quinta-feira, 15 de maio de 2025

Um novo Papado


Na apresentação viageiramente enriquecedora e emotiva de MARIA JOÃO AVILLEZ.

Acerca das coisas

Encontro a melhor resposta sobre o novo Papa no seu riquíssimo e tão fértil percurso, no seu perfil humano e religioso, na escolha – significativa, reveladora, poderosa – do seu novo nome, Leão XIV.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 14 mai. 2025, 00:2214

1Os magistérios dos cinco Papas de que muitos como eu têm a memória e guardam o testemunho — para alguma coisa servirá a idade — provam como são quase, quase sempre vãs as apostas (como se fosse uma corrida de cavalos) e improváveis de acerto os nomes “prováveis” & “favoritos” para futuros Papas, atirados para a montra mediática (como se se tratasse de um novo governo). A seguir, como sempre, chegou a “surpresa”.

2E agora, face ao novo Pontífice com que não “se” contava, ouve-se ainda o sonoro espanto do mundo. Antes porém da “surpresa” houve o poder do Espírito Santo a inspirar como sempre a milenar sabedoria da Igreja. E a descer sobre a prévia, profunda, maturada ponderação que sempre antecede um conclave – e que começa muito antes dele, conforme explicou há dias em Roma D. Manuel Clemente que sabe do que fala. Antes do mais, é isto mesmo: reconduzir a eleição papal ao lugar do Espírito Santo e ao sopro que dele jorrará sobre uma reflexão já iniciada, de 133 cardeais, para a eleição do sucessor de Pedro. Dando uma natureza muito especial – para dizer o mínimo – a uma escolha inspirada pelo divino mas exclusivamente assente na decisão humana.

3E assim “ a viagem da Igreja continua” como nos lembrou Robert Prevost, novo Sumo Pontífice, com o inspirador nome de Leão XIV, e é extraordinário como também a eleição de um nome pode conter em si a revelação de um caminho. A viagem “continuará” por mais mil e mil anos, por entre bonanças ou tempestades e estações de rosas ou espinhos. É assim há dois mil anos. Foi também assim com os cinco Papas cujo pontificado pude, de mais perto ou de mais longe, ir acompanhando. Companheira da viagem.

3Sobre a acção do Espírito Santo e revendo a “viagem” da Igreja através dos cinco Sumos Pontífices que couberam no meu tempo, recordo as “surpresas” quando cada um deles pela primeira vez se mostrou numa varanda, aos olhos atónitos do mundo. Como desta vez com Leão XIV. E como ocorreu um dia com o longilíneo, inteligente, reflexivo Paulo VI, magnífico Papa de encíclicas notáveis. Conduziu a barca com firme acerto, a sua despedida do mundo foi porém magoada e sofrida. Uma cruz no final.

De um Portugal que então o desgostava, preferiu-lhe Fátima onde veio. Foi o primeiro. A seguir, todos o fariam, emudecidos de comoção (também me comovo, escrevo hoje, 13 de Maio).

4E depois – e porque os Papas sucedem a S. Pedro e não uns aos outrosde novo tocaram os sinos da surpresa: quem diria que a seguir a Paulo VI, chegaria um vigoroso polaco chamado Karol Woityla (passo a brevíssima etapa de João Paulo I)? João Paulo II era comunicativo, vivo, curioso, frequentador do ar livre, praticante do desporto. Necessitava da natureza para rezar e pensar. Depois, foi-se tornando global: o mundo pasmou ao testemunhar a sua influência directa – através do verbo, da acção, da viagem, da capacidade de persuasão, do vigor do espírito, da dilatação da fé – na alteração da geoestratégia inscrita no mundo de entãocaiu o regime soviético, desabou o muro de Berlim, o Vaticano reatou as suas relações diplomáticas com os Estados Unidos, após mais de cem anos de mutismo. O novo chefe da Igreja, que era um apaixonado Mariano, descobriu-se um dia um terno devoto de Nossa Senhora de Fátima diante de quem e por mais de uma vez, rezou em impressionante recolhimento. E sempre sublinhando ter-lhe ficado a dever a vida, ao escapar de um atentado que em circunstâncias humanas e não transcendentais o devia ter morto.

5A seguir, novo “contraste” da sábia Ecclesia: João Paulo II, incansável comunicador da fé, deu lugar a um silencioso homem de Deus que escolheu para si o nome de Bento XVI. Um sábio de espírito luminoso cuja natureza lhe ditava o recato intramuros mais que o gosto pela ruas do mundo, que frequentou em menor ritmo e de passo mais cadenciado.

Teólogo de craveira excepcional, mais de que pastor foi um pensador fecundo e intelectual brilhantíssimo. Muito lhe deve a Igreja. A sua espiritualidade e saber teológico e doutrinário deixaram no universo católico – e nos outros – uma inapagável impressão digital: com uma erudição universalmente respeitada, os seus escritos honram as grandes bibliotecas do mundo e orgulham as estantes do Vaticano. Nem todos o compreenderam, ainda hoje não o compreendem. Mas é assim que o Espírito opera.

6E um dia, vestido simplesmente de branco, surge à janela de S. Pedro um ser sorridente que começa por dar as boas noites aos milhares de pessoas que, ansiosas, o olham da praça. O sopro jorrou sobre um latino vindo das lonjuras, loquaz e arguto, que fora padre “de terreno” na sua pátria argentina. Um pastor de “todos, todos, todos “ os desfavorecidos com quem se cruzava. Eram as ovelhas que apascentava. Chamava-se Jorge Bergoglio, depois dito Francisco. Um Papa que foi mais longe do que os autores do permanentemente aberto caderno reivindicativo insistem em não reconhecer; levou a Igreja para fora das suas portas, atemorizando “instalados” que foram preferindo etiquetá-lo a segui-lo. Entre essas “alas” expeditamente sempre apelidadas de “progressistas” ou “conservadoras” Francisco não escolheu: o Evangelho já escolhera por ele. E ele, operava para ambas. Tal como Bento XVI também foi a Fátima, e, tal como os antecessores, também foi tocado pelo silêncio que tudo ali envolve (esse jubiloso, doloroso ou tantas vezes aflito silêncio de Fátima).

Francisco, atento andarilho das sete partidas, interveio pela palavra em todos os cenários de guerra, foi activo no diálogo inter-religioso, assinou Encíclicas vitais. Fiel à doutrina, sabendo lidar com o mundo que levava às costas, foi o inspiradíssimo militante da “Igreja em saída”, a sua maior herança. Um legado de poder interpelador que em caso algum se pode tornar descartável. Quando muito “interpretado” e haverá a sabedoria de o personificar conforme os tempos e os modos.

7Dei-me a esta muito simples, brevíssima, incompletíssima recordação, por uma razão forte que sempre surgia quando não compreendia as “coisas”: não há sucessores de Papas, há “o” sucessor de S. Pedro. Lembro-me de quando escrevi o pequeno livro sobre o Papa Francisco – fruto do privilégio da conversa que um dia pude ter com ele – o que me ocorreu naturalmente foi escrever que estava diante do Sucessor de S. Pedro” e não face ao loquaz, activo, comunicativo, “sucessor” de Bento XVI.

8E agora, Leão XIV. Chovem as interrogações: que percursos futuros e futuras opções serão as do Santo Padre? Ouvimos as perguntas a que nos habituamos – nos últimos dias incidiram mais sobre finanças, costumes e anti-trumpismo do que pelos caminhos da Igreja; testemunhámos a ânsia das “previsões” – será Leão XIV um chefe da Igreja coincidente, continuador de Francisco ou alguém “diferente”? Mais “conservador ? Ou o “progressista” que “os dias de hoje” reclamam?

Encontro a melhor resposta no seu riquíssimo e tão fértil percurso, no seu perfil humano e religioso, na escolha – significativa, reveladora, poderosa – do seu novo nome, Leão XIV.

Jovem, escolheu uma ordem religiosa, inspirada em Santo Agostinho (cujo fulgor e profundidade do pensamento estão para sempre gravados na história da Igreja); foi missionário e pastor levando Deus e o consolo ao terreno dos mais pobres num apostolado duríssimo no Peru; foi lá que serviu muitos anos e que presidiu depois à sua Conferência Episcopal. Levado para a Cúria romana por Francisco e elevado a Cardeal, presidia ao Dicastério dos Bispos quando foi eleito Papa.

A sua primeira palavra foi “paz”, “Desarmada e desarmante”, síntese interpeladora. Mas também a paz interior, a paz nossa, a paz que o mundo implora e não recebe.

Quando aludiu à sinodalidade evocou a caridade e mencionou o Evangelho, deixando a esperança da concórdia entre uma igreja desavinda; afirmou um “compromisso” com o mundo “com Cristo lá dentro.”

Trazia consigo bons instrumentos de navegação, partilhou-os connosco.

Com ele a viajem continua.

Nota final: neste 13 de Maio, tendo na memória o espantoso conteúdo da “Mensagem de Fátima” e diante dos olhos os écrans com o mundo em guerra, ocorre-me recomendar a leitura actualíssima de um ensaio recente do professor José Miguel Sardica,Guerra e Paz no Século e na Mensagem de Fátima (Argumento). Não se trata apenas de uma leitura que a perigosa actualidade que vivemos tornaria naturalmente obrigatória, mas sobretudo de uma profunda, bem documentada, ponderada “revisão-reflexãosobre o conteúdo da “Mensagem. Dando-nos a lembrar o seu contexto, a pensar na sua importância, a recomendar uma meditação. A transportá-la para os dias de hoje, vinda de um ontem parecido. E lá estão também citações de algumas das palavras ditas pelos Papas após o seu encontro com Nossa Senhora de Fátima e sobre a fulcral importância da Mensagem. Bem-vindo ensaio de um excelente professor, um homem cultíssimo, um cidadão com magnifica intervenção pública, um católico militante.

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COMENTÁRIOS (de )14

Carlos Chaves: Cara Maria João Avillez, obrigado por esta resenha sobre os últimos Papas que nos “calharam em sorte”! Bonito texto com um epílogo à altura - “Com ele a viajem continua.” Talvez um pouco mais despojada e menos exibicionista, a Igreja dos nossos tempos serviria melhor os seus crentes, estando mais em conformidade com a maravilhosa mensagem que Jesus Cristo nos trouxe ao conhecimento.                      Pedro Baptista: Como sempre, brilhante, bem-haja pela sua partilha     JOHN MARTINS: Excelente artigo. Parabéns, Maria João.

 

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