Extraordinária - e assustadora – crónica de JOSÉ VEIGA SARMENTO, sobre
os novos “guerreiros” da actualidade, de armas mais potentes ainda do que as
dos “generais” de outrora, porque demasiado circunscritos ao poder argentário. Ou à falta de escrúpulos. À falta de leitura, essencialmente ... Como serão os próximos?
A hora dos predadores
A abundância produz por vezes efeitos
colaterais, e as elites ocidentais, já sem causas económicas e sociais por que
lutar, mergulharam na defesa de causas identitárias que laboriosamente
inventaram.
JOSÉ VEIGA
SARMENTO Economista
OBSERVADOR, 12 mai. 2025, 00:142
Concluir que o mundo está em mudança, é
algo tão elementar como irrelevante. O
problema é que, no momento em que vivemos, sendo por demais óbvio que
alterações substanciais estão a ocorrer no nosso modo de vida global, nem
sempre é fácil compreender o que está em jogo. E, sem uma visão estruturada da realidade, não só não percebemos
onde estamos, como muito menos temos a possibilidade de tentar antecipar o que
pode vir a acontecer.
É,
por isso, relevante, ouvir a opinião de observadores avisados e com
conhecimento pessoal das alterações políticas globais. Alguém
como Giuliano da Empoli que publicou, há pouco mais de 3 anos,
um livro chamado “O Mago do Kremlin”. E fê-lo numa altura em que uma parte do mundo ainda sonhava com a
Rússia dos Czares, transbordante de sofisticação e génio artístico literário ou
musical, enquanto outra olhava para a pátria mágica de um sistema, supostamente
igualitário, que iria criar o homem novo. Na prática, uns e outros
manifestavam pela Rússia uma admirativa devoção.
Só
que, como explicou Empoli, na Fundação Gulbenkian, em Maio de 2023, aquando da
abertura das Novas Conferências do Casino, a Rússia
não é nada disso. A Rússia é antes uma Disneylândia de gangsters, que
Putin mascara com criativas referências religiosas e históricas, pretendendo
justificar o sagrado uso da violência com a defesa dos seus supostos direitos
históricos.
Giuliano da Empoli publicou
agora um novo livro que versa, desta vez,
sobre as forças que submergem as sociedades liberais, forças essas que abrem
caminho para um novo mundo não democrático e violentamente autoritário. No
confuso ruído deste buraco negro que parece engolir o património intelectual e
económico das últimas décadas, vale a pena tentar perceber o que se está a
passar, para depois ambicionar intuir o que nos pode vir a acontecer.
O livro “A Hora
dos Predadores”, ainda não
traduzido para Português, tenta descrever a vasta transformação que está a
acontecer. Empoli vai apontando paralelos históricos,
procurando identificar e caracterizar os actores desta transformação. Pelo seu
livro passam os seguintes temas: o suicídio das democracias, os
impérios e a geoestratégia, os novos revolucionários e os senhores da
tecnologia, que se
descrevem em seguida.
O suicídio das democracias
Nos
últimos 30 anos, os extraordinários resultados económicos da globalização
retiraram da pobreza a esmagadora maioria da população do Globo, com a
Humanidade a atingir patamares de riqueza que nunca antes haviam sido
alcançados. Só que a abundância produz por vezes
incómodos efeitos colaterais, e as elites políticas ocidentais, já sem causas económicas e sociais por que
lutar, mergulharam
na defesa de causas identitárias
que laboriosamente foram inventando, ignorando expressamente os problemas que
afectavam as pessoas. Múltiplas políticas em defesa de causas
de género, LGBT+, pró-imigração,
anti-racistas, anti-colonialistas e anti-imperialistas, que no fundo, a esmagadora maioria da população nunca
entendeu, nem reconheceu como suas, passaram a dominar a agenda política. Esta
alienação da realidade provocou inevitavelmente uma reacção que acabou por vir
à superfície. E assim, a purificação
de um mundo – que se
teria tornado amorfo e pecaminoso – passou a ser considerada por muitos
como um objectivo urgente e legítimo. Os
políticos tradicionais foram perdendo influência nas sociedades democráticas
em favor de outros que não dispensam a violência para enfrentar as elites que
consideram responsáveis pela insuportável agressão cultural. Estes novos
actores, ancorando-se
em palavras de ordem mobilizadoras, declaram guerra ao que dizem estar a
limitar as liberdades individuais, como as campanhas de vacinação, a defesa
prioritária dos animais e do planeta e, no caso da Europa, a defesa do
federalismo.
Os Impérios e a geoestratégia
Ao mesmo tempo em que são lançadas as
sementes da contestação popular, torna-se evidente que a fragilização das
sociedades democráticas ocidentais é um objectivo geoestratégico central de
russos e chineses. Sem a ajuda dos Czares, dos escritores ou dos
artistas, e não dispondo da religião marxista, Putin optou por
encontrar no culto da nação e dos valores tradicionalistas, uma ferramenta de
afirmação global dos seus interesses, alimentando uma ideologia nacionalista,
conservadora e com inspirações religiosas. Concomitantemente, colocou
os recursos de propaganda na exportação ideológica, libertando as forças da
contestação e do ódio para a destruição dos castelos inimigos. A epopeia russa tem sido muito
bem-sucedida, contando já com a participação na vitória do Brexit
e na dupla eleição de Trump. O
resultado para Putin não poderia ser mais completo do que aconteceu quando a América, líder incontestada da
ordem liberal, se vai juntar às forças que têm como objectivo a destruição do
mundo democrático.
Os novos revolucionários
A História, ao contrário do que alguns dizem, é feita por homens que mudam o
curso dos acontecimentos e Trump é um animal político que funciona às mil
maravilhas neste nosso tempo. Ele consegue manter o mundo suspenso da sua
agenda imaginária, que descarrega, sem descanso, em dilúvios de decisões
através de todos os fusos horários. Para Empoli, Trump é o exemplo perfeito de que “não há qualquer relação entre
a capacidade intelectual e a inteligência política”. Trump não lê nenhum livro. Aliás, não lê nada, nem
sequer as notas-resumo que os conselheiros lhe preparam. Trump vive da oralidade, “sendo impossível
transmitir-lhe um mero pensamento estruturado”. Com Trump, estamos a anos-luz do conhecimento
que se acumula nas Universidades ou nos gabinetes de estudo, mas ficamos muito
perto das emoções epidérmicas e instantâneas do eleitor anónimo. O problema é que, quando se entregam as chaves do carro e as chaves de
casa a alguém com esta estrutura intelectual e moral, somos confrontados com
resultados inesperados, como acontece, neste momento, com a economia e o comércio internacional. Trump é, sem dúvida, o grande exemplo
inspirador dos actuais demolidores das instituições e das regras das nossas
sociedades. Mas não é o único. Com maior ou menor sucesso, os seus seguidores
vão criando ilhas de violência libertadora, e apenas empalidecem quando
encontram no caminho um outro revolucionário de maior gabarito, a quem acabam
por prestar vassalagem. É que a física impede que sejam todos os mais
importantes ao mesmo tempo. No ponto em que estamos, os novos revolucionários
deixaram de ser marginais, porque o caos
já não é a arma dos rebeldes, mas passou a ser a marca dos dominantes. Não é ainda claro que futuro procuram estes revolucionários, empenhados
que estão no acto da destruição. Como a História nos recorda, à destruição de uma realidade
político-económica, segue-se uma nova normalidade que, por vezes, acaba por
premiar uma classe que não participou sequer na fase anterior da terra
queimada. Nestes
dias que correm, não é possível perceber se há nestes revolucionários um
desígnio para além do mero exercício do poder e do enriquecimento pessoal. Mas
o que sabemos é que a conquista do poder exige grandes recursos, pelo que o
sucesso dos revolucionários requer o apoio financeiro dos que estão dispostos a
associar-se ao movimento de conquista. Estes actores voluntários podem
eventualmente vir a recuperar o investimento que fizeram, capturando a seu
tempo e a seu favor, as decisões do novo poder.
Os senhores da tecnologia
Os heróis da Silicon Valley são
exemplos de um inimaginável sucesso, pelo avanço quântico com que
propulsionaram a nossa civilização. Inventaram os chips– domando
as máquinas que os utilizam – e acabaram por impor a tecnologia
como uma espécie de plasma no qual os humanos se fundem para partilhar o poder
dos deuses. Pelo
caminho do sucesso, onde aprenderam a não respeitar nenhuma das regras vigentes
e a dinamitar todas as restrições e formalidades da sociedade pré-tecnológicas,
esses novos senhores enriqueceram de maneira nunca vista na História da
Humanidade. E o mundo inteiro acabou por se acolher entusiasticamente sob as
suas asas mágicas, feitas de software e hardware que se tornaram indispensáveis
à vida. Os
políticos, por seu lado, passaram a prestar-lhes uma pungente vassalagem, sem cuidarem do que esses heróis representavam, para
além dos algoritmos e gadgets que vendiam, já que eram, por via de regra, absolutos analfabetos culturais. Acresce
que estes homens até tinham uma face humana, sendo o produto do caldo
intelectual da Califórnia, que era suposto preocupar-se com as pessoas, com a
sua qualidade de vida e até com a saúde do planeta. Para
os criadores do Pay Pal, Facebook, Amazon, Linkedin, Tesla, Uber,
Netflix, Star Link e tantos
outros domínios, a ilimitada riqueza que adquiriram em tão pouco tempo,
conferiu-lhes um poder galáctico. Mais
tarde ou mais cedo, esse poder iria influir no seu destino, fazendo-os sucumbir
à vertigem de poderem vir a moldar o mundo que, pela sua própria experiência,
consideravam imperfeito. A entrada na política era apenas uma questão de
oportunidade e para Peter
Thiel, o cardeal-sombra do movimento, a
entrada aconteceu com Trump, ainda no
primeiro mandato. Contudo,
a impreparação do novo Presidente impediu Thiel de deixar a sua marca. Peter
Thiel vai sair silenciosamente de cena, para voltar de armas e bagagens na
segunda volta, com plano traçado e programação montada para uma
conquista-relâmpago. Trazendo
consigo os seus parceiros, com Elon
Musk à cabeça, e
com eles o dinheiro suficiente para pagar os custos das campanhas eleitorais,
em especial a de Trump. Nos dias que correm, Thiel já
conseguiu impor os seus homens nos postos-chave da administração americana, posições que aliás partilham com as estrelas
da Fox News. Dizem de Peter
Thiel que ele vive obcecado
com a preservação da sua riqueza, em particular com o tema dos impostos. Já Elon Musk tem uma ligação mais alucinogénia com o
dinheiro. Ambos comungam da ambição de moldar o mundo a uma
realidade que dizem nova, mas que afinal encontra paralelos inesperados nos
vendedores de sonhos dos anos 30 do século passado. Com
justiça e propriedade, Thiel e Musk podem ser considerados como fascistas ou nazis. Neste momento, são eles os verdadeiros
ganhadores, pois conseguiram desarticular as agências federais que regulamentam
a sua actividade e, segundo consta, acumular, recentemente, mais contratos
bilionários do Estado Federal para os seus algoritmos e tecnologias. A prova de
fogo da verdadeira influência deste grupo de superpoderosos acontecerá quando
for votado no Congresso o fabulous corte de trilions
em impostos. Seria
inesperado, mas não impossível, que Trump venha a falhar nas promessas de o
fazer, por nisso ver um risco sério de contestação social que ponha fim ao seu
reinado. Também Hitler, amigo do peito dos capitalistas e
industriais que o ajudaram a conquistar o poder, não teve escrúpulos em afundar
com impostos os seus milionários apoiantes – até à sua total exaustão
financeira – em nome da defesa do pão dos trabalhadores alemães.
O livro de Giuliano da Empoli termina
citando Joseph de Maistre, ministro de Luís XVI, que se refugiou na Suíça na sequência da
Revolução Francesa:
“É necessário ter a coragem de
admitir que, durante muito tempo, não compreendemos a revolução de que somos
testemunhas. Durante muito tempo, considerámos que era um acontecimento
passageiro. Mas estávamos enganados, trata-se de uma nova época”.
Como sabemos, a revolução do tempo de
Maistre não era passageira e os seus efeitos fazem-se sentir ainda hoje, 250
anos volvidos. Empoli chama-nos a atenção para estarmos preparados para uma
nova época – e para as suas novidades – que, entre outras coisas, pressupõe a “imposição
da vontade dos fortes através do livre uso do machado e da espada”.
Segundo Empoli, “Uma era de
violência sem limites abre-se à nossa frente, enquanto os defensores da
liberdade se apresentam particularmente mal preparados para o desafio que os
espera”.
Aguardam-se,
pois, as cenas dos próximos capítulos.
COMENTÁRIOS:
Oscar gomes: Quando
chegarmos á desgraça vamos dizer: como éramos felizes e não sabíamos...
Como se
costuma dizer : para quem não sabe para onde vai qualquer caminho serve...
Maria Oliveira: Uma
análise brilhante !
Novo Assinante: Não
sei para que santo estará o senhor José Veiga Sarmento a pregar!
Isabel Almeida: Artigo
muito interessante, obrigada!
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