sexta-feira, 16 de maio de 2025

Apelo

 

De MARGARIDA BENTES PENEDO, que me parece justo, por defender os valores culturais meritoriamente protegidos e respeitados, no nosso pobre país, que preferencialmente explora os musicais festivaleiros nas ruas ou nos salões, transmitidos pelas televisões para recreação das almas, os concertos do domínio clássico, janais sendo mostrados pela mesma via, que, afinal, também se deseja educativa e não meramente prazerosa.

Um lugar para a Academia dos Amadores de Música

Pelos vistos, a CML tem excesso de milhões de euros; pode aliviar-se de uma parte deles numa obra meritória pela instrução num tipo de música complexo, exigente, formador e civilizador.

MARGARIDA BENTES PENEDO Arquitecta e deputada municipal

OBSERVADOR, 15 mai. 2025, 00:1814

Existe em Lisboa uma instituição com mais de 140 anos chamada Academia dos Amadores de Música. É uma das poucas escolas exigentes e sérias dedicadas ao ensino musical, com uma história ilustre de mecenas, dirigentes, professores, alunos, disciplinas, apresentações, e um papel social de incontestável referência e respeitabilidade. Viveu os últimos 87 anos, desde 1938, num andar da Rua Nova da Trindade. O dono do edifício quer vendê-lo, trocaram-se avisos e as negociações possíveis, a Academia tem de sair até ao fim do mês de Agosto.

A Câmara de Carlos Moedas sabe disto, pelo menos, desde Fevereiro de 2022, data em que, perante o natural pedido de ajuda, informou que estava “a acompanhar o assunto. Já a Câmara anterior, do PS, do Bloco, do Livre, dos Cidadãos por Lisboa, e de Fernando Medina, “acompanhara” o mesmo assunto, na pessoa da vereadora da cultura, Catarina Vaz Pinto, cuja proverbial inutilidade prometeu à Academia um conjunto de expectativas.

Consolados nesta prontidão de acompanhamentos, chegamos no dia de hoje a pouco mais de três meses da data limite. Carlos Moedas parece ter encontrado a resposta: um edifício na Avenida de Berna, junto à Universidade Nova, que serviu durante anos para o recrutamento militar e, mais recentemente, para uma secção ou departamento da FCSH. Está desocupado. A localização, no centro de Lisboa, é perfeita: perto de uma estação de Metro, em frente da Igreja de Fátima e da Fundação Calouste Gulbenkian. Várias linhas de autocarro. A Academia gosta do edifício que, ainda-para mais, tem área de sobra para a escola poder crescer. E para o arquivo, serviços administrativos, ensaios do coro, talvez apresentações. Talvez até seja possível que a Academia volte a ter a sua própria orquestra.

Problemas? Vejo dois, ambos ultrapassáveis. Primeiro: o edifício não é da Câmara, mas sim do Estado central, e está na tutela da Estamo. Carlos Moedas pode negociar com a Estamo a permuta deste imóvel por outro (ou outros) dos variadíssimos que a Câmara Municipal de Lisboa tem na sua propriedade. É o que está a fazer, conforme informou em reunião de Assembleia Municipal e, depois, confirmou em reunião de Câmara. Não há desculpa para que a permuta não seja conseguida, sobretudo quando o governo de Lisboa e o governo central da República estão nas mãos do mesmo partido; o PSD que governa a cidade tem obrigação de se entender com o PSD que governa o país.

Segundo problema: faltam, repito, pouco mais de três meses para a data em que a Academia tem de sair das instalações actuais. E o edifício da Avenida de Berna precisa de obras: não só porque os edifícios precisam de obras regulares de manutenção, mas também porque este edifício terá de ser adaptado aos usos do novo inquilino. Seja o que for que lá esteve até agora, terá necessidades e orgânica diferente da que se espera para a Academia dos Amadores de Música e respectiva escola. Sucede que estas obras custam dinheiro: pelo tipo de obras e pelo tamanho do edifício, duvido que se façam por menos de dois ou três milhões de euros. Sucede também que, mesmo que estas obras começassem amanhã de manhã, nem aqui nem no Paraíso elas estariam prontas para inaugurar no primeiro dia de Setembro. Vai ser necessário prever que a Academia permaneça na Rua Nova da Trindade por mais uns meses, em troca de um valor de renda superior aos 550 euros que paga neste momento. Ou, em alternativa, instalar a escola da Academia numa morada provisória.

A boa notícia? Cinco milhões aqui, dois milhões ali, é quanto a Câmara Municipal de Lisboa gasta todos os anos com vários festivais de música pop no Verão. Num dia vem o Super Bock Super Rock, no outro vem o Kalorama, no outro ainda vem o Rock in Rio ou o “evento” indispensável à cidade de Lisboa que a Câmara precisa de subsidiar, pelo expediente de isentar do pagamento de taxas; mesmo que aqueles espectáculos tenham um mercado próprio (por isso a música se chama “pop”, de “popular”), e as pessoas que os frequentam estejam dispostas a gastar cerca de 150 euros por um bilhete para os três dias.

Pelos vistos, a Câmara de Lisboa tem excesso de milhões de euros, não lhe faz mal aliviar-se de uma parte deles numa obra meritória pela instrução num tipo de música complexo, exigente, formador e civilizador. A Academia dos Amadores de Música não ensina os alunos a cantar ou tocar kumbaiás. A outra boa notícia é que o vice-Presidente da Câmara e vereador das Finanças, Filipe Anacoreta Correia, é ele próprio um amador de música e alguém que, ao contrário do governante standard português, tem cultura, sabe distinguir cultura de entretenimento, dá valor às artes, e reconhece o papel da exigência quando se trata de subir uns centímetros na escala da civilização. Vai gostar de deixar a Academia bem instalada.

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COMENTÁRIOS (de 14)

Carlos Chaves: Desta vez estou em completo desacordo coma a opinião da Margarida Bentes Penedo! Mas por que raio deve a Câmara (os contribuintes Lisboetas e não só), apoiar essa associação? Só porque tem 140 anos? Mexam-se procurem outro local, e 550€ de renda de um edifício no centro de Lisboa… coitado do proprietário autêntica vítima das políticas de arrendamento já desde o tempo de Salazar!  Definitivamente incompatibilizou-se com Carlos Moedas!  

José Tomás: Artigo infeliz da melhor colunista deste jornal. Se cada um dos 320 alunos da AAM pagasse mais €10 por mês, estaria coberto o aumento da renda das antigas instalações (isto sem contar com as receitas de sócios, patrocínios, subsídios e serviços prestados ao Estado). Mas a AAM optou por fazer um acordo com o senhorio, para ficar com 20% do preço de venda do imóvel em troca de revogar o arrendamento. Como os 600K desse negócio imobiliário não chegam para as obras nas novas instalações (um negócio de favor da CML), meteram os amigos da esquerda (primeiro) e da direita (agora) a "bombar" nos jornais para que os contribuintes paguem a diferença. Um retrato das nossas elites.

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