Não muito inconsistentes, ao que parece, afinal. Tudo, convergindo
positivamente sobre o seu país. No espectáculo das suas aparições mediáticas, buscando
fama, e trazendo-me à lembrança os versos de Camilo, nem sei porquê, talvez por
referir amizades, embora de diferente carisma do destes, mais pessimistas. Mas Trump
que se cuide também, na escolha dos seus amigos, como, de resto, todos nós.
Camilo sabia, que também foi famoso, numa escala de menor calibre, naturalmente,
da dos Trumps deste mundo amplo:
Amigos cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.
Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.
Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.
- Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!
Haverá um acordo comercial entre os EUA
e a UE?
É muito difícil prever as decisões de Trump, mas ele não é tão
inconsistente como muitos sugerem, até porque apesar de avanços, recuos e
hesitações, não perde de vista o objectivo final.
JOÃO MARQUES DE ALMEIDA Colunista
do Observador
OBSERVADOR, 24
jul. 2025, 00:2215
No dia 2 de Abril, Trump
impôs tarifas comerciais de 20% à UE. Umas semanas depois, baixou para 10% e deu um prazo para negociações
bilaterais até 11 de Julho. Mais tarde, estendeu o prazo até 1 de Agosto.
Escreveu também uma carta a Von der Leyen, ameaçando com tarifas de 30% se não
houvesse um acordo até 31 de Julho. Os EUA impuseram igualmente tarifas
sectoriais, 25% para a indústria automóvel; e 50% para o aço e alumínio.
A inconsistência de Trump levou muitos a
afirmarem que os acordos comerciais dependem dos caprichos pessoais do
Presidente americano. É
muito difícil prever as decisões de Trump, mas não é tão inconsistente como
muitos sugerem. Há dois pontos consistentes em Trump. Em primeiro
lugar, há muito tempo que se queixa dos défices comerciais dos EUA (desde o fim
do século passado). Na verdade, os EUA
têm um défice comercial em bens em relação à UE de cerca de 200 mil milhões de
dólares anuais. Em Bruxelas, as contas incluem os serviços e não
apenas os bens, e aí há quase um equilíbrio comercial transatlântico, com um
superavit da UE de cerca de 50 mil milhões de dólares. Mas Trump
é obcecado com bens físicos, e podemos concordar ou discordar, mas nisso Trump
é consistente. Isso significa que o seu objectivo é acabar com o défice
comercial em bens com a UE.
Em segundo lugar, Trump negoceia de um modo
aparentemente caótico, com avanços, recuos e hesitações, mas não perde de vista
o objectivo final. Vejamos
o caso das relações comerciais com a UE. Com a ameaça de subir tarifas para 30%, colocou este número como uma
ameaça a pairar sobre as capitais europeias. Se Trump agora adoptar
tarifas de 20% ou mesmo de 15% (um acordo idêntico ao recentemente anunciado
com o Japão), sobe as tarifas que
existiam antes de chegar à Casa Branca, mas a UE aceitará porque “baixou” dos
30% (tarifa que nunca existiu). No caso dos carros, notamos a mesma
táctica negocial. Quando
Trump chegou à Casa Branca, a tarifa americana sobre os carros europeus era
2.5% (e a tarifa europeia sobre os carros americanos era de 10%; Trump não está
completamente errado). Já aumentou para 25%. Se agora, baixar para 15% (como
fez com o Japão), será uma “vitória” para a UE. Na verdade, aumentou a tarifa
americana sobre os carros europeus de 2.5% para 15%.
Vamos supor que Trump oferece à
UE um acordo semelhante ao do Japão: 15% de tarifas em geral, incluindo sobre
os carros (não estou certo, por que o défice comercial dos EUA com a UE é
superior ao défice com o Japão; por isso, não excluo uma tarifa geral de 20%). Desconfio que a UE aceitará, mesmo que a
tarifa geral seja de 20%. A maioria dos países europeus prefere a certeza
comercial com tarifas mais altas do que a incerteza de uma guerra comercial.
Mas além de aceitar um acordo
comercial com um aumento de tarifas, a UE irá ainda oferecer concessões aos americanos. Vai comprar mais
LNG, mais equipamento militar, e vai baixar as tarifas sobre os carros
americanos e sobre produtos agrícolas (no sector agrícola, a UE tem igualmente
um superavit comercial considerável em relação aos EUA; em 2024, os europeus
importaram cerca de 13 mil milhões de produtos agrícolas dos EUA, e exportaram
cerca de 36 mil milhões de dólares). No sector automóvel,
desconfio que a UE também irá baixar as tarifas de 10%; para 0%?). 0% tarifas
sobre a importação de carros dos EUA serve a Alemanha, já que a BMW e a
Mercedes fabricam carros nos EUA que exportam para a UE. Aos franceses, os americanos provavelmente vão oferecer tarifas
sobre o vinho e o champanhe inferiores a 15% ou 20%.
Mas há uma razão geopolítica que
também impede a UE de retaliar contra os EUA. A UE não pode ter, simultaneamente, um conflito
militar na sua fronteira leste, e uma guerra comercial na fronteira ocidental. Além disso, quando Trump começa a mudar a
sua posição em relação à guerra na Ucrânia, os europeus não querem arriscar que
uma retaliação comercial leve os EUA a suspenderem de novo o envio de armas
para a Ucrânia. Também neste ponto Trump é bastante consistente: percebe muito
bem e rapidamente as fraquezas
dos seus interlocutores.
COMÉRCIO ECONOMIA ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MUNDO UNIÃO
EUROPEIA EUROPA
COMENTÁRIOS (de 15)
Ricardo
Ribeiro: É simples, Trump foi eleito para defender
os interesses dos EUA segundo a visão e estratégia dele e que nunca escondeu.
Os líderes europeus foram eleitos para defenderem os interesses europeus. É
encontrarem pontos comuns de interesse que fiquem ambos satisfeitos. Agora
quanto à defesa dos interesses europeus é que tenho muitas dúvidas na
capacidade de liderança... Carlos Chaves: Caro Ricardo Ribeiro, dúvidas sobre a
liderança Europeia? Tudo cargos não eleitos e com um criminoso político de nome
António Costa à frente de Conselho Europeu (na realidade é apenas um secretário
mais bem pago do Mundo), o que é que devemos esperar? Um desastre anunciado
para esta Europa sem rumo! Daniel José > Bailaruco
Madeira:
simples, América first. Algo que os portugueses e europeus também deviam ter em
mente.
M: foi
eleito para defender os interesses dos EUA segundo a visão e estratégia dele e
que nunca escondeu. Os líderes europeus foram eleitos para defenderem os
interesses europeus. É encontrarem pontos comuns de interesse que fiquem ambos
satisfeitos. Agora quanto à defesa dos interesses europeus é que tenho muitas
dúvidas na capacidade de liderança...
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