De aparência vistosa, não de coragem mas de batota, que cobriram de
cravos a campa da pátria, para esconder astutas cobardias, de servil ignorância
e desamor.
Guerras culturais
Esses tempos de há mais de cinquenta anos acabaram. Os tempos são
outros e outros os termos das guerras culturais. Até porque, aparentemente, os
papéis se inverteram.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 12 jul. 2025, 00:2044
Neste meio século, marcado pelo golpe
militar de Abril de 1974, pela deriva radical que se lhe seguiu, pela
consequente hegemonia do pensamento de esquerda, mesmo entre os partidos à
direita do PS, e por uma cultura instalada em que a informação supera de longe
a formação, procurar trazer alguma racionalidade e contextualização, por básica
que seja, ao inflamado debate político sobre Esquerda e Direita é uma pretensão
irrealista. Mas talvez valha o esforço.
A
deriva esquerdista em Portugal teve como principais consequências, na
Metrópole, as nacionalizações e colectivizações; e, no “Ultramar”, uma
descolonização descontrolada (ou habilmente controlada por alguns) que deixou
os então territórios ultramarinos entregues a longas e sangrentas guerras civis
em Angola e Moçambique. Timor na
Insulíndia teve destino semelhante. Dos outros, a Guiné, que estava na raiz do
problema, foi para o partido único PAIGC; Cabo Verde seguiu-lhe a sorte e São
Tomé e Príncipe também. A confuciana sabedoria, ou o sentido de Estado e de
História, levaram os nacionais-comunistas chineses a começar por Hong-Kong o resgate dos seus
territórios ao Ocidente, o que nos permitiu, anos mais tarde, fazer em Macau uma transição e descolonização
decente. A única.
A força
do PC
Em
1974, o Partido Comunista Português não era visto como a sucursal de um partido
que oprimia ditatorialmente, há meio século, a Rússia e grande parte da Europa
Oriental; um partido com polícia secreta, campos de concentração e de morte para
os dissidentes e milhões de vítimas; um partido que instalara, em nome da
justiça social e do desenvolvimento, um regime que oprimia e empobrecia as
pessoas e os povos, que não funcionava e que já dera provas provadas que não
funcionaria nunca. Não. Em Portugal, no Portugal dos finais do Estado
Novo, os comunistas eram, acima de tudo, “resistentes”; “resistentes
antifascistas” e, nessa categoria, os mais organizados e os mais antigos.[i]
Foi
com essa carga de prestígio que o Dr.
Cunhal voltou do
exílio e orientou uma política que determinou muito do futuro do país. Não só
na descolonização, com a entrega do poder aos movimentos independentistas da
sua linha ideológica e obediência internacionalista, mas também com uma
estratégia de terra queimada que apontava para a estatização das indústrias e a
colectivização das propriedades agrícolas portuguesas.
O PCP conseguiu fortes apoios no MFA.
Há quem diga que, quando o militar não é patriota, a
sua estrutura de pensamento e da própria organização tendem a levá-lo para o
socialismo. Aqui foi assim: os comunistas usaram o MFA para
neutralizar resistências políticas à direita para depois, aproveitando
oportunidades e provocando intentonas, como o 11 de Março, poderem avançar para
as “nacionalizações” que dariam o golpe de morte à economia nacional. Um golpe
de que o país nunca mais recuperou.
No princípio era a Economia
Foi precisamente esta radicalização à
esquerda e as nacionalizações – e
o processo lento e inacabado para as tentar reverter – que
marcaram, até há pouco a oposição direita/esquerda em Portugal. Uma oposição que se ficava muito pela economia, também
por influência da direita internacional que, nos anos oitenta, no “Mundo
Livre”, com os movimentos conservadores-liberais do thatcherismo e do
reaganismo e os seus êxitos no mundo anglo-saxónico, abriu caminho ao fim da
União Soviética.
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Assim, em Portugal, a questão
Direita-Esquerda tem sido quase só económica; de resto, a existência de uma
sociedade livre é incompatível com a total dependência do Estado e da
Administração pública, da vida económica e da vida das pessoas.
E agora?
Mas acabada a Guerra Fria e
instalada urbi et orbi uma
grande economia de mercado e um pretenso grande consenso sobre as suas
virtudes, a chave de toda a real distinção política passou a ser
a questão nacional, ou melhor, a confrontação
nacionalismo-globalismo. Não menos importantes passaram
também a ser o conceito
de família e o conceito de realidade e de senso comum.
E porque as suas ideias fizeram caminho através das instituições e pela
nossa realidade adentro, ainda vivemos ou convivemos com a versão da História
que a Esquerda moldou e instituiu e que agora começa a defender com o desespero soberbo dos poderes instalados e
ameaçados.
Longe
vão os tempos em que era a Esquerda que dominava a edição e as revistas de
pensamento e cultura, e a Direita, então no poder – um Estado Novo decadente
que se fiava na televisão para difundir o que queria e na censura para expurgar
o que não queria –, que
descartava como fake news
de redes sociais elitistas para grupos irrelevantes esses outros caminhos menos
sistémicos.
Esses tempos de há mais de cinquenta
anos acabaram. Os tempos são outros e outros os termos das guerras culturais.
Até porque, aparentemente, os papéis se inverteram.
A SEXTA COLUNA HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS (de 14)
Caetano Ramalho: Dr Jaime Nogueira Pinto, vou lendo algumas das suas
crónicas bastante assertivas. Uma coisa é certa, sim, estamos muito perto de
guerras culturais que irão transbordar para outro tipo de guerras mais
sangrentas. É uma questão de tempo. Toda esta utopia do multiculturalismo
descontrolado vai acabar em tragédia.
Não há sociedade que aguente várias tribos culturais e religiosas numa convivência
pacifica e celestial. Há sempre uma tribo que vai tentar controlar as outras e
há sempre tribos que em nada se identificam com outras. Uma
sociedade homogénea com o multiculturalismo q.b. consegue substituir no tempo,
o multiculturalismo descontrolado levará ao caos. É tudo uma questão de tempo.
Francisco Almeida: Mais um excelente artigo, que revela a magistral
capacidade de análise de JNP, sintetizando numa dezena de parágrafos a evolução
política de mais de 50 anos.
Apenas
receio que, no parágrafo final, exista algum optimismo ainda sem tradução na
realidade. De facto, se a inversão política fosse real, haveria uma maioria de
dois terços na AR capaz de mudar radicalmente a Constituição mas ainda estamos
muito longe disso.
Maria Nunes: Brilhante artigo. Obrigada JNP.
Luis Mira Coroa: Excelente!
Manuel Magalhães: Muito Bom!
Cisca
Impllit Muita
opinião e pouco conhecimento - é o que há muito. Quanto a isso, a este estado
de ignorância – não há crónicas de JNP
que sejam suficientes.
Coxinho > Álvaro
Aragão Athayde: O
globalismo escravizou e sustenta a esquerda, que o serve e defende que nem um
cão. O soberanismo agregou ou assimilou a direita.
Miguel Oliveira: Excelente artigo.
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