terça-feira, 22 de julho de 2025

Escola indispensável sempre


O que parece sempre admirável é a capacidade humana para traduzir e se traduzir, e até pôr tudo isso em causa, o que é revelador de extraordinários dons exclusivos do ser human - incluindo o cinismo. O certo é que, se distingue o BEM e o MAL, o POSITIVO E O NEGATIVO, e por eles pretende reger os comportamentos, proibindo as infracções, assim demonstra que a liberdade plena não existe, apesar da teoria – o que é Bem. Na realidade, as infracções coexistem, impunes, numa sociedade criadora de regras morais entre outras, daí o poder afirmar-se que as tais - liberdade, igualdade e fraternidade humanas - são apenas bonita teoria, fruto de uma inteligência humana de equilíbrio moral. O mal é que o seu contrário coexiste, muitas vezes, fruto da mesma Inteligência reflexiva. Impunemente, também, sobretudo quando tem o poder da força, superando a Regra, numa sociedade timorata, duma “austera, apagada e vil tristeza”. Sem solução que preste, como se comprova a cada passo. Mas vamos, sim, à escola. Sempre nos ajuda a formular a teoria.

Mas reponho parte do excelente comentário – de ANA LUÍS DA SILVA:

««1. Recado para Peter Gray: as crianças precisam de disciplina, regras e exigência para desenvolverem as suas apetências naturais (que sim senhor, devem poder ser valorizadas), pois não nascem com capacidades inatas de auto-regulação;

2. Recado para Amy Chua: é louvável que se pretenda proteger os filhos “preparando-os para o futuro”, deixando que “percebam aquilo de que são capazes” e “armá-los com capacidades, hábitos de trabalho e confiança interior, coisas que ninguém lhes poderá tirar nunca.”

Porém nem todas as crianças conseguem ser a melhor da turma ou tocar um instrumento de forma a serem valorizadas pelo seu desempenho, o que leva a desconfiar que colocar toda essa carga nos ombros de uma criança, sem tentar descobrir quais são os seus dons e capacidades naturais específicas onde poderá destacar-se dos outros, talvez não seja o melhor método para criar auto-confiança.»»

 

O bom selvagem vai à escola

A boa e velha tradição vem dos gregos e mantém-se ao longo da história ocidental: não nascemos bons nem virtuosos, pelo que é necessário através da educação adquirir os valores que a civilização preza

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 21 jul. 2025, 00:2011

1O bom selvagem

Quem acha que a filosofia não passa de meros delírios teóricos sem impacto directo no mundo não conhece Jean-Jacques Rousseau. O pensamento do genebrino é um bom exemplo de como as ideias podem transformar o mundo e o seu Emílio, ou da Educação, publicado em 1762, influenciou profundamente a pedagogia do último século.

Este tratado sobre educação abre com o típico argumento rousseauniano: “Tudo é certo em saindo das mãos do Autor das coisas, tudo degenera nas mãos do homem” (Livro I). O homem nasceria dotado de bondade natural, sendo a sua natureza corrompida pela vivência com os outros, que despertam nos homens os piores sentimentos:

os primeiros movimentos da natureza são sempre rectos: não existe perversidade original no coração humano; não se encontra neste nenhum só vício que não se possa dizer como e por onde entrou.” (Livro II)

Esta tese tem efeitos imediatos quando pensamos nas crianças e na educação a que devem ser submetidas:

“A educação primeira deve portanto ser puramente negativa. Ela consiste, não em ensinar a virtude ou a verdade, mas em preservar o coração do vício e o espírito do erro.” (Livro II)

Uma educação negativa que deveria ser aplicada na fase mais importante, que vai do nascimento até aos 12 anos: se os homens nascem puros e sem maldade ou vícios e é na sociedade que se encontra a fonte da corrupção moral, devemos evitar interferir no desenvolvimento natural das crianças. E Rousseau aplica a palavra-fetiche do século XVIII ao domínio educativo:

“Experimentaram todos os instrumentos, menos um, o único precisamente que pode dar resultado: a liberdade bem regrada.” (Livro II)

2A educação negativa

Como resistir ao apelo da liberdade? É difícil e não é, por isso, surpreendente que haja tantos autores a trabalhar a partir da tradição pedagógica rousseauniana, e que MARIA FILOMENA MÓNICA, entre nós, consagrou com a expressão “os filhos de Rousseau”. Um desses filhos é PAULO FREIRE, um autor brasileiro habitualmente chamado “o Rousseau do século XX” e que, em 1968, publicou um dos livros académicos mais citados do mundo: Pedagogia do Oprimido.

Como a data indicia, trata-se de um livro escrito com o objectivo declarado de revolução social: a educação deveria deixar de ser um instrumento de dominação para ser um instrumento de conscientização, que permita aos estudantes adquirir as ferramentas para ler e compreender o seu lugar no mundo e, a partir disso, transformá-lo. A educação deve ser, assim, entendida como “prática da liberdade” pela qual os oprimidos aprendem a tomar a palavra e tornam-se, eles próprios, os agentes do processo educativo.

Esta versão rousseauniana de cariz antropológico aplica-se, fundamentalmente, à educação de adultos e é certamente familiar a todos os que participaram nos cursos de educação e formação de adultos, organizados no âmbito do Programa Novas Oportunidades há quase duas décadas em Portugal.

Já uma segunda linha pedagógica inspirada nas ideias de Rousseau é representada pelo especialista em educação PETER GRAY, que viu o seu famoso livro – Liberdade para aprender – recentemente traduzido para português. Gray, como todos os bons autores, parte de uma perspectiva evolutiva:

“Há pelo menos dois milhões de anos, a nossa linhagem genética humana começou a deslocar-se numa trajectória evolutiva que nos tornou cada vez mais dependentes da transmissão cultural.”

Devido a esse desvio, passamos a depender dos feitos adquiridos pelas gerações anteriores e também nos tornamos mais dependentes da nossa capacidade de cooperar e partilhar com os membros do nosso grupo: “Em suma, passámos a depender da educação.”

Neste sentido, podemos dizer que “somos, antes de mais, o animal educável. Somos educáveis a um nível muito superior ao de qualquer outra espécie”. E dizer isto significa dizer “que temos, incorporados em nós, impulsos instintivos para adquirir e desenvolver a cultura em que nascemos”.

Desta predisposição natural, Gray retira um argumento ousado. As crianças já nasceriam com todas as ferramentas necessárias para se autoeducarem, pelo que uma instituição escolar como a que existe hoje é não só desnecessária como contraproducente: ela reprime os instintos naturais da criança para a brincadeira e o conhecimento espontâneo.

Perante a crise atual da escola, Gray entende que “a única reforma significativa seria a que pusesse as crianças no comando da sua própria aprendizagem”. A escola deveria ser apenas um espaço que coloca à disposição das crianças os materiais e recursos necessários para que elas exercitem as suas faculdades naturais de aprendizagem, sem necessidade de uma disciplina imposta por professores e garantindo muito espaço e tempo para a brincadeira.

Em Portugal, estas ideias aproximam-se das teses do pedagogo JOSÉ PACHECO, que podemos conhecer melhor neste episódio do 45 graus, e da famosa Escola da Ponte. Mas os seus princípios estão longe de ser consensuais.

3Para que serve a escola?

Em 2011, a sino-americana Amy Chua publicou um livro polémico, mas maravilhoso e que se lê num só dia: O Grito de Guerra da Mãe Tigre. Começa assim:

“Muitas pessoas perguntam como é que os pais chineses criam filhos tão estereotipadamente bem-sucedidos. Perguntam o que estes pais fazem para produzir tantos génios de Matemática e prodígios musicais, como é a vida familiar e se conseguiriam fazer o mesmo. Bom, eu posso responder a essas perguntas, porque fiz tudo isso. Aqui estão algumas coisas que as minhas filhas nunca tiveram permissão para fazer:

dormir em casa de amigas

ir brincar para casa de amigos

participar numa peça da escola

queixar-se por não participar nas peças da escola

ver televisão ou jogar computador

escolher as suas próprias actividades extracurriculares

ter notas inferiores à máxima

não ser a melhor aluna em todas as disciplinas excepto Ginástica e Teatro

tocar outro instrumento além de piano ou violino

não tocar piano ou violino.”

Não sei se Amy Chua conhece o trabalho de Peter Gray, mas os dois não poderiam estar mais distantes um do outro. Ao contrário da ideia de que as crianças devem ser livres para empreender a sua própria educação, Chua defende que o método familiar chinês é aquele que produz melhores resultados:

“Os pais ocidentais tentam respeitar a individualidade dos filhos, encorajando-os a seguir as suas paixões, apoiando as suas escolhas e fornecendo reforço positivo e um ambiente protector. Em contraste, os chineses acreditam que a melhor forma de proteger os filhos é prepará-los para o futuro, deixá-los perceber aquilo de que são capazes e armá-los com capacidades, hábitos de trabalho e confiança interior, coisas que ninguém lhes poderá tirar nunca.”

No espaço britânico, encontramos alguém que tem ocupado um lugar proeminente no espaço público e que concordaria com estas palavras: Katharine Birbalsingh, considerada a professora mais rigorosa do Reino Unido e que podem conhecer melhor aqui.

Birbalsingh é directora da Michaela Community School, uma escola conhecida pela sua disciplina e insistência na formação de cidadãos virtuosos. Os telemóveis são estritamente proibidos na escola (e absolutamente desaconselhados fora da escola), os estudantes têm de caminhar silenciosamente nos corredores a caminho das aulas e devem levantar-se quando um adulto entra na sala. Fascinante?

Birbalsingh considera que este rigor e disciplina são necessários para formar estudantes virtuosos e sabedores, e os resultados escolares falam por si. Não se trata de uma escola privada e a maioria dos alunos vem de comunidades de imigração: mais uma razão, de acordo com Birbalsingh, para se insistir no rigor da educação.

Este tipo de visão pedagógica recusa a visão do bom selvagem e a ideia de que as crianças, deixadas à sua liberdade, tenderão naturalmente para o conhecimento, a beleza e o bem. Em sentido contrário, partem da velha tradição que encontramos nos gregos e se mantém ao longo da história ocidental: não nascemos seres bons nem virtuosos pelo que é necessário, através da educação, da repetição e do hábito adquirir os valores que a civilização preza.

Trata-se de um tipo de escola assente no esforço e no trabalho e, curiosamente, acaba por estar próximo do modelo defendido por aqueles que entendem que os alunos das classes mais desfavorecidas deveriam receber uma educação escolar mais intensa, mesmo que isso implique horários mais extensos e diminuição de férias escolares (que prejudicariam muito mais os alunos mais pobres). Só assim a escola poderia ser o motor para uma sociedade mais igualitária em termos económicos.

O argumento de Peter Gray sai bastante fragilizado quando confrontado com estas perspectivas, mas, ainda assim, parece-me que vale a pena ler o seu livro (tirando os capítulos 3 e 4, vá). E vou explicar porquê na próxima semana, antes de irmos em merecidas férias.

EDUCAÇÃO      LIVROS      LITERATURA      CULTURA

COMENTÁRIOS (de 11)

João Floriano: As teorias da educação estão cheias de extremismos desde os completamente libertários até aos autoritários como a tal Amy Chua. Leão Tolstoi era admirador de Rousseau. Tinha escolas para os filhos dos seus mujiques, mas as crianças eram livres para ir e vir quando queriam e escutar ou não o professor. Inevitavelmente o wokismo recupera Rousseau e vai mais além. Trabalhei toda a minha vida com jovens e crianças. Por vezes acertei, por vezes errei. Podemos conhecer toda as teorias pedagógicas, mas há coisas que nenhuma teoria ensina: o bom senso , a paciência e conhecer o ser humano em formação que nos foi entregue. Ainda numa citação de Rousseau fala-se no conceito de liberdade bem regrada, o que pressupõe educação. Experimentaram todos os instrumentos, menos um, o único precisamente que pode dar resultado: a liberdade bem regrada.” (Livro II)

Ana Luís da Silva: Sem muito tempo para comentar este excelente artigo de Patrícia Fernandes (deixo para a semana um comentário mais desenvolvido, visto que a autora continuará a dar foco a este tema), fica um apontamento rápido ou “recado” para os dois autores com perspetivas opostas:

1. Recado para Peter Gray: as crianças precisam de disciplina, regras e exigência para desenvolverem as suas apetências naturais (que sim senhor, devem poder ser valorizadas), pois não nascem com capacidades inatas de auto-regulação;

2. Recado para Amy Chua: é louvável que se pretenda proteger os filhos “preparando-os para o futuro”, deixando que “percebam aquilo de que são capazes” e “armá-los com capacidades, hábitos de trabalho e confiança interior, coisas que ninguém lhes poderá tirar nunca.”

Porém nem todas as crianças conseguem ser a melhor da turma ou tocar um instrumento de forma a serem valorizadas pelo seu desempenho, o que leva a desconfiar que colocar toda essa carga nos ombros de uma criança, sem tentar descobrir quais são os seus dons e capacidades naturais específicas onde poderá destacar-se dos outros, talvez não seja o melhor método para criar auto-confiança.

Para a semana, se Deus quiser, acompanharei Patrícia Fernandes aqui na caixa de comentários… Fiquei com vontade de ler o livrinho de Amy Chua que se lê num dia e num ápice sobre a “mãe tigre”.)

Por aqui: Os seus artigos são sempre uma aprendizagem.

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