Em argumentação que se preze,
favorecedora do nosso ego. Ou do nosso posicionamento social.
Henrique Raposo e a reprodução do dr. Ventura
As semelhanças da “direita civilizada” com a brutalidade do Chega
são maiores que as diferenças. Só a arrogância é incomparável.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 12 jul. 2025, 00:5212
Aconteceu há exactamente duas décadas,
diz a internet. Num debate sobre o aborto com Paulo Portas, Francisco Louçã tentou decidir as coisas mediante
recurso ao seguinte argumento: “O senhor não
sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma
criança”. Não
faço ideia se a criança, que em tempos esteve “assistente parlamentar” do BE e
editora do Esquerda.net, continua a sorrir depois das recentes “legislativas”.
Porém, lembro-me que a baixeza da
frase foi considerada excessiva até para os padrões do dr. Louçã, que
por uma vez viu-se criticado pelos media que acham bonito acarinhar – e empregar
– almas totalitárias.
Falo, por exemplo, do Expresso, onde
o dr. Louçã escreveu por longos anos após o Incidente do Sorriso. Quem pelos
vistos continua a escrever por lá é Henrique Raposo, cujo rasto perdi deliberadamente depois
de um “ensaio” acerca de Vasco
Pulido Valente que, além
de equívocos e ignorância, demonstrava inveja e uma suprema vontade de agradar
ao dr. Balsemão. Esta semana, Henrique
Raposo fez prova de vida e apareceu-me nas “redes sociais” com uma
recuperação, talvez inconsciente, do estilo retórico do dr. Louçã naquela noite
de 2005.
Na sequência da polémica com a
lista de nomes “estrangeiros” que levou uma deputada do Livre ao pranto, Henrique
Raposo assinou uma crónica a sugerir que André Ventura e Rita Matias “tivessem
os seus próprios filhos em vez de andarem a brincar com os filhos dos outros”. De seguida, Henrique Raposo enfia o aborto ao barulho
e acusa ambos os dirigentes do Chega de “amar a vida abstracta” e “odiar vidas
reais”, acusação curiosa a pretexto de uma lista que, ao que consta, é falsa.
Em termos formais, Henrique Raposo cumpriu sem surpresas: juntou-se
ao coro dos que, por causa da lista, decretaram que André Ventura e Rita Matias
são as mais pérfidas criaturas a pisar o planeta desde Vlad, o Empalador (não discuto: não conheço uns nem o outro). Opinar
para o grupo Impresa implica andar na linha, e Henrique Raposo já destoa o suficiente quando trata de
Israel, conforme entretanto constatei. O ponto não é esse, e o ponto nem sequer é a evidente contradição
entre depreciar o carácter de alguém e fazê-lo através da demonstração
cabal de que o carácter do acusador tem, como os de todos nós, as suas
carências. O ponto é que a sugestão
de Henrique Raposo ou é tratada com a irrisão que merece ou, se levada a sério,
acaba com a profissão dele, a qual, salvo pela dependência do dr. Balsemão, por
acaso é a minha.
Não
é abusivo acreditar que o objectivo do episódio da lista era exibir a
transformação demográfica que o país tem vindo a sofrer. Se o método escolhido se distingue pela
eficácia ou pelo mau gosto, é discutível. O que não devia ser susceptível de discussão é a
liberdade de ter uma convicção a propósito,
independentemente da capacidade ou da vontade em procriar. Se adoptássemos o princípio de Henrique
Raposo, não chegaria a ministro da Agricultura quem não possuísse no mínimo
dezoito hectares de plantação de viçosas rúculas, ou couve-galega para os
eufóricos da portugalidade. O
aborrecido é que Henrique Raposo não exige experiência apenas para tutelar um
sector: a lendária “universidade da vida” é fundamental até para produzir uns
palpites. Os dezoito hectares de couve são para ele critério sine
qua non para provar o caldo verde e avaliá-lo em conformidade.
Isto
para dizer que, no limite, as condições de Henrique
Raposo não se
aplicam unicamente aos políticos, e sim
a qualquer cidadão que ouse comentar um assunto – incluindo, imaginem, a
Henrique Raposo. Com que
propriedade (agora não me refiro ao
terreno das couves) Henrique Raposo critica Trump sem arriscar uma reprimenda por não ser
americano? Que currículo militar o habilitou a defender o envio
de tropas portuguesas para a Ucrânia?
Com que legitimidade alerta para a necessidade de mão-de-obra imigrante na
construção antes de ele próprio se dedicar a “acartar baldes e assentar
tijolo”? Porque é que chama “fanático” e “sonso” ao dr. Louçã se utiliza
baixezas similares para diminuir os adversários?
A resposta à última pergunta é fácil:
porque os adversários em causa são do
Chega, e lançar anátemas ao Chega é uma obrigação e um passatempo de cerca de
98,6% dos colunistas nacionais, ou de 100% dos puristas que, com Henrique
Raposo no meio, em 2020 subscreveram um “manifesto” em prol da “direita
civilizada”. Não
é coincidência que boa parte deles – ignoro se é o caso de Henrique Raposo –
frequente sem escrúpulos e com orgulho a esquerda selvagem, e aprenda com ela
as estratégias e as maneiras de enfrentar os “taberneiros” que rodeiam André
Ventura. Contra os “taberneiros”, taberna redobrada. Contra a
“normalização da linguagem insultuosa”, insultos em barda. Contra o “colapso
moral”, manda-se a ralé fazer filhos ou calar-se. As semelhanças da “direita
civilizada” com a brutalidade do Chega são maiores que as diferenças. Só a
arrogância é incomparável. E insuportável.
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COMENTÁRIOS (de 12)
Uiros Ueramos: Obrigado, Alberto Gonçalves. Como diz Javier Milei, não se pode ceder um
milímetro à esquerda! e agora querem boicotar o resultado inédito de termos,
pela primeira vez em 50 anos, dois terços dos deputados à direita…
Eduardo Cunha: Excelente crónica. Parabéns.
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