quinta-feira, 29 de maio de 2025

O defeito está em nós


A generalização de uma ideia de liberdade sem entraves conduzindo ao desrespeito dos valores e ao próprio desprezo da História, que foi a revolução maior trazida nos cravos do pretensiosismo bacoco de falsos ditames, afastou, talvez definitivamente, a sensatez e o rigor crítico e autocrítico, para uma qualquer tentativa de procedimento mais cordato nas relações públicas. São vergonhosos, por exemplo, os programas televisivos entre diferentes adeptos políticos, os quais se engalfinham nas suas retóricas, no atropelo e sobreposição constantes das falas respectivas, sem que se ponha imediatamente travão a tais cenas de caricatura, que nem sequer é anedótica, porque nos atinge a todos, incluindo os canais televisivos que sem pudor nem respeito as permitem.

Do Benfica aos “herdeiros” de trotineta

Do trivial ao crucial, alguém tem de pensar nas péssimas respostas do país: da incapacidade nos elementares serviços do Estado à sufocante, estéril, ancestral burocracia que nos consome e tudo corrói.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 mai. 2025, 00:2024

1Ando há anos para ser assassinada por uma trotineta: apesar das restrições, deslizam pelos passeios destinados aos comuns mortais, rasam-nos pelos ombros como gatos silenciosamente velozes; surgem-nos com vertigem inesperada num sinal verde aberto para nós, confundem-se com o breu da noite.

Não sei quais as “autoridades” que legislam sobre isto, ou sequer se há quem vele ou zele por tão extraordinária possibilidade de assassínio. Que me lembre nunca vi um polícia a interceptar o voo rasante de uma trotineta num passeio. Mas se eu parar o carro vinte e sete segundos em segunda fila, primeiro, aqui d’el rei, e segundo ainda me podem pedir 30, ou 40 ou 50 euros, chamando “viatura” ao automóvel, o que confere logo uma gravidade despropositada à coisa.

As bicicletas, idem: têm o exclusivo do espaço público, são proprietárias da rua, das passagens de peões, de praças, avenidas, jardim e becos, dos cruzamentos, dos passeios (mas os estragos serão sempre connosco).

2Não é fácil perceber os portugueses. Instalaram-se de vez num desinteresse mortiço sobre o modo como são tratados pelo padrasto Estado e pelo seu poderosíssimo poder? Passaram procuração a um partido de protesto? Capitularam? É claro que aqui e ali tem havido “ melhorias” , aquela coisa do costume que por definição nunca é definitiva. Mas tendo o hábito e a resignação tanta força na alma lusa, não admira que não integremos o lote dos cidadãos europeus mais protegidos e mais respeitados pelo Estado. O magnífico Ruben A costumava dizer que “em Portugal o óbvio é que é difícil”. É. Quando damos por isso é como se as coisas se encaixassem contra nós, do voraz fisco que nos vai ao bolso sem pecado, nem remorso a uma justiça paralisada ou quase, ou uma deplorável administração pública (facturas que aterram com “surpresa” porque são fruto de um erro do remetente e não falta do destinatário, mas primeiro que se prove podem passar anos, face ao ritmo também assassino da burocracia). E apesar dos notáveis progressos no uso da net ainda há os temíveis guichets públicos, onde com pressa sempre ansiosa nos dirigimos na esperança de que “daquela vez” esteja lá o papel por que suspiramos há anos. Ou a licença, o registo, o documento, a certidão, a assinatura. Às vezes sucede até que depois de horas não era “afinal” aquele o guichet, era outro, mas quem seria responsabilizado pela incúria de uma informação mal dada? “Ninguém”, como diria o “Romeiro”.

Só um sistema nervoso em óptimo estado permite que pessoas com pública — e publicamente elogiada — capacidade de iniciativa consigam esperar 7, 8, 10 anos, pela aprovação dos seus diversos projectos ou pedidos de licenciamento que só beneficiariam o país e não apenas o bolso dos seus autores. Como certamente logo pensaria a extrema esquerda que queria “taxar os ricos” mas tem o pé leve para despedimentos e alugueres.

Um dos protagonistas da série de podcast “Os Herdeiros” que tenho aqui em curso contou sem pestanejar que esperou sete anos, sete, pela autorização das “autoridades” locais, para de colocar uma placa indicativa da direcção de um Museu que dirige numa vila do país. Os “autorizadores” não alcançaram que obviamente em primeiro lugar quem perdia era a vila pela qual eram responsáveis, os seus habitantes, visitantes, turistas. E estudiosos, patrocinadores, mecenas. Por aí fora

3O país nunca avançará mesmo com a so cal boa saúde económica, o “excedente”, os fundos, o PRR, e tutti quanti enquanto não pensar muito a sério na sua própria incapacidade de resposta. Do trivial ao crucial: da mera incapacidade nos mais simples serviços no Estado, à tal sufocante, estéril, ancestral burocracia que nos consome e tudo corrói. Pode haver muitos unicórnios, “movida”, clima invejável, restaurantes “in”, concertos, turistas (e obviamente há mais produtivo e mais sério que isto).

Também nos dizem que Lisboa isto, o Porto aquilo, Braga aqueloutro, ainda bem. Bravo a essas cidades. Mas por debaixo dessa casca o interior é menos digerível. Ninguém obviamente menoriza a saúde da economia ou o atento “cuidado” com as contas certas introduzido por Passos Coelho. Nem tão pouco, alguns outros “capítulos” da vida nacional que melhor ou pior estão a ser atendidos. Evoco intencionalmente apenas coisas fazíveis, banais, coisas normais para vidas normais. Não só pela inoperância como são geralmente tratadas mas para sublinhar a aceitação resignada como se aceita o a-normal (não) andar do país.

Tenho um amigo que costuma dizer — sem se cansar — que quando abre uma torneira e sai água fica de boca aberta (“ah… água?” ). Na burocracia abrir-se uma torneira e sair água – que o mesmo é dizer resolver-se alguma coisa num prazo humano – merece registo.

4Mencionei o nosso inclemente fisco mesmo tendo em conta que o governo tenta “mexer” nisto. Mas a desproporção entre o que pagamos – e com que propósito e destino pagamos tanto? — e a qualidade e pontualidade dos “serviços” recebidos, mantém-se quase escandalosa. (Parafraseando alguém: pagamos impostos de primeiro mundo usufruindo de serviços do quarto.)

Como é que o poder e a oposição não se atiram ao fisco a meias, através de um pacto, uma reforma, um entendimento, um acordo, seja lá o que for, que sirva os portugueses? Mas quem é capaz hoje na política de saltos mortais? Os que comportam o risco?

5A palavra “reforma” dá choque como os candeeiros estragados: os líderes fogem dela, aparentemente não suportando o que tal ousadia semearia no solo dos interesses, das corporações e, last but not least, dos seus eleitorados.

Mas se o próximo governo, seja ele como seja, não for capaz de “atender” ao país no mais amplo sentido do termo – dos devastadores índices da pobreza, ao desatar do novelo do Estado, passando pela inquietante “certeza” da população quanto à insegurança (para não evocar o crónico desaconchego à criação de riqueza), mais vale – desculpem – não terem nascido. Para a política, entenda-se.

Risco, iniciativa, vontade política.

6Ah o Benfica… Começou bem, depois muito bem, o jogo foi das águias até tarde. E depois, que feio! No resultado, no relvado, na arbitragem – como é que “se” consegue não ver certas coisas? –, na exaltação do que se seguiu: invasões, divisões, declarações, acusações, interpretações. Horrível de ver, embaraçante de ouvir. E tudo isto que não foi pouco, com a agravante do jogo ter sido — digamos assim - revisto pela conjugalidade: o pater famílias é irredutivelmente dos verdes desde que nasceu; eu, dos encarnados desde os 13 anos. Numa enorme sala vazia de mais gente e no silêncio adormecido do campo, foi prova forte.

Para o ano vou ao estádio.

7Falei acima da série dos “Herdeiros” a pretexto da luta de um deles – Salvador Gouveia – contra a burocracia vigente. E apesar de em causa própria – mas é por boa causa… –, congratulo-me aqui mesmo com o prémio recebido por um desses “herdeiros” no mesmíssimo dia em que o seu podcast ia para o ar: falo de Francisco Alegre, actual embaixador em Luanda que se deslocou a Lisboa para receber. O prémio era dado pela Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa e o discurso de Francisco Alegre mostrou-nos que este filho de Manuel Alegre percebe tão bem a importância da diplomacia quanto o país onde a exerce. Pai e filho, dois modos de intervir politicamente ou a importância de um legado. É que não foi senão isso – essa “herança” – que me levou afinal a ir ter, sob a forma de podcast, com alguns filhos e filhas de pais e mães notáveis, para lhes perguntar que fizeram eles com a responsabilidade do legado recebido. Seguindo ou não – não era o meu “ponto” – o mesmo caminho dos pais. Entre os 26 e os 50 anos só ouvi gente que deu formidável conta de si. Sem “cunhas” e intramuros.          Como deve ser.

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COMENTÁRIOS . (de 24)

Hugo Silva: Podemos agradecer a si e a tantos outros o estado a que este país chegou. Pelo que vamos ouvindo parece que querem insistir na mesma fórmula que tanto criticam. Honra seja feita ao CH e a AV, têm contribuído para que se coloque o dedo na ferida. A tão prometida mudança pode nunca vir a acontecer mas pelo menos tem obrigado esta gente, a morder a própria língua...               João Floriano: «A palavra “reforma” dá choque como os candeeiros estragados:» Mais vale tarde do que nunca. Mas a verdade é que a Dra. Maria João Avillez sempre tem defendido quem promove a estagnação do país. A nossa visão sobre as coisas muda bastante quando sentimos os efeitos na pele. As trotinetes são um excelente exemplo porque ninguém está livre, novos ou velhos de apanhar com estes novos Fitippaldi do espaço urbano. E alguns são mesmo velozes e temerários em cima da maquineta. E aí as vemos espalhadas um pouco por todo o lado complicando a circulação de quem já de si tem mobilidade reduzida. Se acontecer um acidente, o que diz a responsabilidade civil sobre a falta de seguros?                  Tim do A: A burocracia do centrão do PS e da AD, na ânsia de distribuir cargos e cargos para os seus, torna-nos a todos pobres. Até o presidente da associação portuguesa de bancos, o ilustre Paulo Bento se queixa permanentemente da burocracia excessiva, insuportável e inútil imposta aos bancos para justificar a horta de milhares de burocratas desnecessários que existem nas entidades supervisoras burocratas e dispensáveis, muito bem pagas por nós todos. Todos os outros sectores da actividade económica se queixam do mesmo. Os estrangeiros não investem. Em vez de regular, é preciso começar a desregular. Essa deveria ser a estratégia de todo o sector público português e de Portugal. Para um país mais produtivo, mais justo e mais rico.                      António Reis: Leio normalmente as crónicas da MJA se bem que nas TV's já não tenho paciência. Mas não consigo de todo entender o seu pensamento e a crónica de hoje é um exemplo disso. É cascar até ao fim no estado actual do país e no entanto quando há um partido que embora sem qualquer acto de governação diz alto e em bom som que quer mudar Portugal no que este país tem de mal, não faz mais que o destratar e dizer mal desse partido. Então na SIC com o irmão do António Costa é um fartar vilanagem.                    Maria Eduarda Vaz Serra: A Maria João acordou agora para o estado desolador do país. E mesmo assim tem tanta raiva ao único partido que quer tentar mudar este Portugal. Vai ser muito difícil? Vai. Mas só por tentar já tem o meu aval. Viva o André Ventura e o seu partido que rema contra todos estes velhos do Restelo!               Hugo Silva > Liberales Semper Erexitque: "Só não muda de opinião quem está morto, ou é burro o suficiente para morrer e se afogar na sua própria e insignificante existência. "             Komorebi Hi: Fica sempre deste arrastar de palavras sucessivos a sensação e a conclusão que nada já têm a acrescentar ao marasmo intelectual e decrépito em que se encontram os defensores da oligarquia vigente e decadente, já nem esperança exibem, nem um "mea culpa", repetem-se e degradam-se na sopa de palavras que regurgitam.                   afonso moreira: Puxaram a bola para o título e estive quase para não ler mais nada, pois sabemos logo ao que vai dar. Afinal o título é enganoso como tantas vezes acontece porque os jornalistas imaginam sempre os portugueses facilmente hipnotizados quando lhe põem uma bola à frente dos olhos. Afinal, o essencial do artigo não é sobre bola, mas de uma cidadã com tantas queixas do estado a que o Estado chegou que se não votou no Chega, da próxima, e, se isto não der uma volta a sério, de 180 graus, é com certeza o seu voto que dará essa volta. De qualquer forma é bom ouvir, de MJA, as denúncias, do estado a que isto chegou, em todas as áreas do Estado, como as notícias dos últimos dias nos confirmam. Tem também, da próxima vez, de enumerar os principais responsáveis pelo estado a que o Estado chegou, e alguns bem próximos de si.                Gavião: A Senhora escreve bem. Mas nos "debates" na Sic... Alguém que aconselhe a Senhora a vir-se embora.                          Filipe Paes de Vasconcellos: É tão bom começar o dia a ler, ouvir e ver (como se fosse), esta grande Senhora a brincar, a dançar, com palavras tão certeiras sobre os nossos descontentamentos que só posso dizer muito obrigado.             Afonso Soares: Em 2020 comprei uma moradia no Porto, para restaurar, porque não tinha condições de habitabilidade. Na prática comprei um terreno. Paguei cerca de 25 000,00 a um gabinete de arquitetura para fazer o projecto e a sua aprovação. Recusas, alterações, reuniões na câmara do Porto, finalmente ao fim de DOZE, sublinho, DOZE ANOS, milagre dos milagres foi APROVADO. Tinha 58 anos e 70 quando foi aprovado. É logico que não construi. BENDITA BORUCRACIA. Quantos existem como este. Se não somos quarto ou quinto mundo o que somos? Ah! esquecia-me: SOMOS EUROPEUS.

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