Acumula, como nunca – nos seus papéis de
trabalhadora externa e interna – estes últimos subentendendo casa e família,
apesar dos esforços sociais de introdução de meios facilitadores dos seus papéis
de “dinamizadora-mor” tanto no seio da família, em que o esfregão da loiça e o
ferro de engomar são seus companheiros de virtude, além das hortaliças e o
arroz para os tachos, como nos empregos a que tem acesso e que as suas
capacidades mentais tornam esforçadamente por ela assistidos com igual virtude
dos seus companheiros masculinos. Mas no fundo, o mundo gira em força graças à
força masculina. Mulher sofre! Os partos lhe pertencem, e os respectivos
condicionalismos. Mas é feliz, nesse amor mais próximo, pelos seus, não há
dúvida. Esperemos que se mantenha, apesar da monstruosidade das guerras
perpetradas pelos homens – quem sabe se aconselhados por companheiras dinamizadoras,
na sombra dos tachos, ou das suas galhardias repenicadas… O certo é que nos
espantam as figuras masculinas empreendedoras das guerras, sem uma mulher a
dissuadi-los, mulheres que até deles pariram, e os abandonam na cadeira da sua
visibilidade fútil…
As mulheres na História
Num tempo em que a força física perde
valor e as competências tendencialmente mais femininas são mais valorizadas o
tabuleiro volta a ficar desequilibrado. No final, é uma guerra em que todos
perdemos
PATRÍCIA FERNANDES Professora
na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 30 jun.
2025, 00:201
1O problema do “patriarcado”
É uma das grandes contradições performativas
de um certo pensamento feminista: recorrer
à noção de patriarcado para descrever um sistema que oprime de tal forma as
mulheres que elas estariam condenadas a uma irrelevância absoluta na esfera
pública e depois defender que os currículos académicos devem ser modificados
para introduzir todas as mulheres que foram excluídas – sem notar que cada uma
delas constitui um contraexemplo à tese inicial.
Como sempre acontece, a realidade é
mais complexa do que estas explicações ideológicas simplistas. A menor importância das mulheres na esfera política
parece resultar, antes, de um facto histórico: a
legitimidade política decorreu, na maior parte da história humana, da
participação militar – de acordo com a ideia de que a disponibilidade para
morrer pela cidade correspondia ao direito de governar a cidade. E essa disponibilidade foi assumida até
muito recentemente, e quase sem excepções, pelos homens – e por razões
compreensíveis.
Apenas com o esquema liberal, a pacificação
crescente das sociedades ocidentais e o desenvolvimento
tecnológico se alterou
a relação entre deveres militares e direitos políticos. Mas não
deixa de ser curioso como foi um evento militar (a Grande Guerra) a colocar de forma mais premente a
participação política das mulheres, uma vez que a forte mobilização militar dos
homens conduziu a uma forte participação feminina na esfera pública.
Ainda assim, e como provam os múltiplos
currículos inclusivos que se dedicam apenas a figuras femininas, foram
muitas as mulheres a desempenhar papéis relevantes na história política – pelo que o trabalho académico deveria
dedicar-se mais a trazer à luz esses nomes do que a criar teorias da
conspiração. A história
pode parecer apenas masculina, mas não o foi e é preciso
trabalhar para o revelar. Foi precisamente o que Rui Ramos fez
no último episódio de E o resto é
história, dedicado
a três grandes mulheres da História de Portugal.
2Um problema de educação
A palavra patriarcado, com o sentido que tem hoje enquanto
sistema social e político dominado pelos homens com o objectivo de oprimir e
explorar as mulheres, foi cunhado por Friedrich Engels, no seu texto de 1884: A
Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Está,
naturalmente, carregado de uma lógica marxista e influenciou de forma
irredutível os movimentos feministas da segunda vaga.
No
entanto, para as feministas e os feministas da primeira vaga, o problema encontrava-se
fundamentalmente na falta de acesso à educação. Apenas uma pequena parte da população
tinha esse acesso, mas o desnivelamento era maior para as mulheres e especialmente notório em Inglaterra (onde as leis e os costumes as
colocavam em particular desvantagem).
Não é por isso surpreendente que as três
grandes referências teóricas desse período – Declaração
dos direitos da mulher e da cidadã, de Olympe de Gouges (1791), Uma
vindicação dos direitos da mulher, de Mary
Wollstonecraft (1792), e, mais tarde, A
sujeição das mulheres, de John
Stuart Mill (1869) – incidam sobretudo sobre a necessidade de oferecer às
mulheres uma educação adequada que lhes permitisse participar na esfera pública
e política de forma livre e informada. Tratava-se, no fundo, da exigência de acesso à mesma educação
liberal que as sociedades liberais, em formação, defendiam para todos os homens
e que permitiria às mulheres uma vida autónoma e emancipada.
Podemos, assim, traduzir a primeira vaga do feminismo como a exigência de que as mulheres não fossem esquecidas na
grande transformação social e política que estava em curso e que o liberalismo
fosse capaz de desafiar os costumes e corrigir as leis que impediam certos
grupos de usufruir do novo regime político. O que o liberalismo fez.
A verdade é que acabamos por ter hoje,
mais de duzentos anos após aqueles textos fundadores, não só um sistema legal que garante a igualdade entre
os sexos, como também um sistema educativo claramente benéfico
para as mulheres, como provam os números
de sucesso escolar das raparigas e a ocupação já maioritária das mulheres nas
universidades.
Ainda assim, a narrativa do patriarcado
subsiste e com a consequência de gerar, mentalmente e artificialmente, uma
guerra entre os sexos – o que nos coloca num contexto de conflito permanente
que não só põe em causa as possibilidades reprodutivas, como também impede a identificação e a
compreensão de problemas que já se podem detectar, mas sobre os quais parece
ser difícil falar – como o da actual desvantagem dos rapazes no meio
escolar.
Trata-se de um problema particularmente premente não só porque
resulta, em parte, de características biológicas dos rapazes, mas sobretudo
porque, numa sociedade em que a força física perde valor e as competências
tendencialmente mais femininas se tornam mais valorizadas, o tabuleiro volta a
ficar desequilibrado. No
final, é uma guerra em que todos perdemos.
PS: No episódio de E o resto é
história, Rui
Ramos faz uma referência merecida ao Minho e às mulheres minhotas,
que valida não só a experiência pessoal e familiar mais comum de quem cá vive,
mas também o facto de a narrativa do patriarcado ser aqui muito menos usual.
São traços culturais difíceis de manter, mas pelos quais vale a pena lutar: não somos vítimas e os homens não são nossos inimigos
– somos todos, parte daquela antiga instituição a que os mais velhos ainda
chamam família.
COMENTÁRIOS
Ana Luís da Silva: Excelente artigo de Patrícia
Fernandes. Quando é que as sociedades
percebem de uma vez por todas que mulheres e homens se complementam e que
beneficiamos todos em valorizar, reconhecer e cooperar entre os dois sexos? Ricardo Ribeiro: A força da comunhão homem/mulher é imparável quando
"remam" para o mesmo lado. Quem disser o contrário ou não quiser ver,
quaisquer que sejam as razões, ou é míope ou tem segundas intenções. Dixi. Carlos Chaves: “(…)
não somos vítimas e os homens não são nossos inimigos – somos todos parte
daquela antiga instituição a que os mais velhos ainda chamam família.” Tenha
cuidado Professora Patrícia, ainda a chamam de reaccionária!
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