terça-feira, 13 de maio de 2025

Os heróis de hoje

 

Extraordinária - e assustadora – crónica de JOSÉ VEIGA SARMENTO, sobre os novos “guerreiros” da actualidade, de armas mais potentes ainda do que as dos “generais” de outrora, porque demasiado circunscritos ao poder argentário. Ou à falta de escrúpulos. À falta de leitura, essencialmente ... Como serão os próximos?

A hora dos predadores

A abundância produz por vezes efeitos colaterais, e as elites ocidentais, já sem causas económicas e sociais por que lutar, mergulharam na defesa de causas identitárias que laboriosamente inventaram.

JOSÉ VEIGA SARMENTO Economista

OBSERVADOR, 12 mai. 2025, 00:142

Concluir que o mundo está em mudança, é algo tão elementar como irrelevante. O problema é que, no momento em que vivemos, sendo por demais óbvio que alterações substanciais estão a ocorrer no nosso modo de vida global, nem sempre é fácil compreender o que está em jogo. E, sem uma visão estruturada da realidade, não só não percebemos onde estamos, como muito menos temos a possibilidade de tentar antecipar o que pode vir a acontecer.

É, por isso, relevante, ouvir a opinião de observadores avisados e com conhecimento pessoal das alterações políticas globais. Alguém como Giuliano da Empoli que publicou, há pouco mais de 3 anos, um livro chamado “O Mago do Kremlin”. E fê-lo numa altura em que uma parte do mundo ainda sonhava com a Rússia dos Czares, transbordante de sofisticação e génio artístico literário ou musical, enquanto outra olhava para a pátria mágica de um sistema, supostamente igualitário, que iria criar o homem novo. Na prática, uns e outros manifestavam pela Rússia uma admirativa devoção.

Só que, como explicou Empoli, na Fundação Gulbenkian, em Maio de 2023, aquando da abertura das Novas Conferências do Casino, a Rússia não é nada disso. A Rússia é antes uma Disneylândia de gangsters, que Putin mascara com criativas referências religiosas e históricas, pretendendo justificar o sagrado uso da violência com a defesa dos seus supostos direitos históricos.

Giuliano da Empoli publicou agora um novo livro que versa, desta vez, sobre as forças que submergem as sociedades liberais, forças essas que abrem caminho para um novo mundo não democrático e violentamente autoritário. No confuso ruído deste buraco negro que parece engolir o património intelectual e económico das últimas décadas, vale a pena tentar perceber o que se está a passar, para depois ambicionar intuir o que nos pode vir a acontecer.

O livro “A Hora dos Predadores”, ainda não traduzido para Português, tenta descrever a vasta transformação que está a acontecer. Empoli vai apontando paralelos históricos, procurando identificar e caracterizar os actores desta transformação. Pelo seu livro passam os seguintes temas: o suicídio das democracias, os impérios e a geoestratégia, os novos revolucionários e os senhores da tecnologia, que se descrevem em seguida.

O suicídio das democracias

Nos últimos 30 anos, os extraordinários resultados económicos da globalização retiraram da pobreza a esmagadora maioria da população do Globo, com a Humanidade a atingir patamares de riqueza que nunca antes haviam sido alcançados. Só que a abundância produz por vezes incómodos efeitos colaterais, e as elites políticas ocidentais, já sem causas económicas e sociais por que lutar, mergulharam na defesa de causas identitárias que laboriosamente foram inventando, ignorando expressamente os problemas que afectavam as pessoas. Múltiplas políticas em defesa de causas de género, LGBT+, pró-imigração, anti-racistas, anti-colonialistas e anti-imperialistas, que no fundo, a esmagadora maioria da população nunca entendeu, nem reconheceu como suas, passaram a dominar a agenda política. Esta alienação da realidade provocou inevitavelmente uma reacção que acabou por vir à superfície. E assim, a purificação de um mundoque se teria tornado amorfo e pecaminoso – passou a ser considerada por muitos como um objectivo urgente e legítimo. Os políticos tradicionais foram perdendo influência nas sociedades democráticas em favor de outros que não dispensam a violência para enfrentar as elites que consideram responsáveis pela insuportável agressão cultural. Estes novos actores, ancorando-se em palavras de ordem mobilizadoras, declaram guerra ao que dizem estar a limitar as liberdades individuais, como as campanhas de vacinação, a defesa prioritária dos animais e do planeta e, no caso da Europa, a defesa do federalismo.

Os Impérios e a geoestratégia

Ao mesmo tempo em que são lançadas as sementes da contestação popular, torna-se evidente que a fragilização das sociedades democráticas ocidentais é um objectivo geoestratégico central de russos e chineses. Sem a ajuda dos Czares, dos escritores ou dos artistas, e não dispondo da religião marxista, Putin optou por encontrar no culto da nação e dos valores tradicionalistas, uma ferramenta de afirmação global dos seus interesses, alimentando uma ideologia nacionalista, conservadora e com inspirações religiosas. Concomitantemente, colocou os recursos de propaganda na exportação ideológica, libertando as forças da contestação e do ódio para a destruição dos castelos inimigos. A epopeia russa tem sido muito bem-sucedida, contando já com a participação na vitória do Brexit e na dupla eleição de Trump. O resultado para Putin não poderia ser mais completo do que aconteceu quando a América, líder incontestada da ordem liberal, se vai juntar às forças que têm como objectivo a destruição do mundo democrático.

Os novos revolucionários

A História, ao contrário do que alguns dizem, é feita por homens que mudam o curso dos acontecimentos e Trump é um animal político que funciona às mil maravilhas neste nosso tempo. Ele consegue manter o mundo suspenso da sua agenda imaginária, que descarrega, sem descanso, em dilúvios de decisões através de todos os fusos horários. Para Empoli, Trump é o exemplo perfeito de quenão há qualquer relação entre a capacidade intelectual e a inteligência política”. Trump não lê nenhum livro. Aliás, não lê nada, nem sequer as notas-resumo que os conselheiros lhe preparam. Trump vive da oralidade, “sendo impossível transmitir-lhe um mero pensamento estruturado. Com Trump, estamos a anos-luz do conhecimento que se acumula nas Universidades ou nos gabinetes de estudo, mas ficamos muito perto das emoções epidérmicas e instantâneas do eleitor anónimo. O problema é que, quando se entregam as chaves do carro e as chaves de casa a alguém com esta estrutura intelectual e moral, somos confrontados com resultados inesperados, como acontece, neste momento, com a economia e o comércio internacional. Trump é, sem dúvida, o grande exemplo inspirador dos actuais demolidores das instituições e das regras das nossas sociedades. Mas não é o único. Com maior ou menor sucesso, os seus seguidores vão criando ilhas de violência libertadora, e apenas empalidecem quando encontram no caminho um outro revolucionário de maior gabarito, a quem acabam por prestar vassalagem. É que a física impede que sejam todos os mais importantes ao mesmo tempo. No ponto em que estamos, os novos revolucionários deixaram de ser marginais, porque o caos já não é a arma dos rebeldes, mas passou a ser a marca dos dominantes. Não é ainda claro que futuro procuram estes revolucionários, empenhados que estão no acto da destruição. Como a História nos recorda, à destruição de uma realidade político-económica, segue-se uma nova normalidade que, por vezes, acaba por premiar uma classe que não participou sequer na fase anterior da terra queimada. Nestes dias que correm, não é possível perceber se há nestes revolucionários um desígnio para além do mero exercício do poder e do enriquecimento pessoal. Mas o que sabemos é que a conquista do poder exige grandes recursos, pelo que o sucesso dos revolucionários requer o apoio financeiro dos que estão dispostos a associar-se ao movimento de conquista. Estes actores voluntários podem eventualmente vir a recuperar o investimento que fizeram, capturando a seu tempo e a seu favor, as decisões do novo poder.

Os senhores da tecnologia

Os heróis da Silicon Valley são exemplos de um inimaginável sucesso, pelo avanço quântico com que propulsionaram a nossa civilização. Inventaram os chipsdomando as máquinas que os utilizame acabaram por impor a tecnologia como uma espécie de plasma no qual os humanos se fundem para partilhar o poder dos deuses. Pelo caminho do sucesso, onde aprenderam a não respeitar nenhuma das regras vigentes e a dinamitar todas as restrições e formalidades da sociedade pré-tecnológicas, esses novos senhores enriqueceram de maneira nunca vista na História da Humanidade. E o mundo inteiro acabou por se acolher entusiasticamente sob as suas asas mágicas, feitas de software e hardware que se tornaram indispensáveis à vida. Os políticos, por seu lado, passaram a prestar-lhes uma pungente vassalagem, sem cuidarem do que esses heróis representavam, para além dos algoritmos e gadgets que vendiam, já que eram, por via de regra, absolutos analfabetos culturais. Acresce que estes homens até tinham uma face humana, sendo o produto do caldo intelectual da Califórnia, que era suposto preocupar-se com as pessoas, com a sua qualidade de vida e até com a saúde do planeta. Para os criadores do Pay Pal, Facebook, Amazon, Linkedin, Tesla, Uber, Netflix, Star Link e tantos outros domínios, a ilimitada riqueza que adquiriram em tão pouco tempo, conferiu-lhes um poder galáctico. Mais tarde ou mais cedo, esse poder iria influir no seu destino, fazendo-os sucumbir à vertigem de poderem vir a moldar o mundo que, pela sua própria experiência, consideravam imperfeito. A entrada na política era apenas uma questão de oportunidade e para Peter Thiel, o cardeal-sombra do movimento, a entrada aconteceu com Trump, ainda no primeiro mandato. Contudo, a impreparação do novo Presidente impediu Thiel de deixar a sua marca. Peter Thiel vai sair silenciosamente de cena, para voltar de armas e bagagens na segunda volta, com plano traçado e programação montada para uma conquista-relâmpago. Trazendo consigo os seus parceiros, com Elon Musk à cabeça, e com eles o dinheiro suficiente para pagar os custos das campanhas eleitorais, em especial a de Trump. Nos dias que correm, Thiel já conseguiu impor os seus homens nos postos-chave da administração americana, posições que aliás partilham com as estrelas da Fox News. Dizem de Peter Thiel que ele vive obcecado com a preservação da sua riqueza, em particular com o tema dos impostos. Elon Musk tem uma ligação mais alucinogénia com o dinheiro. Ambos comungam da ambição de moldar o mundo a uma realidade que dizem nova, mas que afinal encontra paralelos inesperados nos vendedores de sonhos dos anos 30 do século passado. Com justiça e propriedade, Thiel e Musk podem ser considerados como fascistas ou nazis. Neste momento, são eles os verdadeiros ganhadores, pois conseguiram desarticular as agências federais que regulamentam a sua actividade e, segundo consta, acumular, recentemente, mais contratos bilionários do Estado Federal para os seus algoritmos e tecnologias. A prova de fogo da verdadeira influência deste grupo de superpoderosos acontecerá quando for votado no Congresso o fabulous corte de trilions em impostos. Seria inesperado, mas não impossível, que Trump venha a falhar nas promessas de o fazer, por nisso ver um risco sério de contestação social que ponha fim ao seu reinado. Também Hitler, amigo do peito dos capitalistas e industriais que o ajudaram a conquistar o poder, não teve escrúpulos em afundar com impostos os seus milionários apoiantes – até à sua total exaustão financeira – em nome da defesa do pão dos trabalhadores alemães.

O livro de Giuliano da Empoli termina citando Joseph de Maistre, ministro de Luís XVI, que se refugiou na Suíça na sequência da Revolução Francesa:

“É necessário ter a coragem de admitir que, durante muito tempo, não compreendemos a revolução de que somos testemunhas. Durante muito tempo, considerámos que era um acontecimento passageiro. Mas estávamos enganados, trata-se de uma nova época”.

Como sabemos, a revolução do tempo de Maistre não era passageira e os seus efeitos fazem-se sentir ainda hoje, 250 anos volvidos. Empoli chama-nos a atenção para estarmos preparados para uma nova época – e para as suas novidades – que, entre outras coisas, pressupõe a “imposição da vontade dos fortes através do livre uso do machado e da espada”.

Segundo Empoli, “Uma era de violência sem limites abre-se à nossa frente, enquanto os defensores da liberdade se apresentam particularmente mal preparados para o desafio que os espera”.

Aguardam-se, pois, as cenas dos próximos capítulos.

GLOBALIZAÇÃO       MUNDO

COMENTÁRIOS:

Oscar gomes: Quando chegarmos á desgraça vamos dizer: como éramos felizes e não sabíamos...

Como se costuma dizer : para quem não sabe para onde vai qualquer caminho serve...

Maria Oliveira: Uma análise brilhante !

Novo Assinante: Não sei para que santo estará o senhor José Veiga Sarmento a pregar!

Isabel Almeida: Artigo muito interessante, obrigada!

 

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