E tenho pena. Mas
concordo que a TAP só foi indispensável no tempo das colónias, num mundo
português assente grandemente em África, e até mesmo na Ásia marcando ainda
alguma presença, restos de uma épica pioneira, para sempre merecedora de
espanto, dada a desproporção entre o tamanho desse povo e os feitos da sua
semeadura, a que génios como Camões e Pessoa foram sensíveis, em mensagens
literárias de valioso sentido – extraordinário, no caso do primeiro. Sim, a TAP
foi precisa, e decisivamente criada por outro valioso elemento da nossa História
Pátria, que soube libertar o país das suas amarras financeiras, embora,
naturalmente, com mão avara, própria dos condicionalismos resultantes também de
uma política educativa de marginalização pouco esclarecida, ao longo da História
nacional. Hoje, definitivamente regressados aos condicionalismos de uma
pequenez de cobardia, sob a capa de uma falsa generosidade libertadora dos
povos – reduzidos, pois, ao rectângulo da nossa proporção minúscula – demos mais
este pontapé numa TAP que outrem criou, arguto que era, mas que não
conseguimos, naturalmente, sustentar, luxo, aliás, desnecessário para uma
insignificância sobrevivendo actualmente de exteriores empréstimos. Mas tenho
pena, sim, como mais uma prova do nosso definitivo arrumar de botas no palco mundano.
É desta que deixamos a TAP
voar?
Uma empresa num lago de tubarões precisa de ser muito resistente, ou
ter disponíveis os bolsos fundos dos contribuintes, para sobreviver à
instabilidade gerada pelos governos. É esta a vida da TAP.
HELENA GARRIDO Colunista
OBSERVADOR, 15
jul. 2025, 07:2530
Verdadeiramente não sabemos se é desta
que vamos deixar a TAP em paz, a voar, a fazer o seu caminho como empresa, de
preferência integrada num grupo de aviação, como já acontece com a esmagadora
maioria das suas concorrentes, anteriormente isoladas. De acordo com o plano do Governo, só
daqui a cerca de um ano é que a companhia aérea terá, se tudo correr bem, o accionista
privado com 44,9% do capital a que se juntam mais 5% dos trabalhadores.
A prazo o objectivo é vender a maioria com que o Estado ainda fica nesta
fase. Mas a
história de instabilidade que a TAP tem vivido, por causa do seu accionista
Estado dá-nos mais razões para sermos pessimistas do que optimistas.
A escolha do Governo, de manter o
Estado com a maioria, é mais uma gestão das sensibilidades da oposição do que
uma escolha sua. O
ministro das Infraestruturas, Miguel
Pinto Luz, mostrou-se sempre favorável a uma venda maioritária. E
realmente, a venda da maioria criava condições para maximizar a receita do
Estado e era mais favorável para o crescimento operacional da TAP. O novo accionista
podia investir de forma mais confiante.
O problema desta opção é o de sempre, o
da partidarização da TAP. O PS já foi a favor de uma TAP controlada
pelo Estado com António Costa, depois defendeu a TAP maioritariamente privada –
também com António Costa, mas com Fernando Medina e João Galamba –, e agora
parece ser outra vez a favor de a maioria pertencer ao Estado. O Chega também
quer, aparentemente, uma TAP com maioria do Estado, apesar das críticas que faz
ao desperdício de dinheiros públicos. E como o Governo não tem a maioria no
Parlamento, tenta evitar que tudo caia por terra, com os partidos a chamarem o
decreto-lei da privatização ao Parlamento. E assim, mais uma vez, não se
escolhe a melhor solução, mas aquela que os jogos partidários de ocasião
permitem.
A TAP é um exemplo (e vítima) da
incapacidade de concretizar decisões em empresas capturadas por interesses que
vão dos partidos políticos aos sindicatos. A
CP é outro dos exemplos, neste universo de empresas
públicas capturadas por interesses, todos, menos os de servir os cidadãos ou
contribuir para o crescimento e desenvolvimento da empresa e, através dela, da
economia.
A primeira vez que se falou na
privatização da TAP estávamos em 1991, no segundo governo de maioria absoluta
de Aníbal Cavaco Silva. Foi uma pena não se ter concretizado. Depois foi
sob os ditames da troïka – parece que só a mando dos outros é que conseguimos decidir com rapidez –
que se vendeu a empresa, já em cima do
fim do governo de Pedro Passos Coelho. Por motivos que ainda hoje são
difíceis de perceber, António Costa
fez questão de reverter a privatização, numa operação
depois criticada pelo Tribunal de Contas, dizendo que o Estado ficou com menos
direitos económicos e mais responsabilidades.
Mais tarde, o então ministro Pedro Nuno
Santos entrou em conflito com a administração, fez o
que parecia perfeito – uma contratação internacional para CEO (Chief Executive Officer),– e nada podia ter corrido pior. A
pandemia fez o resto, obrigando o Governo a nacionalizar
a empresa e a injetar ali 3,2 mil milhões de euros.
Passada esta fase, António Costa parece ter mudado de ideias e a poucos dias da
sua inesperada demissão, o seu Governo avança com uma proposta de privatização
da maioria do capital da TAP, nesta altura com Fernando Medina como ministro das Finanças e João Galamba como
ministro das Infraestruturas. O
diploma da privatização acabou vetado pelo Presidente da República e,
dias depois, a 7 de novembro de 2023, António Costa demite-se.
Avançamos agora para mais uma
tentativa de privatizar a empresa, integrando-a num grupo, para que sobreviva. Com a consciência, pelos menos de alguns, de que se
não for vendida, a TAP morre – ou tínhamos de ser ricos o suficiente para
continuar a alimentar uma operação que dificilmente é rentável porque não tem
escala, nem o conseguirá sozinha.
Mais de uma década depois da primeira
privatização voltamos ao início, como se a TAP estivesse condenada a uma
espécie de suplício de Sísifo. O problema é que nada nos garante que seja desta
vez que, finalmente, deixamos a TAP seguir o seu caminho.
COMENTÁRIOS (de 30)
CARLOS CHAVES: Onde estava a senhora Helena Garrido quando o Costa o
Medina o Galamba e o PNS renacionalizaram a TAP com o acordo do senhor Marcelo,
e enfiaram lá o dinheiro que não temos? E as indemnizações pelo os
despedimentos ilegais que vamos ter que pagar? Diga lá onde estava para
denunciar estes crimes políticos? Tão triste ver tanta gente sem espinha
dorsal! Francisco
Ramos: E lá vamos
nós andar meses e meses a discutir a TAP, enquanto as outras cerca de 250
empreses públicas seguem paulatinamente o seu percurso à sombra do chapéu protector
do Estado, acumulando prejuízos. Para
mim o caso CP é talvez mais importante do que a TAP. A TAP nós vamos pagando indirectamente, enquanto a
CP provoca perturbações quase semanais na vida duma multidão. Algo de muito
indecoroso. Eu, que até nem sou utilizador da CP, não me importo de continuar a
pagar a TAP, a troco da solução da CP. Antonio
C.: TAP = Tamos A
Pagar esta porcaria há demasiado tempo. Vendam isto de uma vez por todas.
Deixem o mercado funcionar. Joaquim
Rodrigues: A intervenção
do Estado na Economia em sectores que não lhe dizem respeito, só serve, nos dias de hoje, para os
Governantes, servindo-se do Aparelho de Estado, protegerem os "seus
Rendeiros, Gestores” e “Compadres” da "Economia Rentista" e do
"capitalismo de compadrio" e daí retirarem privilégios e benefícios a
troco dessa protecção. É essa promiscuidade entre Governantes e
"compadres", que minou e está a minar os aparelhos partidários e a
destruir o País. A história das Democracias Liberais já demonstrou que, por
razões de eficiência económica, coesão territorial e social, um Estado Moderno,
deve deixar ao sector privado, com racionalidade, rigor e seriedade, todas as
actividades que possam ser desenvolvidas pelos privados, centrando a sua
“Missão” em funções de Fiscalização, Regulação, Controlo e Supervisão das
condições e qualidade em que os serviços e bens são disponibilizados aos
cidadãos. A “Missão Actual” de um Estado Moderno na Economia será a de
promover e assegurar condições de “justa, sã e leal concorrência” nos sectores
em que as “Regras de Mercado” podem funcionar e ter uma função de “Regulação”,
“Fiscalização” e “Supervisão” dos mercados em defesa do “Interesse dos
Cidadãos” quando, “mas só quando”, esses mercados são, por natureza,
“Monopolistas” e a concorrência não pode cumprir a sua função de
autorregulação. A Regulação, nesses casos, tem que estar ao serviço dos
consumidores, mas nunca ao serviço dos regulados, como tem acontecido em
Portugal. Não foi por acaso que, numa recente entrevista ao Observador, o
Professor de Economia numa Universidade em Nova York, Luís Paixão, referiu a
necessidade de a selecção das “Entidades Reguladoras”, em Portugal, dever ser
feita por Concurso Internacional. O grande problema
é que atrás de “negócios simulados” venham negociatas muito mais gravosas para
os contribuintes e para a economia portuguesa. Que vendam a TAP a 100% e
sem quaisquer cláusulas que contrariem as regras de mercado (que ficam sempre
caras aos contribuintes) é o que se deseja. Como disse o professor de Economia
em Nova Iorque, Luís Cabral, sobre a TAP: “É um imposto pago pelo português
médio que beneficia portugueses de classes de rendimentos mais elevados”. A
TAP já devia ter sido vendida há muito. O problema estará em “pagarem” à
Lufthansa ou outra companhia de aviação qualquer, (com o dinheiro dos
contribuintes, a pagar anualmente, para todo o sempre), a obrigação de a
Lufthansa ficar com a TAP, com a condição de fazer os aviões aterrar em Lisboa
mesmo que tal não seja economicamente rentável. Pelo historial recente, há
dois artistas capazes de fazerem tal negócio: o Sr. Sarmento e o Sr. Pinto Luz
com o Sr. PNS e o Sr. Ventura a aplaudir. Basta ver o papel que eles têm tido
em relação à ferrovia (TGV em Bitola Tuga) e em relação a Alcochete que é o de
continuar e apoiar a obra do Costa. Ouvi há dias um conhecido jornalista deste
jornal, (daqueles que sabem tudo e tem a solução para tudo) dizer que o
problema da TAP era a falta de capacidade do Aeroporto que estava a impedir o
crescimento da TAP. Nada mais enganoso! A grande "mais valia" da TAP
está nos "Slots" que fraudulentamente detêm no Aeroporto de Lisboa os
quais, só têm valor, enquanto não se expandir a capacidade do Aeroporto de
Lisboa. Quando, se prevalecer o bom senso, se construir a segunda pista da
Portela em Alverca (a exemplo do que fizeram os espanhóis em Barajas) e passar
a haver verdadeira e leal concorrência no uso da Infraestrutura Aeroportuária,
lá se vai o já parco valor actual (artificial) da TAP. Se, por absurdo, e com
base na “fraudulência” dos pseudo-estudos “independentes” realizados pelo
Costa, a opção de expansão aeroportuária passasse por Canha (Alcochete) então o
desastre, para a TAP, seria muito maior. Para além dos milhões que os
contribuintes seriam obrigados a desembolsar para financiar e manter o
aeroporto, a TAP passaria a valer muito menos, em resultado da desvalorização
de Lisboa como destino, por ficar com um Aeroporto do lado contrário do rio, a
60 Kms do sítio de onde vêm e para onde vão 95% dos seus clientes. Eduardo Silva: Dêem aTAP de borla! Meio
Vazio: A TAP não voa.
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