segunda-feira, 7 de julho de 2025

Um problema sério

 

Que vem dos primórdios. Julgo que o defeito resulta da falta de valorização educacional da população, de longa data a cultura restringida sobretudo à classe clerical, (de cunho, para mais, alatinado, desligado do saber progressivamente evoluído que outros povos prezavam). Um clima soalheiro será, também propício a um desleixo produtivo, mas afinal não se pode generalizar tanto este nosso vício do far niente, doce ou amargo que seja. Mas é sério, sim, o problema, e os imigrantes são, muitas vezes, chamados a suprir as tais deficiências, como se explica no texto de ANDRÉ ABRANTES AMARAL, que vários comentadores contestam, talvez dos que cumprem nobremente, sem regatear as suas funções.

Sem imigrantes resta-nos a pobreza

Há séculos que Portugal é um país pobre. A culpa da pobreza não foi das invasões francesas, do D. Carlos, do fim do império nem sequer dos imigrantes. Somos pobres porque aceitamos ser pobres.

ANDRÉ ABRANTES AMARAL Colunista do Observador

06 jul. 2025, 00:18104

Está na moda culpar os imigrantes de tudo e mais alguma coisa. É fácil, é barato e dá milhões. Na política, então, o sucesso é garantido. O governo não consegue que se construam casas em número suficiente nem que se arrendam casas em número suficiente e, em consequência, o preço da habitação tornou-se insuportável. Não há problema: os responsáveis não são os governantes, mas os imigrantes, os mais remediados que compram ou arrendam casas sem olhar ao preço.

O governo não consegue que haja médicos nos centros de saúde e nos hospitais, sejam do interior, em Lisboa ou no Porto. Não há problema. A responsabilidade não é dos governantes que teimam em gerir o SNS quando não sabem como gerir o SNS, mas sim dos imigrantes. Sejam estes ricos ou pobres. A solução é barata, porque basta dizer que a razão para o mau funcionamento do SNS é deles para que as boas consciências fiquem aliviadas com o peso que lhes tiram de cima dos ombros. Os salários são baixos porque os governos teimam em ignorar que a falta de produtividade advém da falta de capital, motivo pelo qual todos os anos sobe o salário mínimo ao mesmo tempo que fecha os olhos ao valor do salário médio. Também aqui a culpa não é dos governantes, mas dos imigrantes que ao trabalharem por qualquer preço, baixam os salários. A resposta dá milhões de votos porque a maioria compra isto já que isto é simples de interiorizar e nem sequer dá muito trabalho. Se a culpa é de um estranho e não nossa, não há nada na nossa vida, na nossa forma de estar que tenhamos de mudar para conseguirmos viver melhor.

No entanto, há séculos que Portugal é pobre. Para não irmos mais longe e nos ficarmos pela modernidade, o século XIX é de uma pobreza absoluta, o século XX idem e o XXI vai pelo mesmo caminho. A qualidade de vida melhorou e muito, não tanto pela riqueza que produzimos, mas com as ajudas que recebemos de Bruxelas. Sem fundos europeus e a vida que temos ia-se. Pobreza económica e financeira, política, institucional, pobreza cultural, elites pobres, fracas e condicionadas, em que cada um é amigo do outro; pobreza de recursos, falta de capital crónica, falta crónica de investimento. Uma pobreza sem fim, mas a culpa é de uns pobres diabos que vieram para cá trabalhar porque no país onde nasceram a vida ainda consegue ser pior do que aqui.

Não quero com isto dizer que o número de imigrantes que entrou em Portugal nos últimos anos não seja demasiado elevado para as capacidades do país. Um número demasiado elevado para criar problemas de integração na nossa comunidade. Não questiono isso. Não questiono que os serviços não dêem resposta aos inúmeros pedidos submetidos nas conservatórias e nas repartições de finanças. A verdade é que somos mesmo um país pobre. Não questiono sequer que os imigrantes devem aceitar a nossa cultura e reger-se pelas nossas regras sociais. Pretendo apenas referir que os imigrantes não são a razão para o maior dos nossos males: o sermos um país pobre porque há anos que fugimos das políticas que permitem que se crie riqueza como o diabo foge da cruz.

Mais: além de pobre, Portugal precisa de imigrantes. E não, não é para pagar a Segurança Social. Precisa de imigrantes para que boa parte dos serviços a que recorremos todos os dias não colapse. Para que as empresas onde a maioria dos portugueses trabalha não colapse. Precisamos de imigrantes também porque a diversidade enriquece. O contacto com o exterior enriquece, seja esse contacto feito lá fora ou mesmo cá dentro.

Não tivéssemos durante décadas demonizado o capital e penalizado quem investe só porque não pediu autorização ao governo; não tivéssemos preferido manter uma sociedade subserviente ao poder político e respeitosa do peso do nome de certas famílias e hoje a pobreza seria história do passado. Se nos tivéssemos libertado dos preconceitos (ideias ou conceitos formados antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial) dos socialistas conservadores e dos socialistas progressistas e hoje a imigração era um problema de integração e não uma justificação para uma série de políticas falhadas.

Quando um país é pobre há séculos, talvez a razão para a sua pobreza seja intrínseca. Pode derivar da deficiente organização do seu Estado, do azar, de uma série de más decisões. O mais provável é que esse país prefira ser pobre a pagar o preço da exigência que implica ser rico. Trata-se de uma escolha perfeitamente legítima e quem não a aceitar pode sempre ir embora. Centenas de milhares de portugueses já o fizeram. Uma coisa é certa: se um país é pobre há dois séculos, a responsabilidade não é de quem aqui chegou há dois anos.

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COMENTÁRIOS (de 145)

Hugo Vieira: Sr. André Abrantes Amaral, quem é que disse que os imigrantes são o nosso mal maior? E quem é que disse que são a causa da nossa pobreza? E se considera (e bem) que Portugal tem sido mal governado, por que motivo considera as políticas de imigração implementadas pelo PS como uma excepção de boa governação? Não, os imigrantes não são o nosso mal maior, mas despoletaram desafios complicados de ultrapassar. Diga-me lá, quantos imigrantes são polícias? E bombeiros? E funcionários das finanças, segurança social e lojas do cidadão? E quantos são professores? E quantos trabalham no SNS (alguns, admito)? Sim, precisamos de imigrantes, mas não é com esta intensidade e descontrolo. E têm de ser escrutinados, tal como acontece em muitos outros países europeus e não só. É complicado de perceber isto?!? Mas porque é que tem de ser 8 ou 80? Porque é que não se pode implementar políticas de imigração já existentes em países da Europa cuja boa governação e estilo de vida tanto invejamos?                   Rui Lima: Se a abundância de mão-de-obra fosse sinónimo de prosperidade, África seria o continente mais rico do planeta. Mas não é. A história mostra que é na escassez que nasce a inovação a verdadeira alavanca do progresso. O meu receio é que Portugal esteja a caminhar para um futuro miserável, precisamente por não perceber esta lógica. A escassez de mão-de-obra não é um problema, é uma oportunidade. Foi essa escassez que, após a Peste Negra, elevou salários e condições de trabalho na Europa: com menos trabalhadores disponíveis surgiram novas técnicas de produção. Em pouco tempo, com metade da força de trabalho, produzia-se até mais. A necessidade aguça o engenho. Países como a Coreia do Sul ou o Japão compreenderam isso. Com fronteiras praticamente fechadas, apostaram na automação, na qualificação e na produtividade. Hoje, a Coreia lidera o mundo no número de robôs por trabalhador, os robôs raramente adoecem, não, não querem pensão . Em contraste, a nossa estratégia parece ser importar mão-de-obra pouco qualificada, esperando que resolva os problemas do envelhecimento populacional e da segurança social. Mas a maioria dos imigrantes, ao longo da sua vida activa, acaba por ser um encargo para o sistema. Só a partir de dois salários médios líquidos é que contribuem positivamente para o equilíbrio financeiro da Segurança Social. Portugal precisa de repensar o seu modelo. Menos quantidade. Mais qualidade. O futuro não se constrói com mais gente — constrói-se com melhores condições, mais produtividade e investimento em tecnologia.           Albino Mendes: Pobres já somos (o título que escolheu é ridículo, compreendo a tentativa de justificar o injustificável). A imigração muito bem regulada é benéfica e necessária, não este tipo de imigração que vários governos foram promovendo. A taxa de desemprego (actualmente no 6,8%) tem de baixar substancialmente - andamos a trabalhar para muito malandro não mexer uma palha. Os apoios sociais têm de ser reduzidos a (muito próximo) de zero, o socialismo cria miséria. Ou seja, andamos há décadas a distribuir o que não temos nem criamos. Até agora fomos aumentando 2 monstros: dívida (publica e privada) e impostos. Este modelo é falível, no curto prazo, e as consequências são conhecidas, ou já se esqueceram da última intervenção dos nossos credores?        Hugo Silva: A IL é isto? Por favor... Podíamos estar bem melhor, mas: A falta de vergonha na cara dos socialistas, a soberba que demonstram, depois de tudo o que fizeram ao país, era mais do que suficiente para serem relegados para a insignificância. O número de votos e deputados que mantêm, são sinónimo da iliteracia que reina por este país fora, do contributo dos jornalistas que se vendem ao melhor preço, bem como dos órgãos de comunicação social que sobreviveram à conta dos governos socialistas. O PS mantém uma força imensa no submundo da política e dificilmente a perderá. André Ventura varreu a esquerda e parte do PS, esperemos que este PSD acabe com o resto.        observador censurado: Os conhecimentos básicos de Química permitem-nos recordar o seguinte: 1. Quando pretendemos adicionar uma nova substância a uma substância, é necessário estudar primeiro quais são as propriedades da substância que queremos adicionar (os imigrantes não são todos iguais); 2. Dependendo da quantidade da nova substância que adicionamos a uma substância, poderemos obter o resultado pretendido ou um resultado catastrófico.          José Paulo Castro: "Sem imigrantes, resta-nos a pobreza." Ora, e com eles, resta-nos dividi-la.        Manuel Martins: Não concordo com a maioria do que é dito pelo cronista. Só melhorámos pelos milhões de Bruxelas? Os fundos da UE são importantes em algumas áreas, mas na maior parte da economia, não existem. E muitas vezes os fundos são desaproveitados, não têm qualquer retorno, ou até são contraproducentes. Depois, é errado que os imigrantes só tragam benefícios. A maioria dos imigrantes vem com objetivos de melhoria da sua condição de vida, não quer minimamente saber da melhoria ou do futuro do país . Se aqui piorar, passa para outro onde se pague melhor. Aliás, muitos só aqui estão até obterem um documento de residência, depois mudam-se para um país onde pagam mais. Outros não vieram trabalhar, estão a estudar, tratamento médico, com apoios sociais, reformados, vivem noutro país, etc: dos cerca de 1,6 milhões, apenas 600 mil estão registados como a trabalhar . Tire as suas conclusões. Concordo que a imigração é importante para o país, e essencial para alguns sectores.  No geral, a imigração é positiva, sobretudo se for controlada de modo a adequar a entrada às necessidades do país, mas não deixa de criar novos desafios que não devem ser ignorados a bem de um discurso politicamente correcto...                Francisco Figueiredo: Antes de mais, a imigração não é toda igual e a que vem dos países islâmicos é um enormíssimo problema - e a razão não são as pessoas, mas sim as diferenças religiosas e culturais intransponíveis (as normas religiosas!). Isto posto, a imigração será saudável se corresponder às necessidades reais do país. Mas também não me parece bem que andemos a subsidiar nacionais que podem trabalhar e não querem, havendo, como há, tanta falta de mão-de-obra no interior do país (agricultura, restauração, hotelaria, construção civil, etc) onde, para além do mais, a habitação é bastante mais barata do que na faixa costeira. Há também um outro problema de que ninguém fala: não é viável um país só de doutores, como pretendem que o nosso seja!                Mario Figueiredo: Olhe, dei-me ao trabalho, porque este assunto já me irrita. Algumas perguntas (honestas) para André Abrantes Amaral: (1) O que significa "Portugal precisa de imigrantes para ajudar a crescer a economia"? Isto é um problema sectorial, existem estudos que indicam as deficiências de mão-de-obra por sector? Existem estudos que indicam quais os valores de nova mão-de-obra que seriam precisos atingir para resolver o problema naquele sector? Existem estudos que explicam porque é que a actual população no território (nativa e imigrante) não é suficiente para resolver estes problemas? (2) Porque é que não se indicam nunca as qualificações que estão em perca no nosso país, mas simplesmente se diz que são precisos mais imigrantes? Quer isto dizer que toda a nossa economia está em falência de mão-de-obra? É possível sustentar esta argumentação? (3) Como se pretende contrariar o argumento que a imigração em Portugal é maioritariamente desqualificada, destinada a profissões sem qualificações, e que se está a "resolver" os problemas criando uma política de baixíssimos salários que tornam estes sectores da nossa economia praticamente impossíveis de vir a adoptar pela população nativa? (4) Existem estudos que mostram a real influência da imigração na Segurança Social nos próximos anos ou décadas? Existe um modelo de análise? Num país com cidadãos nativos qualificados, com empregos de alta ou média especialização, maioritariamente de na área de Serviços, como se explica a narrativa que os imigrantes pouco qualificados, que descontam valores mínimos para a Segurança Social, sejam eles quem vão conseguir sustentar as pensões mais elevadas dos actuais trabalhadores? Não significaria isto que seria preciso um número comparativamente muito mais elevado de imigrantes pouco qualificados para cobrir essas pensões? Não é isto tentar resolver um problema com a barriga, simplesmente atirando-lhe com mais gente para cima de forma a cobrir o défice? (5) Porque não se discute a natalidade portuguesa? Existem estudos que indicam as causas da baixa natalidade? Existe um problema em Portugal de organização social e de custos financeiros e sociais que tornam a natalidade menos atractiva? Fomos demasiado longe nas regras e regulamentos da parentalidade e não estamos a ir longe o suficiente no apoio à parentalidade? Como se contraria a narrativa que não se está a tentar resolver o problema da natalidade em Portugal, mas simplesmente empurrá-lo com a barriga atirando com mais gente para dentro do nosso país? Já alguém conseguiu responder como é que em Portugal vamos responder à evidência que se verificou noutros países, em que culturas que têm muitos filhos quando migram para os nossos países passam a ter exactamente o mesmo número de filhos logo na geração seguinte? Não significa isto que vamos ter de crescer exponencialmente o número de imigrantes a cada geração? Estas perguntas não são minhas. São de todo o povo português. Quando é que vocês metem isto na vossa cabeça? Ninguém explica nada. Apenas repetem frases feitas. E ao melhor estilo de Goebbels tentam fazer-nos acreditar que é verdade. Às vezes dou por mim a lembrar-me de pessoas como o Vasco Granja, o Sousa Veloso, também Fernando Pessa. Lembram-se deles? A falta que nos fazem! O nosso país perdeu esta gente e a vontade de formar novos educadores. Hoje só se falam sobre as coisas de forma leviana e tratam-se os portugueses como estúpidos. A política hoje faz-se como frases como "Portugal precisa de mais imigrantes" sem qualquer explicação. E a banda dos jornalistas, comentadores, analistas, e o raio que o parta, seguem atrás repetindo o mantra sem fazer qualquer esforço para que o debate seja popular. Andamos a regredir na nossa compreensão do país, em vez de progredir.          

(CONTINUA)

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