A generalização de uma ideia de
liberdade sem entraves conduzindo ao desrespeito dos valores e ao próprio desprezo
da História, que foi a revolução maior trazida nos cravos do pretensiosismo
bacoco de falsos ditames, afastou, talvez definitivamente, a sensatez e o rigor
crítico e autocrítico, para uma qualquer tentativa de procedimento mais cordato
nas relações públicas. São vergonhosos, por exemplo, os programas televisivos
entre diferentes adeptos políticos, os quais se engalfinham nas suas retóricas,
no atropelo e sobreposição constantes das falas respectivas, sem que se ponha imediatamente
travão a tais cenas de caricatura, que nem sequer é anedótica, porque nos
atinge a todos, incluindo os canais televisivos que sem pudor nem respeito as permitem.
Do Benfica aos “herdeiros” de trotineta
Do trivial ao crucial, alguém tem de
pensar nas péssimas respostas do país: da incapacidade nos elementares serviços
do Estado à sufocante, estéril, ancestral burocracia que nos consome e tudo
corrói.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista
do Observador
OBSERVADOR, 28 mai. 2025, 00:2024
1Ando há anos para ser assassinada por uma trotineta: apesar das restrições, deslizam pelos
passeios destinados aos comuns mortais, rasam-nos pelos ombros como gatos
silenciosamente velozes; surgem-nos com vertigem inesperada num sinal verde
aberto para nós, confundem-se com o breu da noite.
Não sei quais as “autoridades” que
legislam sobre isto, ou sequer se há quem vele ou zele por tão extraordinária
possibilidade de assassínio. Que me lembre nunca vi um polícia a interceptar o voo rasante de uma trotineta num
passeio. Mas se eu parar o carro vinte e sete segundos em segunda fila,
primeiro, aqui d’el rei, e segundo ainda me podem pedir 30, ou 40 ou 50 euros, chamando “viatura” ao automóvel,
o que confere logo uma gravidade despropositada à coisa.
As bicicletas, idem: têm o exclusivo do espaço público, são
proprietárias da rua, das passagens de peões, de praças, avenidas, jardim e
becos, dos cruzamentos, dos passeios (mas os estragos serão sempre connosco).
2Não
é fácil perceber os portugueses. Instalaram-se de vez num desinteresse mortiço
sobre o modo como são tratados pelo padrasto Estado e pelo seu poderosíssimo
poder? Passaram procuração a um partido de protesto? Capitularam? É claro que
aqui e ali tem havido “ melhorias” , aquela coisa do costume que por definição
nunca é definitiva. Mas tendo o
hábito e a resignação tanta força na alma lusa, não admira que não
integremos o lote dos cidadãos europeus mais protegidos e mais respeitados pelo
Estado. O magnífico Ruben A costumava
dizer que “em Portugal o óbvio é que é
difícil”. É. Quando damos por isso é como se as coisas se encaixassem
contra nós, do voraz fisco que nos vai ao bolso sem pecado, nem
remorso a uma justiça paralisada ou
quase, ou uma deplorável administração
pública (facturas que aterram com “surpresa” porque são fruto de um
erro do remetente e não falta do destinatário, mas primeiro que se prove podem
passar anos, face ao ritmo também assassino da burocracia). E apesar dos notáveis progressos no uso da
net ainda há os temíveis guichets públicos, onde com pressa sempre ansiosa nos
dirigimos na esperança de que “daquela vez” esteja lá o papel por que
suspiramos há anos. Ou a licença, o registo, o documento, a certidão, a
assinatura. Às vezes sucede até que depois de horas não era “afinal” aquele o
guichet, era outro, mas quem seria responsabilizado pela incúria de uma
informação mal dada? “Ninguém”, como diria o “Romeiro”.
Só
um sistema nervoso em óptimo estado permite que pessoas com pública — e publicamente
elogiada — capacidade de iniciativa consigam esperar 7, 8, 10 anos, pela
aprovação dos seus diversos projectos ou pedidos de licenciamento que só
beneficiariam o país e não apenas o bolso dos seus autores. Como
certamente logo pensaria a extrema esquerda que queria “taxar os ricos” mas tem
o pé leve para despedimentos e alugueres.
Um dos protagonistas da série de
podcast “Os Herdeiros” que tenho aqui em curso
contou sem pestanejar que esperou sete anos, sete, pela autorização das
“autoridades” locais, para de colocar uma placa indicativa da direcção de um
Museu que dirige numa vila do país. Os “autorizadores” não alcançaram que
obviamente em primeiro lugar quem perdia era a vila pela qual eram
responsáveis, os seus habitantes, visitantes, turistas. E estudiosos,
patrocinadores, mecenas. Por aí fora…
3O país nunca avançará mesmo com a so cal
boa saúde económica, o “excedente”, os fundos, o PRR, e tutti quanti enquanto
não pensar muito a sério na sua própria incapacidade de resposta. Do trivial ao crucial: da mera incapacidade nos mais simples serviços no
Estado, à tal sufocante, estéril, ancestral burocracia que nos consome e tudo
corrói. Pode haver muitos unicórnios, “movida”, clima invejável,
restaurantes “in”, concertos, turistas (e obviamente há mais produtivo e mais
sério que isto).
Também nos dizem que Lisboa isto, o
Porto aquilo, Braga aqueloutro, ainda bem. Bravo a essas cidades. Mas por debaixo dessa casca o interior é
menos digerível. Ninguém obviamente menoriza a saúde da economia ou
o atento “cuidado” com as contas certas introduzido por Passos Coelho. Nem
tão pouco, alguns outros “capítulos” da vida nacional que melhor ou pior estão
a ser atendidos. Evoco
intencionalmente apenas coisas fazíveis, banais, coisas normais para vidas
normais. Não só pela inoperância como são geralmente tratadas mas para
sublinhar a aceitação resignada como se aceita o a-normal (não) andar do país.
Tenho um amigo que costuma dizer — sem
se cansar — que quando abre uma torneira e sai água fica de boca aberta (“ah…
água?” ). Na burocracia abrir-se uma
torneira e sair água – que o mesmo é dizer resolver-se alguma coisa num prazo
humano – merece registo.
4Mencionei o nosso inclemente
fisco mesmo tendo em conta que o governo tenta “mexer”
nisto. Mas a desproporção entre o que pagamos – e com que propósito e destino pagamos
tanto? — e a qualidade e pontualidade dos “serviços” recebidos,
mantém-se quase escandalosa. (Parafraseando alguém: pagamos impostos de
primeiro mundo usufruindo de serviços do quarto.)
Como é que o poder e a oposição não se
atiram ao fisco a meias, através de um pacto, uma reforma, um entendimento, um
acordo, seja lá o que for, que sirva os portugueses? Mas quem é capaz hoje na política de saltos mortais? Os que
comportam o risco?
5A palavra “reforma” dá choque
como os candeeiros estragados: os líderes fogem dela, aparentemente não suportando o
que tal ousadia semearia no solo dos interesses, das corporações e, last but not least, dos seus
eleitorados.
Mas se o próximo governo, seja ele como
seja, não for capaz de “atender” ao país no mais amplo sentido do termo – dos
devastadores índices da pobreza, ao desatar do novelo do Estado, passando pela
inquietante “certeza” da população quanto à insegurança (para não evocar o
crónico desaconchego à criação de riqueza), mais vale – desculpem – não terem
nascido. Para a política, entenda-se.
Risco,
iniciativa, vontade política.
6Ah o Benfica… Começou bem, depois muito
bem, o jogo foi das águias até tarde. E depois, que feio! No resultado, no
relvado, na arbitragem – como é que “se” consegue não ver certas coisas? –, na
exaltação do que se seguiu: invasões, divisões, declarações, acusações, interpretações.
Horrível de ver, embaraçante de ouvir. E tudo isto que não foi pouco, com a
agravante do jogo ter sido — digamos assim - revisto pela conjugalidade: o
pater famílias é irredutivelmente dos verdes desde que nasceu; eu, dos
encarnados desde os 13 anos. Numa enorme sala vazia de mais gente e no silêncio
adormecido do campo, foi prova forte.
Para o ano vou ao estádio.
7Falei acima da série dos “Herdeiros” a pretexto da
luta de um deles – Salvador Gouveia – contra a burocracia vigente. E apesar de
em causa própria – mas é por boa causa… –, congratulo-me aqui mesmo com o
prémio recebido por um desses “herdeiros” no mesmíssimo dia em que o seu
podcast ia para o ar: falo de Francisco Alegre, actual embaixador em Luanda que
se deslocou a Lisboa para receber. O prémio era dado pela Câmara de Comércio e
Indústria Portuguesa e o discurso de Francisco Alegre mostrou-nos que este
filho de Manuel Alegre percebe tão bem a importância da diplomacia quanto o
país onde a exerce. Pai e filho, dois modos de intervir politicamente ou a
importância de um legado. É que não foi senão isso – essa “herança” – que me
levou afinal a ir ter, sob a forma de podcast, com alguns filhos e filhas de
pais e mães notáveis, para lhes perguntar que fizeram eles com a
responsabilidade do legado recebido. Seguindo ou não – não era o meu “ponto” –
o mesmo caminho dos pais. Entre os 26
e os 50 anos só ouvi gente que deu formidável conta de si. Sem “cunhas” e
intramuros. Como deve ser.
POLÍTICA GOVERNO FUTEBOL DESPORTO
COMENTÁRIOS . (de
24)
Hugo Silva: Podemos agradecer a si e a tantos outros o estado a
que este país chegou. Pelo que vamos ouvindo parece que querem insistir na
mesma fórmula que tanto criticam. Honra seja feita ao CH e a AV, têm
contribuído para que se coloque o dedo na ferida. A tão prometida mudança pode
nunca vir a acontecer mas pelo menos tem obrigado esta gente, a morder a
própria língua... João
Floriano: «A palavra “reforma” dá choque como os
candeeiros estragados:» Mais vale tarde do que nunca. Mas a verdade é que a Dra. Maria João
Avillez sempre tem defendido quem promove a estagnação do país. A nossa visão
sobre as coisas muda bastante quando sentimos os efeitos na pele. As trotinetes
são um excelente exemplo porque ninguém está livre, novos ou velhos de apanhar
com estes novos Fitippaldi do espaço urbano. E alguns são mesmo velozes e
temerários em cima da maquineta. E aí as vemos espalhadas um pouco por todo o
lado complicando a circulação de quem já de si tem mobilidade reduzida. Se
acontecer um acidente, o que diz a responsabilidade civil sobre a falta de
seguros? Tim do A: A burocracia do centrão do PS
e da AD, na ânsia de distribuir cargos e cargos para os seus, torna-nos a todos
pobres. Até o presidente da associação portuguesa de bancos, o ilustre Paulo
Bento se queixa permanentemente da burocracia excessiva, insuportável e inútil
imposta aos bancos para justificar a horta de milhares de burocratas
desnecessários que existem nas entidades supervisoras burocratas e
dispensáveis, muito bem pagas por nós todos. Todos os outros sectores da
actividade económica se queixam do mesmo. Os estrangeiros não investem.
Em vez de regular, é preciso começar a desregular. Essa deveria ser a
estratégia de todo o sector público português e de Portugal. Para um país mais
produtivo, mais justo e mais rico. António
Reis: Leio normalmente as crónicas da MJA se bem que nas TV's já não tenho
paciência. Mas não consigo de todo entender o seu pensamento e a crónica de
hoje é um exemplo disso. É cascar até ao fim no estado actual do país e no
entanto quando há um partido que embora sem qualquer acto de governação diz
alto e em bom som que quer mudar Portugal no que este país tem de mal, não faz
mais que o destratar e dizer mal desse partido. Então na SIC com o irmão do
António Costa é um fartar vilanagem. Maria
Eduarda Vaz Serra: A Maria João acordou agora para o estado desolador do país. E mesmo assim tem
tanta raiva ao único partido que quer tentar mudar este Portugal. Vai ser muito
difícil? Vai. Mas só por tentar já tem o meu aval. Viva o André Ventura e o seu
partido que rema contra todos estes velhos do Restelo! Hugo
Silva > Liberales Semper Erexitque: "Só não muda de opinião
quem está morto, ou é burro o suficiente para morrer e se afogar na sua própria
e insignificante existência. "
Komorebi Hi: Fica sempre deste arrastar de
palavras sucessivos a sensação e a conclusão que nada já têm a acrescentar ao
marasmo intelectual e decrépito em que se encontram os defensores da oligarquia
vigente e decadente, já nem esperança exibem, nem um "mea culpa",
repetem-se e degradam-se na sopa de palavras que regurgitam. afonso
moreira: Puxaram a bola para o título e estive quase para não ler mais nada, pois
sabemos logo ao que vai dar. Afinal o título é enganoso como tantas vezes
acontece porque os jornalistas imaginam sempre os portugueses facilmente
hipnotizados quando lhe põem uma bola à frente dos olhos. Afinal, o essencial
do artigo não é sobre bola, mas de uma cidadã com tantas queixas do estado a
que o Estado chegou que se não votou no Chega, da próxima, e, se isto não der
uma volta a sério, de 180 graus, é com certeza o seu voto que dará essa volta. De
qualquer forma é bom ouvir, de MJA, as denúncias, do estado a que isto chegou,
em todas as áreas do Estado, como as notícias dos últimos dias nos confirmam.
Tem também, da próxima vez, de enumerar os principais responsáveis pelo estado
a que o Estado chegou, e alguns bem próximos de si. Gavião: A Senhora escreve bem. Mas nos "debates" na
Sic... Alguém que aconselhe a Senhora a vir-se embora. Filipe
Paes de Vasconcellos: É tão bom
começar o dia a ler, ouvir e ver (como se fosse), esta grande Senhora a
brincar, a dançar, com palavras tão certeiras sobre os nossos descontentamentos
que só posso dizer muito obrigado.
Afonso Soares: Em
2020 comprei uma moradia no Porto, para restaurar, porque não tinha condições
de habitabilidade. Na prática comprei um terreno. Paguei cerca de 25 000,00 a
um gabinete de arquitetura para fazer o projecto e a sua aprovação. Recusas,
alterações, reuniões na câmara do Porto, finalmente ao fim de DOZE, sublinho,
DOZE ANOS, milagre dos milagres foi APROVADO. Tinha 58 anos e 70 quando foi
aprovado. É logico que não construi. BENDITA BORUCRACIA. Quantos existem
como este. Se não somos quarto ou quinto mundo o que somos? Ah! esquecia-me:
SOMOS EUROPEUS.
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