segunda-feira, 28 de julho de 2025

Os nossos casos

 

As nossas coisas. Relativizar, é preciso.

É uma polémica portuguesa, com certeza

O drama do retrocesso, o pecado original de não ser a primeira escolha e a paixão (falsa) pelos independentes alimentaram as polémicas dos últimos dias. Polémicas portuguesas, com certeza.

HELENA MATOS Colunista do Observador

OBSERVADOR, 27 jul. 2025, 00:3879

O retrocesso. Voltou. Só nas últimas semanas tivemos o retrocesso “de mais de 40 anos” implícito nas alterações apresentadas pelo Governo para a disciplina de Cidadania, mais o “inequívoco retrocesso” presente, segundo as Mulheres Socialistas, nas propostas de alteração à legislação laboral, nomeadamente no que respeita aos dias de baixa por interrupção de gravidez.

Quer num caso quer noutro estamos perante um exercício de pura demagogia políticanão só não vai deixar de se tratar da sexualidade nas escolas como a disciplina de Cidadania, nos moldes em que está, é uma espécie de tudo e o seu contrário.

Já quanto às alterações nas faltas por interrupção da gravidez o caso é ainda mais patético: fizeram-se títulos como Porque é que o Governo quer eliminar o direito ao luto gestacional? Ou Governo quer eliminar direito a faltar ao trabalho por luto gestacional. O PS veio falar de “inequívoco retrocesso” e no final, se as alterações forem como detalhado no comunicado que o ministério do Trabalho e da Segurança Social fez sair em plena crise do “inequívoco retrocesso”, não só trabalhadores não perdem dias por luto como ganham.

Num primeiro e mais distraído olhar, as polémicas do retrocesso são em Portugal como os filmes de guião estafado. Já se sabe quem são os maus, os bons e o desfecho que se quer inevitável: os bons, progressistas, ganham aos maus, os “retrocedores”. Mas politicamente falando o imaginário do retrocesso merece que se lhe dê mais atenção. Afinal o retrocesso é o fantasma que invariavelmente paira sobre os portugueses mal o PS deixa de morar em São Bento, pois a esquerda, apresentando-se como o motor do progressismo (não confundir com progresso), vê na simples chegada da direita ao poder, não um processo de alternância entre diferentes propostas políticas, mas sim a interrupção de uma marcha antecipadamente delineada e que pode ser adiada mas tem de ser cumprida.

A primeira escolha. Não há pecado original em Portugal que se equipare ao facto de não se ter sido a primeira escolha. O caso veio mais uma vez à baila por Álvaro Santos Pereira não ter sido a primeira escolha para o lugar de governador do Banco de Portugal (terá sido mesmo a sétima, o que não deixa de ser um sinal dos constrangimentos legais e da pouca atractividade do cargo).

Mas deixando o caso de Álvaro Santos Pereira para o tópico que se segue — a falsa paixão nacional pelos independentes vamos lá à mácula de não se ser a primeira escolha seja para o que for. Quando pessoas que na sua maioria não foram escolhidas para nada de particularmente relevante franzem os narizinhos e dizem do alto da sua irrelevância sobre outrém “Não foi uma primeira escolha!” não só sinto uma irreprimível vontade de rir como desato de imediato a pensar se alguém os escolheria para alguma coisa.

Tenho aliás a prosaica convicção de que ao longo da nossa vida somos invariavelmente a segunda, terceira ou sei lá qual escolha em diversas circunstâncias profissionais e pessoais e não só não vejo nisso problema algum como interpreto como um inquietante sinal de insegurança este imaginário em torno da primeira escolha que entre outras coisas esconde o medo de não se ser escolhido.

O que define a escolha não é na minha opinião o ter-se sido a primeira ou a sétima escolha mas sim a forma como se desempenha o lugar para o qual se foi escolhido. E aí não tenho mesmo a certeza de que primeira escolha seja invariavelmente sinónimo de melhor escolha.

A falsa paixão nacional pelos independentes. Dou de barato que Mário Centeno, que passou do Ministério das Finanças para o cargo de governador do Banco de Portugal, seja apresentado como independente e que Álvaro Santos Pereira, que foi ministro há treze anos, apareça agora como uma nomeação política. O que me interessa mesmo é o paradoxo em que caímos: por um lado queixamo-nos da falta de qualidade dos políticos e passamos a vida a dizer que há que atrair os melhores para a política mas o facto de alguém, no caso Álvaro Santos Pereira, ter tido um cargo político — foi ministro há treze anos — é agora visto como uma mancha no seu curriculum. Dir-se-á que se fosse socialista o problema não se colocava nos mesmos termos. Provavelmente não, mas, repito, não é isso que me interessa agora. O que me parece mais preocupante é a concepção triunfante da independência não como uma forma séria, rigorosa e livre de estar mas sim como uma espécie de anti-política. (Deve ser a isto que se chama populismo, não é?).

POLÍTICA      EDUCAÇÃO      BANCO DE PORTUGAL      BANCA      ECONOMIA

COMENTÁRIOS (de 79)

SDC Cruz: Mário Centeno foi o ministro das activações e das "contas certas" que conduziram Portugal à cauda da Europa após termos sido ultrapassados por 6 (!!!) países. Como recompensa pelo seu extraordinário trabalho nas Finanças, foi nomeado, uma semana depois, Governador do Banco de Portugal. A sua isenção, como justificava a importância do cargo, foi poucochinha ou nenhuma, fazendo muito mais política que análises, conjunturais e estruturais, financeiras e económicas. Como recompensa, esteve quase a ser nomeado primeiro-ministro. Como recompensa, esteve quase a ser candidato presidencial. E agora, depois de tudo, queria ser reconduzido? De facto, já não há paciência para esta gente!                     JOHN MARTINS: E o que tem o comentariado e jornalato da nossa praça a dizer sobre: ---Centeno saiu das Finanças e foi para o BdeP.   Entrou na jogatana para substituir Costa, na queda do governo. ---Tentou concorrer às presidenciais e desistiu. Neste contexto o Governo de Montenegro foi buscar alguém com larguíssima experiência na OCDE, e suas 38 maiores economias mundiais, de seu nome: Mister Santos Pereira. Parabéns.              Maria Tubucci: Muito bem Sra. HM. A polémica portuguesa é o modus operandi da esquerda de fazer política, minar por trás. Só que os tempos mudaram. Deixaram de dominar todos os canais de comunicação, dominam as TVs que já ninguém leva a sério e cada polémica que criam e mantêm, é contraproducente. As pessoas estão tão saturadas que faz o efeito contrário. Repare. No tempo do Passos Coelho não havia contraditório, um qualquer borra-botas vendia o seu peixe podre como verdade absoluta, actualmente é escrutinado até à última virgula nas redes sociais e gozado. Que demente! Dizem as pessoas que os ouvem. Assim, por cada português que a esquerda anestesia com a sua conversa da treta acorda 10 portugueses da abstenção. Estes começam a enxergar que a política da esquerda está a interferir com o seu dia-a-dia, a destruir o seu mundo, têm de ser detidos, o melhor é começar pelo voto, retirando-lhes o poder...                Joao Cadete: Belo artigo Helena. Espero que ajude a combater o jornalixo que também está a invadir a redacção do Observador.                  Maria Augusta Martins: O PS não passa duma União Nacional reconstruída com as mesmas manhas e truques que esta herdou do Partido Democrático (?) do Afonso Costa. Já vai na 4ª geração mas os truques e golpes são sempre os mesmos e desde que estejam no "poleiro" tudo o que façam e digam são bandeiras de democracia, Se estiverem na oposição os que governam são tão somente ditadores. E não saímos disto há cento e tal anos!                Manuel Martins: Em minha opinião, este episódio da escolha do governador colocou mais uma vez a nu a hipocrisia do PS e da esquerda em geral. Na questão da independência, o PS só se teria de calar quando nomeou o Centeno, um caso tão obsceno de promiscuidade, que a lei teve de mudar, e agora não seria possível. Quanto ao legado, para mim Centeno foi o braço armado da geringonça na destruição de muitos serviços públicos pelas cativações, e em minha opinião, tornou-se um "fanfarrão " depois do elogio "de CR7 das finanças ". Sempre o gostaria de ver ir a votos em qualquer coisa...               João A: O ser a 7ª escolha é uma tentativa de desprestigiar a pessoa. Nada mudou nos comentadeiros habituais da TV. Talvez sejam mais cuidadosos, alguns, ao abrirem a boca para ofender as ideias e os votantes do Chega. De resto, é um suplício ouvir aquelas senhoras (incluindo RTP3, anda lá uma Susana que dá vómitos, muda-se logo o canal) ou aqueles acéfalos defensores das esquerdas(?).                  Ruço Cascais: Foi à sétima escolha. Já não aguentava mais. Cinco horas no shopping a acompanhar uma filha para escolher um vestido para um casamento. O shopping cheio como sempre, um calor insuportável e o AC no mínimo para poupar energia como habitual. Esse fica-te lindamente dizia eu para ver se a tortura terminava. Humm, é um bocadinho comprido demais e o amarelo não combina bem com os sapatos respondia-me a filha enquanto se olhava ao espelho. Vamos ver noutra loja. Fosga-se, pensava eu em silêncio. Foi na sétima loja quando eu estava deitado num banco no corredor que ouvi um grito dentro da loja: - é este!  O mesmo aconteceu com Morais Sarmento enquanto juntamente com Montenegro escolhia o novo governador para o Banco de Portugal. A Ferreira Leite lembrou-se de repente Morais Sarmento. Não, respondeu o primeiro ministro, já não tem idade para estas coisas acrescentou. O tipo da CGD disse o Sarmento. Humm, esse não era mal pensado disse o primeiro ministro, mas, depois quem íamos arranjar para presidente da CGD? Porra, isto não está fácil desabafou Sarmento. Ah já sei o melhor nome de todos gritou o Morais Sarmento enquanto saltava da cadeira para fazer uma dança comemorativa pela ideia; Passos Coelho, gritou. Fosga-se respondeu imediatamente Montenegro, queres arranjar lenha para te queimar? Além disso Passos quer estar quieto no seu canto. Mas olha Sarmento, por falar em Passos lembrei-me de um nome que pode ser uma boa possibilidade disse o primeiro ministro; a Maria Luís. Não foi a Maria, foi o Álvaro que é mais independente e tem menos anti-corpos para a oposição. Foi à sétima que acertaram segundo os registos do apontador que tomava notas da reunião. Acertar à sétima é um processo ou uma selecção de escolha. Não é necessariamente o que sobra, muitas vezes é o que fica melhor.                   Jorge Tavares: Estes dois pesos e duas medidas do PS servem mais uma vez para lembrar algo de essencial na política portuguesa: a esquerda joga sujo.                       Afonso Soares: Centeno foi o que foi. Melhor ou pior depende do ponto de vista de cada um. Primeiro herdou um país credível, Herança do PSD, coisa que o Vitor Gaspar não teve , Herança do PS. Depois foi o rei das cativações. Depois queria receber a totalidade dos lucros do Banco de Portugal, no que foi impedido pelo então governador Carlos Costa e foi essa decisão que lhe permitiu que o Banco de Portugal não apresentasse prejuízos pela primeira vez na sua História e no mandado deste Cristiano Ronaldo. Agora temos a bronca da nova sede do Banco de Portugal. Como tivemos tantos sucessos em 40 anos se as jovens fazem milhares de interrupções de gravidez por ano? Como é que com 40 anos de educação de cidadania os jovens andam em grande quantidade com facas e navalhas no bolso? Tanto uns como outros aprenderam o quê na dita disciplina de cidadania? A "progressista" esquerda convive bem com isto?                     Ana Bosque: Todas essas questões da opinião pública têm um denominador comum, são lançadas pelos socialistas. Estes, sem o gamelo do poder, destroem tudo à sua volta. A solução está nas nossas mãos, ignorá-los, tal como ignoraram os portugueses quando foram governo.                Tim do A: Não se compara o carácter de Álvaro Santos Pereira com o de Centeno. É como comparar o dia com a noite.                    joaquim Duarte: Álvaro Santos Pereira é um emigrante e como tal a oligarquia odeia emigrantes, esse é que é o grande problema. Ouvi aqui no Observador o Luís Aguiar Conraria afirmar que era um individuo medíocre e de baixa estatura intelectual, claro este esquerdóide nunca foi convidado para ministro nem para governador daí a inveja, é típico dos tugas.                    Carlos Quartel: Centeno representa muito bem a hipocrisia nacional. Associada a um descaramento sem limites. Vem reclamar contra insinuações de pouca independência, depois de ter sido ministro do PS, ministro importante na contenção de despesa, à custa do apodrecimento dos serviços públicos. E depois de ter sido hipótese de substituição de Costa, depois deste ter abandonado, salivando com o tacho em Bruxelas. Lata não lhe falta. Quanto ao Álvaro, não tendo qualificações para o apreciar profissionalmente, devo dizer que deixou uma imagem de pessoa inteligente, desempoeirada, dialogante, uma imagem positiva, em resumo. O que basta, num ambiente um pouco cinzento.                         Português de bem: segundo as Mulheres Socialistas Mulheres Socialistas? E se houver um grupo chamado Homens Socialistas, será que alguém os chamará de machistas misóginos? O que diriam se houvesse um grupo chamado “Homens do Chega”?                             teresa jesus ribeiro de sousa Henriques: Mário Centeno foi um bom ministro das finanças. No Banco de Portugal já não tenho essa impressão. Álvaro Pereira chocou os pedantes quando pediu que o tratassem por Álvaro. E demonstrou independência e honestidade no caso EDP. Oxalá continue. O bom desempenho dele só nos beneficia.                 José Lúcio: Lendo os artigos do Jornal “Público “ sobre a questão da sexualidade nas escolas mais a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento percebo o grau de insanidade a que a esquerda chegou em Portugal. Chega a ser assustador.                     Ricardo Ribeiro: Parabéns cara Helena Matos, por mais um magnífico artigo! Realmente você mais a Helena Ferro, Ana Cavalier e Lígia Franco formam, ou formariam ou formavam, um quarteto imparável!                    Alberico Lopes: Este artigo é duma clareza e tão fácil de entender, mesmo aos moradores do Largo do Rato, bem como aos raimundos e mortáguas! É sempre um prazer ler o que a Helena Matos escreve! Haverá mesmo alguém que não esteja de acordo com ela? Eu só tenho a dar-lhe os meus mais sinceros parabéns! Mesmo que não a considerem "independente"!          Carlos Chaves: Cara Helena Matos, expôs-nos aqui dois “links” um do JN outro do Expresso, mas omitiu o “link” do Observador que participa na mesma pouca vergonha que aqui denuncia! Foi sem querer? Ou estamos a assistir a uma pouca vergonha ainda maior?             Ricardo Ribeiro > Vitor Carinha: Assim já seriam um quarteto...                  Antonio Mendes: Oh Helena: pouca atractividade do cargo? A melhor mordomia que existe em Portugal, ainda-por-cima com pouca responsabilidade que foi transferida para o BCE e restante sistema. O melhor exemplo da história da raposa: estão verdes, não prestam…                Francisco Almeida: Como sempre, uma voz de bom senso.                 Alexandre Barreira: Pois. Cara Helena, Não se preocupe. Porque o "chamuças".....vai arranjar. Um "carrocel" ao...."Centeneiro". Na "Feira-Popular-da-UE".....!                  Tim do A > teresa jesus ribeiro de sousa henriques: Bem aldrabão, como ministro das finanças.             Rosa Ribeiro > Afonso Soares: A IVG devia ser precedida de uma consulta psicológica, excepto em casos de violação ou problemas de saúde para o feto ou para a progenitora. Há quem utilize a IVG como método anticoncepcional - parece-me inaceitável. Nas aulas de cidadania, especialmente para os maiores de 10 anos, podia haver um médico que esclarecesse o desenvolvimento físico, cuidados de higiene e saúde a utilizar e as precauções para evitar qualquer gravidez indesejável ou doença sexualmente transmissível Se houvesse mais informação e acompanhamento, talvez houvesse menos casos de IVG e menor envelhecimento populacional. Haveria mais bebés e o SNS ficaria menos "atulhado" de IVG permitindo mais disponibilidade para as parturientes. Espero ter sido clara. Não condeno a IVG mas não aceito a leviandade com que é feita e, muito menos, quem venha passar férias a Portugal para o fazer...

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