Contudo, os efeitos catastróficos do tal movimento das Forças Armadas,
para sempre destruidor de conceitos apensos a uma HISTÓRIA NACIONAL
anteriormente consagrados, (apesar da sua condenação – aparente porque
contrastante com o sentimento geral de orgulho nos barões assinalados da gesta
lusíada – feita no Restelo, pelo tal “velho” venerando, uns cinco séculos antes
dos de pensamento idêntico, nesse tal abril, finalmente vitorioso da “vã cobiça”, e que JAIME NOGUEIRA PINTO historia
em novas coordenadas que uma esquerda desligada de tudo isso propiciou.
Guerras culturais
Esses tempos de há mais de cinquenta anos acabaram. Os tempos são
outros e outros os termos das guerras culturais. Até porque, aparentemente, os
papéis se inverteram.
JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador
OBSERVADOR, 12 jul. 2025, 00:2039
Neste
meio século, marcado pelo golpe militar de Abril de 1974, pela deriva radical
que se lhe seguiu, pela consequente hegemonia do pensamento de esquerda, mesmo
entre os partidos à direita do PS, e
por uma cultura instalada em que a informação supera de longe a formação, procurar
trazer alguma racionalidade e contextualização, por básica que seja, ao
inflamado debate político sobre Esquerda e Direita é uma pretensão irrealista.
Mas talvez valha o esforço.
A
deriva esquerdista em Portugal teve como principais consequências, na
Metrópole, as nacionalizações
e colectivizações; e, no “Ultramar”, uma descolonização descontrolada (ou habilmente
controlada por alguns) que deixou
os então territórios ultramarinos entregues
a longas e sangrentas guerras civis em Angola e Moçambique. Timor na Insulíndia teve destino
semelhante. Dos outros, a Guiné, que estava
na raiz do problema, foi para o partido único PAIGC; Cabo Verde seguiu-lhe a sorte e São Tomé e Príncipe também. A confuciana sabedoria, ou o sentido de Estado e de História, levaram
os nacionais-comunistas chineses a
começar por Hong-Kong o resgate dos seus territórios ao Ocidente, o que nos
permitiu, anos mais tarde, fazer em Macau uma
transição e descolonização decente. A única.
A força do PC
Em 1974, o Partido Comunista Português não era visto como a sucursal de um partido que oprimia ditatorialmente, há meio século,
a Rússia e grande parte da Europa Oriental; um
partido com polícia secreta, campos de concentração e de morte para os
dissidentes e milhões de vítimas; um
partido que instalara, em nome da justiça social e do desenvolvimento, um
regime que oprimia e empobrecia as pessoas e os povos, que não funcionava e que
já dera provas provadas que não funcionaria nunca. Não. Em
Portugal, no Portugal dos finais do Estado Novo, os comunistas eram, acima de
tudo, “resistentes”; “resistentes antifascistas” e, nessa categoria, os mais
organizados e os mais antigos.
Foi com essa carga de prestígio que o
Dr. Cunhal voltou do exílio e orientou
uma política que determinou muito do futuro do país. Não só na descolonização,
com a entrega do poder aos movimentos independentistas da sua linha ideológica
e obediência internacionalista, mas também com uma estratégia
de terra queimada que apontava para a
estatização das indústrias e a colectivização das propriedades agrícolas
portuguesas.
O
PCP conseguiu fortes apoios no MFA. Há quem diga que, quando o militar não é patriota, a sua
estrutura de pensamento e da própria organização tendem a levá-lo para o
socialismo. Aqui foi assim: os
comunistas usaram o MFA para neutralizar resistências políticas à direita para
depois, aproveitando oportunidades e provocando intentonas, como o 11 de Março,
poderem avançar para as “nacionalizações” que
dariam o golpe de morte à economia nacional. Um golpe de que o país nunca mais
recuperou.
No princípio era a Economia
Foi precisamente esta radicalização à esquerda e as nacionalizações – e o processo lento e inacabado para as tentar
reverter – que marcaram, até há pouco a oposição direita/esquerda em
Portugal. Uma
oposição que se ficava muito pela economia, também por influência da direita internacional que,
nos anos oitenta, no “Mundo Livre”, com os movimentos conservadores-liberais do
thatcherismo e do reaganismo
e os seus êxitos no mundo anglo-saxónico, abriu caminho ao fim da União
Soviética.
Assim, em Portugal, a questão Direita-Esquerda tem sido
quase só económica; de resto,
a existência de uma sociedade livre é incompatível com a total dependência do
Estado e da Administração pública, da vida económica e da vida das pessoas.
E agora?
Mas acabada a Guerra Fria e instalada urbi et orbi uma grande economia
de mercado e um pretenso grande consenso sobre as suas virtudes, a chave de
toda a real distinção política passou a ser a questão
nacional, ou melhor, a
confrontação nacionalismo-globalismo. Não menos importantes passaram também
a ser o conceito de família e o conceito
de realidade e de senso comum.
E porque as suas ideias fizeram
caminho através das instituições e pela nossa realidade adentro, ainda vivemos ou convivemos com a versão da
História que a Esquerda moldou e instituiu e que agora começa a defender com o
desespero soberbo dos poderes instalados e ameaçados.
Longe vão os tempos em que era a
Esquerda que dominava a edição e as revistas de pensamento e cultura, e a
Direita, então no poder – um Estado Novo decadente que se fiava na televisão
para difundir o que queria e na censura para expurgar o que não queria –, que descartava como fake news de redes
sociais elitistas para grupos irrelevantes esses outros caminhos menos
sistémicos.
Esses
tempos de há mais de cinquenta anos acabaram. Os tempos são outros e outros os termos das guerras
culturais. Até porque, aparentemente, os papeis se inverteram.
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS (de 39)
Caetano Ramalho: Dr Jaime Nogueira Pinto, vou lendo algumas das suas
crónicas bastante assertivas. Uma coisa é certa, sim, estamos muito perto de
guerras culturais que irão transbordar para outro tipo de guerras mais
sangrentas. É uma questão de tempo. Toda esta utopia do multiculturalismo
descontrolado vai acabar em tragédia. Não há sociedade que
aguente várias tribos culturais e religiosas numa convivência pacifica e
celestial. Há sempre
uma tribo que vai tentar controlar as outras e há sempre tribos que em nada se
identificam com outras. Uma sociedade homogénea com o multiculturalismo q.b.
consegue subsistir no tempo, o multiculturalismo descontrolado levará ao caos.
É tudo uma questão de tempo. Maria
Nunes: Brilhante
artigo. Obrigada JNP. Luis Mira
Coroa: Excelente! Manuel
Magalhães: Muito Bom! Francisco
Almeida: Mais um
excelente artigo, que revela a magistral
capacidade de análise de JNP, sintetizando numa dezena de parágrafos a evolução
política de mais de 50 anos. Apenas
receio que, no parágrafo final, exista algum optimismo ainda sem tradução na
realidade. De facto, se a inversão política fosse real, haveria uma maioria de
dois terços na AR capaz de mudar radicalmente a Constituição mas ainda estamos
muito longe disso. Cisca
Impllit: Muita opinião
e pouco conhecimento - é o que há muito. Quanto a isso, a este estado de
ignorância - não há crónicas de JNP que sejam suficientes. Miguel
Oliveira: Excelente
artigo. Coxinho
> Álvaro Aragão Athayde: O globalismo escravizou e sustenta a esquerda, que o
serve e defende que nem um cão. O
soberanismo agregou ou assimilou a direita.
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