domingo, 4 de maio de 2025

Saber e humor


Se de falsa contundência aparentemente condenatória da acção – descobridora - opressora da negritude de outrora - na realidade bem aceite pelas vítimas americanas dela - como sublinha ALBERTO GONÇALVES, (contrariamente aos ataques anti racistas que as generosidades lusas de empréstimo se habituaram a desferir por cá, na sua sabedoria e revolta de ficção e já não tão recentes assim, meio século decorrido), - entretém-se o escritor a dar-nos uma breve síntese das zonas americanas por onde se passeou nas suas férias – Carolina do Sul, Geórgia, Flórida - a fazer-nos viver um pouco por esses espaços distantes e diferentes, onde um “Monstro Laranja” ultimamente impõe políticas de efeito impertinente. Ainda bem que voltou, a retomar as abordagens do seu saber e ironia, para o prazer de quem o lê.

 Treze dias na América (os últimos oito)

Durante a viagem falei com inúmeros nativos e houve um único que ousou criticar a Besta Negra, o Monstro Laranja, o Agente Krasnov: uma destemida empregada de bar.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 03 mai. 2025, 00:2045

Dia 6: Charleston, Carolina do Sul

À noitinha, no regresso ao hotel, um homem de “t-shirt” vermelha parou a bicicleta velha para perguntar que língua era a minha e a das pessoas que me acompanhavam. “Português”, informei, o que serviu para o homem explicar, no sotaque “gullah”, o crioulo da região, a odisseia dos N’gola, grosso modo os habitantes do que se tornou o norte de Angola e que, capturados pelos portugueses, acabariam, muitos deles, por entrar através de Charleston na rota da escravatura da colónia inglesa que hoje é a América. Fiquei entusiasmado à espera de uma longa prelecção sobre “interseccionalidade”, Teoria Crítica, “reparações” e opressão em geral. Em vez disso, fiquei decepcionado ao ouvir um negro pobre desatar a criticar os seus semelhantes, os que no “hip-hop” e no dia a dia banalizam a palavra “nigger” sem noção de que estão a banalizar a própria subjugação, os que abandonam as famílias, os que assumem o estatuto de vítimas como uma identidade. Acho indecente que um negro sem instrução não aceite e perpetue o estereótipo de “revoltado” que intelectuais brancos lhe impõem. Para o final da conversa, perguntei-lhe o que é que ele sentia ser. “Sou um americano”. Um vendido e um racista, portanto. Merece a bicicleta velha.

Dia 7: Savannah, Geórgia

A fim de tomar o pequeno-almoço num dos cafés da zona, estacionei em Chippewa Square, lugar de filmagens das cenas de ligação em que, sentado no banco, Forrest Gump conta a sua história. A sua história é a de um sujeito intelectual e academicamente limitado que, em sucessivas e inconscientes tangentes à História com maiúscula, faz sucesso nos EUA. Visto agora, o filme parece uma premonição, quiçá uma validação, da América actual. Digo isto porque li nas “redes sociais” centenas de portugueses eruditos a assegurar que, por um lado, todos os eleitores de Trump são retardados, e que, por outro, Trump acabou com o Departamento de Educação, ou seja, que nunca, nunca, nunca mais nenhuma criança ou jovem americanos voltará a uma sala de aulas ou a um campus universitário, nem sequer para insultar Israel. Após o pequeno-almoço, pus-me a reflectir acerca da utilidade a dar aos 500 mil autocarros escolares de um país cujo ditador aboliu as escolas quando notei no pára-brisas uma multa de 30 dólares – por falta de moedas no parquímetro, diziam eles. Mas a mim não enganam: é evidente que fui multado por pensamentos dissidentes. “Eles”, burgessos porém omniscientes, são capazes de tudo.

Dia 8: St. Augustine, Flórida

Tencionava escrever um parágrafo laudatório da cidade mais antiga dos EUA, fundada por espanhóis em 1565. Tencionava dizer que St. Augustine é linda de morrer, no sentido exacto de que mais vale morrer ali do que sobreviver para contemplar aberrações. Tencionava descrever as ruas formadas por casas pequeninas pintadas de fresco e cores sortidas, com sombras a cargo de palmeiras e carvalhos. Tencionava evocar a simpatia dos habitantes, aliás trivial naquelas paragens. Tencionava agradecer aos deuses e ao cozinheiro do Columbia a melhor “paella” que já comi (e os deuses sabem que já comi muitas). Deixei de tencionar quando constatei, numa pesquisa fortuita, que quase 75% dos residentes votaram em Trump. Por mim, aquilo ia tudo abaixo para erguer uma ou duas fundações subsidiadas e dedicadas aos estudos de “género” e raciais.

A propósito, durante a viagem falei com inúmeros nativos e houve um único que ousou criticar a Besta Negra, o Monstro Laranja, o Agente Krasnov: uma destemida empregada de bar. As restantes elogiam a criatura com maior ou menor ênfase. Trata-se, não duvido, do medo de represálias. Ou de lavagem cerebral. Ou da convicção de idiotas. Ou de qualquer razão que não seja a hipótese de um eleitor normal e equilibrado preferir Trump às alternativas (que absurdo!).

Dia 9: Everglades, Flórida

As Everglades são um dos 63 parques nacionais dos EUA, e o líder em matéria de pântanos, crocodilos, jacarés, jibóias e encharcados passeios de “airboat. Os parques nacionais são uma forma, iniciada há século e meio, de os ignorantes dos americanos preservarem a natureza enquanto a põem a render mediante turismo (se em Portugal tivéssemos as excentricidades naturais deles, nós, que não andamos a dormir, haveríamos de as cobrir com rotundas e “centros interpretativos” a expensas do contribuinte). Recentemente, correram notícias de que Trump despediu todos os funcionários do Serviço de Parques Nacionais, com excepção de três (3) moços. Num ápice, descobriu-se que os números foram ligeiramente alterados, que os despedimentos se limitaram a 5% do total e que ainda sobram perto de vinte mil (20.000) funcionários. Mas para os opositores do fascismo vai – acertadamente – dar ao mesmo.

Dias 10, 11, 12 e 13: Miami Beach, Flórida

Após prolongado convívio com selvagens, foi preciso chegar à extremidade sudeste dos EUA para ter acesso a sofisticação, cultura e, afinal, actividades que reiteram o carácter sublime da arte. Refiro-me a uma pândega LGBTCOISO+ realizada na esplanada de um hotel rente ao mar em Miami Beach, onde um travesti de lingerie dourada e peruca colorida saltava entre as mesas ao som do que presumo ser hoje considerado música, o tipo de música que deve ser apreciada por narcotraficantes venezuelanos e “youtubers” portugueses. O pormenor de os decibéis estarem ao nível da turbina de um Airbus 340 apenas sublinhava o carácter deslumbrante da empreitada. Em redor, dezenas de transeuntes só não batiam palmas na medida em que uma das mãos empunhava o telemóvel, a filmar na vertical, mas a felicidade de cada um era notória. O desafio ao despotismo e à barbárie de Trump passa por acções assim gloriosas, que não tardei a perceber serem constantes em Miami Beach. Radiante, no segundo dia ali fechei-me no quarto do hotel a ler. No terceiro, rumei a Little Havana, para testemunhar a extrema miséria dos exilados cubanos (que subsistem com meros 60 mil dólares anuais por família) e comer frituras de bacalhau. No último, regressei à pátria, consciente de que, salvo ocasionais e corajosos focos de resistência, os EUA desceram às trevas. E de seguida levei com o apagão.

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COMENTÁRIOS (DE 45)

Albino Mendes: Fico aliviado por ter regressado ileso, após estar exposto a toda a barbárie "trumpista". Nós por cá continuamos cidadãos (dirigentes políticos incluídos) do bem e do amor. Os salários anuais não se aproximam dos 60 000, mas quantidade de baboseiras (propaganda política) debitada por Bruxelas (Lisboa não fica atrás) excede largamente esse valor.                 Miguel Sanches: O fascismo é tramado. Nos EUA nota-se ainda mais. Mas com Louçã, Rosas e companhia, tem os dias contados. Bem vindo de volta, Alberto Gonçalves                    Aríete: Gostei deste diário de um viajante. Como não tenho o salário desses cubanos pobres, vou poupar, mas tenho de encontrar essa "destemida empregada de bar" anti-Trump para lhe dar um apoio moral.           Carlos Chaves Caro Alberto, obrigado pela partilha do “inferno” que viveu em terras do Tio Sam, e pela enorme gargalhada que me arrancou no final desta crónica! Muito bom como sempre!                  Maria Emília Ranhada Santos:  Exactamente como em Portugal! Nós, portugueses estamos bem! Muito bem! Muita paz, muito amor, muito dinheiro para alguns, muitos mais pobres do que antes! O fascismo salazarista era terrível! O dinheiro ia todo para as colónias! Nem sequer se lembrou de fazer uma ponte sobre o Tejo, como a Vinte e cinco de Abril, para as pessoas de classe média ou pobre, poderem atravessar e viver debaixo de um tecto! Lisboa cresceu imenso! A população aumentou imenso, sobretudo em Mem Martins e outros assim! A ordem e segurança nas ruas das cidades, vilas e aldeias, tornou-se absoluta! Portugal tornou-se o máximo com os sucessivos governos socialistas! Trump que é de direita, veio para parar a guerra da Ucrânia que estava a dar tanto dinheiro e a matar tanta gente, como pretendem os globalistas/socialistas/esquerdistas! Os LGBTQI...+ estavam a progredir tanto à custa dos impostos do povo, faziam tantos carnavais com os seus "Orgulhos Gays", e agora sem estes subsídios, têm que se virar como as outras pessoas, as normais, para sobreviverem nas suas carnavalescas sujas actuações! Costa sacou dos nossos impostos, uma data de milhões, para importar gente dessa do Paquistão, onde essa loucura não é permitida, para virem transformar a nossa cultura europeia, as nossas cidades, a nossa economia, em nada! Costa investiu em projectos de aberrações sexuais, para matar Jesus Cristo, a nossa História, a nossa identidade, e nos abafar com gente que nada tem a ver connosco! Socialismo Não! Socialismo nunca mais! 25 de Abril? Não! 25 de Novembro sempre!                    Manuel Gonçalves > J. Carvalho: A verdade é sempre uma construção subjectiva que cada um faz das a partir das várias visões directas ou indirectas. Há verdades construídas por jornalistas que nunca saíram das redações e há verdades ocultadas como o estado de saúde de Biden durante 4 anos.                    vitor gonçalves > Pedro Belo: E a natureza dos infiltrados e dos "submarinos".Tiram 6 ou 7 postulados e com isso constroem uma narrativa.De facto os States sao mesmo maus.E pena e que só vejo gente a querer entrar e nenhuns a querer sair.E os que saem, e  de algemas e obrigadoas a baixar os  "cor@os".Segundo um amigo naturalmente esquerdoido, e porque lhes vendem o "sonho americano".A realidade depois e muito dura.Deve ser por causa dos 100.000 dólares de rendimento anual  das famílias de classe média norte americanas.Nao da para viver.                      Pedro Belo Abilio Silva:  Se não gosta, porque é que se dá ao desconforto de ler? É masoquista?                        Abilio Silva: Resumindo e concluindo: aqui neste pedaço de terra à beira-mar plantado somos diariamente bombardeados por notícias depreciativas sobre o trampudo mas segundo o escriba são todas falsas: o loirinho é um gajo porreiro, não deseja cumprir um 3º mandato, não segue os 10 mandamentos do seu mestre Roy Cohn, não enviou centenas de presos atados de pés e mãos para El Salvador, não cobra 3 ou 5 milhões por uma refeição em Mar-e-lago e não é o patético que quase todos os dias vemos na TV no Daily Show. Também aquela história de 400 manifestações anti-trump realizadas num só dia deve ser tudo falso. Decerto foram só 4 e não 400. Começo a pensar que também as notícias propagadas sobre a morte do Papa também devem ser fake news e o Francisco ainda se mantém vivinho da silva. Aproveito para deixar aqui os mandamentos do Roy Cohn que o patético segue à risca:1 – Atacar, atacar, atacar; 2 – Não admita nada e negue tudo; 3 – Não importa o que aconteça, declare vitória e nunca reconheça a derrota.4 – Clamar vitória, nunca assumir a derrota.5 – Não quero saber qual é a lei, quero saber quem é o Juíz.6 – Quando alguém te encurralar muda de assunto.7 – Quando alguém te processar, processa-o.8 – Nunca se desculpe, ataque sempre.9 - Fora com os espiões, os comunistas, os judeus bolcheviques, os gays, que representam “uma grave ameaça contra nossos filhos”. 10 - sempre atacar, nunca retroceder e nunca se desculpar ou se declarar culpado.                 Pedro Pereira: Até para "literatura" de viagem, o rapaz tem talento. Irra!                         Pedro Sena Esteves: Ainda não consegui parar de rir!! Está genial, como é costume!                    Isabel Amorim: Que viagem tão traumatizante e o Alberto é o típico português que paga para sofrer, ainda por cima em inglês. Ainda bem que teve a sorte de não ter sido arrastado no meio das manifestações constantes de repúdio ao sr Laranja, ter perdido (e nós cá) a oportunidade de ser espancado pela policia nessas manifestações de pesar.... agora teríamos um mártir luso nascente e as t-shirts e cartazes correspondentes caríssimas por causa das taxas diabólicas se as quiessemos comprar (cá já estamos habituados que nos taxem todos os dias mais um pouco, eles estão atrasados) o Alberto teria sido o alvo fácil porque pasme-se é careca. Com todos os traumas que o afectam, e eles frios, sem sentimentos, era na cabeça que mais lhe davam. Provavelmente não conseguiríamos ver na televisão porque houve o apagão, era azar. Por cá descobriram quem foi que pôs o interruptor para baixo conforme o café que se frequenta. Num sítio era o Trump, noutro o Putin. Ambos percebem imenso de fusíveis portanto suspeitos logo. O Montenegro em pânico à procura às escuras dos papéis de mais clientes que ele não se lembrava com uma lanterna, se não fossem os filhos que tinham andado nos escuteiros estava tramado. Quem se safou e bem, foi a Mortágua que tem uma lanterna daquelas militares à prova de quedas, por acaso cubana, e fartou-se de encontrar traumatizados com agonias de A a Z. É a maior coleccionadora em território português. Mas... por este andar vai ter que devolver os troféus aos países de origem, isto tudo, coitada por causa das devoluções de que o Marcelo falou. Pois resumindo, do apagão pouco se fala porque os tais papéis do Montenegro ainda são mais importantes e se quisermos saber mais alguma coisa temos que provavelmente ouvir uma rádio ou televisão americana. Em Espanha (lá longe onde fica) soube que se comem morangos e vegetais vindos de Marrocos trazidos pelos milhares de estafetas em barcas ou a nado e o Rei para que não lhes falte nada disponibilizou energia a nós todos. Alberto, da próxima vez que queira conhecer os USA não precisa de lá ir, basta passar um fim de semana no Seixal com 2 ou 3 jornalistas da Lusa.                      Paulo Almeida: Muito bom, faz falta esta qualidade de escrita. Sem filtros ou com ironia. Obviamente que se mais de metade do povo americano votou Trump, a sociedade não pode ser retratada apenas pela revolta da outra metade, que não aceita democracia (alguns). Quer dizer… Pode, mas obviamente só serve interesses que a maioria já percebeu serem só isso: interesses. A salvação está na educação. Com isso o comunismo e a legacy media morrem.                           m s: Benvindo, Alberto Gonçalves, desse lugar que o demónio ruivo transformou nas terras do nunca! Benvindo e nada temais nesta ibéria de rotundas luminosas e centros interpretativos. Obrigada!                       Pedro Belo > J. Carvalho: Que raio de comentário. Onde é que o autor declara essa intenção? É um diário de viagem com humor pelo meio. Se já sabe que não gosta, porque é que se dá ao desconforto? É masoquista?                Pedra Nussapato: O dr. AG esqueceu-se de referir que optou por abordar na rua as pessoas com um boné vermelho a dizer MAGA 😄                     J. carvalho: Alberto Gonçalves foi aos Estados Unidos conhecer TODOS os eleitores, comer paella e trouxe A VERDADE. E tudo isto em quinze dias.

 

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