Para o MUNDO onde os portugueses viveram, nundo por eles descoberto,
trabalhosamente, mundo por eles largado, séculos após, na frieza do repúdio
enxovalhante - desses antepassados corajosos e dos presentes confiantes na sua própria
acção construtiva - por conta dos actuais povos presentes, aparentes defensores
de independências, em falsas piedades (antes, cobardias) libertadoras, que
hoje, todavia, se apressam a dirimir, na sua prática invasora e destruidora dos
povos próximos, casos, esses sim, de tragédias vergonhosas a que vamos
assistindo, na comodidade dos fofos assentos…
O estilo desempoeirado das bastas vivências atentas e sensíveis, de Maria João Avillez…
Outra crónica de Verão (e uma despedida triste)
O progresso que não usa deixa-o indiferente e, desde a
longínqua década de 60, não pratica nem aplaude o mundo, preferindo-lhe o que
acabou “antes da Regeneração, dos Liberais da Foz ou da Democracia”
MARIA JOÃO AVILLEZ
Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 30
jul. 2025, 00:2215
1Devia talvez falar do novo Governador do BdP; da
meditação a que o Governo deveria obrigatoriamente entregar-se nas suas férias;
da liderança de José Luís
Carneiro, a “dar de si” mais cedo do que previsto; da mudança de tom e registo de André Ventura (que deve valsar entre o que fazer de
si ou não fazer, como líder da oposição).
Mas não, estamos no defeso. Ficará para
depois. Até lá, entre praias e campos, acodem-me antes breves notas de que
guardei apontamento.
2Na semana passada tive de ir a Cascais:
lembrou-me o inferno. Entrar na vila e atravessá-la exige um sistema
nervoso equilibrado que ampare até o suor da impaciência: é um carro-a-carro como se podia dizer um corpo-a-corpo, por entre
uma gigantesca massa de lata. A massa desloca-se penosamente a passo de
caracol por vias e avenidas que já não a comportam: o asfalto é infinitamente
menos amplo que as incontáveis “viaturas” que a cada segundo o percorrem,
sobem, descem ou cruzam. Também
não me lembro de tanta gente ao mesmo tempo, em tantas ruas: o centro – e
arredores – desta vila à beira mar plantada, rica de história e outrora tão
especial e acolhedora, é um amontoado desorganizado de automóveis, gente,
restaurantes, lojas, esplanadas, comércio de rua, sortido de bugigangas,
vendedores ambulantes, tudo em cima umas coisas das outras. Não fora o
bom motivo que lá me levava e teria sido uma tarde fora da racionalidade do
que deve ser o quotidiano de uma comunidade. Não só pelo caos do
trânsito – que um dia talvez venha a ser domesticado – mas
pior, pela desfiguração de Cascais,
hoje roída por uma construção avassaladora, em grandes perímetros e zonas, em
ritmo de cimento non-stop a crescer entalado entre mais cimento.
Uma pena, grande e sentida, para quem
ali passou verões compridos, diversas largas temporadas e tem Cascais ancorada
na memória.
Podem evocar-me o progresso, falar em
crescimento, apontar melhorias, mencionar o desenvolvimento. Eu só pergunto:
este?
3O Patriarca de Lisboa, consciente do seu
papel na sociedade portuguesa, escreveu há dias aqui mesmo um notabilíssimo
texto sobre o que nos tem sido politicamente acenado como prioridade ou
urgência, e falo obviamente da imigração. D.
Rui Valério, homem de sabedoria, ponderação, seriedade, critério, disse que “é
essencial que a integração não signifique renúncia à própria identidade.”
E citando Papa Francisco na encíclica Fratelli
Tutti: “Só posso acolher quem é
diferente e perceber a sua contribuição original, se estiver firmemente
ancorado ao meu povo com a sua cultura».
Julgo não haver outro ponto de princípio, se não este.
4Oh surpresa um novo livro de António Sousa Homem, meu –
desde há muito – candidato ao Prémio Nobel de literatura. Não que eu me
comova particularmente com o Prémio – suspeito que o autor ainda menos –, mas
era uma forma de sinalizar patamares altos. O livro caiu-me do céu sem que eu
saiba como, precipitei-me, achei que seria uma reedição, oh maravilha, não era:
Chama-se “Uma Vida Fora de Moda –
Crónicas de um Reacionário Minhoto” (Porto Editora) e acabou
de sair.
Não há que definir ou sequer descrever
(Deus nos livre) o seu autor, nem tropeçar no “reacionário minhoto”, que só
lendo. Há que festejar o continuado deleite, o puro encanto, a certeza
da delícia, com que corremos de novo ao seu encontro. Renovando uma ideia fixa e antiga: a de que precisamos sempre de passar
umas páginas com António Sousa Homem. Como quem antecipa o sabor de um
vinho de uma colheita especialíssima, dessas, quase únicas, que ficam com nome
gravado na vida de castas e uvas. António Sousa Homem é em si mesmo uma colheita única. O autor vive em Moledo, pouco saindo de lá,
e quando o faz é para voltar ao que já conhece do seu Alto Minho a que tanto se
afeiçoou: a “floração das mimosas”, o Monte de Santa Tecla, a
maresia da Ínsua, o oceano enraivecido, as espécies botânicas de que tudo sabe,
uma paragem em Caminha, a passagem por algumas minúsculas povoações que elegeu
com maior devoção no seu mapa sentimental. Trocando ao acaso dos dias meia dúzia
de palavras com a meia dúzia de personagens, as mesmas desde o início destas
crónicas: são “os seus”. E nós que não somos, ficamos com o dom do seu poder de
observação, maravilhoso de finura e lucidez; e com a ironia ora enternecida,
ora condescendente, como observa, divaga e depois “conclui” sobre cada um
desses seres impressos no seu mural privativo.
No
fundo, o “reacionário” minhoto que habita Moledo talvez não encontre razão para
sair do seu eremitério, a não ser breves rituais que cumpre, por
antecipadamente se saber livre de descobertas ou curiosidades que não lhe dizem
respeito ou costumes que estranha. O progresso que não usa deixa-o indiferente
e, desde a longínqua década de sessenta de um século já passado, não pratica
nem aplaude o mundo, preferindo-lhe o que acabou “antes da Regeneração, dos
Liberais da Foz ou da Democracia”.
No
fundo António Sousa
Homem não precisa, graças a Deus, de
alimentar ilusões sobre a natureza humana nem sobre este pobre mundo. Constata
uma e outro. Faz bem. O seu eremitério de Moledo, que um consumidor
compulsivamente convicto da importância da actualidade ou um obsessivo
“interventor” classificaria de demasiado quieto – permanecerá incólume. Como o
seu eremita.
Reunidas em livro estas crónicas
(Correio da Manhã) demoram a ler, sabem-nos melhor, encantam-nos mais. E podemos voltar atrás, marcar uma
página, sublinhar imorredouras passagens, que o dr. António Sousa Homem tem de
ser impreterivelmente lido com um lápis na mão.
Evoquei-lhes alguém de quem pouco
tinham ouvido falar ou nunca lido? Um outsider no nosso universo literário?
Quem sabe um extraterrestre?
Não. Melhor: o último sobrevivente de
um mundo que já não há mas onde ele escolheu continuar a viver. Magnífico.
Mas depois digam-me.
5Gostava muito do José
Blanco. Uma partida que
me apanhou longe de Lisboa e totalmente desprevenida, não o sabia nem tão
doente, nem muito menos à beira da sua despedida. Tinha-me até pedido há poucos
meses uma colaboração da qual, com algum atraso (mas quem conta com a morte?)
eu conseguira finalmente satisfazer. E de repente… – mas é sempre como se fosse
a primeira a vez – descobrimos que a morte faz como quer. Usando do seu
devastador poder de substituir a condição do “vivido” ontem para a de
“recordado” hoje. Guardarei a memória que é rica e vária – foi muito o que
profissionalmente e humanamente vivi com o José Blanco
Despeço-me com o livro que lhe devo, ao tempo em que no Conselho de
Administração da Fundação Gulbenkian, ele administrava o pelouro Internacional.
E foi assim que um dia, cruzando-me num
avião com João Pedro
Garcia – director do Serviço Internacional e número 2
de José Blanco – fiquei a par das espantosas empreitadas a que –
entre outros dossiers – se entregava o Serviço Internacional da Fundação
colaborando na reabilitação
ou restauro de património português – fortes, igrejas, bibliotecas, praças,
arte sacra, torres, arquivos – que quase agoniza em diversas geografias; e, claro,
após aturados estudos e rigorosas apreciações dos pedidos que chegavam das
autoridades de cada um desses tão longínquos países (não competia ao Serviço
Internacional da Fundação, pelos seus estatutos, tomar a iniciativa mas sim
poder acolher, estudar e decidir sobre os projectos que que lhe chegavam.)
Espantei-me com o que ouvia a João
Pedro: e ninguém sabia? Essas histórias não eram contadas? Como era possível
que o país não soubesse?
Brevíssimo segundo acto:
semanas depois, certamente animado por João Pedro Garcia, que o contagiou com o
meu entusiasmo, José Blanco deu-me uma guia marcha: que eu fosse pelas Áfricas,
as Ásias e as Américas e visse, ouvisse, perguntasse e depois contasse.
Foi o que fiz mas há poucas coisas na minha vida que eu tenha gostado tanto de
contar como estas absolutamente extraordinárias descobertas de tanto Portugal
tão longe. A soma de todas as
reportagens frutificou num livro, “Portugal, as Sete Partidas para o Mundo” (Circulo de Leitores)
com prefácio de João Lobo Antunes.
Durante meses fui um andarilho: ia e vinha pelas duas costas de
África, por improváveis geografias do sudoeste asiático, por várias Índias do
Sul; por mais de um Brasil e até por uma pequena jóia chamada Colónia do
Sacramento, à beira do enfeitiçado Rio da Prata, no Uruguai. Devo inteira e
muito gratamente tudo isto a José Blanco.
Sem ele o andarilho que fui não teria
percorrido – nem muito menos imaginado – o impacto e a força de tanto
património, espalhado pelas sete partidas.
Rui Ochoa fotografou como ninguém esta tapeçaria
portuguesa. E, a meu pedido, um lote de diplomatas, historiadores, poetas,
políticos, intelectuais, arquitectos, “rematou” depois, com um texto seu, cada
lugar onde esteve o andarilho.
Como esquecer esta dádiva de José
Blanco – e obviamente também da Fundação Gulbenkian? Agradecendo e não
esquecendo.
Não
me ocorre despedida mais ternamente justa de um amigo a quem tanto devo do que,
daqui para o céu, lhe lembrar estas páginas, mais suas do que minhas.
LIVROS LITERATURA CULTURA VERÃO NATUREZA AMBIENTE CIÊNCIA HISTÓRIA
COMENTÁRIOS (de 15)
Carlos Chaves: Cara Maria João Avillez, obrigado por esta
estival crónica, a sua maneira inimitável de escrita, ilumina os nossos dias de
férias... Isto também é a nossa cultura, um grande bem-haja, e boas férias se
for o caso, junto de quem mais ama.
8Responder
Carlos Quartel: O habitual snobismo da paróquia. Fraca
descrição de Cascais. 80% de cidade.dormitório, 20% de feira saloia para papalvos,
nacionais e estrangeiros. Sem lugares de hortaliça, sem frutarias, sem
padarias, um tomate a 300 metros. Impossível comprar uma broca, um parafuso, um
serrote. Trapos e galos de Barcelos na rua do Paquistão.
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