Se de falsa contundência aparentemente condenatória
da acção – descobridora - opressora da negritude de outrora - na realidade bem aceite
pelas vítimas americanas dela - como sublinha ALBERTO GONÇALVES, (contrariamente
aos ataques anti racistas que as generosidades lusas de empréstimo se habituaram
a desferir por cá, na sua sabedoria e revolta de ficção e já não tão recentes
assim, meio século decorrido), - entretém-se o escritor a dar-nos uma breve
síntese das zonas americanas por onde se passeou nas suas férias – Carolina do Sul, Geórgia, Flórida - a
fazer-nos viver um pouco por esses espaços distantes e diferentes, onde um “Monstro
Laranja” ultimamente impõe políticas de efeito impertinente. Ainda bem que
voltou, a retomar as abordagens do seu saber e ironia, para o prazer de quem o
lê.
Durante a viagem falei com inúmeros nativos e houve um único que
ousou criticar a Besta Negra, o Monstro
Laranja, o Agente Krasnov: uma destemida empregada de bar.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 03 mai. 2025, 00:2045
Dia 6: Charleston, Carolina do Sul
À noitinha, no regresso ao
hotel, um homem de “t-shirt” vermelha parou a bicicleta velha para
perguntar que língua era a minha e a das pessoas que me acompanhavam.
“Português”, informei, o que serviu para o homem explicar, no sotaque “gullah”, o
crioulo da região, a odisseia dos
N’gola, grosso modo os habitantes do que se tornou o norte de Angola e que,
capturados pelos portugueses, acabariam, muitos deles, por entrar através de
Charleston na rota da escravatura da colónia inglesa que hoje é a América.
Fiquei entusiasmado à espera de uma longa prelecção sobre “interseccionalidade”, Teoria Crítica, “reparações” e
opressão em geral. Em vez disso, fiquei decepcionado ao ouvir um
negro pobre desatar a criticar os seus semelhantes, os que no “hip-hop” e no
dia a dia banalizam a palavra “nigger” sem
noção de que estão a banalizar a própria subjugação, os que abandonam as famílias, os que assumem
o estatuto de vítimas como uma identidade. Acho indecente que um negro sem instrução não aceite e perpetue o
estereótipo de “revoltado” que intelectuais brancos lhe impõem.
Para o final da conversa, perguntei-lhe o que é que ele sentia ser. “Sou um americano”. Um vendido e um
racista, portanto. Merece a bicicleta velha.
Dia 7: Savannah, Geórgia
A fim de tomar o pequeno-almoço
num dos cafés da zona, estacionei em Chippewa Square, lugar de filmagens das
cenas de ligação em que, sentado no banco, Forrest
Gump conta a sua história. A sua história é a de um sujeito intelectual
e academicamente limitado que, em sucessivas e inconscientes tangentes à
História com maiúscula, faz sucesso nos EUA. Visto agora, o filme parece uma premonição, quiçá uma validação, da América
actual. Digo isto porque li nas “redes sociais” centenas de portugueses
eruditos a assegurar que, por um lado, todos
os eleitores de Trump são retardados, e que, por outro, Trump acabou com o
Departamento de Educação, ou seja, que nunca, nunca, nunca mais nenhuma criança
ou jovem americanos voltará a uma sala de aulas ou a um campus universitário, nem sequer para insultar Israel.
Após o pequeno-almoço, pus-me a reflectir acerca da utilidade a dar aos 500 mil
autocarros escolares de um país cujo ditador aboliu as escolas quando notei no
pára-brisas uma multa de 30 dólares – por falta de moedas no parquímetro,
diziam eles. Mas a mim não enganam: é
evidente que fui multado por pensamentos dissidentes. “Eles”, burgessos porém
omniscientes, são capazes de tudo.
Dia 8: St. Augustine, Flórida
Tencionava escrever um parágrafo
laudatório da cidade mais antiga dos
EUA, fundada por espanhóis em 1565. Tencionava dizer que St. Augustine é linda
de morrer, no sentido exacto de que mais vale morrer ali do que sobreviver para
contemplar aberrações. Tencionava
descrever as ruas formadas por casas pequeninas pintadas de fresco e cores
sortidas, com sombras a cargo de palmeiras e carvalhos. Tencionava evocar a
simpatia dos habitantes, aliás trivial naquelas paragens. Tencionava agradecer
aos deuses e ao cozinheiro do Columbia a melhor “paella” que já comi (e os
deuses sabem que já comi muitas). Deixei de tencionar quando constatei, numa
pesquisa fortuita, que quase 75% dos residentes votaram em Trump. Por
mim, aquilo ia tudo abaixo para erguer uma ou duas fundações subsidiadas e
dedicadas aos estudos de “género” e raciais.
A propósito, durante a viagem falei com inúmeros nativos e houve um
único que ousou criticar a Besta Negra, o Monstro Laranja, o Agente Krasnov:
uma destemida empregada de bar. As restantes elogiam a criatura com maior ou
menor ênfase. Trata-se, não duvido, do medo de represálias. Ou de lavagem
cerebral. Ou da convicção de idiotas. Ou de qualquer razão que não seja a
hipótese de um eleitor normal e equilibrado preferir Trump às alternativas (que
absurdo!).
Dia 9: Everglades, Flórida
As Everglades são um dos 63
parques nacionais dos EUA, e o líder em matéria de pântanos, crocodilos,
jacarés, jibóias e encharcados passeios de “airboat”. Os parques nacionais são uma forma,
iniciada há século e meio, de os ignorantes dos americanos preservarem a
natureza enquanto a põem a render mediante turismo (se em Portugal tivéssemos
as excentricidades naturais deles, nós, que não andamos a dormir, haveríamos de
as cobrir com rotundas e “centros interpretativos” a expensas do contribuinte).
Recentemente, correram notícias de que
Trump despediu todos os funcionários do Serviço de Parques Nacionais, com
excepção de três (3) moços. Num ápice, descobriu-se que os números foram
ligeiramente alterados, que os despedimentos se limitaram a 5% do total e que
ainda sobram perto de vinte mil (20.000) funcionários. Mas para os opositores
do fascismo vai – acertadamente – dar ao mesmo.
Dias 10, 11, 12 e 13: Miami Beach,
Flórida
Após prolongado convívio com
selvagens, foi preciso chegar à
extremidade sudeste dos EUA para ter acesso a sofisticação, cultura e, afinal,
actividades que reiteram o carácter sublime da arte. Refiro-me a uma pândega LGBTCOISO+
realizada na esplanada de um hotel rente ao mar em Miami Beach, onde um travesti
de lingerie dourada e peruca colorida saltava entre as
mesas ao som do que presumo ser hoje considerado música, o tipo de música que
deve ser apreciada por narcotraficantes venezuelanos e “youtubers” portugueses. O
pormenor de os decibéis estarem ao nível da turbina de um Airbus 340 apenas
sublinhava o carácter deslumbrante da empreitada. Em redor, dezenas de transeuntes
só não batiam palmas na medida em que uma das mãos empunhava o telemóvel, a
filmar na vertical, mas a felicidade de cada um era notória. O desafio ao despotismo e à barbárie de Trump passa
por acções assim gloriosas, que não tardei a perceber serem constantes em Miami
Beach. Radiante, no segundo dia ali fechei-me no
quarto do hotel a ler. No terceiro, rumei a Little Havana, para testemunhar a extrema miséria dos
exilados cubanos (que subsistem com meros 60 mil dólares anuais por família) e
comer frituras de bacalhau. No último, regressei à pátria,
consciente de que, salvo ocasionais e corajosos focos de resistência, os EUA
desceram às trevas. E de
seguida levei com o apagão.
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MUNDO
COMENTÁRIOS (DE 45)
Albino Mendes: Fico aliviado por ter regressado ileso, após estar exposto a toda a
barbárie "trumpista". Nós por cá continuamos cidadãos (dirigentes
políticos incluídos) do bem e do amor. Os salários anuais não se aproximam dos
60 000, mas quantidade de baboseiras (propaganda política) debitada por
Bruxelas (Lisboa não fica atrás) excede largamente esse valor. Miguel Sanches: O fascismo é tramado. Nos EUA
nota-se ainda mais. Mas com Louçã, Rosas e companhia, tem os dias contados. Bem vindo de volta, Alberto
Gonçalves Aríete: Gostei deste diário de um
viajante. Como não tenho o salário desses cubanos pobres, vou poupar, mas tenho de
encontrar essa "destemida empregada de bar" anti-Trump para lhe dar
um apoio moral. Carlos
Chaves Caro Alberto, obrigado pela partilha do “inferno” que viveu em terras do
Tio Sam, e pela enorme gargalhada que me arrancou no final desta crónica! Muito
bom como sempre! Maria Emília
Ranhada Santos: Exactamente como em Portugal! Nós, portugueses estamos
bem! Muito bem! Muita paz, muito amor, muito dinheiro para alguns, muitos mais
pobres do que antes! O fascismo salazarista era terrível! O dinheiro ia todo
para as colónias! Nem sequer se lembrou de fazer uma ponte sobre o Tejo, como a
Vinte e cinco de Abril, para as pessoas de classe média ou pobre, poderem
atravessar e viver debaixo de um tecto! Lisboa cresceu imenso! A população
aumentou imenso, sobretudo em Mem Martins e outros assim! A ordem e segurança
nas ruas das cidades, vilas e aldeias, tornou-se absoluta! Portugal tornou-se o
máximo com os sucessivos governos socialistas! Trump que é de direita, veio
para parar a guerra da Ucrânia que estava a dar tanto dinheiro e a matar tanta
gente, como pretendem os globalistas/socialistas/esquerdistas! Os LGBTQI...+
estavam a progredir tanto à custa dos impostos do povo, faziam tantos carnavais
com os seus "Orgulhos Gays", e agora sem estes subsídios, têm que se
virar como as outras pessoas, as normais, para sobreviverem nas suas
carnavalescas sujas actuações! Costa sacou dos nossos impostos, uma data de
milhões, para importar gente dessa do Paquistão, onde essa loucura não é
permitida, para virem transformar a nossa cultura europeia, as nossas cidades,
a nossa economia, em nada! Costa investiu em projectos de aberrações sexuais,
para matar Jesus Cristo, a nossa História, a nossa identidade, e nos abafar com
gente que nada tem a ver connosco! Socialismo Não! Socialismo nunca mais! 25 de
Abril? Não! 25 de Novembro sempre! Manuel
Gonçalves > J. Carvalho: A verdade é sempre uma
construção subjectiva que cada um faz das a partir das várias visões directas
ou indirectas. Há verdades construídas por jornalistas que nunca saíram das
redações e há verdades ocultadas como o estado de saúde de Biden durante 4
anos. vitor
gonçalves > Pedro Belo: E a natureza dos infiltrados e
dos "submarinos".Tiram 6 ou 7 postulados e com isso constroem uma
narrativa.De facto os States sao mesmo maus.E pena e que só vejo gente a querer
entrar e nenhuns a querer sair.E os que saem, e de algemas e obrigadoas a
baixar os "cor@os".Segundo um amigo naturalmente esquerdoido, e
porque lhes vendem o "sonho americano".A realidade depois e muito
dura.Deve ser por causa dos 100.000 dólares de rendimento anual das
famílias de classe média norte americanas.Nao da para viver. Pedro
Belo Abilio Silva: Se não gosta, porque é que se dá ao desconforto de
ler? É masoquista?
Abilio Silva: Resumindo e concluindo: aqui neste pedaço de terra à
beira-mar plantado somos diariamente bombardeados por notícias depreciativas
sobre o trampudo mas segundo o escriba são todas falsas: o loirinho é um gajo
porreiro, não deseja cumprir um 3º mandato, não segue os 10 mandamentos do seu
mestre Roy Cohn, não enviou centenas de presos atados de pés e mãos para El
Salvador, não cobra 3 ou 5 milhões por uma refeição em Mar-e-lago e não é o
patético que quase todos os dias vemos na TV no Daily Show. Também aquela
história de 400 manifestações anti-trump realizadas num só dia deve ser tudo
falso. Decerto foram só 4 e não 400. Começo a pensar que também as notícias
propagadas sobre a morte do Papa também devem ser fake news e o Francisco ainda
se mantém vivinho da silva. Aproveito para deixar aqui os mandamentos do Roy
Cohn que o patético segue à risca:1 – Atacar, atacar, atacar; 2 – Não admita
nada e negue tudo; 3 – Não importa o que aconteça, declare vitória e nunca
reconheça a derrota.4 – Clamar vitória, nunca assumir a derrota.5 – Não quero
saber qual é a lei, quero saber quem é o Juíz.6 – Quando alguém te encurralar
muda de assunto.7 – Quando alguém te processar, processa-o.8 – Nunca se
desculpe, ataque sempre.9 - Fora com os espiões, os comunistas, os judeus
bolcheviques, os gays, que representam “uma grave ameaça contra nossos filhos”.
10 - sempre atacar, nunca retroceder e nunca se desculpar ou se declarar
culpado.
Pedro Pereira: Até para "literatura" de viagem, o rapaz tem talento. Irra! Pedro Sena Esteves: Ainda não consegui parar de
rir!! Está genial, como é costume! Isabel
Amorim: Que viagem tão traumatizante e
o Alberto é o típico português que paga para sofrer, ainda por cima em inglês.
Ainda bem que teve a sorte de não ter sido arrastado no meio das manifestações
constantes de repúdio ao sr Laranja, ter perdido (e nós cá) a oportunidade de
ser espancado pela policia nessas manifestações de pesar.... agora teríamos um
mártir luso nascente e as t-shirts e cartazes correspondentes caríssimas por
causa das taxas diabólicas se as quiessemos comprar (cá já estamos habituados
que nos taxem todos os dias mais um pouco, eles estão atrasados) o Alberto
teria sido o alvo fácil porque pasme-se é careca. Com todos os traumas que o
afectam, e eles frios, sem sentimentos, era na cabeça que mais lhe davam.
Provavelmente não conseguiríamos ver na televisão porque houve o apagão, era
azar. Por cá descobriram quem foi que pôs o interruptor para baixo conforme o
café que se frequenta. Num sítio era o Trump, noutro o Putin. Ambos percebem
imenso de fusíveis portanto suspeitos logo. O Montenegro em pânico à procura às
escuras dos papéis de mais clientes que ele não se lembrava com uma lanterna,
se não fossem os filhos que tinham andado nos escuteiros estava tramado. Quem
se safou e bem, foi a Mortágua que tem uma lanterna daquelas militares à prova
de quedas, por acaso cubana, e fartou-se de encontrar traumatizados com agonias
de A a Z. É a maior coleccionadora em território português. Mas... por este
andar vai ter que devolver os troféus aos países de origem, isto tudo, coitada
por causa das devoluções de que o Marcelo falou. Pois resumindo, do apagão pouco
se fala porque os tais papéis do Montenegro ainda são mais importantes e se
quisermos saber mais alguma coisa temos que provavelmente ouvir uma rádio ou
televisão americana. Em Espanha (lá longe onde fica) soube que se comem
morangos e vegetais vindos de Marrocos trazidos pelos milhares de estafetas em
barcas ou a nado e o Rei para que não lhes falte nada disponibilizou energia a
nós todos. Alberto, da próxima vez que queira conhecer os USA não precisa de lá
ir, basta passar um fim de semana no Seixal com 2 ou 3 jornalistas da Lusa. Paulo
Almeida: Muito bom, faz falta esta qualidade de escrita. Sem filtros ou com ironia.
Obviamente que se mais de metade do povo americano votou Trump, a sociedade não
pode ser retratada apenas pela revolta da outra metade, que não aceita
democracia (alguns). Quer dizer… Pode, mas obviamente só serve interesses que a
maioria já percebeu serem só isso: interesses. A salvação está na educação. Com
isso o comunismo e a legacy media morrem. m s: Benvindo, Alberto Gonçalves,
desse lugar que o demónio ruivo transformou nas terras do nunca! Benvindo e
nada temais nesta ibéria de rotundas luminosas e centros interpretativos. Obrigada! Pedro
Belo > J. Carvalho: Que raio de comentário. Onde é
que o autor declara essa intenção? É um diário de viagem com humor pelo meio. Se
já sabe que não gosta, porque é que se dá ao desconforto? É masoquista? Pedra
Nussapato: O dr. AG esqueceu-se de referir que optou por abordar na rua as pessoas com
um boné vermelho a dizer MAGA 😄
J. carvalho: Alberto Gonçalves foi aos Estados Unidos conhecer
TODOS os eleitores, comer paella e trouxe A VERDADE. E tudo isto em quinze
dias.
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