sábado, 12 de julho de 2025

Sensibilidade imprescindível


Em argumentação que se preze, favorecedora do nosso ego. Ou do nosso posicionamento social.

Henrique Raposo e a reprodução do dr. Ventura

As semelhanças da “direita civilizada” com a brutalidade do Chega são maiores que as diferenças. Só a arrogância é incomparável.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 12 jul. 2025, 00:5212

Aconteceu há exactamente duas décadas, diz a internet. Num debate sobre o aborto com Paulo Portas, Francisco Louçã tentou decidir as coisas mediante recurso ao seguinte argumento: “O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança”. Não faço ideia se a criança, que em tempos esteve “assistente parlamentar” do BE e editora do Esquerda.net, continua a sorrir depois das recentes “legislativas”. Porém, lembro-me que a baixeza da frase foi considerada excessiva até para os padrões do dr. Louçã, que por uma vez viu-se criticado pelos media que acham bonito acarinhar – e empregar – almas totalitárias.

Falo, por exemplo, do Expresso, onde o dr. Louçã escreveu por longos anos após o Incidente do Sorriso. Quem pelos vistos continua a escrever por lá é Henrique Raposo, cujo rasto perdi deliberadamente depois de um “ensaio” acerca de Vasco Pulido Valente que, além de equívocos e ignorância, demonstrava inveja e uma suprema vontade de agradar ao dr. Balsemão. Esta semana, Henrique Raposo fez prova de vida e apareceu-me nas “redes sociais” com uma recuperação, talvez inconsciente, do estilo retórico do dr. Louçã naquela noite de 2005.

Na sequência da polémica com a lista de nomes “estrangeiros” que levou uma deputada do Livre ao pranto, Henrique Raposo assinou uma crónica a sugerir que André Ventura e Rita Matias “tivessem os seus próprios filhos em vez de andarem a brincar com os filhos dos outros. De seguida, Henrique Raposo enfia o aborto ao barulho e acusa ambos os dirigentes do Chega de “amar a vida abstracta” e “odiar vidas reais”, acusação curiosa a pretexto de uma lista que, ao que consta, é falsa.

Em termos formais, Henrique Raposo cumpriu sem surpresas: juntou-se ao coro dos que, por causa da lista, decretaram que André Ventura e Rita Matias são as mais pérfidas criaturas a pisar o planeta desde Vlad, o Empalador (não discuto: não conheço uns nem o outro). Opinar para o grupo Impresa implica andar na linha, e Henrique Raposo já destoa o suficiente quando trata de Israel, conforme entretanto constatei. O ponto não é esse, e o ponto nem sequer é a evidente contradição entre depreciar o carácter de alguém e fazê-lo através da demonstração cabal de que o carácter do acusador tem, como os de todos nós, as suas carências. O ponto é que a sugestão de Henrique Raposo ou é tratada com a irrisão que merece ou, se levada a sério, acaba com a profissão dele, a qual, salvo pela dependência do dr. Balsemão, por acaso é a minha.

Não é abusivo acreditar que o objectivo do episódio da lista era exibir a transformação demográfica que o país tem vindo a sofrer. Se o método escolhido se distingue pela eficácia ou pelo mau gosto, é discutível. O que não devia ser susceptível de discussão é a liberdade de ter uma convicção a propósito, independentemente da capacidade ou da vontade em procriar. Se adoptássemos o princípio de Henrique Raposo, não chegaria a ministro da Agricultura quem não possuísse no mínimo dezoito hectares de plantação de viçosas rúculas, ou couve-galega para os eufóricos da portugalidade. O aborrecido é que Henrique Raposo não exige experiência apenas para tutelar um sector: a lendária “universidade da vida” é fundamental até para produzir uns palpites. Os dezoito hectares de couve são para ele critério sine qua non para provar o caldo verde e avaliá-lo em conformidade.

Isto para dizer que, no limite, as condições de Henrique Raposo não se aplicam unicamente aos políticos, e sim a qualquer cidadão que ouse comentar um assunto – incluindo, imaginem, a Henrique Raposo. Com que propriedade (agora não me refiro ao terreno das couves) Henrique Raposo critica Trump sem arriscar uma reprimenda por não ser americano? Que currículo militar o habilitou a defender o envio de tropas portuguesas para a Ucrânia? Com que legitimidade alerta para a necessidade de mão-de-obra imigrante na construção antes de ele próprio se dedicar a “acartar baldes e assentar tijolo”? Porque é que chama “fanático” e “sonso” ao dr. Louçã se utiliza baixezas similares para diminuir os adversários?

A resposta à última pergunta é fácil: porque os adversários em causa são do Chega, e lançar anátemas ao Chega é uma obrigação e um passatempo de cerca de 98,6% dos colunistas nacionais, ou de 100% dos puristas que, com Henrique Raposo no meio, em 2020 subscreveram um “manifesto” em prol da “direita civilizada. Não é coincidência que boa parte deles – ignoro se é o caso de Henrique Raposo – frequente sem escrúpulos e com orgulho a esquerda selvagem, e aprenda com ela as estratégias e as maneiras de enfrentar os “taberneiros” que rodeiam André Ventura. Contra os “taberneiros”, taberna redobrada. Contra a “normalização da linguagem insultuosa”, insultos em barda. Contra o “colapso moral”, manda-se a ralé fazer filhos ou calar-se. As semelhanças da “direita civilizada” com a brutalidade do Chega são maiores que as diferenças. Só a arrogância é incomparável. E insuportável.

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COMENTÁRIOS (de 12)

Uiros Ueramos: Obrigado, Alberto Gonçalves. Como diz Javier Milei, não se pode ceder um milímetro à esquerda! e agora querem boicotar o resultado inédito de termos, pela primeira vez em 50 anos, dois terços dos deputados à direita…

Eduardo Cunha: Excelente crónica. Parabéns. 

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