De JAIME NOGUEIRA PINTO. Resultante em uma
síntese que só gostaria que me ficasse gravada numa memória a encolher.
Temos Papa
Pensando nos fundamentalistas mais
torquemadianos e nos facilitistas mais libertários, Leão XIV, na sua homilia na
Capela Sistina de 9 de Maio, falou do modo como o mundo contemporâneo vê a fé
cristã.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 17 mai. 2025, 00:1813
Para
os que somos católicos, o Papa é o vigário de Cristo na terra e a sua eleição é
um acto que resulta do discernimento do Colégio dos Cardeais assistido pelo
Espírito Santo. Por isso, independentemente de significados políticos,
aceitamos e obedecemos ao sucessor de Pedro em matérias de Fé e costumes
expressa ex cathedra.
Infelizmente, por contágio da
ignorância jornalística e comentadora e pelo sectarismo dos que, sendo ou
dizendo-se católicos ou estando declaradamente fora da Igreja, parecem não
perceber que o
Papa nunca poderá ser nem um líder de “direita musculada” (como uns queriam)
nem um líder de “esquerda libertária” (como queriam outros).
Sem dúvida que os papas também acabam
por fazer política e que os seus actos também têm significado político: falando
dos últimos, poder-se-ia dizer que João
Paulo II e Bento XVI estavam mais depressa “à direita” e o papa Francisco mais
“à esquerda”. Mas na fé e costumes, a regra foi a “hermenêutica de continuidade” de que falava o papa Ratzinger, querendo
referir-se à linha geral da ortodoxia, que é a linha da Igreja dos Apóstolos e
dos Mártires.
Uma
continuidade no essencial, que procura guiar espiritualmente a Igreja em toda a
sua diversidade de carismas ou em toda a sua catolicidade ou universalidade,
não deixando nunca de estar atenta ao mundo.
Lembro-me do Concílio Vaticano II, não só pelas mudanças na liturgia, mas
por uma certa liberalização a que alguns de nós, de formação “pré-conciliar”,
demorámos a habituar-nos.
De qualquer forma, as mudanças propostas por Roma em determinadas matérias sempre
contemplaram “isenções” ou uma certa aculturação, uma adesão ou rejeição
pessoal ou regional. Por exemplo, onde foi mal recebida e até motivo de
escândalo a recente bênção extra-litúgica, entendida por muitos, nomeadamente pela Conferência Episcopal
Africana, como uma bênção aos “casais irregulares”, o Papa Francisco lembrou o seu carácter “facultativo”, ressalvando que, de qualquer forma, o
documento Fiducia suplicansnão vinha sancionar ou legitimar “uniões
irregulares”, homossexuais
ou outras, mas apenas propor uma bênção que fosse sinal do amor incondicional
de Deus por cada um dos Seus filhos, qualquer que fosse a sua circunstância de
vida.
A Igreja não é do mundo, mas está no
mundo; é feita de homens e tem de estar atenta à sua natureza. Uma
natureza que muda pouco, no essencial, embora mudem as sociedades, as comunidades,
os valores colectivos.
A Surpresa
Leão XIV foi uma surpresa. Esperava-se que a escolha recaísse num
italiano, Pietro Parolin, um diplomata de carreira na Secretaria de Estado,
discreto e próximo de Francisco; ou em Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, presidente da Conferência Episcopal Italiana, antigo
pároco de Santo Egídio e ligado ao processo de paz de Moçambique. Para os conservadores havia outros
nomes, como o cardeal Peter
Erdo, arcebispo de
Budapeste, um
conservador “moderado”, com o pecado maior para a esquerda de ser relativamente
próximo do primeiro-ministro Viktor Orbán; ou, ainda o tão ou mais temido cardeal Robert
Sarah, o cardeal guineense, tradicionalista e crítico do secularismo e da
ideologia de género.
Não faltaram, entre os observadores mais
atentos – que não são geralmente os mais ouvidos e publicitados nos media – denúncias do perigo que representaria uma
escolha de qualquer uma destas figuras, mais “à esquerda”, ou mais “à direita”.
Falou-se mesmo em cisma. Conheço
pessoalmente Parolin e
Zuppi, os dois candidatos italianos “progressistas”, e não creio que fossem contestar qualquer verdade
da Fé. Como também não creio que os candidatos conservadores fossem
restabelecer o Santo Ofício.
Mas, à cautela, a
escolha foi para um norte-americano-peruano,
vindo de Chicago e missionário na América hispânica. Robert
Francis Prevost é de Dolton (Illinois), a sul de Chicago, paróquia
de St. Mary of the Assumption. Frequentou
o seminário dos Agostinhos, em Holland (Michigan), e entrou para a Ordem de
Santo Agostinho. Estudou,
entre outras coisas, Matemática, Filosofia e Teologia em Filadélfia e em Roma.
Foi padre missionário e bispo no Peru e
também superior da sua ordem entre 2001 e 2013. Francisco fê-lo bispo
de Chiclayo, no Peru, em 2014, onde permaneceu até Janeiro de 2023, quando veio para Roma, para
prefeito de Dicastério para os Bispos. Foi feito cardeal em Setembro de 2023.
O outro Leão
“Um Papa calmo”, foi o
título do diário italiano Corriere della Sera, ao anunciar a eleição de Prevost. O primeiro sinal, e importante, foi a escolha do nome,
Leão, numa homenagem a Leão XIII, o papa da Rerum Novarum, “das coisas novas”. Leão XIII foi um papa de longo
pontificado, 25 anos, (1878-1903), os anos finais do século XIX; um papa que
teve de gerir a Igreja e a Santa Sé nos mais que conturbados tempos em que o
socialismo revolucionário enfrentava um capitalismo ainda selvagem. Foi um papa
que viu que a Igreja de Cristo não podia ficar indiferente ao lado moral,
ético, religioso, das categorias políticas e económicas que determinavam a vida
dos homens. E foi considerando
que a Fé e a
Justiça não eram
alheias às escolhas relativamente à
Propriedade, ao Estado, ao Trabalho, à Liberdade que procurou, através do Catolicismo Social, criar
uma “terceira via” entre os excessos capitalistas e socialistas.
Antes da “RERUM NOVARUM” de 1891, Leão XIII publicara outra encíclica, Libertas Praestantissimum (1888), um
texto em que procurava abrir uma Igreja ainda muito fiel à Igreja Tridentina e ao tradicionalismo
pré-revolucionário aos novos tempos, sem deixar de denunciar os perigos do
liberalismo radical, que levava sempre ao relativismo moral. Leão XIII saudou também, nesse ano de 1888, a
abolição da escravatura no Brasil, pela Princesa Isabel, com a Lei Áurea. Os cafeeiros, proprietários dos escravos,
não gostaram da abolição sem indemnização e instigaram nos quarteis a
conspiração para a proclamação da República – que aconteceu um ano e meio
depois, em Novembro de 1889. E não nos podemos esquecer que, logo no
início do seu longo pontificado, na encíclica Aeterni Patris, de 1879, tinha defendido o renascimento do Tomismo, da teologia e filosofia de
São Tomás de Aquino, como modo de enfrentar o mundo moderno.
Depois
da Rerum
Novarum e nesta
mesma linha de estabelecer pontes entre o passado e o presente, Leão XIII
procurou também, em 1892, pela Encíclica Inter Sollicitudines, promover o “ralliement” dos católicos franceses às
instituições republicanas, o que não foi bem recebido nos meios tradicionalistas.
Este esforço de Leão XIII de acabar com a identificação absoluta
dos católicos com a Monarquia e de os reconciliar com a República Jacobina ia
ser comprometido pelo Caso Dreyfus
e pela grande divisão que poria a
maioria dos católicos entre os “anti-Dreyfusards” (embora os “democratas
cristãos”, os católicos liberais e Charles Péguy, que era patriota e católico,
fossem dreyfusards). Mas os republicanos franceses vieram a
radicalizar a acção anti-católica com as leis de separação da Igreja e do
Estado de Aristide Briand (1905) e
uma perseguição muito orientada por Émile Combes, um seminarista convertido ao
ateísmo.
Um sacerdote preparado, com a
experiência e a cultura do cardeal Prevost, escolheu, depressa mas bem, o nome
Leão. E
não o terá feito pensando em Leão X, o papa Médici (1513-1521), cardeal desde
os 14 anos e membro do Colégio dos Cardeais a partir dos 16, que se opôs, no
conclave de 1492, à escolha de Rodrigo Borgia para papa (Alexandre VI) e que,
em 1517, depois de eleito, apanharia em cheio com Lutero e a ruptura luterana.
Não o terá também feito para homenagear o primeiro papa Leão, São Leão Magno,
doutor da Igreja, que em 452 foi ao encontro do huno Átila para que desistisse
da invasão da Itália. Foi com certeza Leão XIII o Leão que
inspirou o cardeal Prevost, nascido nos Estados Unidos, missionário nos ermos
do Peru, fluente em italiano, espanhol e inglês, monge agostinho e, por isso,
provavelmente também marcado pelo pessimismo antropológico do seu patrono.
Libertários e cavernícolas
São referências importantes num mundo em que os católicos, os
cristãos, os crentes – e os descrentes – precisam mais do que nunca de pensar e
reflectir fora das suas bolhas, naturais ou artificiais, criadas e
multiplicadas por uma informação geral mal informada e deformadora que, aos
primeiros anúncios do novo Papa, se
concentrou em chamar-lhe “o
papa anti-Trump”, citando
uma passagem em que contrariara uma opinião de J. D. Vance sobre a ordo amoris,
como se de uma excomunhão se tratasse. E já começaram a aparecer as
inevitáveis fotografias manipuladas de um falso encontro entre Leão XIV e Donald
Trump, com o Papa a deixar
acintosamente o presidente norte-americano de mão no ar, recusando o
cumprimento. É certo que também se têm publicado, noutras
bolhas, críticas delirantes ao novo papa. Nas mais cavernícolas, chegou a
dizer-se que o Papa não passava de um “comunista do Perú” e que era, na
verdade, um “anti-Papa”, já que tinha sido feito cardeal pelo “anti-Papa
Francisco”. A partir daqui, só apelando à
infinita misericórdia divina…
Talvez consciente destes desaforos e
pensando nos fundamentalistas mais torquemadianos e nos facilitistas mais
libertários, Leão XIV, na sua homilia na Capela Sistina de
Sexta-Feira, 9 de Maio, o dia seguinte à eleição, tenha falado do modo como o
mundo contemporâneo vê a fé cristã. E
que a vê como “absurda”, com uma coisa para “pobres de espírito” pouco
inteligentes, quando comparada com as “maravilhas do mundo novo – a
tecnologia, o dinheiro, o sucesso, o poder, o prazer”. E que,
por isso, os crentes eram “ridicularizados,
desafiados, desprezados ou, quando tanto, tolerados e lamentados”. E o mais
grave era essa atitude de hostilidade ou indiferença tolerante perante os
crentes não existir apenas entre os “não-crentes”, mas também entre muitos
cristãos baptizados, que acabavam por
viver num estado de “ateísmo prático”.
Estas palavras mostram que Leão XIV,
como o seu antecessor e homónimo Leão XIII, sabe em que mundo vive – e sabe do
que fala, para quem fala e por quem fala.
Que Deus o conserve.
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA IGREJA
CATÓLICA RELIGIÃO SOCIEDADE PAPA LEÃO XIV
COMENTÁRIOS (de 13)
Isabel Amorim > Novo Assinante: Está a passar um atestado do quê a Jaime N. Pinto??
Não se enxerga?! Este Senhor com uma bagagem cultural como há poucos neste
país não vive à custa de avenças, não precisa, você não sabe ou não
entende? Todos nós só temos a aprender com ele e que sorte que temos. Só
uma pessoa ressabiada e com falta de conhecimento sobre quem está a comentar
para dizer um disparate tamanho. Mas que confiança é essa? Tenha respeito e
saiba distinguir com quem pode fazer esse tipo de comentário básico e escusado.
Vá lá para o BE ou sucedâneos interagir desse modo, lá são todos assim, básicos
e iguais e não receptivos a pensarem, estudarem e aprenderem
Licínio Bingre do Amaral: Que Deus conserve o Papa.
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