Com maior ressonância, naturalmente, não só politicamente, mas
pulmonarmente.
Roménia escolheu a União Europeia em vez
de Putin e JD Vance. A reviravolta do centrista que derrotou a extrema-direita
Centrista Nicușor Dan partia em
desvantagem para 2.ª volta face ao candidato de extrema-direita, mas conseguiu
vencer presidenciais com 54% dos votos. UE, Moldávia e Ucrânia respiram de
alívio.
OBSERVADOR, 19
mai. 2025, 01:371
As sondagens dos últimos dias davam os
dois candidatos na segunda volta das eleições presidenciais na Roménia taco a
taco, num cenário de empate técnico.
Inicialmente, a vitória de
George Simion era quase certa — o deputado do partido populista Aliança para a União dos Romenos (AUR),
de direita radical, tinha vencido a
primeira volta com mais de 40% dos votos, quase o dobro do autarca de
Bucareste, Nicușor Dan. No entanto, este independente centrista
foi aproximando-se do seu rival e, este domingo, o confirmou a reviravolta com
54% dos votos, convertendo-se no próximo Presidente do país de 19 milhões
de habitantes.
Esta
vitória tem um especial significado para a União Europeia (UE). Aliás, à
medida que os resultados iam sendo revelados, milhares de pessoas saíram às
ruas de Bucareste para celebrar o resultado com bandeiras europeias. “Europa,
Europa”, gritaram. Num país
onde as mazelas do regime comunista ainda se fazem sentir, a
Roménia optou pela convergência europeia este domingo, recusando a mensagem eurocéptica de George
Simion, o candidato que admirava o
Presidente norte-americano, Donald Trump, e que criticava abertamente as
instituições comunitárias.
Acusado
de ser próximo da Rússia — algo que recusou ao longo da campanha eleitoral — George
Simion opõe-se ao envio de apoio
militar e financeiro à Ucrânia, um país vizinho da Ucrânia. O deputado
de 38 anos tinha sido considerado persona
non grata pelo governo ucraniano por “propagar uma ideologia unionista que nega a legitimidade das
fronteiras ucranianas”. Assim, haveria o risco de que a Roménia se juntasse
à Eslováquia e à Hungria no lote de países que quebram a unidade europeia de
apoio a Kiev.
Ainda que o
parlamento romeno disponha de mais poderes do que a presidência, George Simion
poderia condicionar a formação de um novo executivo, não escondendo que o seu objectivo era
colocar um dos seus aliados como chefe de governo, claramente mais à direita. Aliás, um
dia depois da primeira volta, a 5 de maio, o
antigo primeiro-ministro, Marcel Ciolacu, demitiu-se, devido ao bom
resultado do candidato de direita radical.
Por tudo isto, as presidenciais
romenas eram bastante importantes no contexto europeu— poderia haver um país com uma presidência
eurocéptica, que condicionaria a política interna e externa da Roménia, um
Estado numa localização central na UE e na NATO. Isso foi
impedido na noite deste domingo pela vitória de um matemático moderado que
promete manter-se próximo de Bruxelas.
▲Nicușor Dan,
o autarca de Bucareste e eleito Presidente da Roménia ROBERT GHEMENT/EPA
A vitória surpreendente de Nicușor
Dan que enfrentou “ondas de ódio”
No meio de uma multidão em Bucareste,
Nicușor Dan reivindicou vitória, atribuindo-a a “milhares e milhares de pessoas
que fizeram campanha e que acreditaram que a Roménia poderia mudar na direcção
certa”. “O que fizeram nestas semanas foi
extraordinário. Enfrentaram ondas de ódio e tiveram a coragem de seguir em
frente”, afirmou o novo Presidente da Roménia, declarando que o país “começa uma nova etapa” a partir desta
segunda-feira.
Partindo
em desvantagem nas sondagens após a primeira volta, Nicușor Dan
conseguiu inverter a marcha de uma vitória que à partida seria improvável — o
centrista obteve 20,99% dos votos, contra 40,96% de George Simion. Numa campanha que se tornou bastante
polarizada, o matemático conseguiu dois feitos: diminuir a vantagem do
adversário e convocar mais romenos para votar.
Estas foram uma das presidenciais com uma das maiores participação de sempre
na Roménia: 65% dos eleitores votaram, tendo havido uma forte mobilização entre
os jovens e a diáspora. Essa
galvanização do eleitorado foi, como escreve o Guardian,
fundamental para a vitória de Nicușor Dan — que cativou muitos que não tinham
ido votar na primeira volta, havendo mais 1,5 milhões de votos neste domingo.
"O que fizeram nestas semanas foi extraordinário. Enfrentaram ondas
de ódio e tiveram a coragem de seguir em frente." Nicușor Dan, o
novo Presidente da Roménia, aos apoiantes
Apesar de existirem várias dúvidas sobre
como votaria a diáspora, o centrista não teve uma derrota significativa nos
círculos eleitorais estrangeiros: George Simion angariou 55,2%,
enquanto Nicușor Dan 44,8% (em
Portugal, pelo contrário, o candidato pró-europeu venceu com 54,37%). No
entanto, em território romeno, o matemático acabou por levar a melhor, o que
foi fulcral para ganhar as presidenciais. O resultado foi particularmente
significativo na capital, Bucareste (quase 70% dos votos), o que faz sentido,
tendo em conta que Nicușor Dan é
autarca da capital.
Na
sequência da vitória, Nicușor Dan já prometeu que vai falar com os partidos
pró-europeus para que formem uma coligação alargada no Parlamento, que está
bastante fragmentado. A aliança entre as formações partidárias
centristas ficou abalada com a demissão de Marcel Ciolacu, mas o novo
Presidente está disposto a garantir a sua estabilidade. Em contraposição, George Simion desejava
dissolver a Câmara dos Deputados e convocar novas eleições, para conseguir
promover um aliado seu para primeiro-ministro.
Ao final da noite, George Simion reconheceu a derrota, ainda
que inicialmente tenha recusado a veracidade das sondagens à boca das urnas,
que praticamente acertaram nos resultados finais. O candidato de direita radical deu, no entanto, os parabéns a Nicușor
Dan: “Venceu as eleições, foi a vontade do povo romeno. Quero agradecer aos
mais de cinco milhões de romenos que confiaram em mim. Não os decepcionarei. Estávamos
sozinhos contra um sistema inteiro, sozinhos contra todos”.
▲ George
Simion reconheceu a derrota ROBERT - GHEMENT/EPA
Costa, Von der Leyen e Zelensky
celebram vitória de candidato pró-europeu
A vitória de Nicușor Dan motivou várias
reacções na Europa. Bastante atacada durante a campanha por George Simion, a
presidente da Comissão Europeia, Ursula
von der Leyen, elogiou que
a população romena “tenha ido às urnas massivamente”. “Escolheram a promessa de uma Roménia
aberta e próspera numa Europa forte. Juntos vamos cumprir o que prometemos.”
Na mesma medida, o presidente do
Conselho Europeu, António Costa, deu no X os parabéns “sinceros” a Nicușor Dan, que transita da “câmara
municipal para o Conselho Europeu”. O
antigo primeiro-ministro português interpretou os resultados como um “forte
sinal da adesão dos romenos ao projecto europeu”.“Estou ansioso para trabalhar
consigo para uma Europa melhor e uma Roménia melhor.”
Estas duas reacções mostram como
Bruxelas está satisfeita com a vitória de Nicușor Dan. Afastando o pior cenário da vitória de George Simion, os dirigentes
europeus olham para o centrista como alguém em que podem confiar e que defende
os valores europeus. Será, assim,
mais uma voz colaborativa no Conselho Europeu, que deverá continuar no mesmo
rumo do que Presidente cessante, Klaus
Iohannis.
Quem
também reagiu com satisfação foi a Presidente moldava, Maia
Sandu. George Simion apoiava a ideia nacionalista de uma “Grande
Roménia” — que inclui a anexação da Moldávia por Bucareste. Isso
criou algumas tensões entre os dois países. No entanto, a vitória de Nicușor
Dan dissipa agora essa desconfiança, sendo que o candidato centrista apoia
igualmente a adesão de Chișinău à União Europeia. “A Moldávia e a Roménia estão juntas, apoiando-se uma à outra e trabalhando
lado a lado para um futuro europeu pacífico e democrático”, escreveu Sandu.
O Presidente ucraniano,
Volodymyr Zelensky, também se mostrou contente com os resultados no país
vizinho. No X, o líder da Ucrânia felicitou a “vitória
histórica na Roménia” de Nicușor Dan: “Para a Ucrânia — enquanto vizinho e
amigo — é importante ter a Roménia como um parceiro confiável. E estamos
confiantes que será. Ao trabalharmos juntos, podemos fortalecer os nossos
países e a nossa Europa. Teremos
sempre um grande respeito pela Roménia e o seu povo, especialmente pelo apoio
que recebemos”.
Tal
como os dirigentes da União Europeia, o Presidente da Ucrânia ficou aliviado
este domingo. George Simion queria estabelecer uma posição de
neutralidade no conflito do país vizinho, que nunca especificou no que
consistiria. Como nota o Politico,
o candidato de extrema-direita poderia, no âmbito dessa estratégia,
eventualmente acabar com o treino de militares ucranianos em solo romeno e
colocar entraves à entrada de armamento ocidental na Ucrânia.
A derrota da Rússia — que não conseguiu ganhar um aliado em
Bucareste
A Rússia também olhou com
muita atenção para estas eleições. Moscovo tinha todo o interesse geopolítico em
ganhar um aliado em Bucareste e complicar a entrada de armamento na Ucrânia.
O plano russo já tinha tido, não obstante, um revés: em dezembro de 2024, o
Tribunal Constitucional romeno anulou a primeira volta das presidenciais,
devido às suspeitas de “interferência russa” no acto eleitoral.
Em dezembro de 2024, o principal candidato de extrema-direita
era Călin Georgescu, que
venceu de forma surpreendente a primeira volta das presidenciais. Aquele político não escondia as suas ligações à Rússia
e tinha uma retórica ainda mais radical do que George Simion relativamente à
Ucrânia. Foi
detido, libertado entretanto e foi impedido pelos tribunais romenos de ser
candidato nestas segundas presidenciais. Ainda assim, declarou apoio ao
deputado de direita radical, este que via em Georgescu numa espécie de mentor.
Estes movimentos romenos de direita
radical foi apoiado do outro lado do Atlântico pelo movimento Make America
Great Again (MAGA, acrónimo em inglês). George Simion deixava vários elogios a
Donald Trump. E, num discurso em Munique, em fevereiro deste ano, o
vice-presidente, JD Vance, demonstrou indignação com a anulação das
eleições em dezembro de 2024 por “suspeitas frágeis de secretas e a enorme
pressão dos vizinhos continentais”, numa referência à União Europeia.
▲ Călin Georgescu, o candidato
que foi impedido de concorrer ROBERT
GHEMENT/EPA
Tal como JD Vance, o Kremlin
defendeu por várias vezes Călin Georgescu publicamente. Não é
de estranhar, portanto, que o porta-voz do governo, Andrei Tarnea, tenha
denunciado no X “marcas de interferência russa” na segunda volta das
presidenciais deste domingo, com a finalidade de “influenciar o processo
eleitoral”.
Antes disso, o fundador do
Telegram, próximo do Kremlin, Pavel Durov, acusou,
por sua vez, o governo de França de ter tentado interferir nas eleições:
“Pediram-nos para silenciar
vozes conservadoras. Eu recusei categoricamente. O Telegram não vai restringir
as liberdades dos utilizadores romenos ou bloquear os canais políticos”. No
entanto, Paris desmentiu estas informações.
Na sua mensagem de parabéns no X,
Emmanuel Macron não deixou de reagir a estas movimentações. “Apesar das numerosas tentativas de
manipulação, os romenos escolheram esta noite a democracia, o estado de
direito e a União Europeia”, disse o Presidente francês, assegurando que Paris
está ao lado de Bucareste para “fortalecer a parceria e trabalhar juntos rumo a
uma Europa mais forte, soberana e independente”.
Entre
Bruxelas, Moscovo e até Washington, os romenos mobilizaram-se e impediram a
vitória de um candidato que poderia afastar o país do caminho que empreendeu
desde o fim do comunismo, votando por manter a proximidade à UE e à NATO. Ainda assim,
num mundo cada vez mais conturbado e com instabilidade interna, Nicușor Dan não
vai ter uma tarefa fácil pela frente.
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EUROPEIA
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