sábado, 17 de maio de 2025

Mais uma análise magistral


De JAIME NOGUEIRA PINTO. Resultante em uma síntese que só gostaria que me ficasse gravada numa memória a encolher.

Temos Papa

Pensando nos fundamentalistas mais torquemadianos e nos facilitistas mais libertários, Leão XIV, na sua homilia na Capela Sistina de 9 de Maio, falou do modo como o mundo contemporâneo vê a fé cristã.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 17 mai. 2025, 00:1813

Para os que somos católicos, o Papa é o vigário de Cristo na terra e a sua eleição é um acto que resulta do discernimento do Colégio dos Cardeais assistido pelo Espírito Santo. Por isso, independentemente de significados políticos, aceitamos e obedecemos ao sucessor de Pedro em matérias de Fé e costumes expressa ex cathedra.

Infelizmente, por contágio da ignorância jornalística e comentadora e pelo sectarismo dos que, sendo ou dizendo-se católicos ou estando declaradamente fora da Igreja, parecem não perceber que o Papa nunca poderá ser nem um líder de “direita musculada” (como uns queriam) nem um líder de “esquerda libertária” (como queriam outros).

Sem dúvida que os papas também acabam por fazer política e que os seus actos também têm significado político: falando dos últimos, poder-se-ia dizer que João Paulo II e Bento XVI estavam mais depressa “à direita” e o papa Francisco mais “à esquerda”. Mas na fé e costumes, a regra foi a “hermenêutica de continuidadede que falava o papa Ratzinger, querendo referir-se à linha geral da ortodoxia, que é a linha da Igreja dos Apóstolos e dos Mártires.

Uma continuidade no essencial, que procura guiar espiritualmente a Igreja em toda a sua diversidade de carismas ou em toda a sua catolicidade ou universalidade, não deixando nunca de estar atenta ao mundo.

Lembro-me do Concílio Vaticano II, não só pelas mudanças na liturgia, mas por uma certa liberalização a que alguns de nós, de formação “pré-conciliar”, demorámos a habituar-nos.

De qualquer forma, as mudanças propostas por Roma em determinadas matérias sempre contemplaram “isenções” ou uma certa aculturação, uma adesão ou rejeição pessoal ou regional. Por exemplo, onde foi mal recebida e até motivo de escândalo a recente bênção extra-litúgica, entendida por muitos, nomeadamente pela Conferência Episcopal Africana, como uma bênção aos “casais irregulares”, o Papa Francisco  lembrou o seu carácter “facultativo”, ressalvando que, de qualquer forma, o documento Fiducia suplicansnão vinha  sancionar ou legitimar “uniões irregulares, homossexuais ou outras, mas apenas propor uma bênção que fosse sinal do amor incondicional de Deus por cada um dos Seus filhos, qualquer que fosse a sua circunstância de vida.

A Igreja não é do mundo, mas está no mundo; é feita de homens e tem de estar atenta à sua natureza. Uma natureza que muda pouco, no essencial, embora mudem as sociedades, as comunidades, os valores colectivos.

A Surpresa

Leão XIV foi uma surpresa. Esperava-se que a escolha recaísse num italiano, Pietro Parolin, um diplomata de carreira na Secretaria de Estado, discreto e próximo de Francisco; ou em Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, presidente da Conferência Episcopal Italiana, antigo pároco de Santo Egídio e ligado ao processo de paz de Moçambique. Para os conservadores havia outros nomes, como o cardeal Peter Erdo, arcebispo de Budapeste, um conservador “moderado”, com o pecado maior para a esquerda de ser relativamente próximo do primeiro-ministro Viktor Orbán; ou, ainda o tão ou mais temido cardeal Robert Sarah, o cardeal guineense, tradicionalista e crítico do secularismo e da ideologia de género.

Não faltaram, entre os observadores mais atentos – que não são geralmente os mais ouvidos e publicitados nos media – denúncias do perigo que representaria uma escolha de qualquer uma destas figuras, mais “à esquerda”, ou mais “à direita”. Falou-se mesmo em cisma. Conheço pessoalmente Parolin e Zuppi, os dois candidatos italianos “progressistas”, e não creio que fossem contestar qualquer verdade da Fé. Como também não creio que os candidatos conservadores fossem restabelecer o Santo Ofício.

Mas, à cautela, a escolha foi para um norte-americano-peruano, vindo de Chicago e missionário na América hispânica. Robert Francis Prevost é de Dolton (Illinois), a sul de Chicago, paróquia de St. Mary of the Assumption. Frequentou o seminário dos Agostinhos, em Holland (Michigan), e entrou para a Ordem de Santo Agostinho. Estudou, entre outras coisas, Matemática, Filosofia e Teologia em Filadélfia e em Roma.

Foi padre missionário e bispo no Peru e também superior da sua ordem entre 2001 e 2013. Francisco fê-lo bispo de Chiclayo, no Peru, em 2014, onde permaneceu até Janeiro de 2023, quando veio para Roma, para prefeito de Dicastério para os Bispos. Foi feito cardeal em Setembro de 2023.

O outro Leão

Um Papa calmo”, foi o título do diário italiano Corriere della Sera, ao anunciar a eleição de Prevost. O primeiro sinal, e importante, foi a escolha do nome, Leão, numa homenagem a Leão XIII, o papa da Rerum Novarum, “das coisas novas”. Leão XIII foi um papa de longo pontificado, 25 anos, (1878-1903), os anos finais do século XIX; um papa que teve de gerir a Igreja e a Santa Sé nos mais que conturbados tempos em que o socialismo revolucionário enfrentava um capitalismo ainda selvagem. Foi um papa que viu que a Igreja de Cristo não podia ficar indiferente ao lado moral, ético, religioso, das categorias políticas e económicas que determinavam a vida dos homens. E foi considerando que a Fé e a Justiça não eram alheias às escolhas relativamente à Propriedade, ao Estado, ao Trabalho, à Liberdade que procurou, através do Catolicismo Social, criar uma “terceira via” entre os excessos capitalistas e socialistas.

Antes da “RERUM NOVARUM” de 1891, Leão XIII publicara outra encíclica, Libertas Praestantissimum (1888), um texto em que procurava abrir uma Igreja ainda muito fiel à Igreja Tridentina e ao tradicionalismo pré-revolucionário aos novos tempos, sem deixar de denunciar os perigos do liberalismo radical, que levava sempre ao relativismo moral. Leão XIII saudou também, nesse ano de 1888, a abolição da escravatura no Brasil, pela Princesa Isabel, com a Lei Áurea. Os cafeeiros, proprietários dos escravos, não gostaram da abolição sem indemnização e instigaram nos quarteis a conspiração para a proclamação da República – que aconteceu um ano e meio depois, em Novembro de 1889. E não nos podemos esquecer que, logo no início do seu longo pontificado, na encíclica  Aeterni Patris, de 1879, tinha defendido o renascimento do Tomismo, da teologia e filosofia de São Tomás de Aquino, como modo de enfrentar o mundo moderno.

Depois da Rerum Novarum e nesta mesma linha de estabelecer pontes entre o passado e o presente, Leão XIII procurou também, em 1892, pela Encíclica Inter Sollicitudines, promover o “ralliement” dos católicos franceses às instituições republicanas, o que não foi bem recebido nos meios tradicionalistas. Este esforço de Leão XIII de acabar com a identificação absoluta dos católicos com a Monarquia e de os reconciliar com a República Jacobina ia ser comprometido pelo Caso Dreyfus e pela grande divisão que poria a maioria dos católicos entre os “anti-Dreyfusards” (embora os “democratas cristãos”, os católicos liberais e Charles Péguy, que era patriota e católico, fossem dreyfusards). Mas os republicanos franceses vieram a radicalizar a acção anti-católica com as leis de separação da Igreja e do Estado de Aristide Briand (1905) e uma perseguição muito orientada por Émile Combes, um seminarista convertido ao ateísmo.

Um sacerdote preparado, com a experiência e a cultura do cardeal Prevost, escolheu, depressa mas bem, o nome Leão. E não o terá feito pensando em Leão X, o papa Médici (1513-1521), cardeal desde os 14 anos e membro do Colégio dos Cardeais a partir dos 16, que se opôs, no conclave de 1492, à escolha de Rodrigo Borgia para papa (Alexandre VI) e que, em 1517, depois de eleito, apanharia em cheio com Lutero e a ruptura luterana. Não o terá também feito para homenagear o primeiro papa Leão, São Leão Magno, doutor da Igreja, que em 452 foi ao encontro do huno Átila para que desistisse da invasão da Itália. Foi com certeza Leão XIII o Leão que inspirou o cardeal Prevost, nascido nos Estados Unidos, missionário nos ermos do Peru, fluente em italiano, espanhol e inglês, monge agostinho e, por isso, provavelmente também marcado pelo pessimismo antropológico do seu patrono.

Libertários e cavernícolas

São referências importantes num mundo em que os católicos, os cristãos, os crentes – e os descrentes – precisam mais do que nunca de pensar e reflectir fora das suas bolhas, naturais ou artificiais, criadas e multiplicadas por uma informação geral mal informada e deformadora que, aos primeiros anúncios do novo Papa, se concentrou em chamar-lhe “o papa anti-Trump”, citando uma passagem em que contrariara uma opinião de J. D. Vance sobre a ordo amoris, como se de uma excomunhão se tratasse. E já começaram a aparecer as inevitáveis fotografias manipuladas de um falso encontro entre Leão XIV e Donald Trump, com o Papa a deixar acintosamente o presidente norte-americano de mão no ar, recusando o cumprimento. É certo que também se têm publicado, noutras bolhas, críticas delirantes ao novo papa. Nas mais cavernícolas, chegou a dizer-se que o Papa não passava de um “comunista do Perú” e que era, na verdade, um “anti-Papa”, já que tinha sido feito cardeal pelo “anti-Papa Francisco”. A partir daqui, só apelando à infinita misericórdia divina

Talvez consciente destes desaforos e pensando nos fundamentalistas mais torquemadianos e nos facilitistas mais libertários, Leão XIV, na sua homilia na Capela Sistina de Sexta-Feira, 9 de Maio, o dia seguinte à eleição, tenha falado do modo como o mundo contemporâneo vê a fé cristã. E que a vê como “absurda”, com uma coisa para “pobres de espírito” pouco inteligentes, quando comparada com asmaravilhas do mundo novo – a tecnologia, o dinheiro, o sucesso, o poder, o prazer”. E que, por isso, os crentes eram “ridicularizados, desafiados, desprezados ou, quando tanto, tolerados e lamentados”. E o mais grave era essa atitude de hostilidade ou indiferença tolerante perante os crentes não existir apenas entre os “não-crentes”, mas também entre muitos cristãos baptizados, que acabavam por viver num estado de “ateísmo prático”.

Estas palavras mostram que Leão XIV, como o seu antecessor e homónimo Leão XIII, sabe em que mundo vive – e sabe do que fala, para quem fala e por quem fala.

Que Deus o conserve.

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COMENTÁRIOS (de 13)

Isabel Amorim > Novo Assinante: Está a passar um atestado do quê a Jaime N. Pinto?? Não se enxerga?! Este Senhor com uma bagagem cultural como há poucos neste país não vive à custa de avenças, não precisa, você não sabe ou não entende? Todos nós só temos a aprender com ele e que sorte que temos. Só uma pessoa ressabiada e com falta de conhecimento sobre quem está a comentar para dizer um disparate tamanho. Mas que confiança é essa? Tenha respeito e saiba distinguir com quem pode fazer esse tipo de comentário básico e escusado. Vá lá para o BE ou sucedâneos interagir desse modo, lá são todos assim, básicos e iguais e não receptivos a pensarem, estudarem e aprenderem

Licínio Bingre do Amaral: Que Deus conserve o Papa.

 

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