Nos seus inícios: II TEXTO
Mudéjares: os muçulmanos que a
(re)conquista integrou
O foral de 1170, documento fundador do mudejarismo português,
reconhecia a autonomia dos muçulmanos em matéria de autorregulação interna.
PAULO ALMEIDA FERNANDES:
Historiador da Arte. Museu de Lisboa – EGEAC e Instituto de História da Arte da
Universidade Nova de Lisboa
OBSERVADOR, 17 jul. 2025, 00:15
Pode parecer estranho que o primeiro foral concedido por Afonso
Henriques a habitantes de Lisboa não tenha sido dirigido aos muitos cristãos
que se instalaram na cidade após a conquista de 1147. Apesar da heterogeneidade destes novos
habitantes, cujas disputas entre eles poderia justificar a existência de um
diploma regulador, o rei preferiu contemplar outra comunidade: os muçulmanos
que optaram por permanecer no território dominado pelos portugueses.
A estranheza pela escolha dos
vencidos de 1147 é ainda maior pelo facto de, durante muito tempo, ter-se
admitido que, após a tomada da cidade, muitos muçulmanos lisboetas teriam
abandonado a região. O acordo de
capitulação, salientado pelo cronista estrangeiro que narrou aqueles
acontecimentos, estipulava a saída pacífica dos antigos habitantes: «depois de
espoliados, todos seriam mandados em paz para fora da cidade». O mesmo autor testemunhou a partida
forçada desta população, um arrastado cortejo que durou cinco dias e que foi
protagonizado por «tão grande
multidão de gente que era como se nela tivesse confluído a Espanha inteira». A observação é exagerada, mas demonstra como, na Idade Média, uma
cidade podia ficar vazia dos seus habitantes de um momento para o outro,
transformando-se os seus lares em moradas para os conquistadores, novos
ocupantes afinal estranhos até àquele mesmo dia.
(IMAGEM): Forais dos Mouros Forros de
Lisboa, Almada, Palmela e Alcácer (1170)
Parte
dos muçulmanos de Lisboa partiu para outras paragens, com probabilidade para
cidades islâmicas mais longe da fronteira, no Sul peninsular ou mesmo no Norte
de África. Mas muitos decidiram permanecer, instalados
no aro rural e periurbano de Lisboa, quem sabe se na expectativa de regressar
às suas antigas casas e assim recuperar os bens perdidos.
Em 1170, data
do foral concedido aos muçulmanos lisboetas, tinham passado 25 anos
sobre a conquista da cidade, mas a comunidade islâmica era importante o
suficiente para merecer um diploma específico. Esse documento não foi só dirigido aos habitantes da cidade da foz do
Tejo.
Afonso Henriques concedeu-o a
todos os mouros forros (expressão que significava os muçulmanos livres) de
Lisboa, Almada, Palmela e Alcácer do Sal, revelando assim a importância desta
comunidade num amplo distrito meridional e marítimo que formava a chave da
segurança naval do reino.
Aquele
foral, documento fundador do mudejarismo
português, certamente
negociado com os membros mais destacados da comunidade islâmica local, reconhecia
a autonomia dos muçulmanos em matéria de autorregulação interna. Mais importante, garantia
a segurança de pessoas e bens face à crescente colonização cristã do território,
colocando os mudéjares sob dependência direta do rei (como, de resto, sucedeu
com as minorias judaicas). O próprio diploma esclarecia a intenção primeira do
monarca: «para que em minha terra nenhum mal injustamente recebais». Era uma
garantia de segurança, em troca da fidelidade. Mas era, também, o resultado de um sábio
e óbvio aproveitamento político de uma realidade evidente nas áreas dos
estuários do Tejo e do Sado: a de que o esforço de povoamento na frente
atlântica devia incluir (não podia prescindir de) uma comunidade assim
relevante em termos demográficos e laborais.
No século XIII, os muçulmanos
de Lisboa – lisboetas
como todos os que habitavam a cidade ou nela tinham nascido –, concentraram-se
num bairro específico: a mouraria. Este núcleo está documentado desde
1263 e parece ter
sido ampliado nas décadas seguintes, fruto de um previsível aumento demográfico
da comunidade. O bairro era periférico, no sentido em que ficava no
exterior das muralhas, mas próximo do centro o suficiente para ser controlado a
partir da alcáçova do castelo. Neste
espaço segregado, a minoria muçulmana dispôs de mesquitas (pelo menos duas),
banhos, escolas, carniçarias, oficinas e tendas, poços, áreas agrícolas e
almuinhas ao longo da ribeira de Arroios e um cemitério. Multiplicavam-se ainda os fornos dedicados ao fabrico cerâmico, actividade de grande relevância para a comunidade. No
final da Idade Média, era uma cidade dentro de outra, à qual se regressava ao
fim do dia e só se era autorizado a sair na manhã seguinte. Durante o
dia, abertas as portas do bairro, os mudéjares continuaram a frequentar o
centro urbano e comercial e a contribuir com a sua mão para a construção da
cidade.
A permanência mudéjar não ocorreu
somente na capital. Os
privilégios que Afonso Henriques concedeu aos muçulmanos livres de Lisboa a
Alcácer do Sal foram replicados por monarcas seus descendentes sobretudo em
vilas e cidades a sul do Tejo. Ao longo do século XIII, em Évora, Moura, Tavira,
Faro, Loulé e Silves, os reis portugueses garantiram por escrito segurança e
tolerância religiosa às comunidades muçulmanas, em troca de pacífica
permanência, lealdade e colaboração. Para
além destas, muitas outras localidades tiveram comunas muçulmanas, como
Santarém, Alenquer, Setúbal, Serpa, Elvas, Estremoz, Beja ou Avis.
O facto de esta população
pertencer a uma minoria dotada de instrumentos próprios de autorregulação e de
justiça, respondendo somente à autoridade do rei, gerou outros problemas. No Sul do país, onde a
Ordem de Santiago se afirmou como principal poder regional, a instalação de grupos mudéjares,
inicialmente estimulada, foi perdendo terreno e gerando conflitos. Afinal, os
mudéjares tinham direito a não pagar os mesmos impostos que outros moradores,
sobretudo cristãos, pela proteção e regulação da Ordem.
A progressiva intolerância que a
sociedade ibérica medieval promoveu em relação a mudéjares e a judeus terá
ajudado à diminuição dos efectivos populacionais muçulmanos. Mas terá
sido realmente assim? Algumas
comunas islâmicas parecem ter desaparecido precocemente, como sucedeu em
Coimbra ou Óbidos. Mas outras registaram fases de crescimento demográfico, como
Évora, Elvas e Lisboa. A diversidade surge como característica mais evidente,
mesmo dentro de uma mesma comuna, onde havia elites dirigentes e diferentes
níveis de estratificação social, laboral e económica.
Lápide funerária de al-‘Abbas Ahmad (1398) – Museu de
Lisboa
No dia 17 de junho de 1398 morreu em Lisboa um homem chamado al-‘Abbas
Ahmad, habitante da comuna muçulmana local. Fez-se sepultar no cemitério dos
mouros (almocávar), na encosta da Graça. A sua cabeceira de sepultura (exposta
no Museu de Lisboa), de um
primor artístico invulgar, continha uma extensa inscrição em árabe,
propiciadora de uma vida plena após a morte terrena. Não se sabe
mais nada sobre este homem, mas a sua lápide conta várias coisas. Demonstra
que, 250 anos após a conquista portuguesa de Lisboa, entre os mudéjares da
cidade se mantinham nomes próprios árabes e existia um grupo que se exprimia
também em idioma árabe. Para além disso, esse grupo era numeroso o suficiente
para manter activa uma oficina de epigrafia de grande qualidade.
Foi esta mouraria que D. Manuel
mandou destruir em 1497, na sequência do decreto de conversão forçada ao
catolicismo ou expulsão do país para muçulmanos e judeus. Desapareceram
os habitantes e a paisagem arquitectónica mudou para sempre, com a destruição
das marcas da comunidade islâmica. Retiraram-se os homens, mas manteve-se o
topónimo até aos dias de hoje e a memória de alguns ofícios estruturantes, a
lembrar que os mudéjares foram muito mais que os vencidos da primeira expansão
portuguesa. Foram os muçulmanos que a (re)conquista integrou.
PORTUGAL 900 ANOS HISTÓRIA CULTURA
( (...) Portada mudéjar da Paróquia de la O, Sanlúcar de Barrameda. O estilo mudéjar
é uma mistura de elementos romano-cristãos da Europa continental com elementos
mouriscos que são só encontrados na península ibérica.)
Mudéjar é um termo que deriva da palavra
em árabe: مدجّن, lit.'mudajjan'
que significa "doméstico" ou
"domesticado" e que se
utiliza para designar os muçulmanos ibéricos que permaneceram em território
conquistado pelos cristãos, e sob o seu controlo político, durante o longo
processo da chamada Reconquista, que se desenvolveu ao longo da Idade Média
na Península Ibérica. A estes muçulmanos foi permitido
prosseguir a prática da sua religião, utilizar o seu idioma e manter os seus
costumes. Durante a Idade Moderna foram obrigados a
converter-se ao cristianismo, passando assim a denominar-se mouriscos.
A arte mudéjar é
um estilo artístico e arquitectónico para os cristãos e que incorpora
influências, elementos ou materiais de estilo
hispano-muçulmano, tratando-se de um fenómeno autóctone e
exclusivamente peninsular.
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