Na generosidade. Eu explico: Enquanto se
tratou de condenar os povos coloniais, chutados em tempos para a sua metrópole,
ou para outros espaços menos irosos das suas opções, receberam-se de braços
abertos - ou mesmo de outros membros corporais - os “imigrantes” fugidos dos
seus países de origem, com a piedade de muitos, mas também a condenação, pelos
seguidores da cartilha piedosa, dos ex-colonos malfeitores dos tais imigrantes
actuais, conquanto esses houvessem dado basto contributo para o desenvolvimento
cultural destes e dos seus territórios. Mas as descolonizações, que chutaram os
colonos para as respectivas metrópoles, afugentaram também - e continuam –
muitos desses povos que os novos governantes seus parceiros de origem,
maltratam e expulsam, obrigando-os a fugir para os mesmos sítios a que
pertenciam os ex-colonos de lá saídos. Mas esses emigrantes naturais dos seus
terrenos pátrios, excederam-se na quantidade das suas respectivas emigrações, vindo
ocupar os mesmos terrenos que os colonos seus patronos ocuparam no seu retorno imposto
- no nosso caso português, por cravos rubros decisivos. E agora se vê que tais
emigrantes alastram a sua imigração por cá e por tantos mais locais do globo,
implicando a necessidade do seu reenvio às suas pátrias, coitados, provavelmente
receosos das políticas ameaçadoras dos governos ou governantes de que fugiram. Daí,
a preocupação, exposta por ALBERTO GONÇALVES: caso não se intervenha
politicamente, repatriando-os, como faz Trump com autoridade serena, seremos
nós os “engolidos” pelas avalanches desses imigrantes timoratos?
A
liberdade não está a imigrar para aqui
Ou ganhamos
juízo ou não tardará o tempo em que, a pretexto dos imigrantes que emigram do
“colectivismo”, seremos nós a correr dele.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 17
mai. 2025, 00:232
Por incrível que pareça, cada
imigrante miserável que surge por cá é um emigrante que fugiu à miséria de
outro sítio qualquer. Nos últimos
anos, tem-se debatido muito os destinos da imigração com “i” e muito pouco as
causas da emigração com “e”. Quer dizer, “debater” é força de
expressão: o Ocidente acolhe sem critério multidões de “ii”, os governos e a
universidade e os media atribuem ao remoto colonialismo a desgraceira que
motiva os “ee” e, a bem da harmonia cósmica, está o caso encerrado. Beliscar esse abençoado equilíbrio
constitui um acto de xenofobia e, provavelmente, de puro racismo, transtornos
gravíssimos que, à semelhança da micose fúngica, as pessoas educadas não ousam
exibir em público.
Por sorte, há pessoas sem modos que
começam a perguntar: porque é que nas conversas sobre migrações o ónus
recai sempre nos países de acolhimento, invariavelmente culpados seja lá do que
for, e não nos países de origem, invariavelmente inocentes de tudo?
Esta semana, as minhas amigas Margarida
Bentes Penedo e Teresa Nogueira Pinto apresentaram-me, através do YouTube, a Magatte Wade. Wade, que
nasceu no Senegal e vive no Texas, é uma empresária e – não quero ofender – uma
activista pelo progresso do seu continente natal, o progresso autêntico e não o
“progresso” das ladainhas. Em numerosas intervenções, a
senhora explica o que devia ser óbvio, e não escondido e calado: os milhões de desgraçados que deixam África rumo à
Europa e aos Estados Unidos são expelidos pela pobreza; a pobreza é da
responsabilidade dos africanos que tutelam os respectivos regimes e não de uma
conveniente “herança colonial” com costas largas; os
regimes em questão são oligarquias, naturalmente corruptas e de matriz
socialista; o socialismo nunca falha no que toca a espalhar penúria; a solução
para África não passa pela “ajuda”, a caridade que sob o véu “humanitário”
perpetua a dependência e afinal a desgraça daquela gente; África, salvo meia-dúzia de excepções embrionárias,
carece de liberdade económica. Vai-se
a ver e o “capitalismo
selvagem” é uma
invenção dos seus inimigos, para disfarçar a real selvajaria das alternativas. Para Wade, o socialismo é um “veneno” (sic) que oprime
e mata os seus vassalos: o socialismo, continua ela, é o pior dos colonialismos.
Não
custa extrapolar os recados de Magatte Wade ao resto do mundo nada livre, na
Ásia e na América Latina, cujos
habitantes escapam sem excepção a sistemas dedicados a venerar o Estado e a
suprimir o indivíduo. Acredite-se
ou não, são raras as lanchas e os iates de luxo que partem de Miami para aceder
à doçura nacionalizada de Havana. E, embora possa estar enganado, não
conheço êxodos massivos de suíços ou singapurenses a caminho da generosa
redistribuição da indigência na Argélia ou no Paquistão.
Por
regra, ainda que absurda para alguns, os seres humanos preferem a abundância,
ou pelo menos a possibilidade de adquirir uma parcelazinha da abundância, à
fome – e
deslocam-se, às vezes milhares e milhares de quilómetros, em conformidade, em
busca de lugares onde o mercado aberto, o direito à propriedade, a iniciativa
privada e demais chavões execrados pela academia e por comentadores de
“telejornal” permitem essa coisa mesquinha: a
esperança numa vida melhor. A
mera existência de migrações é a enésima prova de que o socialismo não
funciona.
Infelizmente, certas cabeças também não regulam bem. Ao permitir, e até incentivar, a entrada de
incontáveis imigrantes, os “líderes” (?) dos países ocidentais estão a abalar
as fundações do modelo que, com variações geográficas, nos permitiu décadas de
relativa prosperidade e conforto.
Apesar de aconchegar corações e expiar
remorsos coloniais, engordar em 10% ou 15% a percentagem das populações
autóctones com refugiados de marxismos exóticos e sortidos não pode correr bem.
Fazê-lo
em períodos breves e concentrados é a receita para um desastre em câmara não
demasiado lenta, um desastre previsível e, talvez, sem remédio. Além das evidentes consequências sociais
e “culturais”, da exploração à insegurança, há o pormenor da incapacidade, pública e privada, de responder à
procura na saúde, na educação, na habitação, no trabalho, no que calha.
Solução? Assim
pronta e eficaz, não imagino nenhuma. O que imagino, e que aliás já
está em curso, é a tentação de reforçar a intervenção dos Estados em proporção
directa ao crescimento da pressão demográfica. O que imagino é o reforço
exponencial da retórica (e da prática) assistencialista, um assistencialismo
necessariamente diluído nas vantagens e concentrado na minoria de
contribuintes. O que
imagino é a ruptura dos precários laços que uniam as sociedades e o advento de
poderes “altruístas”, prontos a velar por nós e a reinar com redobrada
facilidade sobre fragmentos submissos e depauperados. O
que imagino é o socialismo, e julgo que os “líderes” (?) dos países ocidentais
imaginam o mesmo. A diferença é que uns
tantos desejam-no.
A ironia é capaz de ser isto: ou
ganhamos juízo ou não tardará o tempo em que, a pretexto dos imigrantes que
emigram do “colectivismo”, seremos nós a correr dele. Consta que o Ruanda se
tornou capitalista e, surpresa das surpresas, anda a enriquecer com rapidez.
Vou apreçar casas por lá.
IMIGRAÇÃO MUNDO EMIGRAÇÃO SOCIALISMO POLÍTICA
COMENTÁRIOS
João Castro: Querem arranjar maneira de sustentar a base da
pirâmide do esquema de pensões público enquanto der. São os partidos
trabalhistas a correr para o precipício como sempre. Não há pior do que aquelas
ideologias que querem inventar empregos para toda a gente e depois nunca há
recursos para o que é preciso. Nem mão-de-obra, nem especialistas, nem
investidores, nem empreendedores, nem coisa nenhuma. Só carga fiscal, emigração
económica, resgates, pedidos de ajuda externa, mendicância de fundos da UE, e o
número de servidores públicos a bater recordes com investimento e serviço
públicos feitos numa lástima.
Eduardo Cunha: Excelente crónica. Parabéns.
F. Mendes: Espero que as coisas não corram tão mal
como sugerido pelo AG. Mas, lá que o risco existe, isso existe. Ainda assim,
devemos ser um pouco optimistas: excepto o BE, já ninguém se atreve a
defender a loucura socialista na imigração selvagem dos últimos anos. Lembro
que o BE quer pôr os imigrantes a votar ao fim de 4 anos de descontos para a
SS, dispensando o requisito da nacionalidade! A ideia, evidentemente, seria
arranjar um eleitorado a tempo de evitar o seu desaparecimento da vida
política. Isto não irá para a frente, pois os custos seriam incomportáveis.
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