quarta-feira, 16 de julho de 2025

Olho para trás de mim

 

E tenho pena. Mas concordo que a TAP só foi indispensável no tempo das colónias, num mundo português assente grandemente em África, e até mesmo na Ásia marcando ainda alguma presença, restos de uma épica pioneira, para sempre merecedora de espanto, dada a desproporção entre o tamanho desse povo e os feitos da sua semeadura, a que génios como Camões e Pessoa foram sensíveis, em mensagens literárias de valioso sentido – extraordinário, no caso do primeiro. Sim, a TAP foi precisa, e decisivamente criada por outro valioso elemento da nossa História Pátria, que soube libertar o país das suas amarras financeiras, embora, naturalmente, com mão avara, própria dos condicionalismos resultantes também de uma política educativa de marginalização pouco esclarecida, ao longo da História nacional. Hoje, definitivamente regressados aos condicionalismos de uma pequenez de cobardia, sob a capa de uma falsa generosidade libertadora dos povos – reduzidos, pois, ao rectângulo da nossa proporção minúscula – demos mais este pontapé numa TAP que outrem criou, arguto que era, mas que não conseguimos, naturalmente, sustentar, luxo, aliás, desnecessário para uma insignificância sobrevivendo actualmente de exteriores empréstimos. Mas tenho pena, sim, como mais uma prova do nosso definitivo arrumar de botas no palco mundano.

É desta que deixamos a TAP voar?

Uma empresa num lago de tubarões precisa de ser muito resistente, ou ter disponíveis os bolsos fundos dos contribuintes, para sobreviver à instabilidade gerada pelos governos. É esta a vida da TAP.

HELENA GARRIDO Colunista

OBSERVADOR, 15 jul. 2025, 07:2530

Verdadeiramente não sabemos se é desta que vamos deixar a TAP em paz, a voar, a fazer o seu caminho como empresa, de preferência integrada num grupo de aviação, como já acontece com a esmagadora maioria das suas concorrentes, anteriormente isoladas. De acordo com o plano do Governo, só daqui a cerca de um ano é que a companhia aérea terá, se tudo correr bem, o accionista privado com 44,9% do capital a que se juntam mais 5% dos trabalhadores. A prazo o objectivo é vender a maioria com que o Estado ainda fica nesta fase. Mas a história de instabilidade que a TAP tem vivido, por causa do seu accionista Estado dá-nos mais razões para sermos pessimistas do que optimistas.

A escolha do Governo, de manter o Estado com a maioria, é mais uma gestão das sensibilidades da oposição do que uma escolha sua. O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, mostrou-se sempre favorável a uma venda maioritária. E realmente, a venda da maioria criava condições para maximizar a receita do Estado e era mais favorável para o crescimento operacional da TAP. O novo accionista podia investir de forma mais confiante.

O problema desta opção é o de sempre, o da partidarização da TAP. O PS já foi a favor de uma TAP controlada pelo Estado com António Costa, depois defendeu a TAP maioritariamente privada – também com António Costa, mas com Fernando Medina e João Galamba –, e agora parece ser outra vez a favor de a maioria pertencer ao Estado. O Chega também quer, aparentemente, uma TAP com maioria do Estado, apesar das críticas que faz ao desperdício de dinheiros públicos. E como o Governo não tem a maioria no Parlamento, tenta evitar que tudo caia por terra, com os partidos a chamarem o decreto-lei da privatização ao Parlamento. E assim, mais uma vez, não se escolhe a melhor solução, mas aquela que os jogos partidários de ocasião permitem.

A TAP é um exemplo (e vítima) da incapacidade de concretizar decisões em empresas capturadas por interesses que vão dos partidos políticos aos sindicatos. A CP é outro dos exemplos, neste universo de empresas públicas capturadas por interesses, todos, menos os de servir os cidadãos ou contribuir para o crescimento e desenvolvimento da empresa e, através dela, da economia.

A primeira vez que se falou na privatização da TAP estávamos em 1991, no segundo governo de maioria absoluta de Aníbal Cavaco Silva. Foi uma pena não se ter concretizado. Depois foi sob os ditames da troïka – parece que só a mando dos outros é que conseguimos decidir com rapidez que se vendeu a empresa, já em cima do fim do governo de Pedro Passos Coelho. Por motivos que ainda hoje são difíceis de perceber, António Costa fez questão de reverter a privatização, numa operação depois criticada pelo Tribunal de Contas, dizendo que o Estado ficou com menos direitos económicos e mais responsabilidades. Mais tarde, o então ministro Pedro Nuno Santos entrou em conflito com a administração, fez o que parecia perfeito – uma contratação internacional para CEO (Chief Executive Officer),e nada podia ter corrido pior. A pandemia fez o resto, obrigando o Governo a nacionalizar a empresa e a injetar ali 3,2 mil milhões de euros. Passada esta fase, António Costa parece ter mudado de ideias e a poucos dias da sua inesperada demissão, o seu Governo avança com uma proposta de privatização da maioria do capital da TAP, nesta altura com Fernando Medina como ministro das Finanças e João Galamba como ministro das Infraestruturas. O diploma da privatização acabou vetado pelo Presidente da República e, dias depois, a 7 de novembro de 2023, António Costa demite-se.

Avançamos agora para mais uma tentativa de privatizar a empresa, integrando-a num grupo, para que sobreviva. Com a consciência, pelos menos de alguns, de que se não for vendida, a TAP morre – ou tínhamos de ser ricos o suficiente para continuar a alimentar uma operação que dificilmente é rentável porque não tem escala, nem o conseguirá sozinha.

Mais de uma década depois da primeira privatização voltamos ao início, como se a TAP estivesse condenada a uma espécie de suplício de Sísifo. O problema é que nada nos garante que seja desta vez que, finalmente, deixamos a TAP seguir o seu caminho.

TAP      EMPRESAS       ECONOMIA

COMENTÁRIOS (de 30)

CARLOS CHAVES: Onde estava a senhora Helena Garrido quando o Costa o Medina o Galamba e o PNS renacionalizaram a TAP com o acordo do senhor Marcelo, e enfiaram lá o dinheiro que não temos? E as indemnizações pelo os despedimentos ilegais que vamos ter que pagar? Diga lá onde estava para denunciar estes crimes políticos? Tão triste ver tanta gente sem espinha dorsal!   Francisco Ramos: E lá vamos nós andar meses e meses a discutir a TAP, enquanto as outras cerca de 250 empreses públicas seguem paulatinamente o seu percurso à sombra do chapéu protector do Estado, acumulando prejuízos. Para mim o caso CP é talvez mais importante do que a TAP. A TAP nós vamos pagando indirectamente, enquanto a CP provoca perturbações quase semanais na vida duma multidão. Algo de muito indecoroso. Eu, que até nem sou utilizador da CP, não me importo de continuar a pagar a TAP, a troco da solução da CP.                   Antonio C.: TAP = Tamos A Pagar esta porcaria há demasiado tempo. Vendam isto de uma vez por todas. Deixem o mercado funcionar.         Joaquim Rodrigues: A intervenção do Estado na Economia em sectores que não lhe dizem respeito, só serve, nos dias de hoje, para os Governantes, servindo-se do Aparelho de Estado, protegerem os "seus Rendeiros, Gestores” e “Compadres” da "Economia Rentista" e do "capitalismo de compadrio" e daí retirarem privilégios e benefícios a troco dessa protecção. É essa promiscuidade entre Governantes e "compadres", que minou e está a minar os aparelhos partidários e a destruir o País. A história das Democracias Liberais já demonstrou que, por razões de eficiência económica, coesão territorial e social, um Estado Moderno, deve deixar ao sector privado, com racionalidade, rigor e seriedade, todas as actividades que possam ser desenvolvidas pelos privados, centrando a sua “Missão” em funções de Fiscalização, Regulação, Controlo e Supervisão das condições e qualidade em que os serviços e bens são disponibilizados aos cidadãos. A “Missão Actual” de um Estado Moderno na Economia será a de promover e assegurar condições de “justa, sã e leal concorrência” nos sectores em que as “Regras de Mercado” podem funcionar e ter uma função de “Regulação”, “Fiscalização” e “Supervisão” dos mercados em defesa do “Interesse dos Cidadãos” quando, “mas só quando”, esses mercados são, por natureza, “Monopolistas” e a concorrência não pode cumprir a sua função de autorregulação. A Regulação, nesses casos, tem que estar ao serviço dos consumidores, mas nunca ao serviço dos regulados, como tem acontecido em Portugal. Não foi por acaso que, numa recente entrevista ao Observador, o Professor de Economia numa Universidade em Nova York, Luís Paixão, referiu a necessidade de a selecção das “Entidades Reguladoras”, em Portugal, dever ser feita por Concurso Internacional.     O grande problema é que atrás de “negócios simulados” venham negociatas muito mais gravosas para os contribuintes e para a economia portuguesa. Que vendam a TAP a 100% e sem quaisquer cláusulas que contrariem as regras de mercado (que ficam sempre caras aos contribuintes) é o que se deseja. Como disse o professor de Economia em Nova Iorque, Luís Cabral, sobre a TAP: “É um imposto pago pelo português médio que beneficia portugueses de classes de rendimentos mais elevados”. A TAP já devia ter sido vendida há muito. O problema estará em “pagarem” à Lufthansa ou outra companhia de aviação qualquer, (com o dinheiro dos contribuintes, a pagar anualmente, para todo o sempre), a obrigação de a Lufthansa ficar com a TAP, com a condição de fazer os aviões aterrar em Lisboa mesmo que tal não seja economicamente rentável. Pelo historial recente, há dois artistas capazes de fazerem tal negócio: o Sr. Sarmento e o Sr. Pinto Luz com o Sr. PNS e o Sr. Ventura a aplaudir. Basta ver o papel que eles têm tido em relação à ferrovia (TGV em Bitola Tuga) e em relação a Alcochete que é o de continuar e apoiar a obra do Costa. Ouvi há dias um conhecido jornalista deste jornal, (daqueles que sabem tudo e tem a solução para tudo) dizer que o problema da TAP era a falta de capacidade do Aeroporto que estava a impedir o crescimento da TAP. Nada mais enganoso! A grande "mais valia" da TAP está nos "Slots" que fraudulentamente detêm no Aeroporto de Lisboa os quais, só têm valor, enquanto não se expandir a capacidade do Aeroporto de Lisboa. Quando, se prevalecer o bom senso, se construir a segunda pista da Portela em Alverca (a exemplo do que fizeram os espanhóis em Barajas) e passar a haver verdadeira e leal concorrência no uso da Infraestrutura Aeroportuária, lá se vai o já parco valor actual (artificial) da TAP. Se, por absurdo, e com base na “fraudulência” dos pseudo-estudos “independentes” realizados pelo Costa, a opção de expansão aeroportuária passasse por Canha (Alcochete) então o desastre, para a TAP, seria muito maior. Para além dos milhões que os contribuintes seriam obrigados a desembolsar para financiar e manter o aeroporto, a TAP passaria a valer muito menos, em resultado da desvalorização de Lisboa como destino, por ficar com um Aeroporto do lado contrário do rio, a 60 Kms do sítio de onde vêm e para onde vão 95% dos seus clientes.                  Eduardo Silva: Dêem aTAP de borla!                   Meio Vazio: A TAP não voa.

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