segunda-feira, 19 de maio de 2025

POR LÁ


Com maior ressonância, naturalmente, não só politicamente, mas pulmonarmente.

Roménia escolheu a União Europeia em vez de Putin e JD Vance. A reviravolta do centrista que derrotou a extrema-direita

Centrista Nicușor Dan partia em desvantagem para 2.ª volta face ao candidato de extrema-direita, mas conseguiu vencer presidenciais com 54% dos votos. UE, Moldávia e Ucrânia respiram de alívio.

JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

OBSERVADOR, 19 mai. 2025, 01:371

As sondagens dos últimos dias davam os dois candidatos na segunda volta das eleições presidenciais na Roménia taco a taco, num cenário de empate técnico. Inicialmente, a vitória de George Simion era quase certa — o deputado do partido populista Aliança para a União dos Romenos (AUR), de direita radical, tinha vencido a primeira volta com mais de 40% dos votos, quase o dobro do autarca de Bucareste, Nicușor Dan. No entanto, este independente centrista foi aproximando-se do seu rival e, este domingo, o confirmou a reviravolta com 54% dos votos, convertendo-se no próximo Presidente do país de 19 milhões de habitantes.

Esta vitória tem um especial significado para a União Europeia (UE). Aliás, à medida que os resultados iam sendo revelados, milhares de pessoas saíram às ruas de Bucareste para celebrar o resultado com bandeiras europeias. “Europa, Europa”, gritaram. Num país onde as mazelas do regime comunista ainda se fazem sentir, a Roménia optou pela convergência europeia este domingo, recusando a mensagem eurocéptica de George Simion, o candidato que admirava o Presidente norte-americano, Donald Trump, e que criticava abertamente as instituições comunitárias.

Acusado de ser próximo da Rússia — algo que recusou ao longo da campanha eleitoralGeorge Simion opõe-se ao envio de apoio militar e financeiro à Ucrânia, um país vizinho da Ucrânia. O deputado de 38 anos tinha sido considerado persona non grata pelo governo ucraniano por “propagar uma ideologia unionista que nega a legitimidade das fronteiras ucranianas”. Assim, haveria o risco de que a Roménia se juntasse à Eslováquia e à Hungria no lote de países que quebram a unidade europeia de apoio a Kiev.

Ainda que o parlamento romeno disponha de mais poderes do que a presidência, George Simion poderia condicionar a formação de um novo executivo, não escondendo que o seu objectivo era colocar um dos seus aliados como chefe de governo, claramente mais à direita. Aliás, um dia depois da primeira volta, a 5 de maio, o antigo primeiro-ministro, Marcel Ciolacu, demitiu-se, devido ao bom resultado do candidato de direita radical.

Por tudo isto, as presidenciais romenas eram bastante importantes no contexto europeupoderia haver um país com uma presidência eurocéptica, que condicionaria a política interna e externa da Roménia, um Estado numa localização central na UE e na NATO. Isso foi impedido na noite deste domingo pela vitória de um matemático moderado que promete manter-se próximo de Bruxelas.

Nicușor Dan, o autarca de Bucareste e eleito Presidente da Roménia ROBERT GHEMENT/EPA

A vitória surpreendente de Nicușor Dan que enfrentou “ondas de ódio”

No meio de uma multidão em Bucareste, Nicușor Dan reivindicou vitória, atribuindo-a a “milhares e milhares de pessoas que fizeram campanha e que acreditaram que a Roménia poderia mudar na direcção certa”. “O que fizeram nestas semanas foi extraordinário. Enfrentaram ondas de ódio e tiveram a coragem de seguir em frente”, afirmou o novo Presidente da Roménia, declarando que o país “começa uma nova etapa” a partir desta segunda-feira.

Partindo em desvantagem nas sondagens após a primeira volta, Nicușor Dan conseguiu inverter a marcha de uma vitória que à partida seria improvável — o centrista obteve 20,99% dos votos, contra 40,96% de George Simion. Numa campanha que se tornou bastante polarizada, o matemático conseguiu dois feitos: diminuir a vantagem do adversário e convocar mais romenos para votar.

Estas foram uma das presidenciais com uma das maiores participação de sempre na Roménia: 65% dos eleitores votaram, tendo havido uma forte mobilização entre os jovens e a diáspora. Essa galvanização do eleitorado foi, como escreve o Guardian, fundamental para a vitória de Nicușor Dan — que cativou muitos que não tinham ido votar na primeira volta, havendo mais 1,5 milhões de votos neste domingo.

"O que fizeram nestas semanas foi extraordinário. Enfrentaram ondas de ódio e tiveram a coragem de seguir em frente." Nicușor Dan, o novo Presidente da Roménia, aos apoiantes

Apesar de existirem várias dúvidas sobre como votaria a diáspora, o centrista não teve uma derrota significativa nos círculos eleitorais estrangeiros: George Simion angariou 55,2%, enquanto Nicușor Dan 44,8% (em Portugal, pelo contrário, o candidato pró-europeu venceu com 54,37%). No entanto, em território romeno, o matemático acabou por levar a melhor, o que foi fulcral para ganhar as presidenciais. O resultado foi particularmente significativo na capital, Bucareste (quase 70% dos votos), o que faz sentido, tendo em conta que Nicușor Dan é autarca da capital.

Na sequência da vitória, Nicușor Dan já prometeu que vai falar com os partidos pró-europeus para que formem uma coligação alargada no Parlamento, que está bastante fragmentado. A aliança entre as formações partidárias centristas ficou abalada com a demissão de Marcel Ciolacu, mas o novo Presidente está disposto a garantir a sua estabilidade. Em contraposição, George Simion desejava dissolver a Câmara dos Deputados e convocar novas eleições, para conseguir promover um aliado seu para primeiro-ministro.

Ao final da noite, George Simion reconheceu a derrota, ainda que inicialmente tenha recusado a veracidade das sondagens à boca das urnas, que praticamente acertaram nos resultados finais. O candidato de direita radical deu, no entanto, os parabéns a Nicușor Dan: “Venceu as eleições, foi a vontade do povo romeno. Quero agradecer aos mais de cinco milhões de romenos que confiaram em mim. Não os decepcionarei. Estávamos sozinhos contra um sistema inteiro, sozinhos contra todos”.

George Simion reconheceu a derrota ROBERT - GHEMENT/EPA

Costa, Von der Leyen e Zelensky celebram vitória de candidato pró-europeu

A vitória de Nicușor Dan motivou várias reacções na Europa. Bastante atacada durante a campanha por George Simion, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, elogiou que a população romena “tenha ido às urnas massivamente”. “Escolheram a promessa de uma Roménia aberta e próspera numa Europa forte. Juntos vamos cumprir o que prometemos.”

Na mesma medida, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, deu no X os parabéns “sinceros” a Nicușor Dan, que transita da “câmara municipal para o Conselho Europeu”. O antigo primeiro-ministro português interpretou os resultados como um “forte sinal da adesão dos romenos ao projecto europeu”.“Estou ansioso para trabalhar consigo para uma Europa melhor e uma Roménia melhor.”

Estas duas reacções mostram como Bruxelas está satisfeita com a vitória de Nicușor Dan. Afastando o pior cenário da vitória de George Simion, os dirigentes europeus olham para o centrista como alguém em que podem confiar e que defende os valores europeus. Será, assim, mais uma voz colaborativa no Conselho Europeu, que deverá continuar no mesmo rumo do que Presidente cessante, Klaus Iohannis.

Quem também reagiu com satisfação foi a Presidente moldava, Maia Sandu. George Simion apoiava a ideia nacionalista de uma “Grande Roménia” — que inclui a anexação da Moldávia por Bucareste. Isso criou algumas tensões entre os dois países. No entanto, a vitória de Nicușor Dan dissipa agora essa desconfiança, sendo que o candidato centrista apoia igualmente a adesão de Chișinău à União Europeia. “A Moldávia e a Roménia estão juntas, apoiando-se uma à outra e trabalhando lado a lado para um futuro europeu pacífico e democrático”, escreveu Sandu.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, também se mostrou contente com os resultados no país vizinho. No X, o líder da Ucrânia felicitou a “vitória histórica na Roménia” de Nicușor Dan: “Para a Ucrânia — enquanto vizinho e amigo — é importante ter a Roménia como um parceiro confiável. E estamos confiantes que será. Ao trabalharmos juntos, podemos fortalecer os nossos países e a nossa Europa. Teremos sempre um grande respeito pela Roménia e o seu povo, especialmente pelo apoio que recebemos”. 

Tal como os dirigentes da União Europeia, o Presidente da Ucrânia ficou aliviado este domingo. George Simion queria estabelecer uma posição de neutralidade no conflito do país vizinho, que nunca especificou no que consistiria. Como nota o Politico, o candidato de extrema-direita poderia, no âmbito dessa estratégia, eventualmente acabar com o treino de militares ucranianos em solo romeno e colocar entraves à entrada de armamento ocidental na Ucrânia.

A derrota da Rússia — que não conseguiu ganhar um aliado em Bucareste

A Rússia também olhou com muita atenção para estas eleições. Moscovo tinha todo o interesse geopolítico em ganhar um aliado em Bucareste e complicar a entrada de armamento na Ucrânia. O plano russo já tinha tido, não obstante, um revés: em dezembro de 2024, o Tribunal Constitucional romeno anulou a primeira volta das presidenciais, devido às suspeitas de “interferência russa” no acto eleitoral.

Em dezembro de 2024, o principal candidato de extrema-direita era Călin Georgescu, que venceu de forma surpreendente a primeira volta das presidenciais. Aquele político não escondia as suas ligações à Rússia e tinha uma retórica ainda mais radical do que George Simion relativamente à Ucrânia. Foi detido, libertado entretanto e foi impedido pelos tribunais romenos de ser candidato nestas segundas presidenciais. Ainda assim, declarou apoio ao deputado de direita radical, este que via em Georgescu numa espécie de mentor.

Estes movimentos romenos de direita radical foi apoiado do outro lado do Atlântico pelo movimento Make America Great Again (MAGA, acrónimo em inglês). George Simion deixava vários elogios a Donald Trump. E, num discurso em Munique, em fevereiro deste ano, o vice-presidente, JD Vance, demonstrou indignação com a anulação das eleições em dezembro de 2024 por “suspeitas frágeis de secretas e a enorme pressão dos vizinhos continentais”, numa referência à União Europeia.

Călin Georgescu, o candidato que foi impedido de concorrer  ROBERT GHEMENT/EPA

Tal como JD Vance, o Kremlin defendeu por várias vezes Călin Georgescu publicamente. Não é de estranhar, portanto, que o porta-voz do governo, Andrei Tarnea, tenha denunciado no X “marcas de interferência russa” na segunda volta das presidenciais deste domingo, com a finalidade de “influenciar o processo eleitoral”.

Antes disso, o fundador do Telegram, próximo do Kremlin, Pavel Durov, acusou, por sua vez, o governo de França de ter tentado interferir nas eleições: “Pediram-nos para silenciar vozes conservadoras. Eu recusei categoricamente. O Telegram não vai restringir as liberdades dos utilizadores romenos ou bloquear os canais políticos”. No entanto, Paris desmentiu estas informações.

Na sua mensagem de parabéns no X, Emmanuel Macron não deixou de reagir a estas movimentações. “Apesar das numerosas tentativas de manipulação, os romenos escolheram esta noite a democracia, o estado de direito e a União Europeia”, disse o Presidente francês, assegurando que Paris está ao lado de Bucareste para “fortalecer a parceria e trabalhar juntos rumo a uma Europa mais forte, soberana e independente”.

Entre Bruxelas, Moscovo e até Washington, os romenos mobilizaram-se e impediram a vitória de um candidato que poderia afastar o país do caminho que empreendeu desde o fim do comunismo, votando por manter a proximidade à UE e à NATO. Ainda assim, num mundo cada vez mais conturbado e com instabilidade interna, Nicușor Dan não vai ter uma tarefa fácil pela frente.

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