Na apresentação viageiramente enriquecedora e emotiva de
MARIA JOÃO AVILLEZ.
Acerca das coisas
Encontro a melhor resposta sobre o novo Papa no seu riquíssimo e tão
fértil percurso, no seu perfil humano e religioso, na escolha – significativa,
reveladora, poderosa – do seu novo nome, Leão XIV.
MARIA JOÃO AVILLEZ
Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 14 mai. 2025, 00:2214
1Os magistérios dos cinco Papas de
que muitos como eu têm a memória e guardam o testemunho — para alguma coisa
servirá a idade — provam como são quase, quase sempre vãs as apostas (como se
fosse uma corrida de cavalos) e improváveis de acerto os nomes “prováveis”
& “favoritos” para futuros Papas, atirados para a montra mediática (como se
se tratasse de um novo governo). A seguir, como sempre, chegou a “surpresa”.
2E agora, face ao novo Pontífice com que
não “se” contava, ouve-se ainda o sonoro espanto do mundo. Antes porém
da “surpresa” houve o poder do Espírito Santo a inspirar como sempre a milenar
sabedoria da Igreja. E a descer sobre a
prévia, profunda, maturada ponderação que sempre antecede um conclave – e que
começa muito antes dele, conforme explicou há dias em Roma D. Manuel
Clemente que sabe do que fala. Antes do mais, é isto mesmo: reconduzir a eleição papal ao lugar do
Espírito Santo e ao sopro que dele jorrará sobre uma reflexão já iniciada, de
133 cardeais, para a eleição do sucessor de Pedro. Dando uma natureza muito
especial – para dizer o mínimo – a uma escolha inspirada pelo divino mas
exclusivamente assente na decisão humana.
3E assim “ a viagem da
Igreja continua” como nos lembrou Robert Prevost, novo Sumo
Pontífice, com o
inspirador nome de Leão XIV, e é extraordinário como também a eleição de um
nome pode conter em si a revelação de um caminho. A viagem “continuará” por mais mil e mil
anos, por entre bonanças ou tempestades e estações de rosas ou espinhos. É
assim há dois mil anos. Foi também assim com os cinco Papas cujo pontificado
pude, de mais perto ou de mais longe, ir acompanhando. Companheira da viagem.
3Sobre a acção do Espírito Santo e
revendo a “viagem” da Igreja através dos cinco Sumos Pontífices que couberam no
meu tempo, recordo as “surpresas”
quando cada um deles pela primeira vez se mostrou numa varanda, aos olhos
atónitos do mundo. Como desta vez com Leão XIV. E como ocorreu um dia com o longilíneo,
inteligente, reflexivo Paulo VI,
magnífico Papa de encíclicas notáveis. Conduziu a barca com firme acerto, a sua
despedida do mundo foi porém magoada e sofrida. Uma cruz no final.
De um Portugal que então o desgostava, preferiu-lhe Fátima onde
veio. Foi o primeiro. A seguir, todos o fariam, emudecidos de comoção (também
me comovo, escrevo hoje, 13 de Maio).
4E depois – e porque os
Papas sucedem a S. Pedro e não uns aos outros – de novo tocaram os sinos da
surpresa: quem diria que a seguir a Paulo VI, chegaria um vigoroso polaco
chamado Karol Woityla (passo
a brevíssima etapa de João Paulo I)? João Paulo II era
comunicativo, vivo, curioso, frequentador do ar livre, praticante do desporto.
Necessitava da natureza para rezar e pensar. Depois, foi-se tornando global: o
mundo pasmou ao testemunhar a sua influência directa – através do verbo, da
acção, da viagem, da capacidade de persuasão, do vigor do espírito, da
dilatação da fé – na alteração da geoestratégia inscrita no mundo de então – caiu o
regime soviético, desabou o muro de Berlim, o Vaticano reatou as suas relações
diplomáticas com os Estados Unidos, após mais de cem anos de mutismo. O novo chefe da Igreja, que era um
apaixonado Mariano, descobriu-se um dia um terno devoto de Nossa Senhora de
Fátima diante de quem e por mais de uma vez, rezou em impressionante
recolhimento. E sempre sublinhando ter-lhe ficado a dever a vida, ao
escapar de um atentado que em circunstâncias humanas e não transcendentais o devia
ter morto.
5A seguir, novo “contraste” da sábia
Ecclesia: João Paulo II, incansável comunicador da fé, deu lugar a um silencioso homem de Deus
que escolheu para si o nome de Bento XVI. Um
sábio de espírito luminoso cuja natureza lhe ditava o recato intramuros mais
que o gosto pela ruas do mundo, que frequentou em menor ritmo e de passo mais
cadenciado.
Teólogo
de craveira excepcional, mais de que pastor foi um pensador fecundo e
intelectual brilhantíssimo. Muito lhe deve a Igreja. A sua espiritualidade e
saber teológico e doutrinário deixaram no universo católico – e nos outros –
uma inapagável impressão digital: com uma erudição universalmente respeitada,
os seus escritos honram as grandes bibliotecas do mundo e orgulham as estantes
do Vaticano. Nem todos o compreenderam, ainda hoje não o compreendem. Mas é
assim que o Espírito opera.
6E um dia, vestido simplesmente de
branco, surge à janela de S. Pedro um
ser sorridente que começa por dar as boas noites aos milhares de pessoas que,
ansiosas, o olham da praça. O sopro jorrou sobre um latino
vindo das lonjuras, loquaz e arguto, que fora padre “de terreno” na sua pátria
argentina. Um pastor de
“todos, todos, todos “ os desfavorecidos com quem se cruzava. Eram as ovelhas
que apascentava. Chamava-se Jorge Bergoglio,
depois dito Francisco. Um Papa que foi mais longe do que os autores do
permanentemente aberto caderno reivindicativo insistem em não reconhecer; levou
a Igreja para fora das suas portas, atemorizando “instalados” que foram
preferindo etiquetá-lo a segui-lo. Entre
essas “alas” expeditamente sempre apelidadas de “progressistas” ou
“conservadoras” Francisco
não escolheu: o Evangelho já escolhera por ele. E ele,
operava para ambas. Tal como Bento XVI também foi a Fátima, e, tal como os
antecessores, também foi tocado pelo silêncio que tudo ali envolve (esse
jubiloso, doloroso ou tantas vezes aflito silêncio de Fátima).
Francisco, atento andarilho das sete partidas, interveio pela
palavra em todos os cenários de guerra, foi activo no diálogo inter-religioso,
assinou Encíclicas vitais. Fiel à doutrina, sabendo lidar com o mundo que
levava às costas, foi o inspiradíssimo militante da “Igreja em saída”, a sua
maior herança. Um legado de poder interpelador que em caso algum
se pode tornar descartável. Quando muito “interpretado” e haverá a sabedoria de
o personificar conforme os tempos e os modos.
7Dei-me
a esta muito simples, brevíssima, incompletíssima recordação, por uma razão
forte que sempre surgia quando não compreendia as “coisas”: não há
sucessores de Papas, há “o” sucessor de S. Pedro. Lembro-me
de quando escrevi o pequeno livro sobre o Papa Francisco – fruto do
privilégio da conversa que um dia pude ter com ele – o que me ocorreu naturalmente foi escrever que estava diante do
Sucessor de S. Pedro” e não face ao loquaz, activo, comunicativo, “sucessor” de
Bento XVI.
8E agora, Leão XIV. Chovem as
interrogações: que percursos futuros e futuras opções serão as do Santo
Padre? Ouvimos as perguntas a que nos habituamos – nos últimos dias incidiram mais sobre finanças, costumes e
anti-trumpismo do que pelos caminhos da Igreja; testemunhámos
a ânsia das “previsões” – será Leão XIV um chefe da Igreja coincidente,
continuador de Francisco ou alguém “diferente”? Mais “conservador ? Ou o
“progressista” que “os dias de hoje” reclamam?
Encontro
a melhor resposta no seu riquíssimo e tão fértil percurso, no seu perfil humano
e religioso, na escolha – significativa, reveladora, poderosa
– do seu novo nome, Leão XIV.
Jovem, escolheu uma ordem religiosa,
inspirada em Santo Agostinho (cujo
fulgor e profundidade do pensamento estão para sempre gravados na história da
Igreja); foi missionário e pastor levando Deus e o consolo ao
terreno dos mais pobres num apostolado duríssimo no Peru; foi lá que serviu
muitos anos e que presidiu depois à sua Conferência Episcopal. Levado para a
Cúria romana por Francisco e elevado a Cardeal, presidia ao Dicastério dos
Bispos quando foi eleito Papa.
A sua primeira palavra foi “paz”,
“Desarmada e desarmante”, síntese interpeladora. Mas também a paz interior, a paz nossa, a
paz que o mundo implora e não recebe.
Quando
aludiu à sinodalidade evocou a caridade e mencionou o Evangelho, deixando a
esperança da concórdia entre uma igreja desavinda; afirmou um “compromisso” com
o mundo “com Cristo lá dentro.”
Trazia
consigo bons instrumentos de navegação, partilhou-os connosco.
Com ele a viajem continua.
Nota final: neste 13 de
Maio, tendo na memória o espantoso conteúdo da “Mensagem de Fátima” e diante
dos olhos os écrans com o mundo em guerra, ocorre-me recomendar a leitura
actualíssima de um ensaio recente do professor José Miguel Sardica, “Guerra e Paz no Século e na Mensagem de Fátima”
(Argumento). Não se trata apenas de
uma leitura que a perigosa actualidade que vivemos tornaria naturalmente
obrigatória, mas sobretudo de uma profunda, bem documentada, ponderada “revisão-reflexão” sobre
o conteúdo da “Mensagem”. Dando-nos a lembrar o seu contexto, a pensar na sua
importância, a recomendar uma meditação. A transportá-la para os dias de hoje, vinda
de um ontem parecido. E lá estão também citações de algumas das palavras
ditas pelos Papas após o seu encontro com Nossa Senhora de Fátima e sobre a
fulcral importância da Mensagem. Bem-vindo
ensaio de um excelente professor, um homem cultíssimo, um cidadão com magnifica
intervenção pública, um católico militante.
PAPA LEÃO XIV IGREJA
CATÓLICA RELIGIÃO SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de )14
Carlos Chaves: Cara Maria João Avillez,
obrigado por esta resenha sobre os últimos Papas que nos “calharam em sorte”!
Bonito texto com um epílogo à altura - “Com ele a viajem continua.” Talvez um pouco mais despojada
e menos exibicionista, a Igreja dos nossos tempos serviria melhor os seus
crentes, estando mais em conformidade com a maravilhosa mensagem que Jesus
Cristo nos trouxe ao conhecimento. Pedro Baptista: Como sempre, brilhante,
bem-haja pela sua partilha JOHN MARTINS: Excelente artigo. Parabéns,
Maria João.
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