O que parece sempre admirável é a
capacidade humana para traduzir e se traduzir, e até pôr tudo isso em causa, o que é revelador de extraordinários
dons exclusivos do ser human - incluindo o cinismo. O certo é que, se distingue
o BEM e o MAL, o POSITIVO E O NEGATIVO, e por eles pretende reger os
comportamentos, proibindo as infracções, assim demonstra que a liberdade plena
não existe, apesar da teoria – o que é Bem. Na realidade, as infracções
coexistem, impunes, numa sociedade criadora de regras morais entre outras, daí
o poder afirmar-se que as tais - liberdade, igualdade e fraternidade humanas - são
apenas bonita teoria, fruto de uma inteligência humana de equilíbrio moral. O
mal é que o seu contrário coexiste, muitas vezes, fruto da mesma Inteligência
reflexiva. Impunemente, também, sobretudo quando tem o poder da força, superando
a Regra, numa sociedade timorata, duma “austera,
apagada e vil tristeza”. Sem solução que preste, como se comprova a cada
passo. Mas vamos, sim, à escola. Sempre nos ajuda a formular a teoria.
Mas
reponho parte do excelente comentário – de ANA LUÍS DA SILVA:
««1. Recado para Peter Gray: as crianças precisam
de disciplina, regras e exigência para desenvolverem as suas apetências
naturais (que sim senhor, devem poder ser valorizadas), pois não nascem com
capacidades inatas de auto-regulação;
2. Recado para Amy Chua: é louvável que se pretenda
proteger os filhos “preparando-os para o futuro”, deixando que “percebam aquilo
de que são capazes” e “armá-los com capacidades, hábitos de trabalho e
confiança interior, coisas que ninguém lhes poderá tirar nunca.”
Porém nem todas as crianças conseguem ser a melhor da
turma ou tocar um instrumento de forma a serem valorizadas pelo seu desempenho,
o que leva a desconfiar que colocar toda essa carga nos ombros de uma criança,
sem tentar descobrir quais são os seus dons e capacidades naturais específicas
onde poderá destacar-se dos outros, talvez não seja o melhor método para criar
auto-confiança.»»
O bom selvagem vai à escola
A boa e velha tradição vem dos gregos
e mantém-se ao longo da história ocidental: não nascemos bons nem virtuosos,
pelo que é necessário através da educação adquirir os valores que a civilização
preza
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola
de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 21 jul. 2025, 00:2011
1O bom selvagem
Quem
acha que a filosofia não passa de meros delírios teóricos sem impacto directo
no mundo não conhece Jean-Jacques
Rousseau. O pensamento do genebrino é um bom exemplo de como as
ideias podem transformar o mundo e o seu Emílio, ou da Educação, publicado em 1762, influenciou profundamente a pedagogia do
último século.
Este tratado sobre educação abre com o
típico argumento rousseauniano: “Tudo é certo em saindo das mãos do Autor das coisas,
tudo degenera nas mãos do homem” (Livro I). O
homem nasceria dotado de bondade natural, sendo a sua natureza corrompida pela
vivência com os outros, que despertam nos homens os piores sentimentos:
“os primeiros movimentos da natureza são
sempre rectos: não existe perversidade original no coração humano; não se
encontra neste nenhum só vício que não se possa dizer como e por onde entrou.” (Livro II)
Esta tese tem efeitos imediatos quando
pensamos nas crianças e na educação a que devem ser submetidas:
“A
educação primeira deve portanto ser puramente negativa. Ela consiste, não em
ensinar a virtude ou a verdade, mas em preservar o coração do vício e o
espírito do erro.” (Livro II)
Uma educação negativa que deveria ser
aplicada na fase mais importante, que vai do nascimento até aos 12 anos: se os homens nascem puros e sem maldade
ou vícios e é na sociedade que se encontra a fonte da corrupção moral, devemos
evitar interferir no desenvolvimento natural das crianças. E Rousseau
aplica a palavra-fetiche do século XVIII ao domínio educativo:
“Experimentaram todos os
instrumentos, menos um, o único precisamente que pode dar resultado: a
liberdade bem regrada.” (Livro II)
2A educação negativa
Como resistir ao apelo da liberdade?
É difícil e não é, por isso, surpreendente que haja tantos autores a trabalhar
a partir da tradição pedagógica rousseauniana, e que MARIA FILOMENA MÓNICA, entre nós, consagrou com a expressão “os filhos de Rousseau”. Um desses
filhos é PAULO FREIRE, um autor brasileiro habitualmente
chamado “o Rousseau do século XX” e
que, em 1968, publicou um dos livros académicos mais citados do mundo: Pedagogia do Oprimido.
Como
a data indicia, trata-se de um livro escrito com o objectivo declarado de revolução social: a
educação deveria
deixar de ser um instrumento
de dominação para ser
um instrumento
de conscientização,
que permita aos estudantes adquirir as ferramentas para ler e
compreender o seu lugar no mundo e, a partir disso, transformá-lo. A educação
deve ser, assim, entendida como “prática
da liberdade” pela qual os
oprimidos aprendem a tomar a palavra e tornam-se, eles próprios, os agentes do
processo educativo.
Esta versão rousseauniana de cariz
antropológico aplica-se,
fundamentalmente, à educação
de adultos e é
certamente familiar a todos os que participaram nos cursos de educação e
formação de adultos, organizados no âmbito do Programa Novas Oportunidades há quase duas décadas em Portugal.
Já uma segunda linha pedagógica inspirada nas ideias de Rousseau é
representada pelo especialista em educação PETER GRAY, que viu o
seu famoso livro – Liberdade
para aprender – recentemente traduzido para
português. Gray, como
todos os bons autores, parte de uma perspectiva
evolutiva:
“Há pelo menos dois milhões de
anos, a nossa linhagem genética humana começou a deslocar-se numa trajectória
evolutiva que nos tornou cada vez mais dependentes da transmissão cultural.”
Devido
a esse desvio, passamos a depender dos feitos adquiridos pelas gerações
anteriores e também nos tornamos mais dependentes da nossa capacidade de
cooperar e partilhar com os membros do nosso grupo: “Em suma,
passámos a depender da educação.”
Neste sentido, podemos dizer que “somos, antes
de mais, o animal educável. Somos educáveis a um nível muito superior ao de
qualquer outra espécie”. E dizer
isto significa dizer “que temos,
incorporados em nós, impulsos instintivos para adquirir e desenvolver a cultura
em que nascemos”.
Desta predisposição natural, Gray retira um argumento ousado. As
crianças já nasceriam com todas as ferramentas necessárias para se
autoeducarem, pelo que uma instituição escolar como a que existe hoje é não só
desnecessária como contraproducente: ela reprime os instintos naturais da
criança para a brincadeira e o conhecimento espontâneo.
Perante a crise atual da escola, Gray
entende que “a única reforma
significativa seria a que pusesse as crianças no comando da sua própria
aprendizagem”. A escola deveria ser apenas um espaço que coloca à
disposição das crianças os materiais e recursos necessários para que elas
exercitem as suas faculdades naturais de aprendizagem, sem necessidade de uma
disciplina imposta por professores e garantindo muito espaço e tempo para a
brincadeira.
Em Portugal, estas ideias aproximam-se
das teses do pedagogo JOSÉ PACHECO, que podemos conhecer melhor neste
episódio do 45 graus,
e da famosa Escola da
Ponte. Mas os seus princípios estão longe de ser consensuais.
3Para que
serve a escola?
Em 2011, a sino-americana Amy Chua publicou um
livro polémico, mas maravilhoso e que se lê num só dia: O Grito de Guerra da Mãe Tigre. Começa
assim:
“Muitas
pessoas perguntam como é que os pais chineses criam filhos tão
estereotipadamente bem-sucedidos. Perguntam o que estes pais fazem para
produzir tantos génios de Matemática e prodígios musicais, como é a vida
familiar e se conseguiriam fazer o mesmo. Bom, eu posso responder a essas
perguntas, porque fiz tudo isso. Aqui estão algumas coisas que as minhas filhas
nunca tiveram permissão para fazer:
dormir em casa de amigas
ir brincar para casa de amigos
participar numa peça da escola
queixar-se por não participar nas
peças da escola
ver televisão ou jogar computador
escolher as suas próprias actividades
extracurriculares
ter notas inferiores à máxima
não ser a melhor aluna em todas
as disciplinas excepto Ginástica e Teatro
tocar outro instrumento além de
piano ou violino
não tocar piano ou violino.”
Não sei se Amy Chua conhece
o trabalho de Peter Gray, mas os dois não poderiam estar mais
distantes um do outro. Ao contrário da ideia de que as crianças devem ser
livres para empreender a sua própria educação, Chua defende que o método
familiar chinês é aquele que produz melhores resultados:
“Os pais ocidentais tentam
respeitar a individualidade dos filhos, encorajando-os a seguir as suas
paixões, apoiando as suas escolhas e fornecendo reforço positivo e um ambiente
protector. Em contraste, os
chineses acreditam que a melhor forma de proteger os filhos é prepará-los para
o futuro, deixá-los perceber aquilo de que são capazes e armá-los com
capacidades, hábitos de trabalho e confiança interior, coisas que ninguém lhes
poderá tirar nunca.”
No espaço britânico, encontramos alguém
que tem ocupado um lugar proeminente no espaço público e que concordaria com
estas palavras: Katharine Birbalsingh, considerada a professora mais rigorosa do
Reino Unido e que podem conhecer melhor aqui.
Birbalsingh
é directora da Michaela Community School, uma
escola conhecida pela sua disciplina e insistência na formação de cidadãos
virtuosos. Os telemóveis são estritamente proibidos na escola (e
absolutamente desaconselhados fora da escola), os estudantes têm de caminhar
silenciosamente nos corredores a caminho das aulas e devem levantar-se quando
um adulto entra na sala. Fascinante?
Birbalsingh
considera que este rigor e disciplina são necessários para formar estudantes
virtuosos e sabedores, e os resultados escolares falam por si. Não se trata de
uma escola privada e a maioria dos alunos vem de comunidades de imigração: mais
uma razão, de acordo com Birbalsingh, para se insistir no rigor da educação.
Este tipo de visão pedagógica recusa
a visão do bom selvagem e a ideia de que as crianças, deixadas à sua liberdade,
tenderão naturalmente para o conhecimento, a beleza e o bem. Em sentido contrário, partem da velha tradição que
encontramos nos gregos e se mantém ao longo da história ocidental: não nascemos
seres bons nem virtuosos pelo que é necessário, através da educação, da
repetição e do hábito adquirir os valores que a civilização preza.
Trata-se de um tipo de escola
assente no esforço e no trabalho e, curiosamente, acaba por estar próximo do
modelo defendido por aqueles que entendem que os alunos das classes mais
desfavorecidas deveriam receber uma educação escolar mais intensa, mesmo que
isso implique horários mais extensos e diminuição de férias escolares (que
prejudicariam muito mais os alunos mais pobres). Só assim a escola poderia ser o
motor para uma sociedade mais igualitária em termos económicos.
O argumento de Peter Gray sai
bastante fragilizado quando confrontado com estas perspectivas, mas, ainda
assim, parece-me que vale a pena ler o seu livro (tirando os capítulos 3 e
4, vá). E vou explicar porquê na próxima semana, antes de irmos em
merecidas férias.
EDUCAÇÃO LIVROS LITERATURA CULTURA
COMENTÁRIOS (de 11)
João Floriano: As teorias da educação estão
cheias de extremismos desde os completamente libertários até aos autoritários
como a tal Amy Chua. Leão Tolstoi era admirador de Rousseau. Tinha
escolas para os filhos dos seus mujiques, mas as crianças eram livres para ir e
vir quando queriam e escutar ou não o professor. Inevitavelmente o wokismo
recupera Rousseau e vai mais além. Trabalhei toda a minha vida com jovens e
crianças. Por vezes acertei, por vezes errei. Podemos conhecer toda as
teorias pedagógicas, mas há coisas que nenhuma teoria ensina: o bom senso , a
paciência e conhecer o ser humano em formação que nos foi entregue. Ainda
numa citação de Rousseau fala-se no conceito de liberdade bem regrada, o que
pressupõe educação. “Experimentaram todos os instrumentos,
menos um, o único precisamente que pode dar resultado: a liberdade bem regrada.” (Livro
II)
Ana Luís da Silva: Sem muito tempo para comentar
este excelente artigo de Patrícia Fernandes (deixo para a semana um
comentário mais desenvolvido, visto que a autora continuará a dar foco a este
tema), fica um apontamento rápido ou “recado” para os dois autores com
perspetivas opostas:
1. Recado para Peter Gray: as crianças precisam de disciplina, regras e
exigência para desenvolverem as suas apetências naturais (que sim senhor, devem
poder ser valorizadas), pois não nascem com capacidades inatas de
auto-regulação;
2. Recado para Amy Chua: é louvável que se pretenda proteger os filhos
“preparando-os para o futuro”, deixando que “percebam aquilo de que são
capazes” e “armá-los com capacidades, hábitos de trabalho e confiança interior,
coisas que ninguém lhes poderá tirar nunca.”
Porém nem todas as crianças conseguem ser a melhor da
turma ou tocar um instrumento de forma a serem valorizadas pelo seu desempenho,
o que leva a desconfiar que colocar toda essa carga nos ombros de uma criança,
sem tentar descobrir quais são os seus dons e capacidades naturais específicas
onde poderá destacar-se dos outros, talvez não seja o melhor método para criar
auto-confiança.
Para a semana, se Deus quiser, acompanharei Patrícia
Fernandes aqui na caixa de comentários… Fiquei com vontade de ler o livrinho de
Amy Chua que se lê num dia e num ápice sobre a “mãe tigre”.)
Por aqui: Os seus artigos são sempre uma aprendizagem.
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