quarta-feira, 7 de maio de 2025

Varinas saracoteando

 

É o que parece tudo isto por cá, cada um colado ao exibicionismo gritante, a vender o seu próprio peixe à freguesia. Pobre país retalhado em que ninguém pensa, porque cada um só se escuta a si, sem dar oportunidade a quem, arrumada eventualmente uma espécie de governança, logo surgem os doestos contra a outra espécie, embora esta pareça mais cordata… Não, não ultrapassamos a imagem dos sete cães ao mesmo osso, por descarnado que seja, da nossa sentença popular.

Montenegro vai andando para onde?

Pouco há a dizer sobre a campanha, a não ser o quase inaudito: estivemos sempre em Marte, o mundo foi chutado para canto. No resto os programas são quase os mesmos, o interesse reduzido, a chama baça.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 07 mai. 2025, 00:223

1Luís Montenegro vai andando. Não sabemos a caminho de que porto, já lá vou, mais segue distanciado. Sem surpresa. Quantas vezes não me ouvi a mim mesma publicitar que ele introduzira uma “diferença” no modo de actuar no universo político que muito destoava do passado recente? Montenegro fê-lo logo de início e logo de início se deu por isso. Depois de fatigantes comentários presidenciais non stop – mais próximos do faits divers acessório do que da mobilização essencial para algo que valesse a pena, (como por exemplo o país); após as etapas do costismo tão férteis de comentário – em duo com o Presidente da República, em solos do então Primeiro Ministro ou de ajudantes – mas tão inférteis de progresso; passados anos de sonoro comentário e mediático e tanta exibição e falatório, surge um chefe de governo “diferente”. Nunca percebi se por natureza, se por inteligência política, Luís Montenegro pratica a discrição institucional mais do que a rua, prefere o recato à praça pública, não corre para microfones e recusou – como se fosse um mandamento – intrigar com o Chefe de Estado. Ou enredar-se na tradicionalmente insalubre – venenosa, por vezes – relação S. Bento-Belém.

A diferença, ao contrário de muita opinião publicada, agradou a considerável parte da opinião pública: o estilo não faz o governante mas a “diferença” alimentou o agrado. Não admira que siga distanciado mesmo se não sabemos se cortará a meta em primeiro lugar, mas uma coisa é certa: a “diferença” não terá sido despicienda,

2E o resto? Ou melhor, no resto também há diferença? Há pouca. É certo que Montenegro não tinha condições de governabilidade dignas desse nome; não dispôs – à sua direita e à sua esquerda – de parceiros políticos dignos de confiança pessoal e política; mas… não é um reformador. Tomou medidas, atendeu a prioridades, inverteu algumas situações insustentáveisnão foi mau mas não foi muito, além de ter tropeçado em duas ou três áreas de primeira grandeza. Em falta esta porém a área do… país: içá-lo da mortiça cepa torta onde vegeta há oito anos, acelerando o passo, criando riqueza, aumentando a produtividade, despertando vontades, acordando a sociedade civil que se alheia com o mesmo sono da bela adormecida (sendo porém infinitamente menos bela).

3E as urnas, que dirão elas?

Ah as urnas… Se forem madrastas, o país não perdoará este alarido eleitoral quase circense marcado pelo cansaço e o desinteresse. Se forem generosas para com Montenegro, é indispensável que ele tenha a coragem de um chefe e a responsabilidade da empreitada governativa. Por exemplo: quanto vai custar sermos europeus, pertencermos à UE e termos uma guerra portas dentro?

E a selvática inconsciência de Trump e das suas demenciais tarifas? Como ficarão as expectativas para a economia portuguesa face a tal brutalidade?

Tudo sem resposta.

E já agora como será passar a viver num país onde se tornou uma rotina ler ou ouvir que houve gente jovem ou menos jovem que morreu “esfaqueada” ou “baleada”? Uma realidade de que não tínhamos nem o uso tão comum, nem o hábito tão trivial, mas sobre a qual há uma espécie de inconcebível disfarce eleitoral para não parecer o Chega?

4Pouco tenho a dizer sobre a campanha, a não ser o quase inaudito: estivemos sempre em Marte, o mundo foi chutado para canto. No resto os programas são quase os mesmos, o interesse reduzido, a chama baça. Sobre debates já tudo foi dito mas sobrou uma percepção forte: neles venceu sempre uma “coisa” chamada verosimilhança, no caso personificada por Montenegro. De cada vez que num debate se olhava um écran, ou se escutava uma voz, havia alguém que surgia como naturalmente verosímil no cargo que ocupa e que aspira continuar a ocupar: o de chefe do governo.

Não sei se será suficiente.

5Ouço falar do Conclave que hoje se inicia como de partidos políticos, da formação de um governo, de “vencedores”, “perdedores”, “preferidos” “favoritos” (de quem?), apostas, sondagens, especialistas. Até o ISCTE.

E o Espírito Santo, invisível e silencioso decisor máximo, que ditará ele?

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COMENTÁRIOS (de 3)

Carlos Chaves: Estranho, Maria João, onde está a sua energia social-democrata neste momento que finalmente pode ser clarificador, para conseguirmos arredar o socialismo e a esquerda dos destinos do nosso país? Onde está? Precisamos de toda a gente de bem para atingirmos este objectivo, crucial para quem ama o seu país. Vá lá, não hesite entre na carruagem da vitória!

Rui Lima: Ao ponto que chegou a nossa política! Pedro P. Coelho pediu um espírito reformista, Montenegro fica incomodado …o PNS diz que é crime e assusta o povo … em que planeta vive este bando político. Se nada for feito serão os pobres a ficar sem saúde e com reformas miseráveis e sem segurança aqui seremos todos, só porque não se pode incomodar o monstro, logo começam a gritar os que engordam com o desperdício de recursos.

Ruço Cascais: A possibilidade de a AD ganhar confortavelmente estas eleições tem trazido uma certa euforia aos eleitores de direita que os faz esquecer que estamos a viver uma profunda crise de regime. Uma boa vitória da AD pode não servir para nada se não garantir uma maioria parlamentar. Mesmo que a IL aceda em fazer uma coligação em nome do interesse nacional, tudo indica que essa coligação pode não ser suficiente para garantir uma maioria. CH já deu provas que pode não deixar passar um governo AD minoritário e a posição do PS quanto ao assunto é uma incógnita, porque, se preferiu deixar cair o governo por não acreditar na seriedade do primeiro-ministro, dar-lhe novamente posse não deixa de ser um tanto ou quanto esquizofrénico. Anda a AD em festa com as sondagens, mas, a festa pode dar para o torto nas altas horas da madrugada. Se o CH não descer na votação a AD não consegue maioria absoluta. Sem maioria absoluta tudo volta à estaca zero.

Liberales Semper Erexitque: Convenhamos, a grande razão para a campanha ser uma chachada em relação à qual até os portugueses mais politizados preferem passar ao lado, é mesmo que o governo nunca deveria ter caído. Mas nós sabemos quem fez o governo cair, oh se sabemos! O resto será fazer as contas, faltam agora 11 dias.

 

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