segunda-feira, 14 de julho de 2025

Perspectivas inúmeras


Do que se possa seguir, em termos de realização, no espaço despido das uvas: a próxima vinha da manutenção do hábito vinícola, ou variantes de realização no espaço momentaneamente vazio de cachos, conformes às ambições pessoais do dono da vinha. Os mais dados às pretensões literárias, substitutas da gula, fabricariam, por exemplo, biblioteca condigna que contribuísse para outros sabores capitais nas vidas de cada um… Ou piscina pública prazerosa, castelo impante, loja de vendas aprazíveis ou comezinhas, do imediato habitual… Mas provavelmente o campo da vinha ficaria em pousio, até que a vinha retomasse espontaneamente a sua função de fornecedora de cachos generosos para a época seguinte…Não somos muito de reformas custosas de esforço próprio, e é sempre bom ter uma vinha à mão, para o bago ocasional e generoso da nossa gula sequiosa.

A vinha vindimada

Como mostram os cães que as atravessam a correr, há uma alegria específica no passar por uma vinha vindimada.

MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

OBSERVADOR, 13 jul. 2025, 00:1510

Para aqueles que sentem um certa tristeza por perceber no Outono que o Verão era a única estação existe uma consolação na noção de vinha vindimada. Só no fim do Outono é que as vinhas estão realmente vindimadas. O espectáculo de uma vinha vindimada não parece feito para atrair público; não se vê nada verde, e não há uvas para cobiçar ou admirar. Não nos ocorre perguntar onde estaremos no próximo Verão, e se nos será dado ainda a ver por vindimar a mesma vinha. Mesmo as raposas não encontram matéria de fábula.

E no entanto, como mostram os cães que as atravessam a correr, há uma alegria específica no passar por uma vinha vindimada. Porque não há nada para ver nela, talvez a vinha vindimada nos ajude inadvertidamente a chegar mais depressa ao próximo ponto de interesse. Existem tantas coisas interessantes neste mundo que menos uma coisa a que prestar atenção ajudará a libertar a nossa disponibilidade para o maior interesse das outras. Quem sabe se uma plantação de ananases não se esconde do outro lado da vinha?

Esta perspectiva confunde não obstante alegria com alívio, e confunde a passagem por uma vinha vindimada com o caminho para uma próxima coisa que merecerá a nossa atenção.  Ora o alívio de ficarmos disponíveis para as coisas que se irão passar a seguir é independente da natureza das coisas a que não prestamos atenção. Se a função da vinha vindimada for apenas a de orientar as nossas reservas de interesse para as coisas realmente interessantes, qualquer coisa poderá em certas circunstâncias ser como uma vinha vindimada; podemos passar por qualquer coisa como cão por campo de ananases.

A alegria da passagem pelas vinhas vindimadas não está apenas reservada aos animais. Não tem a ver com a promessa de satisfação futura; e desse ponto de vista não se confunde com a alegria nervosa que sente quem só consegue entusiasmar-se com aquilo que ainda não aconteceu, e que nos entretém com promessas de motivos de interesse que mais ninguém vê. É pelo contrário uma satisfação particular, suscitada por uma vinha particular, e cuja particularidade consiste justamente em não requerer qualquer atenção e nenhuma apreciação da nossa parte.

Os motivos de atenção são a causa mais frequente de distracção. Ao prestar atenção distraímo-nos quase sempre a imaginar o futuro; e a nossa cabeça começa a andar à roda. Somos demasiado sensíveis à “beleza das insinuações.Agrada-nos a ideia de que as qualidades daquilo que não tem interesse nos inspiram interesse. Ora uma vinha vindimada é um cenário sem nenhumas qualidades especiais.  Passamos a correr por ela; a nossa relação com ela consiste em não imaginar seja o que for. A alegria com a vinha vindimada, como o despacho com que o cão passa por ela, deve-se às coisas que não precisam da nossa atenção e do nosso concurso.

Alertas activos

ERRO EXTREMO       OBSERVADOR

COMENTÁRIOS (de 10)

S Belo: Professor, por maioria de razão,’fabuloso’ ė o qualificative mais adequado à sua crónica de hoje. Inspiradora, também foi, de comentários (abaixo) variados e engraçados. Edificante e estimulante como sempre ou quase sempre. Obrigada.              Alexandre Barreira: Pois. Caro Miguel, Também há aquela "canção": “À sombra da bananeira. Que já não sabia a idade. Ou seja.....um "bananal"....com 50 anos....!           Novo Assinante: Já tinha saudades do senhor Tamem.                      Francisco Almeida: Guardo na memória a minha vinha vindimada de 1975. Levei uvas à Cooperativa - conduzia o tractor e atrelado nas férias de bancário - para depois não me serem pagas porque era latifundiário. Contratei nessa época o primeiro empréstimo bancário da minha vida, empréstimo renovado e substituído por cerca de 35 anos, quando finalmente me consegui libertar. Entretanto o gabinete do ministro sem pasta, dr. Álvaro Cunhal, contratava uma exportação de vinho branco para a Rússia a 2$90/lt o que nem cobria custos de produção. Guardo da minha vinha vindimada de 1975 a mesma memória e o mesmo sentimento da minha comissão na Guiné 1966-68. [não] Valeu a pena.                       João Floriano > Francisco Almeida: Mas pense só na honra de dar vinho de borla aos heróis dos amanhãs que cantam, ao sal da terra! Aqui há uns anos um parente afastado, GNR, recebeu de herança um terreno rústico e resolveu meter-se numa aventura: plantar um meloal, aquele melão branco, doce, sumarento. A plantação foi um sucesso, não pediu dinheiro ao banco, mas ainda gastou lá algum dinheiro e os GNR ganham mal. O problema foi escoar a produção. Nenhuma superfície comercial se mostrou interessada, mesmo que o preço fosse praticamente simbólico. Passou vários fins de semana à beira da estrada a vender melões e todos tivemos de dar uma ajuda a comer melão. Os melões eram enormes e de excelente qualidade. Ah! Estou a esquecer um pormenor: os melões foram também parar ao lar da terceira idade e ao centro de dia da pequena aldeia raiana onde o agricultor vivia e ainda vive. Nunca mais se atreveu a aventuras semelhantes. Houve uma ano em que tive aqui no meu terreno uma infestação de abóboras. o mais curioso é que eu não as plantei. Devo ter atirado sementes sem imaginar o que iria sair dali. Nessa altura eu tinha coelhos e a terra estava muito bem estrumada. Tive uma grande e involuntária produção, mas no meu caso escoei-as no meu supermercado habitual: pagaram-me a 79 cêntimos o Kilo e foram vendidas como produção biológica.                Francisco Almeida > João Floriano: Melões e melancias partilham a mesma característica. Se semeados pela primeira vez a produção é enorme mas, no ano seguinte diminui drasticamente. Ainda bem que o seu parente não continuou porque iria ter uma desilusão. Melão branco é um híbrido desenvolvido no Brasil. Muito mais produtivo, desalojou as variedades nacionais designadamente o casca de carvalho. Sumarento mas com pouco sabor.  Na minha juventude, passávamos o mês de férias do meu pai na Quinta, para onde previamente, tinha vindo do Campo, um carro de bois carregado de melões. Às refeições, o meu pai e a minha avó, provavam e rejeitavam até 9 a 10, antes de aprovar um. Desse, guardavam-se as sementes que eram usadas no ano seguinte. Os rejeitados não eram desperdiçados, pois uma imensa população de galinhas que povoavam um pátio enorme, encarregavam-se deles. Nunca mais comi um bom melão, designadamente o picante que erradamente se atribuía apenas a Almeirim. Aos poucos deixei de comer melão e hoje só como se estiver como convidado para não fazer má figura e, sempre a pedir aos santinhos que não me peçam a opinião, porque me incomodo com mentiras, ainda que piedosas.                        Carlos Almeida: Que prazer dá ler o Miguel Tamen. Escrever bem e com ironia sem limites  ... parabéns                        João Floriano: Uma vinha vindimada torna  a renascer. Por isso a vinha é sagrada na cultura greco romana. Não apenas porque das uvas faz-se o vinho. Baco é muito mais do que o deus dos borrachos. Baco é o dono das vinhas que parecem vindimadas, mas renascerão e reinventar-se-ão no futuro. Idealmente deveriamos ser como as vinhas e perceber que a nossa vida é feita de capítulos, de finais e de recomeços. Se um cão agora ignora a vinha, no futuro uma raposa virá apreciar a doçura das uvas.                   Américo Silva: A vinha vindimada e a mulher f*d*d* libertam o jovem para chegar mais depressa ao próximo ponto de interesse, e o velho para a meditação.            João Floriano > Américo Silva: Interessantissimo o que cada um de nós consegue interpretar num texto como este. Uma espécie do teste do borrão de tinta, em que cada um tem uma visão diferente.

 

Nenhum comentário: