De clareza lógica. Assustador, naturalmente.
Ucrânia: a guerra que não
podemos perder
Perder não seria só perder a Ucrânia.
Seria perder a nossa autoridade e integridade, até a capacidade de resistir
quando formos os próximos. Porque se a nomenklatura chequista vencer, haverá
próximos.
JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"
OBSERVADOR, 17
jul. 2025, 00:1859
Vai quente o Verão na Europa. As praias
enchem-se, os voos low cost andam sobrelotados e alguns dos decisores políticos
do continente ainda descansam com a consciência tranquila da avestruz que pensa
que, por não olhar para a guerra, ela deixará de existir. Mas a leste
o incêndio está longe de ser dominado. A Ucrânia continua a resistir. E a
Rússia continua a matar.
Passaram-se mais de três anos
desde o início da invasão em larga escala. E ainda se encontra quem fale da
guerra como se fosse uma “operação especial”, ou uma “crise”, como certos
comentadores putinistas omnipresentes no espaço mediático.
Crise implica transitoriedade. O que
está em curso na Ucrânia não é transitório. É estrutural. É existencial. E para
todos os envolvidos, representa muito mais do que a posse de territórios em
mapas. Representa o futuro das fronteiras morais e estratégicas da Europa. O futuro
dos nossos filhos e netos.
A ofensiva russa de Verão, iniciada em
maio de 2025 não trouxe surpresas, apenas confirmações. Confirma que a
estratégia russa não tem músculos para conquistar de forma rápida, apenas para
desgastar de forma brutal. Confirma que a vida humana, para Moscovo, continua a
valer uns meros quadrados de lama. Quase 30 homens por um quilómetro quadrado.
E confirma que, apesar de todos os seus fracassos estratégicos e militares,
para Putin e a mafia do KGB que governa
a Rússia, com mentalidade autoritária, nacionalista, e uma visão hierárquica e
conspirativa do mundo, a esperança está, não nos mísseis, mas no esgotamento da
vontade ocidental.
A vila de Kostiantynivka foi tomada. Um nome que quase ninguém saberá pronunciar,
mas que serviu como troféu de propaganda. Um ganho táctico irrelevante, mas
apresentado como se a guerra tivesse dado uma volta. Não deu. Nas frentes de
Norte a Sul, de Kupiansk, Sumy, Novopavlivka, Pokrovsky, etc, as forças russas
continuam a lançar ataques que se medem em cadáveres e se justificam com mapas
estáticos. A táctica de atrito não visa ganhar. Visa matar. E
moer.
Do lado ucraniano, a resposta tem sido corajosa, resiliente e, acima
de tudo, lógica. A Ucrânia não caiu. E não cairá facilmente. Tem demonstrado
uma capacidade de adaptação notável: estabilizou Kharkiv, impediu o
reposicionamento de dezenas de milhares de soldados russos e mantém fortes
linhas de defesa contra um inimigo superior nos números. O apoio ocidental,
embora muitas vezes insuficiente e tardio, permitiu que a Ucrânia criasse não
apenas resistência, mas também capacidades. Capacidade industrial, com novos acordos assinados em Roma.
Capacidade tecnológica, com
uma revolução nos drones e munições inteligentes. E,
sobretudo, capacidade moral, justamente
aquela que parece faltar em muitas capitais europeias.
Porque, como sempre, uma parte
da Europa hesita. O continente que durante séculos definiu o que era
civilização, hoje está mais no negócio dos comunicados, declarações de
intenções e barganha egoísta de tostões, por parte de alguns. Como a orquestra
do Titanic que continua preocupada com o timbre do fagote, enquanto o navio
corre o risco de afundar.
Cinco acordos foram assinados na
Conferência de Roma para apoiar a base industrial ucraniana. Uma boa notícia, mas incompleta. Porque o
que está em causa não é apenas o fornecimento de blindados ou pólvora. É a
consciência do que significa esta guerra e sobretudo do que significaria
perdê-la.
Entretanto, a Rússia plagia Deuladeu
Martins e continua a fingir vitalidade. É um bluff, mas muitos acreditam nele.
Ou fingem acreditar. A economia adaptou-se, sim. Mas como um organismo doente
se adapta à doença, não como alguém que recupera saúde. Produz 6 mil drones por
mês, mas os componentes vêm da China e de outros oportunistas. Dispara 300 mil projéteis e fabrica 250 mil. O défice
é coberto por parceiros como o Irão e a Coreia do Norte. O que diz muito sobre o tipo de
“alianças” que sustentam o Kremlin. Está cada vez mais longe de ser um império.
É um cliente crónico de regimes medievais, um G7 da degradação. Expulso da
Síria, e impotente para ajudar os aiatolas, juntou-se agora aos alucinados talibãs do Afeganistão. E,
contudo, andam por aí indivíduos delirantes que idolatram o coronel do KGB como
o salvador da cristandade.
Mas o Ocidente, com todas as suas
hesitações, continua a fornecer uma linha de vida à Ucrânia. Está a produzir e
a entregar à Ucrânia mais projécteis de artilharia. Os sistemas de defesa aérea
Patriot, SAMP/T e IRIS-T funcionam e vão sendo aperfeiçoados. Os mísseis russos, Kinzhal, Kalibr, Iskander, já não
têm o impacto psicológico de outrora. São ameaças reais, mas contidas. Ainda
assim, o Kremlin continua a investir em salvas sucessivas, numa tentativa clara
de desgastar a moral não só ucraniana, mas também europeia e americana.
Porque
é aí que ainda crê poder vencer: não no campo de batalha, mas na erosão da vontade.
Acredita que o Ocidente desistirá primeiro. Que
preferirá uma paz vergonhosa a uma vitória difícil. Que optará por uma solução
“diplomática”, isto é, pela rendição da Ucrânia.
Mas há um problema. Um obstáculo
inesperado no guião do Kremlin: os números. A Rússia perde 35 mil soldados por mês. A Ucrânia
perde 10 mil. Ambos os números são trágicos. Mas insustentáveis a prazo. O
modelo russo é autodestrutivo. Alimenta-se da ilusão de que a quantidade pode
substituir a qualidade, e da certeza de que a vida humana é descartável. É um
modelo que já falhou antes. E falhará de novo. Mas para isso, tem de ser
enfrentado com clareza.
É aqui que entra Donald Trump.
Com o estilo habitual,
directo, ruidoso, imprevisível, mas por vezes inegavelmente eficaz, acaba de
anunciar que, dentro de 50 dias, aplicará sanções secundárias de 100% sobre
qualquer país que continue a comprar produtos russos. Não há margem para
ambiguidade. Não há comités preparatórios. Apenas um prazo. E uma consequência
assustadora para os cínicos que continuam a comprar à Rússia.
Ignoro se a escolha dos 50 dias é
aleatória. Para mim é
um prazo longo demais. Mas
é o que é, e com armas a sério a entrar na Ucrânia, pode ajudar Putin a
perceber. Setembro é quando os governos voltam das férias e os mercados retomam
a plena atenção. Quando a distração estival dá lugar a decisões políticas.
Talvez Trump saiba disso. Ou não. Todavia
sabe certamente que a verdadeira batalha não se trava em Kharkiv ou Toresk, mas
em Pequim.
Porque é lá que vão buscar água as
raízes do problema.
A economia chinesa, em 2025, está
muito fragilizada. A bolha
imobiliária explodiu. Várias empresas faliram. O desemprego jovem é tão alto
que o regime deixou de publicar dados e veio depois reformular com novas
métricas, ditadas pela propaganda. O consumo interno estagnou. O crescimento
económico caiu para valores simbólicos. E, talvez mais importante do que tudo
isso, a confiança desapareceu. A classe média poupa compulsivamente. As
empresas evitam investir. E o Partido recorre ao que sempre conheceu:
controlo, censura, propaganda e repressão.
É este o contexto em que Xi
Jinping, ou talvez um Comité qualquer, já que o Sr Xi anda mais discreto, terá
de decidir: manter o apoio logístico e tecnológico à Rússia e
enfrentar sanções devastadoras de Trump, ou recuar e arriscar ver o seu
parceiro de conveniência definhar sozinho.
Xi é autocrata, mas o PCC não é irracional. A sua prioridade é manter-se no
poder, e isso exige, no mínimo, estabilidade económica. A China não está ainda
em posição de suportar uma guerra comercial total com os EUA. E Trump sabe
disso.
Se Pequim recuar, o cerco à Rússia torna-se quase perfeito. E sem
disparar um único tiro, o Ocidente, ou pelo menos uma parte dele, poderá isolar
o Kremlin de forma mais eficaz do que qualquer frente de combate.
Mas isso exige uma coisa que nos tem
faltado: Vontade. Clareza. Coragem. Os quase 500 mil milhões de euros russos congelados continuam nos
cofres europeus. A maior parte em Bruxelas. E continuam intocados, por medo.
Medo de que usá-los pareça “escalada”. Medo de parecer injusto. Medo de parecer
demasiado decidido. Medo de futuras desconfianças. Mas deixá-los onde estão não
é neutralidade. É cumplicidade por omissão. E eventualmente suicídio.
Esta guerra não é apenas sobre mapas.
É sobre valores. Sobre fronteiras físicas e morais. Sobre o direito de um país
existir. Sobre o direito dos outros de não aceitarem a agressão como norma.
Perder esta guerra não seria apenas perder a Ucrânia. Seria perder a nossa
autoridade, a nossa integridade e, talvez, a nossa capacidade de resistir
quando formos os próximos. Porque se a
nomenklatura chequista vencer, haverá próximos. E centenas de milhares de
ucranianos que estão agora nas trincheiras a tentar parar os russos, serão
enviados na nossa direcção, gostem ou não gostem.
A verdade é que se tudo se mantiver
como agora, 2026 não trará paz. Trará continuidade. Porque Kiev não pode deixar
de resistir e Putin se meteu numa situação impossível da qual as únicas saídas
são a fuga para a frente, ou cair de uma varanda. E o Ocidente? Continuarão
alguns a fingir que não é com eles?
Se a resposta for “sim”, então talvez
mereçam mesmo o declínio que tantos já lhe prevêem. Aqui ao lado, a Espanha
sanchista, faz acordos com Pequim e declara que lava as mãos.
GUERRA NA
UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO RÚSSIA-UCRÂNIA RÚSSIA
COMENTÁRIOS (de 59)
Carlos Chaves: Mais palavras para quê? Está tudo aqui clarinho como
água de boa nascente! Caro José
António Rodrigues do Carmo, obrigado por este excelente e certeiro artigo e
pela sua extraordinária capacidade de análise. Jose Carmo > Liberales Semper Erexitque: Resumindo, para facilitar a digestão: 1-A Rússia está
em guerra com o Ocidente. E com a OTAN. Não sou eu que o digo, é o Czar. 2-Portugal
faz parte da OTAN. O silogismo é
de fácil conclusão. 3- A Rússia
atacou a Ucrânia e disse, com clareza linear, que o seu objectivo é recuperar o
império estalinista. 4-. Neste
momento está atascada na Ucrânia, muito contra a sua vontade. Mas está numa
economia de guerra e a produzir latas e bombas como quem produz bolachas. 5. Se o Ocidente ( nós), não ajudarmos, a Rússia
acabará por fagocitar a Ucrânia. 6.
Se o fizer, incorporará nas suas forças armadas centenas de milhares de
ucranianos calejados no combate e com capacidades testadas no terreno. Agora una os pontos. joaquim Pocinho > Liberales Semper Erexitque: Que raiva é essa contra a Ucrânia ? Tem algum trauma
assim de quando era pequeno? Há trinta anos vieram muitos ucranianos imigrantes
para Portugal….. sei lá ! Você até lá vê fascistas!🤣🤣ele há com cada um. Aliás basta ver o nome 🤣🤣🤣🤣 Maria Nunes: Excelente artigo Sr. Coronel. Parabéns. Walter Humberto subiza Pina:
Um dos comentários mais sensatos que já
lí, ainda temos muitos quinta coluna na Europa e em Portugal... Perder esta
guerra é perder Europa e seus valores aos pedaços... joaquim Pocinho > José B Dias: A minha raiva é com assassinos de civis,
principalmente crianças; também tenho raiva a assassinatos em caves com os
assassinados amarrados pelas costas ; tenho também raiva a invasões de países
soberanos. E por fim tenho raiva a quem manda prender (na melhor das hipóteses,
já que a outra é por queda em varandas) por delito de opinião. S N: Excelente análise: aparentemente objectiva e equilibrada. Resta-nos aguardar Luis Martins: A Europa ou a Rússia? Escolham! Nuno Pinho > Carlos Real: A falta de conhecimento do mundo do costume. Tem
direito à sua opinião, mas é uma narrativa desenhada à medida para “acordo a
qualquer custo”. Jose
Carmo > Luis Silva: Objectivamente falso, mas a propaganda funciona, pelos
vistos. BTW, para que precisa a Rússia de comprar munições, drones, motores e milhentas coisas
ao Eixo dos Déspotas?
Jose Pires > Luis Silva: Patética, ignorante e alarve é a sua narrativa. Carlos Dias > Jose Pires: Apoiado Acrescento Ignóbil, ridícula e delirante Jose Pires: Sem pôr nem tirar, a realidade nua e crua. Só os
putinescos ignorantes e vendidos do costume, é que fingem não perceber... José B Dias > Liberales Semper Erexitque: Já decidi que vou dizer ao jardineiro para subir as
sebes ... nada como estar preparado para a invasão dos russos maus! Carlos DiasLuis Silva: Faz queixinha e birra faz Ahahah vitor gonçalves > Alexandre Barreira: Com excepção de Goa, tudo guerras que não foram perdidas
do ponto de vista militar (talvez a coisa estivesse mais preta na Guiné) mas
sim do ponto de vista político. E o comunismo e o socialismo a atraiçoar os
portugueses ( pelas costas ). Nuno Lopes: Excelente artigo, parabéns Alexandre Barreira: Pois. Caro José, "A guerra que não podemos
perder" Perdemos a "guerra de Goa" Perdemos a "guerra de
Timor". Perdemos a "guerra de
África". Deve estar a....brincar.....às
guerras....?! João
Floriano: Crónica excelente em todos os aspectos e também no estilo da escrita. Vamos
a ver o que sai dos 50 dias de Trump. Já tínhamos as 50 sombras de Grey. Agora
temos os 50 dias de Trump. Estou totalmente de acordo com o papel chave que
cabe à China neste conflito.
Francisco Almeida: Artigo corajoso e com clareza geopolítica. Tudo foi dito sobre uma
vitória da Rússia mas nem tudo sobre uma derrota da Rússia. Parece-me claro que
o regime por demasiado identificado com uma clique ex-KGB, não resistirá a uma
derrota na Ucrânia. E a questão é que o mais provável é que a Federação Russa
também não resista à queda do regime. Cerca de 90 entidades políticas com
bandeira e brasão e áreas entre 1400 e 2,3 milhões de km2 e populações entre 41
mil e 10,4 milhões, 160 etnias com 100 línguas. Uma receita para instabilidade
e confusão. Mas o pior será na Sibéria. Nem China nem EUA podem aceitar que o outro
fique com as maiores reservas minerais do mundo. Por outro lado a China coadministra
um grande território com a Rússia que evidentemente passará à sua soberania.
Também a China aceitou que a Rússia soviética e depois a Federação Russa
herdassem da Rússia czarista imensos territórios chineses perdidos pelos
chamados Tratados Desiguais impostos à China, depois desta perder as Guerras do
Ópio. Toda a Mongólia exterior, quase certamente Vladivostok, a ilha de
Sakalina (também com direitos do Japão) e outras ilhas com importância
estratégica quando o degelo abrir as rotas marítimas do Árctico. Não seria um quadro bonito, nem
fácil. Jose
Carmo > Liberales Semper Erexitque: Não minta. As estimativas de
baixas são consistentes e referidas por vários analistas. De resto são até
consistentes com o que é típico numa situação de ataque convencional. Num
ambiente em que tropas mal treinadas avançam de moto ou a pé,
atravessando uma kill zone de mais de 15 km, saturada de drones first view e
coberta por fogos de artilharia, até pecam por defeito. Btw, referir como fonte
de autoridade, alguém claramente ao serviço da narrativa russa, é de cair
para trás à gargalhada. É como reivindicar Maomé para opinar honestamente sobre
o toucinho. António
Alberto Barbosa Pinho: Apoio
completamente, Sr. Coronel . Carlos F.
Marques Excelente. Nota 20. joaquim
PocinhoLiberales Semper Erexitque: Existem presos no ocidente por delito de opinião?
Mandamos pelas varandas abaixo os nossos inimigos? Os ucranianos matam civis
russos? Torturamos em caves civis e depois assassinamo-los? Tenha noção pois ou
o caro senhor não tem noção das proporções ou não o incomoda a indecência ! Lily Lx: Top.
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