quinta-feira, 24 de julho de 2025

Quanto mais cheio

 

Mais vazio. O mundo. Quanto mais o homem constrói, numa progressiva demonstração de capacidades - não infinitas mas extraordinariamente eficientes (quer para o Bem, quer para o Mal) – mais se torna, talvez, imune ao mundo do caos alheio, enquanto o for na distância acedida pelos meios da imagem ou da escrita. É o que transparece no texto de Alexandre Borges, naturalmente adverso a essa indiferença, não de cobardia, julgo, mas de consciência da inutilidade da dor própria, por conta da dor alheia, quando se é impotente para a extinguir, na distância. Mas penso que há muitos que se preocupam e ocupam, enviando meios para amenizar a dor, através de alimentos, medicação ou meios de defesa, e sentimo-nos mais reconfortados e gratos aos que têm esses poderes e o demonstram generosamente. De resto, cada ser humano é um poço, onde cabem dores e alegrias próprias e alheias, julgo não haver dúvidas sobre isso.

Ver ou não ver

Netanyahu e o Israel que o apoia souberam ler o momento que vivemos no tempo, como Putin antes deles: um vazio na ordem internacional, sede vacante secular, militar, histórica, moral.

ALEXANDRE BORGES Escritor e argumentista

OBSERVADOR, 24 jul. 2025, 00:171

Era a filha que contava na rádio, há uns meses, a propósito do lançamento da biografia: António Gedeão – aliás, Rómulo de Carvalho – não via notícias na televisão. Hoje, é coisa comum, ou porque se migrou para os ecrãs dos telemóveis ou porque muitos, confessadamente, não se querem deprimir. “É só desgraças”, dizem, ou formulação sinónima. O que releva na história contada por Cristina Carvalho é, portanto, o lado quase profético daquele comportamento do pai: há décadas, ainda sem canais privados nem estações a emitir notícias 24 horas por dia, internet, telemóveis e uma câmara de filmar no bolso de cada habitante da Terra, bastou o advento dos telejornais para que o poeta e professor de Física e de Química recusasse ver, não por rendição, mas enquanto fosse talvez a tempo. Observar o sofrimento através de um ecrã, comodamente sentados em nossas casas, terá dito mais ou menos assim, iria trivializá-lo, banalizá-lo, tornar-nos indiferentes a ele. Insensíveis.

Há muitos anos que a guerra entre Israel e a Palestina se tornou uma espécie de papel de parede desbotado da nossa cada vez mais colorida parafernália comunicacional. Estava lá no tempo da televisão a preto e branco, passou para a cor, do 4 por 3 ao 16 por 9, do caixote ao grande plasma plano, da RTP canal único ao caos multi-ecrã das nossas vidas contemporâneas. Há muito que os próprios jornalistas se lhe tornaram consideravelmente imunes: episódio no conflito israelo-árabe só dá direito a chamada de capa a partir de certo número de mortos; abaixo disso, é “business as usual”. Não vá o público queixar-se de que “só dão guerra”.

A 7 de Outubro de 2023, numa série de raides coordenados pelo Hamas, grupos de terroristas invadiram Israel e atacaram tudo o que apanhassem pela frente, resultando, em poucas horas, na morte de 1139 israelitas, essencialmente civis, milhares de feridos e 251 prisioneiros raptados como reféns. Desde então, Israel, cujos serviços de segurança não deram, inexplicavelmente, pela preparação deste ataque, respondeu, compreensivelmente, à agressão – até ultrapassar todos os limites do entendimento.

A resposta liderada pelo governo de Benjamin Netanyahu tinha dois objectivos: resgatar os reféns e acabar com o Hamas; ao fim de quase dois anos, não completou nenhum. Entretanto, matou mais de 60 mil pessoas, essencialmente civis, mulheres e crianças, arrasou toda a infraestrutura que permitia a vida de uma sociedade em Gaza, incluindo boa parte da terra arável, e forçou mais de 1,9 milhões de pessoas a fugirem de casa e a viverem deslocadas, em fuga, sem saber com que destino, ameaçada de deslocação definitiva para outra terra, outro país, quando não desaparecendo aos poucos pela estrada e pelos acampamentos, sem sequer entrarem para as tabelas de mortes oficiais.

Mas há muito que os números parecem não importar. Como há muito não importa quem começou a guerra, mas quem não a quer ou sabe acabar. Desde que Netanyahu e os que o apoiam conseguiram perder a compreensão até daqueles, como o cronista, que sempre estiveram do lado de Israel contra quem nunca tolerou a existência de um país para os judeus e preferiu esconder-se debaixo do papel de vítima, na cobardia dos ataques terroristas, escudado à sombra da comunidade que deveria defender, recusando apoios para a formação de um exército legítimo e o entendimento que levasse ao estabelecimento e coexistência de duas nações.

Há sempre uma desculpa. Bombardeiam escolas e hospitais porque servem de esconderijo ao Hamas. Ataca-se a Cruz Vermelha porque estavam lá suspeitos de pertencer ao Hamas.

Corta-se o fornecimento de ajuda humanitária porque é interceptada e revendida pelo Hamas. Desacreditam-se relatórios de instituições internacionais porque estão feitas com o Hamas. Consegue-se a proeza de bombardear uma igreja católica em Gaza e, pela primeira vez, pede-se desculpa e não se diz que o padre era suspeito de ser membro do Hamas porque, desta, até Netanyahu percebeu o ridículo: só se dispara por engano contra a única igreja católica de Gaza porque já se disparou contra tudo.

Todos os dias chega mais uma imagem inacreditável aos nossos plasmas elegantemente estendidos diante do sofá. Disparam-se rajadas de metralhadora sobre filas de famintos, à espera de uma dose de ração. Atraem-se seres humanos a armadilhas de comida como se fossem ratos – e meço a alegoria histórica. Mata-se à fome, à sede, por humilhação, indignidade. Há dias, a directora executiva da UNICEF dizia, perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que morrem, em média, 28 crianças por dia em Gaza desde o início da guerra. Mais de 17 mil já morreram desde que o enclave foi sitiado, encurralado, perante a nossa indiferença. Uma criança morta é uma tragédia – a língua não tem palavras para dizer o que serão 17 mil.

Mas as Nações Unidas já não servem para nada. Como os apelos da União Europeia não servem para nada. Nem os do Papa. Nem os ocasionais momentos de mão na consciência em que a administração americana pede que se ponha água na fervura. Netanyahu e o Israel que o apoia souberam ler o momento que vivemos no tempo, como Putin antes deles: um vazio na ordem internacional, sede vacante secular, militar, histórica, moral. As guerras da Ucrânia e de Gaza até se ajudam a anular mutuamente; engrossam a imunidade. Mais uma guerra nos telejornais. Escolhe a tua ou, simplesmente, desliga a televisão.

Em 2015, a imagem de um menino morto, Alan Kurdi, tombado numa praia na Turquia, fez o mundo acordar para a urgência de abrir as portas aos migrantes que fugiam à guerra da Síria. De vez em quando, uma imagem é tão poderosa que ainda é capaz de romper o circo e mandar todas as outras para segundo plano. Neste tempo, em que alguns se dão ao despudor nazi de defender o fim da empatia como vantagem competitiva, ainda haverá uma imagem capaz de mudar a história de Gaza?

Despedimos por email, começamos e acabamos relações por mensagem escrita ou simples desaparecimento, trocámos o psicólogo pelo Chat GPT e apaixonamo-nos por avatares perfeitos, criados por inteligência artificial, que têm o único senão de não existirem. Dizemos, alegremente, que temos mais medo de sofrer do que de morrer. Por isso, preferimos não olhar. Desviamos a cara. Desligamos a televisão. No tempo de Rómulo de Carvalho, talvez isso nos tivesse protegido de alguma coisa; agora, é só cobardia. Não queremos este peso na consciência. Não queremos descobrir a que ponto nos tornámos impotentes. Vivemos no tempo em que, em meia dúzia de quilómetros quadrados, todos os dias se matava mais 28 crianças. Lemos a notícia. E depois fizemos scroll.

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COMENTÁRIOS:

Américo Silva: Dez milhões de euros por três dias em Gaza, um destino turístico imersivo e dinâmico para bilionários, com direito a fome, medo, destruição e morte; regressar amputado, cego ou cadáver, acresce um sobreprémio de mais cinco milhões. Adquira já antes que esgote.

Jose Carmo: "Há sempre uma desculpa. Bombardeiam escolas e hospitais porque servem de esconderijo ao Hamas. Ataca-se a Cruz Vermelha porque estavam lá suspeitos de pertencer ao Hamas. Corta-se o fornecimento de ajuda humanitária porque é interceptada e revendida pelo Hamas. Desacreditam-se relatórios de instituições internacionais porque estão feitas com o Hamas. " Não se trata de "desculpa", é o que se passa numa guerra. Qualquer instalação usada por uma das partes para fins militares, passa ipso facto a ser um alvo militar. Como queria que fosse? Por que razão a sua verve é usada para vilipendiar a parte que cumpre as leis da guerra e não a parte que está em constante crime de guerra, ao manter civis sequestrados, ao usar civis como escudos humanos, ao usar hospitais, escolas, locais de culto e casas de habitação como postos de tiro? Como se atreve a inverter o ónus? Porque não verte a sua indignação sobre o grupo terrorista que se instalou em Gaza e está a parasitar a vida de toda aquela gente? Se um cancro se instalar no seu corpo e o parasitar, acha mesmo que o mau da fita é a quimioterapia que para o debelar, provoca enormes estragos no resto das células?

hugo Carreira: Já se lembrou de exigir a rendição do Hamas? Não, pois não? Então, a guerra vai continuar. O resto é apenas a campanha de sempre para tentar voltar ao status quo anterior, e isso jamais acontecerá. Quando colocarem isso na cabeça, talvez comecem a escrever textos que não sejam mais do que propaganda do Hamas. (Qualquer referência a qualquer instituição das Nações Unidas tem, há muito tempo, a mesma credibilidade que se fosse dada pela Al-Qaeda, Al-Shabab ou qualquer grupelho extremista).

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