Que vem dos primórdios. Julgo que o
defeito resulta da falta de valorização educacional da população, de longa data
a cultura restringida sobretudo à classe clerical, (de cunho, para mais, alatinado,
desligado do saber progressivamente evoluído que outros povos prezavam). Um clima
soalheiro será, também propício a um desleixo produtivo, mas afinal não se pode
generalizar tanto este nosso vício do far
niente, doce ou amargo que seja. Mas é sério, sim, o problema, e os
imigrantes são, muitas vezes, chamados a suprir as tais deficiências, como se
explica no texto de ANDRÉ ABRANTES AMARAL, que vários comentadores contestam,
talvez dos que cumprem nobremente, sem regatear as suas funções.
Sem imigrantes resta-nos a pobreza
Há séculos que Portugal é um país pobre. A culpa da pobreza não foi
das invasões francesas, do D. Carlos, do fim do império nem sequer dos
imigrantes. Somos pobres porque aceitamos ser pobres.
ANDRÉ ABRANTES AMARAL
Colunista do Observador
06 jul. 2025, 00:18104
Está na moda
culpar os imigrantes de tudo e mais alguma coisa. É fácil, é barato e dá
milhões. Na política, então, o sucesso é garantido. O governo não consegue que se construam casas em número suficiente nem
que se arrendam casas em número suficiente e, em consequência, o preço da
habitação tornou-se insuportável. Não há problema: os responsáveis não são
os governantes, mas os imigrantes, os mais remediados que compram ou arrendam
casas sem olhar ao preço.
O governo não consegue que haja médicos nos centros de
saúde e nos hospitais, sejam do interior, em Lisboa ou no Porto. Não há problema. A responsabilidade não é dos governantes que teimam em
gerir o SNS quando não sabem como gerir o SNS, mas sim dos imigrantes. Sejam estes ricos ou pobres. A solução é barata, porque basta dizer que
a razão para o mau funcionamento do SNS é deles para que as boas consciências
fiquem aliviadas com o peso que lhes tiram de cima dos ombros. Os salários são baixos porque os governos
teimam em ignorar que a falta de produtividade advém da falta de capital,
motivo pelo qual todos os anos sobe o salário mínimo ao mesmo tempo que fecha
os olhos ao valor do salário médio. Também aqui a culpa não é dos governantes,
mas dos imigrantes que ao trabalharem por qualquer preço, baixam os salários. A
resposta dá milhões de votos porque a maioria compra isto já que isto é simples
de interiorizar e nem sequer dá muito trabalho. Se a culpa é de um estranho e
não nossa, não há nada na nossa vida, na nossa forma de estar que tenhamos de
mudar para conseguirmos viver melhor.
No entanto,
há séculos que Portugal é pobre. Para não irmos
mais longe e nos ficarmos pela modernidade, o
século XIX é de uma pobreza absoluta, o século XX idem e o XXI vai pelo mesmo
caminho. A qualidade de vida melhorou e
muito, não tanto pela riqueza que produzimos, mas com as ajudas que recebemos
de Bruxelas. Sem fundos europeus e a vida que temos ia-se. Pobreza económica e financeira,
política, institucional, pobreza cultural, elites pobres, fracas e
condicionadas, em que cada um é amigo do outro; pobreza de recursos, falta de
capital crónica, falta crónica de investimento. Uma pobreza sem fim, mas a
culpa é de uns pobres diabos que vieram para cá trabalhar porque no país onde
nasceram a vida ainda consegue ser pior do que aqui.
Não quero com
isto dizer que o número de imigrantes que entrou em Portugal nos últimos anos
não seja demasiado elevado para as capacidades do país. Um número demasiado
elevado para criar problemas de integração na nossa comunidade. Não questiono
isso. Não questiono que os serviços não dêem resposta aos inúmeros pedidos
submetidos nas conservatórias e nas repartições de finanças. A verdade é que
somos mesmo um país pobre. Não questiono sequer que os
imigrantes devem aceitar a nossa cultura e reger-se pelas nossas regras
sociais. Pretendo apenas referir que os
imigrantes não são a razão para o maior dos nossos males: o sermos um país
pobre porque há anos que fugimos das políticas que permitem que se crie riqueza
como o diabo foge da cruz.
Mais: além de
pobre, Portugal precisa de imigrantes. E não, não é para pagar a Segurança
Social. Precisa de imigrantes para que boa parte dos serviços a que recorremos
todos os dias não colapse. Para que as empresas onde a maioria dos portugueses
trabalha não colapse. Precisamos de imigrantes também porque a diversidade
enriquece. O contacto com o exterior enriquece, seja esse contacto feito lá fora ou
mesmo cá dentro.
Não tivéssemos durante décadas demonizado o capital e penalizado quem
investe só porque não pediu autorização ao governo; não tivéssemos preferido
manter uma sociedade subserviente ao poder político e respeitosa do peso do
nome de certas famílias e hoje a pobreza seria história do passado. Se nos
tivéssemos libertado dos preconceitos (ideias ou conceitos formados antecipadamente e sem
fundamento sério ou imparcial) dos socialistas conservadores e dos socialistas
progressistas e hoje a imigração era um problema de integração e não uma
justificação para uma série de políticas falhadas.
Quando um país é pobre há séculos, talvez a razão para
a sua pobreza seja intrínseca. Pode derivar
da deficiente organização do seu Estado, do azar, de uma série de más decisões.
O mais provável é que esse país prefira ser
pobre a pagar o preço da exigência que implica ser rico. Trata-se de uma
escolha perfeitamente legítima e quem não a aceitar pode sempre ir embora.
Centenas de milhares de portugueses já o fizeram. Uma coisa é certa: se um país
é pobre há dois séculos, a responsabilidade não é de quem aqui chegou há dois
anos.
CRESCIMENTO
ECONÓMICO MACROECONOMIA ECONOMIA IMIGRANTES MUNDO POBREZA SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 145)
Hugo Vieira: Sr. André Abrantes Amaral,
quem é que disse que os imigrantes são o nosso mal maior? E quem é que disse
que são a causa da nossa pobreza? E se considera (e bem) que Portugal tem sido
mal governado, por que motivo considera as políticas de imigração implementadas
pelo PS como uma excepção de boa governação? Não, os imigrantes não são o
nosso mal maior, mas despoletaram desafios complicados de ultrapassar.
Diga-me lá, quantos imigrantes são polícias? E bombeiros? E funcionários das finanças,
segurança social e lojas do cidadão? E quantos são professores? E quantos
trabalham no SNS (alguns, admito)? Sim, precisamos de imigrantes, mas não é com
esta intensidade e descontrolo. E têm de ser escrutinados, tal como acontece em
muitos outros países europeus e não só. É complicado de perceber isto?!? Mas
porque é que tem de ser 8 ou 80? Porque é que não se pode implementar políticas
de imigração já existentes em países da Europa cuja boa governação e estilo de
vida tanto invejamos? Rui Lima: Se a abundância de mão-de-obra
fosse sinónimo de prosperidade, África seria o continente mais rico do planeta.
Mas não é. A história mostra que é na escassez que nasce a inovação a
verdadeira alavanca do progresso. O meu receio é que Portugal esteja a caminhar
para um futuro miserável, precisamente por não perceber esta lógica. A escassez
de mão-de-obra não é um problema, é uma oportunidade. Foi essa escassez que,
após a Peste Negra, elevou salários e condições de trabalho na Europa: com
menos trabalhadores disponíveis surgiram novas técnicas de produção. Em
pouco tempo, com metade da força de trabalho, produzia-se até mais. A
necessidade aguça o engenho. Países como a Coreia do Sul ou o Japão
compreenderam isso. Com fronteiras praticamente fechadas, apostaram na
automação, na qualificação e na produtividade. Hoje, a Coreia lidera o mundo no
número de robôs por trabalhador, os robôs raramente adoecem, não, não querem
pensão . Em contraste, a nossa estratégia
parece ser importar mão-de-obra pouco qualificada, esperando que resolva os
problemas do envelhecimento populacional e da segurança social. Mas a maioria dos imigrantes,
ao longo da sua vida activa, acaba por ser um encargo para o sistema. Só
a partir de dois salários médios líquidos é que contribuem positivamente para o
equilíbrio financeiro da Segurança Social. Portugal precisa de repensar o
seu modelo. Menos quantidade. Mais qualidade. O futuro não se constrói com mais
gente — constrói-se com melhores condições, mais produtividade e investimento
em tecnologia. Albino
Mendes: Pobres já
somos (o título que escolheu é ridículo, compreendo a tentativa de justificar o
injustificável). A imigração muito bem regulada é benéfica e necessária, não
este tipo de imigração que vários governos foram promovendo. A taxa de
desemprego (actualmente no 6,8%) tem de baixar substancialmente - andamos a
trabalhar para muito malandro não mexer uma palha. Os apoios sociais têm de ser
reduzidos a (muito próximo) de zero, o socialismo cria miséria. Ou seja,
andamos há décadas a distribuir o que não temos nem criamos. Até agora fomos
aumentando 2 monstros: dívida (publica e privada) e impostos. Este modelo é
falível, no curto prazo, e as consequências são conhecidas, ou já se esqueceram
da última intervenção dos nossos credores? Hugo Silva: A IL é isto? Por favor... Podíamos estar bem melhor,
mas: A falta de vergonha na cara dos socialistas, a soberba que demonstram,
depois de tudo o que fizeram ao país, era mais do que suficiente para serem
relegados para a insignificância. O número de votos e deputados que mantêm, são
sinónimo da iliteracia que reina por este país fora, do contributo dos
jornalistas que se vendem ao melhor preço, bem como dos órgãos de comunicação
social que sobreviveram à conta dos governos socialistas. O PS mantém uma força
imensa no submundo da política e dificilmente a perderá. André Ventura varreu a
esquerda e parte do PS, esperemos que este PSD acabe com o resto. observador censurado: Os conhecimentos básicos de Química
permitem-nos recordar o seguinte: 1. Quando pretendemos adicionar uma nova substância a
uma substância, é necessário estudar primeiro quais são as propriedades da substância que queremos adicionar (os
imigrantes não são todos iguais); 2. Dependendo da quantidade da nova
substância que adicionamos a uma substância, poderemos obter o resultado
pretendido ou um resultado catastrófico.
José Paulo Castro: "Sem imigrantes, resta-nos a pobreza." Ora,
e com eles, resta-nos dividi-la. Manuel
Martins: Não concordo com a maioria do que é dito pelo
cronista. Só melhorámos pelos milhões de Bruxelas? Os fundos da UE são
importantes em algumas áreas, mas na maior parte da economia, não existem. E
muitas vezes os fundos são desaproveitados, não têm qualquer retorno, ou até
são contraproducentes. Depois, é errado que os imigrantes só tragam benefícios.
A maioria dos imigrantes vem com objetivos de melhoria da sua condição de vida,
não quer minimamente saber da melhoria ou do futuro do país . Se aqui piorar,
passa para outro onde se pague melhor. Aliás, muitos só aqui estão até obterem
um documento de residência, depois mudam-se para um país onde pagam mais. Outros
não vieram trabalhar, estão a estudar, tratamento médico, com apoios sociais,
reformados, vivem noutro país, etc: dos cerca de 1,6 milhões, apenas 600 mil
estão registados como a trabalhar . Tire as suas conclusões. Concordo que a
imigração é importante para o país, e essencial para alguns sectores. No geral, a imigração é positiva, sobretudo
se for controlada de modo a adequar a entrada às necessidades do país, mas não
deixa de criar novos desafios que não devem ser ignorados a bem de um discurso
politicamente correcto... Francisco
Figueiredo: Antes de
mais, a imigração não é toda igual e a que vem dos países islâmicos é um
enormíssimo problema - e a razão não são as pessoas, mas sim as diferenças
religiosas e culturais intransponíveis (as normas religiosas!). Isto posto,
a imigração será saudável se corresponder às necessidades reais do país. Mas
também não me parece bem que andemos a subsidiar nacionais que podem trabalhar
e não querem, havendo, como há, tanta falta de mão-de-obra no interior do país
(agricultura, restauração, hotelaria, construção civil, etc) onde, para além do
mais, a habitação é bastante mais barata do que na faixa costeira. Há também um
outro problema de que ninguém fala: não é viável um país só de doutores, como
pretendem que o nosso seja!
Mario Figueiredo: Olhe,
dei-me ao trabalho, porque este assunto já me irrita. Algumas perguntas
(honestas) para André Abrantes Amaral: (1) O que significa "Portugal precisa de
imigrantes para ajudar a crescer a economia"? Isto é um problema
sectorial, existem estudos que indicam as deficiências de mão-de-obra por
sector? Existem estudos que indicam quais os valores de nova mão-de-obra que
seriam precisos atingir para resolver o problema naquele sector? Existem
estudos que explicam porque é que a actual população no território (nativa e
imigrante) não é suficiente para resolver estes problemas? (2) Porque é
que não se indicam nunca as qualificações que estão em perca no nosso país, mas
simplesmente se diz que são precisos mais imigrantes? Quer isto dizer que toda
a nossa economia está em falência de mão-de-obra? É possível sustentar esta
argumentação? (3) Como se pretende contrariar o argumento que a
imigração em Portugal é maioritariamente desqualificada, destinada a profissões sem
qualificações, e que se está a "resolver" os problemas criando uma
política de baixíssimos salários que tornam estes sectores da nossa economia
praticamente impossíveis de vir a adoptar pela população nativa? (4) Existem estudos que
mostram a real influência da imigração na Segurança Social nos próximos anos ou
décadas? Existe um modelo de análise? Num país com cidadãos nativos
qualificados, com empregos de alta ou média especialização, maioritariamente de
na área de Serviços, como se explica a narrativa que os imigrantes pouco qualificados,
que descontam valores mínimos para a Segurança Social, sejam eles quem vão
conseguir sustentar as pensões mais elevadas dos actuais trabalhadores? Não
significaria isto que seria preciso um número comparativamente muito mais
elevado de imigrantes pouco qualificados para cobrir essas pensões? Não é isto
tentar resolver um problema com a barriga, simplesmente atirando-lhe com mais
gente para cima de forma a cobrir o défice? (5) Porque não se discute a
natalidade portuguesa? Existem estudos que indicam as causas da baixa
natalidade? Existe um problema em Portugal de organização social e de custos
financeiros e sociais que tornam a natalidade menos atractiva? Fomos demasiado
longe nas regras e regulamentos da parentalidade e não estamos a ir longe o
suficiente no apoio à parentalidade? Como se contraria a narrativa que não se
está a tentar resolver o problema da natalidade em Portugal, mas simplesmente
empurrá-lo com a barriga atirando com mais gente para dentro do nosso país? Já
alguém conseguiu responder como é que em Portugal vamos responder à evidência
que se verificou noutros países, em que culturas que têm muitos filhos quando
migram para os nossos países passam a ter exactamente o mesmo número de filhos
logo na geração seguinte? Não significa isto que vamos ter de crescer
exponencialmente o número de imigrantes a cada geração? Estas perguntas não são minhas. São de todo o povo
português. Quando é que vocês metem isto na vossa cabeça? Ninguém explica nada. Apenas repetem frases feitas. E ao melhor estilo de
Goebbels tentam fazer-nos acreditar que é verdade. Às vezes dou por mim a
lembrar-me de pessoas como o Vasco Granja, o Sousa Veloso, também Fernando
Pessa. Lembram-se deles? A falta que nos fazem! O nosso país
perdeu esta gente e a vontade de formar novos educadores. Hoje só se falam
sobre as coisas de forma leviana e tratam-se os portugueses como estúpidos. A política hoje faz-se como
frases como "Portugal precisa de mais imigrantes" sem qualquer
explicação. E a banda dos jornalistas, comentadores, analistas, e o raio que o
parta, seguem atrás repetindo o mantra sem fazer qualquer esforço para que o
debate seja popular. Andamos a regredir na nossa compreensão do país, em vez de
progredir.
(CONTINUA)
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