De mãos dadas, nesta humoristicamente certeira crónica do Dr. Salles da Fonseca. Bem gratos ficamos. E voltamos a ler. E a sorrir.
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO20.05.25
Religião é a crença na transcendência
determinante da espiritualidade sobre a matéria e respectivas ocorrências, a
metafísica de proximidade; é na religião que se escondem medos e se guarda a
esperança.
Da
religião emanam os conceitos de bem e de mal que suportam a Moral e que,
transpostos para o plano dos factos, constituem a Ética.
Religião, Moral e Ética constituem
a base da Civilização que, uma vez
adicionada das artes decorativo-folclóricas,
gera a Cultura.
É do quadro cultural que emanam as
atitudes humanas as quais desenham a História.
Para
conhecer um povo há, pois, que lhe conhecer a religião.
* * *
A Cultura japonesa nasceu do
Shintuismo a que se juntou o Budismo e, muito mais recentemente (séc. XVI) foi
«polvilhada» pelo Catolicismo dos jesuítas portugueses.
Animista,
o Shintuismo não tem qualquer texto que lhe assegure unidade de doutrina como
acontece com os Vedas do Hinduismo, os Pensamentos de Buda no Budismo, a Tora no
Judaísmo, a Bíblia no Cristianismo ou o Corão no Islamismo. A
profusão de deuses locais promoveu o regionalismo feudal com uma sucessão
permanente de guerras e guerrinhas ao estilo do «sai daí para eu entrar». Foi
necessário inventar a
figura do Imperador «filho dos deuses»
(sem se dizer de quais) para que
houvesse um mínimo de coesão naquele arquipélago… e, mesmo assim, era um
Imperador sem qualquer poder temporal cabendo-lhe apenas o papel
de «filho dos deuses».
Foi
necessário esperar por Janeiro de
1543 para, com
a chegada de
Fernão Mendes Pinto e as armas de fogo,
se ter dado início à modernização da guerra e, daí, à unificação política do Japão.
Definitivamente,
na História do Japão, a chegada dos portugueses, marca o
fim do medievalismo e o início da modernidade. É claro que os
japoneses não vêem telejornais portugueses e, daí, Portugal ser ainda hoje
muito estimado no Japão.
Com a unificação política do
arquipélago, o belicismo transferiu-se do interior para a periferia passando de feudal a imperial. O
processo culminou na II Guerra Mundial a que só duas bombas atómicas puseram
fim. Passando o
Japão desarmado a ficar «protegido» pelos EUA, o Imperador Hiroito
teve que descer a terreiro e reconhecer que se enganara ao nomear o Governo dos militares que conduzira o Japão
ao descalabro e humilhação. Mais
declarou não ter origem divina e ser simplesmente humano. Caído o dogma pela
boca do próprio dogmático, foi
esta queda a 3ª bomba atómica
que destruiu a fé dos que haviam sobrevivido às duas bombas anteriores.
Com a destruição de todos os
tradicionais parâmetros civilizacionais, novos Valores tinham que ser erguidos.
Quais? Lamber as feridas foi o primeiro
passo (fazer luto
pelos mortos). Seguiu-se,
com a ajuda americana, a reconstrução
das cidades e logo,
em simultâneo, a reconversão
industrial da guerra para a paz.
Chegados a hoje não contam com o Imperador mas valorizam
muito o Yen; continuam a
pugnar pela harmonia com as forças da Natureza como paradigma do Bem mas entregaram
aos Partidos a definição do bem-comum.
Ao contrário de nós, portugueses, que
trabalhamos para viver, os japoneses vivem para trabalhar e por isso, em 80
anos, se ergueram das cinzas atómicas aos mais elevados padrões do
desenvolvimento internacional e nós…
não.
MAIO DE 2025
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
COMENTÁRIOS:
Anónimo 20.05.2025 13:48: Gostei do seu
artigo. Sou uma admiradora do Japão, onde por motivos profissionais fui por
várias vezes com estadias relativamente longas. Foi um tempo que teve muita
importância na formação da pessoa que sou hoje. E ainda gostaria de lá voltar.
Quem sabe, um dia… Helena
Sacadura Cabral
Vasco
Maria Bello van Zeller 20.05.2025 16:26: Querido
Henrique ,sempre certeiro e sempre oportuno a fazer-nos lembrar que um povo que
ocupa o mesmo território há 900 anos ainda se encontra entre os mais pobres da
Europa apesar dos biliões em ajuda q ninguém sabe bem onde foram parar!! Grande
Abraço
Anónimo2 0.05.2025
22:05: Muito bom.
Anónimo
21.05.2025 12:49: Gostei muito
do teu artigo, óptimo para os portugueses saberem e seguirem o exemplo, apenas
com um senão, a parte psicológica k eles deviam trabalhar quando no afã da
perfeição: não alcançam os seus objectivos Isabel
Pedroso
Nenhum comentário:
Postar um comentário