sexta-feira, 18 de julho de 2025

Impecável


De clareza lógica. Assustador, naturalmente.

Ucrânia: a guerra que não podemos perder

Perder não seria só perder a Ucrânia. Seria perder a nossa autoridade e integridade, até a capacidade de resistir quando formos os próximos. Porque se a nomenklatura chequista vencer, haverá próximos.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 17 jul. 2025, 00:1859

Vai quente o Verão na Europa. As praias enchem-se, os voos low cost andam sobrelotados e alguns dos decisores políticos do continente ainda descansam com a consciência tranquila da avestruz que pensa que, por não olhar para a guerra, ela deixará de existir. Mas a leste o incêndio está longe de ser dominado. A Ucrânia continua a resistir. E a Rússia continua a matar.

Passaram-se mais de três anos desde o início da invasão em larga escala. E ainda se encontra quem fale da guerra como se fosse uma “operação especial”, ou uma “crise”, como certos comentadores putinistas omnipresentes no espaço mediático.

Crise implica transitoriedade. O que está em curso na Ucrânia não é transitório. É estrutural. É existencial. E para todos os envolvidos, representa muito mais do que a posse de territórios em mapas. Representa o futuro das fronteiras morais e estratégicas da Europa. O futuro dos nossos filhos e netos.

A ofensiva russa de Verão, iniciada em maio de 2025 não trouxe surpresas, apenas confirmações. Confirma que a estratégia russa não tem músculos para conquistar de forma rápida, apenas para desgastar de forma brutal. Confirma que a vida humana, para Moscovo, continua a valer uns meros quadrados de lama. Quase 30 homens por um quilómetro quadrado. E confirma que, apesar de todos os seus fracassos estratégicos e militares, para Putin e a mafia do KGB  que governa a Rússia, com mentalidade autoritária, nacionalista, e uma visão hierárquica e conspirativa do mundo, a esperança está, não nos mísseis, mas no esgotamento da vontade ocidental.

A vila de Kostiantynivka foi tomada. Um nome que quase ninguém saberá pronunciar, mas que serviu como troféu de propaganda. Um ganho táctico irrelevante, mas apresentado como se a guerra tivesse dado uma volta. Não deu. Nas frentes de Norte a Sul, de Kupiansk, Sumy, Novopavlivka, Pokrovsky, etc, as forças russas continuam a lançar ataques que se medem em cadáveres e se justificam com mapas estáticos. A táctica de atrito não visa ganhar. Visa matar. E moer.

Do lado ucraniano, a resposta tem sido corajosa, resiliente e, acima de tudo, lógica. A Ucrânia não caiu. E não cairá facilmente. Tem demonstrado uma capacidade de adaptação notável: estabilizou Kharkiv, impediu o reposicionamento de dezenas de milhares de soldados russos e mantém fortes linhas de defesa contra um inimigo superior nos números. O apoio ocidental, embora muitas vezes insuficiente e tardio, permitiu que a Ucrânia criasse não apenas resistência, mas também capacidades. Capacidade industrial, com novos acordos assinados em Roma. Capacidade tecnológica, com uma revolução nos drones e munições inteligentes. E, sobretudo, capacidade moral, justamente aquela que parece faltar em muitas capitais europeias.

Porque, como sempre, uma parte da Europa hesita. O continente que durante séculos definiu o que era civilização, hoje está mais no negócio dos comunicados, declarações de intenções e barganha egoísta de tostões, por parte de alguns. Como a orquestra do Titanic que continua preocupada com o timbre do fagote, enquanto o navio corre o risco de afundar.

Cinco acordos foram assinados na Conferência de Roma para apoiar a base industrial ucraniana. Uma boa notícia, mas incompleta. Porque o que está em causa não é apenas o fornecimento de blindados ou pólvora. É a consciência do que significa esta guerra e sobretudo do que significaria perdê-la.

Entretanto, a Rússia plagia Deuladeu Martins e continua a fingir vitalidade. É um bluff, mas muitos acreditam nele. Ou fingem acreditar. A economia adaptou-se, sim. Mas como um organismo doente se adapta à doença, não como alguém que recupera saúde. Produz 6 mil drones por mês, mas os componentes vêm da China e de outros oportunistas. Dispara 300 mil projéteis e fabrica 250 mil. O défice é coberto por parceiros como o Irão e a Coreia do Norte. O que diz muito sobre o tipo de “alianças” que sustentam o Kremlin. Está cada vez mais longe de ser um império. É um cliente crónico de regimes medievais, um G7 da degradação. Expulso da Síria, e impotente para ajudar os aiatolas, juntou-se agora aos alucinados talibãs do Afeganistão. E, contudo, andam por aí indivíduos delirantes que idolatram o coronel do KGB como o salvador da cristandade.

Mas o Ocidente, com todas as suas hesitações, continua a fornecer uma linha de vida à Ucrânia. Está a produzir e a entregar à Ucrânia mais projécteis de artilharia. Os sistemas de defesa aérea Patriot, SAMP/T e IRIS-T funcionam e vão sendo aperfeiçoados. Os mísseis russos, Kinzhal, Kalibr, Iskander, já não têm o impacto psicológico de outrora. São ameaças reais, mas contidas. Ainda assim, o Kremlin continua a investir em salvas sucessivas, numa tentativa clara de desgastar a moral não só ucraniana, mas também europeia e americana.

Porque é aí que ainda crê poder vencer: não no campo de batalha, mas na erosão da vontade. Acredita que o Ocidente desistirá primeiro. Que preferirá uma paz vergonhosa a uma vitória difícil. Que optará por uma solução “diplomática”, isto é, pela rendição da Ucrânia.

Mas há um problema. Um obstáculo inesperado no guião do Kremlin: os números. A Rússia perde 35 mil soldados por mês. A Ucrânia perde 10 mil. Ambos os números são trágicos. Mas insustentáveis a prazo. O modelo russo é autodestrutivo. Alimenta-se da ilusão de que a quantidade pode substituir a qualidade, e da certeza de que a vida humana é descartável. É um modelo que já falhou antes. E falhará de novo. Mas para isso, tem de ser enfrentado com clareza.

É aqui que entra Donald Trump.

Com o estilo habitual, directo, ruidoso, imprevisível, mas por vezes inegavelmente eficaz, acaba de anunciar que, dentro de 50 dias, aplicará sanções secundárias de 100% sobre qualquer país que continue a comprar produtos russos. Não há margem para ambiguidade. Não há comités preparatórios. Apenas um prazo. E uma consequência assustadora para os cínicos que continuam a comprar à Rússia.

Ignoro se a escolha dos 50 dias é aleatória. Para mim é um prazo longo demais. Mas é o que é, e com armas a sério a entrar na Ucrânia, pode ajudar Putin a perceber. Setembro é quando os governos voltam das férias e os mercados retomam a plena atenção. Quando a distração estival dá lugar a decisões políticas. Talvez Trump saiba disso. Ou não. Todavia sabe certamente que a verdadeira batalha não se trava em Kharkiv ou Toresk, mas em Pequim.

Porque é lá que vão buscar água as raízes do problema.

A economia chinesa, em 2025, está muito fragilizada. A bolha imobiliária explodiu. Várias empresas faliram. O desemprego jovem é tão alto que o regime deixou de publicar dados e veio depois reformular com novas métricas, ditadas pela propaganda. O consumo interno estagnou. O crescimento económico caiu para valores simbólicos. E, talvez mais importante do que tudo isso, a confiança desapareceu. A classe média poupa compulsivamente. As empresas evitam investir. E o Partido recorre ao que sempre conheceu: controlo, censura, propaganda e repressão.

É este o contexto em que Xi Jinping, ou talvez um Comité qualquer, já que o Sr Xi anda mais discreto, terá de decidir: manter o apoio logístico e tecnológico à Rússia e enfrentar sanções devastadoras de Trump, ou recuar e arriscar ver o seu parceiro de conveniência definhar sozinho. Xi é autocrata, mas o PCC não é irracional. A sua prioridade é manter-se no poder, e isso exige, no mínimo, estabilidade económica. A China não está ainda em posição de suportar uma guerra comercial total com os EUA. E Trump sabe disso.

Se Pequim recuar, o cerco à Rússia torna-se quase perfeito. E sem disparar um único tiro, o Ocidente, ou pelo menos uma parte dele, poderá isolar o Kremlin de forma mais eficaz do que qualquer frente de combate.

Mas isso exige uma coisa que nos tem faltado: Vontade. Clareza. Coragem. Os quase 500 mil milhões de euros russos congelados continuam nos cofres europeus. A maior parte em Bruxelas. E continuam intocados, por medo. Medo de que usá-los pareça “escalada”. Medo de parecer injusto. Medo de parecer demasiado decidido. Medo de futuras desconfianças. Mas deixá-los onde estão não é neutralidade. É cumplicidade por omissão. E eventualmente suicídio.

Esta guerra não é apenas sobre mapas. É sobre valores. Sobre fronteiras físicas e morais. Sobre o direito de um país existir. Sobre o direito dos outros de não aceitarem a agressão como norma. Perder esta guerra não seria apenas perder a Ucrânia. Seria perder a nossa autoridade, a nossa integridade e, talvez, a nossa capacidade de resistir quando formos os próximos. Porque se a nomenklatura chequista vencer, haverá próximos. E centenas de milhares de ucranianos que estão agora nas trincheiras a tentar parar os russos, serão enviados na nossa direcção, gostem ou não gostem.

A verdade é que se tudo se mantiver como agora, 2026 não trará paz. Trará continuidade. Porque Kiev não pode deixar de resistir e Putin se meteu numa situação impossível da qual as únicas saídas são a fuga para a frente, ou cair de uma varanda. E o Ocidente? Continuarão alguns a fingir que não é com eles?

Se a resposta for “sim”, então talvez mereçam mesmo o declínio que tantos já lhe prevêem. Aqui ao lado, a Espanha sanchista, faz acordos com Pequim e declara que lava as mãos.

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COMENTÁRIOS (de 59)

Carlos Chaves: Mais palavras para quê? Está tudo aqui clarinho como água de boa nascente! Caro José António Rodrigues do Carmo, obrigado por este excelente e certeiro artigo e pela sua extraordinária capacidade de análise.                    Jose Carmo > Liberales Semper Erexitque: Resumindo, para facilitar a digestão: 1-A Rússia está em guerra com o Ocidente. E com a OTAN. Não sou eu que o digo, é o Czar. 2-Portugal faz parte da OTAN. O silogismo é de fácil conclusão. 3- A Rússia atacou a Ucrânia e disse, com clareza linear, que o seu objectivo é recuperar o império estalinista. 4-. Neste momento está atascada na Ucrânia, muito contra a sua vontade. Mas está numa economia de guerra e a produzir latas e bombas como quem produz bolachas. 5. Se o Ocidente ( nós), não ajudarmos, a Rússia acabará por fagocitar a Ucrânia. 6. Se o fizer, incorporará nas suas forças armadas centenas de milhares de ucranianos calejados no combate e com capacidades testadas no terreno. Agora una os pontos.               joaquim Pocinho > Liberales Semper Erexitque: Que raiva é essa contra a Ucrânia ? Tem algum trauma assim de quando era pequeno? Há trinta anos vieram muitos ucranianos imigrantes para Portugal….. sei lá ! Você até lá vê fascistas!🤣🤣ele há com cada um. Aliás basta ver o nome 🤣🤣🤣🤣                     Maria Nunes: Excelente artigo Sr. Coronel. Parabéns.                 Walter Humberto subiza Pina: Um dos comentários mais sensatos que já lí, ainda temos muitos quinta coluna na Europa e em Portugal... Perder esta guerra é perder Europa e seus valores aos pedaços...                  joaquim Pocinho > José B Dias: A minha raiva é com assassinos de civis, principalmente crianças; também tenho raiva a assassinatos em caves com os assassinados amarrados pelas costas ; tenho também raiva a invasões de países soberanos. E por fim tenho raiva a quem manda prender (na melhor das hipóteses, já que a outra é por queda em varandas) por delito de opinião.                 S N: Excelente análise: aparentemente objectiva e equilibrada. Resta-nos aguardar                    Luis Martins: A Europa ou a Rússia? Escolham!      Nuno Pinho > Carlos Real: A falta de conhecimento do mundo do costume. Tem direito à sua opinião, mas é uma narrativa desenhada à medida para “acordo a qualquer custo”.             Jose Carmo > Luis Silva: Objectivamente falso, mas a propaganda funciona, pelos vistos. BTW, para que precisa a Rússia de comprar  munições, drones, motores e milhentas coisas ao Eixo dos Déspotas?

Jose Pires > Luis Silva: Patética, ignorante e alarve é a sua narrativa.               Carlos Dias >       Jose Pires: Apoiado Acrescento Ignóbil, ridícula e delirante               Jose Pires: Sem pôr nem tirar, a realidade nua e crua. Só os putinescos ignorantes e vendidos do costume, é que fingem não perceber...                 José B Dias > Liberales Semper Erexitque: Já decidi que vou dizer ao jardineiro para subir as sebes ... nada como estar preparado para a invasão dos russos maus!       Carlos DiasLuis Silva: Faz queixinha e birra faz Ahahah               vitor gonçalves > Alexandre Barreira: Com excepção de Goa, tudo guerras que não foram perdidas do ponto de vista militar (talvez a coisa estivesse mais preta na Guiné) mas sim do ponto de vista político. E o comunismo e o socialismo a atraiçoar os portugueses ( pelas costas ).                Nuno Lopes: Excelente artigo, parabéns              Alexandre Barreira: Pois. Caro José, "A guerra que não podemos perder" Perdemos a "guerra de Goa" Perdemos a "guerra de Timor". Perdemos a "guerra de África". Deve estar a....brincar.....às guerras....?!              João Floriano: Crónica excelente em todos os aspectos e também no estilo da escrita. Vamos a ver o que sai dos 50 dias de Trump. Já tínhamos as 50 sombras de Grey. Agora temos os 50 dias de Trump. Estou totalmente de acordo com o papel chave que cabe à China neste conflito.                 Francisco Almeida: Artigo corajoso e com clareza geopolítica. Tudo foi dito sobre uma vitória da Rússia mas nem tudo sobre uma derrota da Rússia. Parece-me claro que o regime por demasiado identificado com uma clique ex-KGB, não resistirá a uma derrota na Ucrânia. E a questão é que o mais provável é que a Federação Russa também não resista à queda do regime. Cerca de 90 entidades políticas com bandeira e brasão e áreas entre 1400 e 2,3 milhões de km2 e populações entre 41 mil e 10,4 milhões, 160 etnias com 100 línguas. Uma receita para instabilidade e confusão. Mas o pior será na Sibéria. Nem China nem EUA podem aceitar que o outro fique com as maiores reservas minerais do mundo. Por outro lado a China coadministra um grande território com a Rússia que evidentemente passará à sua soberania. Também a China aceitou que a Rússia soviética e depois a Federação Russa herdassem da Rússia czarista imensos territórios chineses perdidos pelos chamados Tratados Desiguais impostos à China, depois desta perder as Guerras do Ópio. Toda a Mongólia exterior, quase certamente Vladivostok, a ilha de Sakalina (também com direitos do Japão) e outras ilhas com importância estratégica quando o degelo abrir as rotas marítimas do Árctico. Não seria um quadro bonito, nem fácil.            Jose Carmo > Liberales Semper Erexitque: Não minta. As estimativas de baixas são consistentes e referidas por vários analistas. De resto são até consistentes com o que é típico numa situação de ataque convencional.  Num ambiente em que tropas mal treinadas avançam de moto ou a pé,  atravessando uma kill zone de mais de 15 km, saturada de drones first view e coberta por fogos de artilharia, até pecam por defeito. Btw, referir como fonte de autoridade,  alguém claramente ao serviço da narrativa russa, é de cair para trás à gargalhada. É como reivindicar Maomé para opinar honestamente sobre o toucinho.              António Alberto Barbosa Pinho: Apoio completamente, Sr. Coronel .         Carlos F. Marques Excelente. Nota 20.                 joaquim PocinhoLiberales Semper Erexitque: Existem presos no ocidente por delito de opinião? Mandamos pelas varandas abaixo os nossos inimigos? Os ucranianos matam civis russos? Torturamos em caves civis e depois assassinamo-los? Tenha noção pois ou o caro senhor não tem noção das proporções ou não o incomoda a indecência !                Lily Lx: Top.

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