De MARGARIDA
BENTES PENEDO, que me parece justo, por
defender os valores culturais meritoriamente protegidos e respeitados, no nosso
pobre país, que preferencialmente explora os musicais festivaleiros nas ruas ou
nos salões, transmitidos pelas televisões para recreação das almas, os
concertos do domínio clássico, janais sendo mostrados pela mesma via, que,
afinal, também se deseja educativa e não meramente prazerosa.
Um
lugar para a Academia dos Amadores de Música
Pelos vistos, a CML tem excesso de milhões de euros; pode aliviar-se
de uma parte deles numa obra meritória pela instrução num tipo de música
complexo, exigente, formador e civilizador.
MARGARIDA BENTES
PENEDO Arquitecta e deputada municipal
OBSERVADOR, 15 mai. 2025, 00:1814
Existe em Lisboa uma instituição com
mais de 140 anos chamada Academia dos
Amadores de Música. É
uma das poucas escolas exigentes e sérias dedicadas ao ensino musical, com uma
história ilustre de mecenas, dirigentes, professores, alunos, disciplinas,
apresentações, e um papel social de incontestável referência e respeitabilidade.
Viveu os últimos 87 anos, desde 1938, num andar da Rua Nova da Trindade. O dono
do edifício quer vendê-lo, trocaram-se avisos e as negociações possíveis, a
Academia tem de sair até ao fim do mês de Agosto.
A Câmara de Carlos Moedas sabe disto, pelo menos, desde Fevereiro de
2022, data em que, perante o natural pedido de ajuda, informou que estava “a acompanhar o assunto”. Já a Câmara anterior, do PS, do Bloco, do
Livre, dos Cidadãos por Lisboa, e de Fernando Medina, “acompanhara” o mesmo assunto, na pessoa da
vereadora da cultura, Catarina
Vaz Pinto, cuja proverbial inutilidade prometeu à Academia um conjunto
de expectativas.
Consolados nesta prontidão de acompanhamentos, chegamos no dia de hoje
a pouco mais de três meses da data limite. Carlos Moedas parece ter encontrado a resposta: um
edifício na Avenida de Berna, junto à Universidade Nova, que serviu durante
anos para o recrutamento militar e, mais recentemente, para uma secção ou
departamento da FCSH. Está
desocupado. A localização, no centro de Lisboa, é perfeita: perto de uma
estação de Metro, em frente da Igreja de Fátima e da Fundação Calouste
Gulbenkian. Várias linhas de autocarro. A Academia gosta do edifício que, ainda-para mais, tem área de sobra
para a escola poder crescer. E para o arquivo, serviços administrativos,
ensaios do coro, talvez apresentações. Talvez
até seja possível que a Academia volte a ter a sua própria orquestra.
Problemas? Vejo dois, ambos
ultrapassáveis. Primeiro: o edifício não é da Câmara, mas sim do Estado central, e está na tutela
da Estamo. Carlos Moedas pode
negociar com a Estamo a permuta deste imóvel por outro (ou outros) dos
variadíssimos que a Câmara Municipal de Lisboa tem na sua propriedade. É o que está a fazer, conforme informou
em reunião de Assembleia Municipal e, depois, confirmou em reunião de Câmara.
Não há desculpa para que a permuta não seja conseguida, sobretudo quando o
governo de Lisboa e o governo central da República estão nas mãos do mesmo
partido; o PSD que governa a cidade tem obrigação de se entender com o PSD que
governa o país.
Segundo problema: faltam,
repito, pouco mais de três meses para a data em que a Academia tem de sair das
instalações actuais. E o edifício da
Avenida de Berna precisa de obras: não só porque os edifícios precisam de obras
regulares de manutenção, mas também porque este edifício terá de ser adaptado
aos usos do novo inquilino. Seja o que for que lá esteve até agora, terá necessidades e orgânica diferente da
que se espera para a Academia dos Amadores de Música e respectiva escola.
Sucede que estas obras custam dinheiro: pelo
tipo de obras e pelo tamanho do edifício, duvido que se façam por menos de dois
ou três milhões de euros. Sucede também que, mesmo que estas obras
começassem amanhã de manhã, nem aqui
nem no Paraíso elas estariam prontas para inaugurar no primeiro dia de
Setembro. Vai ser necessário prever que a Academia permaneça na Rua
Nova da Trindade por mais uns meses, em troca de um valor de renda superior aos
550 euros que paga neste momento. Ou, em alternativa, instalar a escola da
Academia numa morada provisória.
A boa notícia? Cinco milhões aqui, dois milhões ali, é quanto a
Câmara Municipal de Lisboa gasta todos os anos com vários festivais de música
pop no Verão. Num dia vem
o Super
Bock Super Rock, no outro vem o
Kalorama,
no outro ainda vem o Rock in Rio
ou o “evento” indispensável à cidade
de Lisboa que a Câmara precisa de subsidiar, pelo expediente de isentar do pagamento
de taxas; mesmo que aqueles espectáculos tenham um mercado próprio (por isso a
música se chama “pop”, de “popular”), e as pessoas que os frequentam estejam
dispostas a gastar cerca de 150 euros por um bilhete para os três dias.
Pelos vistos, a Câmara de Lisboa tem
excesso de milhões de euros, não lhe faz mal aliviar-se de uma parte deles numa
obra meritória pela instrução num tipo de música complexo, exigente, formador e
civilizador. A Academia
dos Amadores de Música não ensina os alunos a cantar ou tocar kumbaiás.
A
outra boa notícia é que o vice-Presidente da Câmara e vereador das Finanças,
Filipe Anacoreta Correia, é ele próprio um amador de música e alguém que, ao
contrário do governante standard português, tem cultura, sabe distinguir
cultura de entretenimento, dá valor às artes, e reconhece o papel da exigência
quando se trata de subir uns centímetros na escala da civilização. Vai gostar
de deixar a Academia bem instalada.
CÂMARA
MUNICIPAL LISBOA LISBOA PAÍS SOCIEDADE POLÍTICA CULTURA MÚSICA
COMENTÁRIOS (de 14)
Carlos Chaves: Desta vez estou em completo desacordo coma a opinião
da Margarida Bentes Penedo! Mas por que raio deve a Câmara (os contribuintes
Lisboetas e não só), apoiar essa associação? Só porque tem 140 anos? Mexam-se
procurem outro local, e 550€ de renda de um edifício no centro de Lisboa…
coitado do proprietário autêntica vítima das políticas de arrendamento já desde
o tempo de Salazar! Definitivamente
incompatibilizou-se com Carlos Moedas!
José Tomás: Artigo infeliz da melhor colunista deste jornal. Se
cada um dos 320 alunos da AAM pagasse mais €10 por mês, estaria coberto o
aumento da renda das antigas instalações (isto sem contar com as receitas de
sócios, patrocínios, subsídios e serviços prestados ao Estado). Mas a AAM optou
por fazer um acordo com o senhorio, para ficar com 20% do preço de venda do
imóvel em troca de revogar o arrendamento. Como os 600K desse negócio
imobiliário não chegam para as obras nas novas instalações (um negócio de favor
da CML), meteram os amigos da esquerda (primeiro) e da direita (agora) a
"bombar" nos jornais para que os contribuintes paguem a diferença. Um
retrato das nossas elites.
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