segunda-feira, 12 de maio de 2025

Afinal

 

Todos os países se foram construindo à conta das migrações dos povos. Da Península Ibérica, por exemplo, diz-se que os naturais lusitanos, da banda ocidental a que pertencemos, foram sendo invadidos por gregos, romanos, mais tarde os godos, os árabes a seguir, permitindo fusões, mas nem sempre, e estabelecendo-se como povo independente… Posteriormente, as andanças históricas fizeram que africanos e asiáticos fugissem dos espaços em que nasceram, para os espaços de maior respeito por valores humanos, quais os espartilhados europeus, mas certamente não irão proporcionar mudanças estruturais ou políticas de peso nos países onde se vieram acolher, salvo se esses imigrantes forem do calibre russo/putiniano com pretensões ao seu direito totalitário. E mesmo este permitindo as sacudidelas da revolta e da expulsão, mesmo com ajudas alheias. O Texto de MANUEL PERES ALONSO parece querer demonstrar que os galegos foram imigrantes a quem Portugal ficou em dívida, como irá ficar em dívida aos calceteiros das imigrações marginais, por inapetência trabalhadora dos nacionais. O certo é que se há razões para tal gratidão, julgo que os portugueses mandriões de hoje, também deram, anteriormente, largo contributo expansionista como invasores-navegadores, fazendo obra larga e mais temerosa, pois sujeita a naufrágios e a muita luta fabricadora de nações, em várias partes do mundo, tendo começado por ser um país independente, que lutou para isso, ao contrário da Galícia –Galiza mais irmãmente.

O Aqueduto das Galegas e a memória esquecida dos imigrantes

Tal como tantos outros imigrantes ao longo da nossa história, os galegos não trouxeram apenas braços para o trabalho, mas também barrigas que fizeram filhos.

MANUEL PERES ALONSO Técnico Superior no Instituto Superior Técnico, doutorado em Física

OBSERVADOR, 11 mai. 2025, 00:1120

No coração da Falagueira, na Amadora, sobrevive um pedaço quase esquecido da nossa história coletiva: o Aqueduto das Galegas. Parte integrante do monumental Aqueduto das Águas Livres, esta estrutura de pedra do século XVIII permanece como uma testemunha silenciosa das gentes que ajudaram a construir Portugal. Porém, poucos sabem ou se lembram a razão por trás do seu nome: “Galegas”. Este nome não é um acaso nem uma simples designação geográfica. É, na verdade, um símbolo dos milhares de imigrantes galegos que, vindos do norte de Espanha, contribuíram com o seu trabalho, a sua cultura e, para muitos, até as suas vidas, para erguer aquilo que agora tomamos como dado adquirido.

Tal como tantos outros imigrantes ao longo da nossa história, os galegos não trouxeram apenas braços para o trabalho, mas também barrigas que fizeram filhos. Construíram não só cidades, mas também famílias que, à medida que se misturaram com a sociedade portuguesa, acabaram, muitas vezes, por ocultar as suas verdadeiras origens. Além de contribuírem com o seu trabalho, trouxeram também palavras que, com o passar dos séculos, incorporámos na língua portuguesa sem nos darmos conta das suas raízes estrangeiras. Trouxeram ainda a culinária, com as suas tascas e pequenos restaurantes onde gerações de portugueses saciaram a fome e que ainda hoje resistem como lugares de sociabilidade.

Na Amadora, o Aqueduto das Galegas é um exemplo gráfico desta história de encontros. Apesar do crescimento vertiginoso do tecido urbano, é possível encontrá-lo no Parque da Mónica ou em ruínas discretas ao longo da Estrada de Queluz, sobrevivendo como um fragmento de uma memória que se tenta apagar. A cidade, por seu turno, avança apressada, moldada pela modernidade global, enquanto as marcas da participação galega, até explícitas no nome deste troço, desaparecem para dar lugar a abstrações que nos afastam da nossa verdadeira história. Neste silêncio, os “Galegos” de outrora tornam-se invisíveis. A velha estratégia da neutralidade – apagar nomes, apagar histórias – é, afinal, um método que Portugal já conhece bem.

Por isso, é surpreendente ouvir, quase 300 anos depois do início da construção do Aqueduto das Águas Livres, que o debate contemporâneo sobre a imigração continua a ser pautado pelo esquecimento. Recentemente, fomos informados de que 18.000 imigrantes serão notificados para deixar o país nas próximas semanas. Eles são tratados como meros números, como se a vida pudesse ser simplesmente organizada e apagada com a mesma facilidade com que se risca uma linha num documento do Excel. No entanto, esquecemo-nos de que este país não seria o que é sem as muitas mãos estrangeiras que, ao longo dos séculos, não só moldaram as pedras dos aquedutos e dos edifícios, mas também as ruas, os mercados e as casas onde hoje habitamos. Falamos de expulsão, mas esquecemo-nos da memória. Falamos de crise, mas não reconhecemos que os imigrantes sempre foram fundamentais para sustentar esta nação.

Ao observarmos o grande arco do Aqueduto das Águas Livres, que corajosamente atravessa o Vale de Alcântara, ou os fragmentos do Aqueduto das Galegas, no coração da Amadora, não podemos deixar de reconhecer a verdade: somos um país construído sobre migrações, sobre o encontro de culturas e sobre a riqueza da diferença. Ao ignorarmos esses contributos históricos, ignoramos também uma parte de nós próprios. E é por isso que apelar à expulsão de imigrantes neste momento não é apenas um erro prático, mas um erro moral. Porque até as pedras têm histórias para contar e, um dia, seremos lembrados por aquilo que fizemos — ou deixámos de fazer — com a oportunidade de honrar essa herança.

Neste Portugal de hoje, definir quem fica e quem sai não é apenas decidir sobre o futuro, mas também reconhecer toda a força que o passado imigrante trouxe e continua a trazer para aquilo que somos. Afinal, quantos de nós, sentados hoje em cadeiras confortáveis, com os nossos apelidos ancestralmente registados, devem a sua própria existência aos imigrantes que agora rejeitamos?

Antes de informar os portugueses sobre a expulsão de 18 mil imigrantes, talvez agora, durante a campanha eleitoral, seja o momento oportuno para perguntar se queremos repetir os erros do passado, ignorando a contribuição daqueles que nos fizeram e continuam a fazer crescer.

Nota: As opiniões expressas são pessoais e não representam a posição do IST.

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COMENTÁRIOS (de 20)

Kindu: Além disso, o autor ingenuamente acredita que todos os imigrantes se vão integrar na cultura portuguesa, como os galegos, étnica e linguisticamente primos dos portugueses. Veja-se o que se passa em França, onde crianças não são registadas ou desaparecem das escolas públicas, para frequentarem as escolas corânicas onde passam o dia a decorar versículos em árabe e nada mais aprendem. Acaba por se formar um estado dentro do estado, e já se clama pela charia…

Kindu: Galegos são grandes trabalhadores. Quanto aos 18000 imigrantes expulsos (expulsos não, enviaram-lhes um e-mail, e é tudo), num país tão laxista e tão brando como este, deve haver muuuuuito boas razões para isso!

Maria Augusta Martins: São só 18000, não passa de 1% dos emigrantes efectivos e actuais no presente. Penso que estes com ordem de expulsão serão aqueles que por qualquer razão infringiram as leis desta República, e estão a contas com a justiça, Penso que serão esses os "apurados" da imigração como diria o professor e presidente Marcelo.

 

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