sexta-feira, 25 de julho de 2025

As tácticas de Trump

 

Não muito inconsistentes, ao que parece, afinal. Tudo, convergindo positivamente sobre o seu país. No espectáculo das suas aparições mediáticas, buscando fama, e trazendo-me à lembrança os versos de Camilo, nem sei porquê, talvez por referir amizades, embora de diferente carisma do destes, mais pessimistas. Mas Trump que se cuide também, na escolha dos seus amigos, como, de resto, todos nós. Camilo sabia, que também foi famoso, numa escala de menor calibre, naturalmente, da dos Trumps deste mundo amplo:

Amigos cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

 

- Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

Haverá um acordo comercial entre os EUA e a UE?

É muito difícil prever as decisões de Trump, mas ele não é tão inconsistente como muitos sugerem, até porque apesar de avanços, recuos e hesitações, não perde de vista o objectivo final.

JOÃO MARQUES DE ALMEIDA Colunista do Observador

OBSERVADOR, 24 jul. 2025, 00:2215

No dia 2 de Abril, Trump impôs tarifas comerciais de 20% à UE. Umas semanas depois, baixou para 10% e deu um prazo para negociações bilaterais até 11 de Julho. Mais tarde, estendeu o prazo até 1 de Agosto. Escreveu também uma carta a Von der Leyen, ameaçando com tarifas de 30% se não houvesse um acordo até 31 de Julho. Os EUA impuseram igualmente tarifas sectoriais, 25% para a indústria automóvel; e 50% para o aço e alumínio.

A inconsistência de Trump levou muitos a afirmarem que os acordos comerciais dependem dos caprichos pessoais do Presidente americano. É muito difícil prever as decisões de Trump, mas não é tão inconsistente como muitos sugerem. Há dois pontos consistentes em Trump. Em primeiro lugar, há muito tempo que se queixa dos défices comerciais dos EUA (desde o fim do século passado). Na verdade, os EUA têm um défice comercial em bens em relação à UE de cerca de 200 mil milhões de dólares anuais. Em Bruxelas, as contas incluem os serviços e não apenas os bens, e aí há quase um equilíbrio comercial transatlântico, com um superavit da UE de cerca de 50 mil milhões de dólares. Mas Trump é obcecado com bens físicos, e podemos concordar ou discordar, mas nisso Trump é consistente. Isso significa que o seu objectivo é acabar com o défice comercial em bens com a UE.

Em segundo lugar, Trump negoceia de um modo aparentemente caótico, com avanços, recuos e hesitações, mas não perde de vista o objectivo final. Vejamos o caso das relações comerciais com a UE. Com a ameaça de subir tarifas para 30%, colocou este número como uma ameaça a pairar sobre as capitais europeias. Se Trump agora adoptar tarifas de 20% ou mesmo de 15% (um acordo idêntico ao recentemente anunciado com o Japão), sobe as tarifas que existiam antes de chegar à Casa Branca, mas a UE aceitará porque “baixou” dos 30% (tarifa que nunca existiu). No caso dos carros, notamos a mesma táctica negocial. Quando Trump chegou à Casa Branca, a tarifa americana sobre os carros europeus era 2.5% (e a tarifa europeia sobre os carros americanos era de 10%; Trump não está completamente errado). Já aumentou para 25%. Se agora, baixar para 15% (como fez com o Japão), será uma “vitória” para a UE. Na verdade, aumentou a tarifa americana sobre os carros europeus de 2.5% para 15%.

Vamos supor que Trump oferece à UE um acordo semelhante ao do Japão: 15% de tarifas em geral, incluindo sobre os carros (não estou certo, por que o défice comercial dos EUA com a UE é superior ao défice com o Japão; por isso, não excluo uma tarifa geral de 20%). Desconfio que a UE aceitará, mesmo que a tarifa geral seja de 20%. A maioria dos países europeus prefere a certeza comercial com tarifas mais altas do que a incerteza de uma guerra comercial.

Mas além de aceitar um acordo comercial com um aumento de tarifas, a UE irá ainda oferecer concessões aos americanos. Vai comprar mais LNG, mais equipamento militar, e vai baixar as tarifas sobre os carros americanos e sobre produtos agrícolas (no sector agrícola, a UE tem igualmente um superavit comercial considerável em relação aos EUA; em 2024, os europeus importaram cerca de 13 mil milhões de produtos agrícolas dos EUA, e exportaram cerca de 36 mil milhões de dólares). No sector automóvel, desconfio que a UE também irá baixar as tarifas de 10%; para 0%?). 0% tarifas sobre a importação de carros dos EUA serve a Alemanha, já que a BMW e a Mercedes fabricam carros nos EUA que exportam para a UE. Aos franceses, os americanos provavelmente vão oferecer tarifas sobre o vinho e o champanhe inferiores a 15% ou 20%.

Mas há uma razão geopolítica que também impede a UE de retaliar contra os EUA. A UE não pode ter, simultaneamente, um conflito militar na sua fronteira leste, e uma guerra comercial na fronteira ocidental. Além disso, quando Trump começa a mudar a sua posição em relação à guerra na Ucrânia, os europeus não querem arriscar que uma retaliação comercial leve os EUA a suspenderem de novo o envio de armas para a Ucrânia. Também neste ponto Trump é bastante consistente: percebe muito bem e rapidamente as fraquezas dos seus interlocutores.

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COMENTÁRIOS (de 15)

Ricardo Ribeiro: É simples, Trump foi eleito para defender os interesses dos EUA segundo a visão e estratégia dele e que nunca escondeu. Os líderes europeus foram eleitos para defenderem os interesses europeus. É encontrarem pontos comuns de interesse que fiquem ambos satisfeitos. Agora quanto à defesa dos interesses europeus é que tenho muitas dúvidas na capacidade de liderança...        Carlos Chaves: Caro Ricardo Ribeiro, dúvidas sobre a liderança Europeia? Tudo cargos não eleitos e com um criminoso político de nome António Costa à frente de Conselho Europeu (na realidade é apenas um secretário mais bem pago do Mundo), o que é que devemos esperar? Um desastre anunciado para esta Europa sem rumo!              Daniel José > Bailaruco Madeira: simples, América first. Algo que os portugueses e europeus também deviam ter em mente.               M: foi eleito para defender os interesses dos EUA segundo a visão e estratégia dele e que nunca escondeu. Os líderes europeus foram eleitos para defenderem os interesses europeus. É encontrarem pontos comuns de interesse que fiquem ambos satisfeitos. Agora quanto à defesa dos interesses europeus é que tenho muitas dúvidas na capacidade de liderança...

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