terça-feira, 27 de maio de 2025

A maior analogia cultural

 

Justifica, talvez, uma maior proximidade no relacionamento entre os povos. Os povos intelectualmente mais desenvoltos, como são os nórdicos, tratam os de capacidades culturais mais reduzidas, naturalmente, com a distanciação devida, conquanto no respeito, distante embora, por esses, dentro dos princípios humanistas que aprenderam de pequeninos. Os nossos “indígenas”, por princípio andavam descalços, salvo os que tinham cargos mais qualificados. O certo é que quando eu era pequena, também brinquei descalça, no terreno por trás da nossa casa. Por isso nunca estranhei que o nosso criado também o andasse. Mas um dia, vieram inúmeros sul-africanos negros, e respectivas mulheres, a Lourenço Marques, e foi então que me senti envergonhada, pensando na nossa gente descalça. Os ingleses ensinaram o povo sul-africano a vestir-se e a calçar-se convenientemente, não eram como nós, que não ensinávamos as boas maneiras trazidas pela educação racional. Mas, enfim, não se pode generalizar assim. O Dr. Torres da Académica, ilustre médico africano, assistiu ao parto de um dos meus filhos. Por outro lado, a nossa vizinha D. Clotilde, todos os meses arranjava um moleque, pois passava os dias a ralhar, com tal entusiasmo que o moleque fugia antes do fim de cada mês, e assim jamais teve que pagar o vencimento dos criados. O certo é que os criados da nossa casa ficaram sempre anos, interrompidos pela tropa ou outros factores, mas guardo no meu álbum a foto do Finias, que foi para a Índia e de lá mandou uma foto que me era destinada, então estudante em Coimbra. Outros casos há de modéstia no tratamento que justificam a tal tese da maior acessibilidade dos portugueses modestos ao mundo dos povos também assim considerados por nós, pioneiros nas descobertas dos mares e terras distantes e mais simplórios do que os descobridores seguintes. Daí, talvez essa maior difusão da língua portuguesa e também espanhola. Mas as línguas mais universais serão sempre o francês e o inglês, por esse mundo fora, julgo eu, e hoje em dia mais do que nunca…

Mas nada disto conta, afinal. Leiamos, isso sim, o relevante estudo do Historiador e romancista JOÃO PEDRO MARQUES.

Gilberto Freyre tinha em parte razão

Historiadores estrangeiros notaram, por exemplo, que após três séculos de ocupação neerlandesa na Indonésia ninguém fala por lá holandês ao contrário do que se passa onde Portugal esteve igual período

JOÃO PEDRO MARQUES Historiador e romancista

OBSERVADOR, 26 mai. 2025, 00:1919

Por norma associa-se a palavra lusotropicalismo a Gilberto Freyre, o autor de Casa Grande e Senzala (1933), o que se justifica, pois foi esse sociólogo brasileiro que a utilizou pela primeira vez, e que desenvolveu toda uma teoria que, no fundamental, defende que o negro, o índio e, também, eventualmente, o asiático, deram um contributo muito importante na formação do Brasil e das outras colónias lusotropicais; que os portugueses tinham uma capacidade especial de se relacionar e confraternizar com outros povos, sobretudo os dos trópicos; que praticavam nessas regiões um cristianismo fraternal caracterizado pela tolerância, a brandura e a humanidade, e quase não tinham preconceitos raciais; e que manifestavam apetência para a miscigenação, dando origem ao mestiço, relativamente ao qual os progenitores portugueses revelariam uma atitude de grande aceitação, algo que, excepção feita aos espanhóis, seria raro entre os povos europeus modernos.

Em suma, o lusotropicalismo afirma a ideia de especificidade do colonialismo português. Haveria um “modo português de estar no mundo”, isto é, uma maneira específica de os portugueses se relacionarem com outros povos e que seria mais branda ou mais humana do que a de outros europeus.

A primeira grande crítica ao lusotropicalismo veio de Charles R. Boxer, o historiador e antigo militar inglês que em Race Relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415-1825, publicado em 1963, afirmou que o lusotropicalismo não teria fundamento histórico, pelo contrário. Segundo Boxer, os portugueses, longe de serem excepcionais, haviam sido tão racistas como outros europeus. O inglês contestou, igualmente, a ideia de que os portugueses tivessem tido uma forma tolerante e suave de se ligarem à gente dos trópicos, que tivesse havido uma integração harmoniosa, apontando, ao invés, a sua violência e conduta discriminatória em relação aos povos colonizados. A miscigenação que efectivamente se podia constatar nas possessões portuguesas não significaria que houvesse ausência de preconceito de cor, mas seria apenas uma decorrência da falta de mulheres brancas. Em vez de miscigenação amorosa o que teria havido era, em boa medida, estupro.

Alvo dessa e de outras críticas, associado ao Estado Novo, que a partir de certa altura o explorou de forma manifesta tanto do ponto de vista ideológico como político, o lusotropicalismo caiu em desgraça e passou a ser considerado um corpo teórico inteiramente enganador. A esquerda, sobretudo, como campeã do pós-colonialismo, isto é, do combate contra as ideias que o colonialismo terá criado acerca dos povos colonizados, ridicularizou-o, amachucou-o e deitou-o para o caixote do lixo das ideias. Mais. Apupou e tentou amesquinhar quem se atrevesse a defendê-lo. Há cinco anos José Ribeiro e Castro assumiu-se como lusotropicalista. Explicou que “o lusotropicalismo não é um negacionismo, nem conformismo”, mas sim “uma ferramenta fundamental: um povo que tem de si mesmo a ideia de que não é racista vincula-se a não o ser, a reprimir tudo o que ofenda esse código ético e a levar sempre mais longe esse compromisso”. Foi de pronto contrariado pela historiadora Cláudia Castelo que viu em Ribeiro e Castro a personificação do efeito que a propaganda salazarista e lusotropicalista teria tido nas mentes das pessoas, ou seja, via nele um exemplo do “estado de ilusão e da preguiça mental (sic) que o Estado Novo criou”. Na perspectiva de Cláudia Castelo o ex-presidente do CDS seria “o resultado consciente e pacificado (sic) da eficácia do aparelho político-ideológico do Estado Novo (…) na propagação de uma imagem essencialista do povo português com traços positivos, na exaltação de uma suposta excepcionalidade da colonização portuguesa e na inclusão de uma norma (mas não de uma prática) anti-racista”.

Há no artigo de Cláudia Castelo um arrogante tom de comiseração por José Ribeiro e Castro e pelos que, como ele, se limitariam — na óptica da historiadora — a papaguear, de forma acéfala, aquilo que o Estado Novo lhes teria inculcado nas décadas de 1950 e 1960. E com este tipo de tiradas agrestes, com esta anatematização das mentes discordantes, julga a esquerda que arruma de vez o problema. Todavia, ele é mais persistente porque tem subjacente algo que é observável e, às vezes, mensurável. Na verdade, parte das ideias de Freyre assentam numa fundamentação anterior a elas, e são, aqui ou além, confirmadas pela investigação actual — foram, aliás, essas informações mais recentes que me levaram a escrever este artigo.

Comecemos pela fundamentação antiga para sublinhar que algumas das convicções de Gilberto Freyre já haviam sido avançadas por outros nos séculos XVIII e XIX — eventualmente até antes — não apenas em Portugal, mas também no estrangeiro. Quem ler a Histoire philosophique et politique des Deux Indes, uma obra colectiva de 1772, atribuída ao abade Raynal, encontrará apreciações positivas — em termos relativos, entenda-se — sobre a colonização portuguesa. Esse tipo de apreciações encontra-se, também, em De la littérature des nègres, um livro do abade Grégoire, publicado em 1808, em que se transmite a ideia de que, comparados com os povos do norte da Europa, os portugueses (e os espanhóis) tratariam melhor os indígenas e os escravos e negros livres. Em 1819, o por vezes designado primeiro socialista português, Francisco Solano Constâncio, considerou, nos Annaes das Sciencias, das Artes e das Letras, que existiria um sistema português de relacionamento com os negros, sistema que constituiria a coroa de glória da relação de Portugal com África e que se resumia no “espírito de mansidão e de fraternidade” com que, no geral, Portugal tratara as nações indígenas, nas quais introduzira, “por meios de doçura”, o cristianismo e os conhecimentos técnicos que então possuía. Enquanto vários autores estrangeiros consideravam os africanos como animais destinados por natureza à escravidão, o sistema português, instituído desde os primórdios, aceitava, como princípio, que os negros eram “homens como os brancos”, susceptíveis de educação.

Essas e outras ideias semelhantes continuaram a ser explicitadas ao longo do século XIX, em particular no seu último quartel, por pessoas que — e suponho que Cláudia Castelo não me irá desmentir — nunca estiveram sujeitas às inculcações ideológicas do Estado Novo. A mente de vários historiadores estrangeiros contemporâneos — passo, agora, às fundamentações mais recentes — também não foram moldadas pelos ideólogos e propagandistas de Salazar. Todavia esses historiadores não podem deixar de notar que havia qualquer coisa de diferente na forma como Portugal se relacionou com os trópicos. Como nota um deles, após três séculos de ocupação colonial neerlandesa na Indonésia, ninguém fala por lá holandês, ao contrário do que se passa nos pontos do globo onde Portugal esteve igual período de tempo. Mesmo em algo tão negativo e trágico como foi o tráfico transatlântico de escravos havia aquilo a que David Eltisque é talvez a maior autoridade actual nessa área da História — chama “o sistema português” que o diferenciava dos outros.

Para pior? Aparentemente não, e isso traduz-se no número muito baixo de revoltas a bordo de navios portugueses e brasileiros: apenas 11 num total de 572 já identificadas, em marcado contraste com as 488 rebeliões em navios britânicos, franceses, holandeses e dinamarqueses. Outro dado ilustrativo: da zona da Senegâmbia-Guiné partiram apenas 12% do total de escravos transportados para as Américas, mas foi nesses navios que se deram 40% das revoltas a bordo — todavia, nenhuma delas ocorreu em navios saídos dos portos portugueses de Bissau e Cacheu.

Estes quantitativos tão baixos — ou, até, nulos — não resultam de nenhum milagre nem do acaso, mas sim das especificidades do “sistema português”, as tais especificidades que Gilberto Freyre e outros antes dele, assinalaram. É que muitos membros da tripulação dos negreiros que partiam das cidades portuguesas ou brasileiras, eram escravos ou antigos escravos, alguns dos quais tinham a esperança de comprar cativos em África, para depois os revender no Brasil. O ponto importante, porém, não é esse, mas sim o facto de, diferentemente do que acontecia nos navios negreiros provenientes do norte da Europa, esses marítimos serem negros e de, em muitos casos, falarem as línguas dos desgraçados que iam ser embarcados. Isso era muito importante porque ajudava a tranquilizá-los. Convém ter presente que se instalara em África a aterradora crença de que o embarque equivalia a uma passagem para a terra dos mortos, onde os brancos trucidariam os negros e aproveitariam os seus corpos. A sua pele serviria para fabricar sapatos, os ossos para fazer pólvora, a carne para alimento, os seus membros espremidos produziriam óleo, etc. O terror que sentiam com a ideia do que os esperava não é difícil de imaginar. Ora, quando viam, entre os tripulantes dos navios, gente como eles que já fora para o outro lado do Atlântico e que de lá regressava, sã e salva, o nível de inquietação, de desespero e de potencial para a revolta diminuía substancialmente.

Eram coisas dessas que atestavam, mesmo no que teve de mais horrível, a especificidade da relação de Portugal com África. Mas houve, evidentemente, várias outras que a diferenciam da relação de dinamarqueses, franceses e outros europeus do norte com esse continente. Aliás bastará pensar que esses europeus não tiveram, na época do tráfico negreiro transatlântico, e ao contrário dos portugueses, os chamados “lançados”, isto é, homens que se lançavam, que se arriscavam, a viver com os negros, residindo entre eles à margem das directivas da Coroa e, às vezes, da própria civilidade cristã. Logo no século XV se estabeleceram vários lançados portugueses desde o Senegal à Serra Leoa, mas processos equivalentes ocorreram no Congo e, depois, em Angola, onde desde a segunda metade do século XVI os mais afoitos ou menos bafejados pela sorte se infiltraram pelos sertões, em busca de negócio. Vivendo como os naturais, estes aventureiros foram os primeiros europeus a tropicalizarem-se e casos houve em que conseguiram ligar-se pelo casamento às lideranças locais, forjando uma simbiose luso-africana. Estão aí as primeiras raízes do lusotropicalismo e foi apoiado nelas e noutras que Gilberto Freyre teorizou e tinha, em parte, razão. Sim, houve aspectos excepcionais na colonização portuguesa.

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COMENTÁRIOS (de 19)

Tim do A: Excelente artigo. Diz muito bem João Pedro Marques.                     Rosa Graça: Excelente.                         Maria Nunes: Muito bem Dr. João Pedro Marques.                   GateKeeper: Top 10.                 Manuel Lisboa: Caro João Pedro Marques tem razão. Uma vez mais. Eu, que nada aprecio o actual e execrável presidente dos Estados Unidos da América, reconheço que a medida tomada repõe correcção e, sobretudo, sanidade, quanto às tradições norte-americanas. Também concordo consigo que as chamadas "ordens executivas" presidenciais não chegam para erradicar as falsidades, superstições e preconceitos introduzidos pelo fanatismo woke ou lá como se chama esse conjunto de ideias sobre a História do ocidente, género e atitudes, que procuram insinuar e impor absurdos estúpidos e perversos; e, ao contrário do que clamam os defensores desses novos dogmas, não se trata de defender a diversidade, sim de corromper instituições, ciência e normas de sociabilidade existentes. Apenas mais duas observações. Não há História afro-americana. Aliás, trata-se de um conceito profundamente racista, pois induz a ideia de inferioridade ou superioridade. Afasta à partida os princípios de constante complementaridade e de interacção entre os habitantes do mesma área geográfica, os principais denominadores comuns das sociedades daqueles imensos territórios, que chamaram "novo mundo", independentemente da cor da pele e apreciações valorativas. A História de África existe e é tão ou mais complexa que, por exemplo, a História da Europa Ocidental; e também há História da América, que não se reduz aos Estados Unidos. Quanto a este último país, os escravos negros que lá chegaram passaram a fazer parte integrante do seu devir. Não há duas histórias: uma branca outra negra, após o início da colonização britânica de parte do respectivo território e, mais tarde, o início do hediondo comércio de escravos. Nos Estados Unidos, como no restante continente americano existe sim, de maneira autónoma, a História dos Ameríndios pré-colonial. O conceito afro-americano, histórica e culturalmente, não faz sentido.        Manuel Magalhaes: Apoiado!!!                     João Floriano: « .........contrariar uma ideologia que, do meu ponto de vista, é venenosa e que não me tenho cansado de denunciar e combater.» E que esse combate possa continuar por muitos e profícuos anos. Infelizmente, eu que não sou dado a profecias, vejo neste caso uma longa luta. Os wokes não vão desaparecer por decreto presidencial e neste aspecto dou razão a João Pedro Marques quando diz que o ideal seria uma amplo debate e ampla informação sobre o que o wokismo pretende fazer com a História Americana. «Não há machado que corte a raiz ao pensamento» cantava Manuel Freire e o wokismo na História é pensamento: distorcido, venenoso, mentiroso, mas mesmo assim pensamento. Temo que no futuro volte tudo ao mesmo ou ainda pior.                      JM Azevedo: Nem tudo o que vem do Trump, é mau. Muito bom.         Coxinho: Todo o meu acordo. JPM igual a si mesmo, a bem dos leitores.                     Vasco Silveira: Caro Senhor. Agradeço e felicito o oportuno, e corajoso, artigo, que critica, para mim com toda a razão, mas não destroi nem proíbe, nem apela a isso. O The Guardian criticar Donald Trump, é absolutamente expectável; já o The Economist ter anunciado em Outubro o programa de governo que Kamala aplicaria no "sua" administração, e ter (anti) Trump como matéria preponderante em todos os números, é bastante grave; também(quase) nunca viram problema ( até ao desastre do debate com Trump) na "liderança" de um Biden que não encontrava o caminho por onde tinha vindo, na "sua" casa. As pessoas não elegeram trump: apenas votaram em alguém que estava contra a destruição do seu mundo, da sua história, dos seu valores, como Biden, e a Kamala, que nem sabiam que o estavam, por incapacidade/degenerescência, e por incapacidade intelectual ( Kamala!). Cumprimentos         Miguel Magalhães: Bravo, João Pedro. Subscrevo e publiquei     Amandio Teixeira-Pinto: Levanto aqui, e em relação a pequenas nuances do artigo e da nossa "sempi-eterna" compreensão, a seguinte questão: - será que temos de ser tolerantes com quem pratica claramente a intolerância? Não é exactamente isso que eles (os wokes agressivos e  incendiários) querem da nossa parte? Que aceitemos o wokismo com espírito de diálogo e de colaboração?. Esta gente quer destruir-nos, simplesmente, des-truir-nos. Não esperem que seja tolerante quanto a isso.                   Carlos F. Marques: Parabéns pelo artigo.                   josé cortes > unknown unknown: Pois sim, se queremos uma anulação de efeito, temos de colocar carga de igual força e sinal contrário. Senão, só atenua o efeito negativo, ele fica lá na mesma                     Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!                    klaus muller > João Floriano: João, vou-lhe contar o que se passou comigo aqui há umas semanas. Fui jantar a casa dum casal amigo que tem uma filha com 16 ou 17 anos. A conversa, que começou com a questão da imigração, desviou-se para uma crítica ao movimento woke. A miúda, que desde sempre me pareceu normal, apanha uma fúria e começa a descompor-nos por não aceitarmos que o Ocidente foi tremendamente criminoso relativamente aos povos colonizados. Eu estava pasmado, o pais tentavam argumentar, mas ela dizia que não percebíamos nada do assunto pois não somos formados em História e que o professor de História tinha dito que etc., etc., etc.. Resumindo: O João tem razão quando diz que este movimento woke ainda está para durar e que se não fossem indivíduos como J.P.M. combatê-los, acabavam mesmo por dominar todo o nosso raciocínio. Pelos vistos eles já estão infiltrados no ensino, talvez até já o dominem.

 

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