que resultou do triunfo da democracia liberal sobre o comunismo
soviético, com o desaparecimento repentino ou gradual dos partidos comunistas
que oprimiam a Europa Oriental e eram importantes na Europa Ocidental, que se
instalou na Europa e no mundo euro-americano “o sistema”.
Os governos e as forças que
levaram à convergência que liquidou a URSS – o reaganismo americano, o
conservadorismo tatcheriano, São João Paulo II e a sua Polónia, juntamente com
um punhado de regimes de todas as cores – eram então apoiados por um anticomunismo popular e patriótico em
política e conservador nos costumes. E a defesa da liberdade económica,
que permitiu que os ricos americanos ganhassem muito dinheiro no tempo de
Reagan, vinha com um conservadorismo patriótico que tinha grande apoio nas
classes médias e trabalhadoras.
O
que aconteceu depois do fim do comunismo e da libertação da Europa Oriental, a
partir da administração Clinton e George W. Bush, foi outra coisa e muito
diferente. O projecto de impor uma forma de mundialismo
político-económico de hegemonia americana, a que os neoconservadores quiseram
dar a respeitabilidade de cruzada ideológica, democrática e humanitária, esse
projecto de fazer do mundo um grande mercado unificado em que a economia e a
pretensa racionalidade da economia dominassem e comandassem o político, o ético
e o social, encontrou aliados nos partidos do centrão europeu.
O macroterrorismo
jihadista e as medidas de excepção que legitimou para o combater ajudaram a justificar as guerras que, dos
Balcãs ao Médio Oriente, à custa de centenas de milhares de mortos e
milhões de deslocados, quiseram impor o “modelo
americano”, sem olhar ao absurdo que, pelo desafio à
História e aos costumes, representava a sua implantação artificial em muitas
latitudes.
O movimento que, na Europa,
acompanhou este movimento mundial foi a tentativa de transformar a união
económica e financeira numa unidade política única, à custa da soberania dos
Estados. Depois
da rejeição popular da Constituição Europeia nos referendos de 2005, em
França e nos Países Baixos, os federalistas passaram a ser mais cautelosos,
recorrendo à estratégia indirecta de criar factos consumados através da
legislação e de multiplicar lobbies e lobystas por
interesse ou convicção. O resultado, ou o método, foi uma
aliança entre o que restava de uma radicalidade cultural de esquerda abandonada
pelas massas trabalhadoras e os interesses dos gestores dos grandes fundos e
bancos de investimento, do grande capitalismo financeiro e das altas e médias
tecnoburocracias dos aparelhos públicos e privados.
Com o desaparecimento dos partidos
comunistas, os socialistas chegaram-se para o centro-esquerda e os
democratas-cristãos e conservadores para o centro-direita, acomodando-se em
“centrões”, onde se foram esquecendo de eleitores e programas de origem.
Entretanto, a desindustrialização e a
deslocalização das indústrias para “paraísos laborais” foram despovoando as zonas industriais da
Europa que, progressivamente, deixou de produzir coisas e de aplicar recursos
para passar a oferecer serviços, muitas vezes serviços precários. O mesmo
aconteceu no rust-belt americano.
Chegados aqui, é-nos dado assistir experimentalmente à
proletarização das classes médias, numa reedição da “teoria
apocalíptica” de Marx (que Leão XIII
subscrevia no preâmbulo da Rerum Novarum), rumo
a um Brave New
World em
que as classes dirigentes, transformadas em castas hereditárias, vão vivendo
numa bolha, enquanto aumenta o número dos super-ricos e dos super-pobres.
Em Portugal
Em Portugal – em modo modesto,
reconheça-se – caminhamos para este admirável mundo de hoje desde o Thermidor
do 25 de Novembro que veio pôr termo ao “terror gonçalvista”, com o Centrão a alternar no poder – mais à direita com
o PSD, mais à esquerda com o PS – mas a perpetuar-se, em
bloco, no “aparelho”, progressivamente insensibilizado
e dissociado do “povo”. Nisto
seguimos o resto do mundo euroamericano. Como, pelos vistos, também
começamos a segui-lo na reacção ao que se foi transformando numa bolha.
Não há acrobacia interpretativa dos
catedráticos do comentário que consiga iludir o facto de que em Portugal, no
Domingo, se fez história: os
eleitores dos partidos da Esquerda, moderada ou radical, não chegaram a um
terço dos votantes – do PS ao PAN, passando pelo Livre, o novo berloque da
Esquerda que, com uma subida de 4 para 6 deputados, mantém viva a fé
progressista não se sabe bem em quê. Mais significativa ainda foi a
“geografia do voto”, com a direita nacional
popular ou populista a tomar de assalto os antigos bastiões comunistas e
socialistas, centros nevrálgicos onde costumava estar o povo, o bom povo, e onde agora estão… “os fascistas”.
A própria “direita
moderada” (que
há bem pouco tempo era a “a direita fascista”) conseguiu mais votos
que toda a esquerda junta, e o velho
Centrão, a soma AD-PS, que quase
sempre ultrapassou os 70%, ficou agora pouco acima dos 50%.
Apesar da campanha dos media, que ganha foros de uma guerra de classe contra os “bárbaros” travada
com galhardia pelos “civilizados” – quase todos repetidores da cartilha dos
liberais do marcelismo, dominantes na opinião publicada em Portugal, não há 50
mas há quase 60 anos –, a direita radical cresce. E
cresce, apesar da convergência hostil da “opinião de referência” e das próprias
debilidades.
Que fazer?
Este fenómeno reactivo responde a uma
crise geral do sistema de valores e de instituições do chamado Ocidente, onde se tem vindo a salgar com sementes
de desconstrução social um já indigesto globalismo
político-económico, agravando
o fosso entre uma elite de “iluminados” e um povo de “bárbaros”.
Sentindo o perigo para a sua hegemonia e para os seus privilégios –
pequenos, médios ou grandes – as oligarquias democráticas, na América e na
Europa, tendem a não querer sair da cegueira que as impede de ver o óbvio para
agir em conformidade. Que fazer, então?
Perante o “perigo fascista” passa-se
a “métodos fascistas”: o
povo está a votar mal, está enganado ou a deixar-se enganar, quer voltar à
Idade Média ou mesmo às cavernas e chamar-lhe modernidade?… Então,
anulem-se eleições, como na Roménia; proíbam-se políticos de concorrer, como
Marine Le Pen ou, idealmente, Trump; ilegalizem-se
partidos, alegando, por exemplo, “fascismo”, mesmo que neles tenha votado um
quarto dos eleitores.
A alternativa para os “partidos do sistema”, seria, reconhecendo
democraticamente o sucesso dos “populistas” – um sucesso capaz de sobreviver a
todas as debilidades, vulnerabilidades e pecados que lhes apontam –, procurar
perceber se nas razões desse sucesso não pesarão as palavras, actos e omissões
de quem está há meio século no poder.
Um pequeno exercício de auto-crítica
nunca fez mal a ninguém.
A SEXTA COLUNA HISTÓRIA
CULTURA LEGISLATIVAS 2025 ELEIÇÕES LEGISLATIVAS POLÍTICA
COMENTÁRIOS (de 40)
António Costa
e Silva: O instinto de sobrevivência do
povo mostra os primeiros sinais de reacção à grande invasão, a que a máquina de
propaganda do sistema chama imigração. Rui Lima > António
Costa e Silva: Tem razão António , 95% do voto nos partidos ditos populistas do Ocidente
tem essa origem ,ainda há 7 anos o Chega tinha 1 deputado .Depois mentem e
ninguém faz contra-ponto. A Coreia do Sul com fronteiras fechadas é uma potência
industrial, o Japão bate recordes no turismo com fronteiras fechadas , a
produtividade não cresce na Europa há vários anos como consequência das
fronteiras abertas que traz gente não qualificada. Coxinho: Que seria do Observador sem a
colaboração de autores como JNP e AG...? Ana Luís da
Silva: Excelente memória histórica e
análise crítica de Jaime Nogueira Pinto. Claramente a classe média está
a ser o bode expiatório e a besta de carga que tem sustentado o “humanismo
universalista” das elites, ao mesmo tempo que se cria a ilusão de que o
elevador social está a funcionar para os assalariados mínimos. Chegou-se a este ponto de cozedura lenta do cidadão
comum através - da burocratização massiva
dos serviços públicos (afastando cada vez mais o cidadão da tomada de decisões
e do exercício dos seus direitos), - da perda de
direitos de autonomia pessoal e familiar (por exemplo, quanto à educação e aos
conteúdos lecionados nas escolas) e de liberdade de expressão (por causa do
garrote ideológico-progressista na CS e na cultura em todas as suas expressões), - do verdadeiro confisco através de impostos sobre a propriedade e a
mobilidade ou de taxas sobre qualquer mínimo serviço prestado pelo Estado (como
se não pagássemos já tanto em impostos!). Estão de
“parabéns” as elites, sobretudo aquelas que longe dos holofotes
influenciam/financiam a desconstrução da sociedade ocidental… nem aparecem na
fotografia, deixam esse “trabalho” aos políticos mais ou menos manhosos (como
António Costa)! Conseguiram convencer-nos que
zelam pela nossa felicidade e prosperidade e que seremos fascistas se de algum
modo pusermos em causa o sagrado status
quo.
Tim do A: Frases geniais: Elites ameaçadas são sempre as
últimas a saber. A força das coisas. Bárbaros e Iluminados. Alusão
ao importante livro de Jaime Nogueira Pinto com esse título. Perante o perigoso fascista
passa-se a métodos fascistas. Um pequeno exercício de autocrítica nunca fez mal
a ninguém. Acrescento que já não vai a tempo face à impaciência do eleitorado
farto de mais do mesmo, como diz Miguel Pinheiro. E ainda bem. Tim do A > Filipe
Paes de Vasconcellos: O PSD reformista?!? Com Montenegro??? Só se for o PSD socialista maçónico
globalista!!! Maria
Nunes: Excelente. Liberales Semper Erexitque: A prioridade que passou a ser dada pela AD às políticas relativas aos
imigrantes em Portugal mostra que existe auto-crítica e mudança. Já pedir à AD
que em alguns meses de governo ultra-minoritário faça milagres e resolva
problemas às vezes com séculos de existência não é sério, é apenas uma temática
chagada. Maria
Madeira: Excelente análise. Rui
Lima: A esquerda fechada no seu castelo não entende o povo nem gosta do povo e
quando ele não vota segundo os seus desejos insulta o povo no mínimo são ignorantes
(ver o jornal o Público de hoje ) Ainda não perceberem que Trump
é consequência e não a causa tal como A. Ventura estes só têm de tomar as
medidas que o povo deseja. Muitos estão chocados com a interferência de Trump
nas Universidades a população aplaude porque professores e alunos ricos na sua
deriva woke nada sabem da vida. “..Harvard é um ambiente monocultural onde
menos de 1% dos professores e apenas 7 ou 8% dos estudantes se identificam
como conservadores, lamenta Johnny Burtka…” José Paulo Castro > Liberales
Semper Erexitque: Nem é isso. Falta que a AD identifique o problema a resolver. Ainda nem isso
conseguiram. Não se trata apenas de
legalizar migrantes e impedir portas abertas, enquanto continua com via verde
para migrantes legais. Trata-se de impedir a
substituição populacional que tal representa, que vai a caminho dos 20%.
Trata-se de assumir um modelo que impede isso, sejam quais forem as
consequências económicas internas. Maria Correia: Muito bom! Obrigada
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