terça-feira, 1 de julho de 2025

A mulher hoje


Acumula, como nunca – nos seus papéis de trabalhadora externa e interna – estes últimos subentendendo casa e família, apesar dos esforços sociais de introdução de meios facilitadores dos seus papéis de “dinamizadora-mor” tanto no seio da família, em que o esfregão da loiça e o ferro de engomar são seus companheiros de virtude, além das hortaliças e o arroz para os tachos, como nos empregos a que tem acesso e que as suas capacidades mentais tornam esforçadamente por ela assistidos com igual virtude dos seus companheiros masculinos. Mas no fundo, o mundo gira em força graças à força masculina. Mulher sofre! Os partos lhe pertencem, e os respectivos condicionalismos. Mas é feliz, nesse amor mais próximo, pelos seus, não há dúvida. Esperemos que se mantenha, apesar da monstruosidade das guerras perpetradas pelos homens – quem sabe se aconselhados por companheiras dinamizadoras, na sombra dos tachos, ou das suas galhardias repenicadas… O certo é que nos espantam as figuras masculinas empreendedoras das guerras, sem uma mulher a dissuadi-los, mulheres que até deles pariram, e os abandonam na cadeira da sua visibilidade fútil…

As mulheres na História

Num tempo em que a força física perde valor e as competências tendencialmente mais femininas são mais valorizadas o tabuleiro volta a ficar desequilibrado. No final, é uma guerra em que todos perdemos

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 30 jun. 2025, 00:201

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1O problema do “patriarcado”

É uma das grandes contradições performativas de um certo pensamento feminista: recorrer à noção de patriarcado para descrever um sistema que oprime de tal forma as mulheres que elas estariam condenadas a uma irrelevância absoluta na esfera pública e depois defender que os currículos académicos devem ser modificados para introduzir todas as mulheres que foram excluídas – sem notar que cada uma delas constitui um contraexemplo à tese inicial.

Como sempre acontece, a realidade é mais complexa do que estas explicações ideológicas simplistas. A menor importância das mulheres na esfera política parece resultar, antes, de um facto histórico: a legitimidade política decorreu, na maior parte da história humana, da participação militar – de acordo com a ideia de que a disponibilidade para morrer pela cidade correspondia ao direito de governar a cidade. E essa disponibilidade foi assumida até muito recentemente, e quase sem excepções, pelos homens – e por razões compreensíveis.

Apenas com o esquema liberal, a pacificação crescente das sociedades ocidentais e o desenvolvimento tecnológico se alterou a relação entre deveres militares e direitos políticos. Mas não deixa de ser curioso como foi um evento militar (a Grande Guerra) a colocar de forma mais premente a participação política das mulheres, uma vez que a forte mobilização militar dos homens conduziu a uma forte participação feminina na esfera pública.

Ainda assim, e como provam os múltiplos currículos inclusivos que se dedicam apenas a figuras femininas, foram muitas as mulheres a desempenhar papéis relevantes na história políticapelo que o trabalho académico deveria dedicar-se mais a trazer à luz esses nomes do que a criar teorias da conspiração. A história pode parecer apenas masculina, mas não o foi e é preciso trabalhar para o revelar. Foi precisamente o que Rui Ramos fez no último episódio de E o resto é história, dedicado a três grandes mulheres da História de Portugal.

2Um problema de educação

A palavra patriarcado, com o sentido que tem hoje enquanto sistema social e político dominado pelos homens com o objectivo de oprimir e explorar as mulheres, foi cunhado por Friedrich Engels, no seu texto de 1884: A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Está, naturalmente, carregado de uma lógica marxista e influenciou de forma irredutível os movimentos feministas da segunda vaga.

No entanto, para as feministas e os feministas da primeira vaga, o problema encontrava-se fundamentalmente na falta de acesso à educação. Apenas uma pequena parte da população tinha esse acesso, mas o desnivelamento era maior para as mulheres e especialmente notório em Inglaterra (onde as leis e os costumes as colocavam em particular desvantagem).

Não é por isso surpreendente que as três grandes referências teóricas desse períodoDeclaração dos direitos da mulher e da cidadã, de Olympe de Gouges (1791), Uma vindicação dos direitos da mulher, de Mary Wollstonecraft (1792), e, mais tarde, A sujeição das mulheres, de John Stuart Mill (1869) – incidam sobretudo sobre a necessidade de oferecer às mulheres uma educação adequada que lhes permitisse participar na esfera pública e política de forma livre e informada. Tratava-se, no fundo, da exigência de acesso à mesma educação liberal que as sociedades liberais, em formação, defendiam para todos os homens e que permitiria às mulheres uma vida autónoma e emancipada.

Podemos, assim, traduzir a primeira vaga do feminismo como a exigência de que as mulheres não fossem esquecidas na grande transformação social e política que estava em curso e que o liberalismo fosse capaz de desafiar os costumes e corrigir as leis que impediam certos grupos de usufruir do novo regime político. O que o liberalismo fez.

A verdade é que acabamos por ter hoje, mais de duzentos anos após aqueles textos fundadores, não só um sistema legal que garante a igualdade entre os sexos, como também um sistema educativo claramente benéfico para as mulheres, como provam os números de sucesso escolar das raparigas e a ocupação já maioritária das mulheres nas universidades.

Ainda assim, a narrativa do patriarcado subsiste e com a consequência de gerar, mentalmente e artificialmente, uma guerra entre os sexos – o que nos coloca num contexto de conflito permanente que não só põe em causa as possibilidades reprodutivas, como também impede a identificação e a compreensão de problemas que já se podem detectar, mas sobre os quais parece ser difícil falarcomo o da actual desvantagem dos rapazes no meio escolar.

Trata-se de um problema particularmente premente não só porque resulta, em parte, de características biológicas dos rapazes, mas sobretudo porque, numa sociedade em que a força física perde valor e as competências tendencialmente mais femininas se tornam mais valorizadas, o tabuleiro volta a ficar desequilibrado. No final, é uma guerra em que todos perdemos.

PS: No episódio de E o resto é história, Rui Ramos faz uma referência merecida ao Minho e às mulheres minhotas, que valida não só a experiência pessoal e familiar mais comum de quem cá vive, mas também o facto de a narrativa do patriarcado ser aqui muito menos usual. São traços culturais difíceis de manter, mas pelos quais vale a pena lutar: não somos vítimas e os homens não são nossos inimigos – somos todos, parte daquela antiga instituição a que os mais velhos ainda chamam família.

COMENTÁRIOS

Ana Luís da Silva: Excelente artigo de Patrícia Fernandes. Quando é que as sociedades percebem de uma vez por todas que mulheres e homens se complementam e que beneficiamos todos em valorizar, reconhecer e cooperar entre os dois sexos?         Ricardo Ribeiro: A força da comunhão homem/mulher é imparável quando "remam" para o mesmo lado. Quem disser o contrário ou não quiser ver, quaisquer que sejam as razões, ou é míope ou tem segundas intenções. Dixi.        Carlos Chaves:  “(…) não somos vítimas e os homens não são nossos inimigos – somos todos parte daquela antiga instituição a que os mais velhos ainda chamam família.” Tenha cuidado Professora Patrícia, ainda a chamam de reaccionária!

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